05 julho 2011

Vá de retro ó genderização



Há tempos, de espada ardente e justiceira, tal como enviados do velho deus de Israel, iam-me lapidando por ousar afrontar a inocência da pobre criada de quarto atacada, humilhada e brutalizada por um predador incapaz de refrear os apetites genésicos. Confesso que ao tomar conhecimento de tal nefando e imprescritível atentado (brinco), levantei duas objecções, uma de forma - o estilo americano, que não é de confiança pelo menos desde os processos de Salem, em 1692 - e outra de conteúdo. Esta, a mais importante sem dúvida, pois permite-nos diagnóstico claro da estupidez trepadora das novas modas da periférica cultura dita "norte-americana", assim como da sobrevivência de velhas crenças que, de tão odiosas, foram banidas na Europa e enviados os seus bacilos pestilentos através dos Pilgrims.


Consabido é que aquela sociedade, dominada pelo ressentimento sexual e pelo terror das letras escarlates, é uma das mais atrasadas e insignificantes e continua a ser, sem tirar, uma aldeia que cresceu sobre o mundo e se converteu na referência do chamado Ocidente. O moralismo jeovático, um sistema judiciário arcaico que confia a cidadãos rifados ao acaso a parte de leão nos processos, a existência de procuradores incapazes de se libertarem da agenda política e de juízes aterrorizados pela ideia de contrariarem as modas dominantes gera processos como o de Strauss Kahn. Depois das algemas, das fotos, do retirar da gravata, cinto e atacadores, da barba por fazer durante cinco dias, só nos resta perguntar que diferença haverá entre o sistema judicial americano e o iraniano. Ou não são os EUA, logo a seguir à China, o país onde legalmente mais se mata ? Neste particular, os EUA são um pouco o Irão da democracia: guerras santas, fatwas, etc, etc. Bem, não é isso que importa. O atavismo vistas-curtas, o mais chão sectarismo baptista casou-se recentemente com o politicamenye correcto.


Um dos pilares do politicamente correcto é o "género". Transformou-se em ciência e dá pano para mangas; mais, dá para guarda-fatos a perder de vista. Se um trabalho universitário não abordar o "gender", a "visão feminina", os gendered landscapes, as psicoanálises do texto feminino e mais disparates, corre o risco de ser banido. Dizia-me um amigo que os gender studies são a forma agradável de levar para a universidade "le bordel" (francês) e levar a universidade para "le bordel". Tem papisas, "pensadoras", "autoridades", "profetizas" e pregadoras, habitualmente uns sacos de carne com óculos de massa, cabelo curto cortado a máquina Zero com franjinha à frente, tudo metido numas gangas a rebentar pelos costuras. É a admirável américa, que para além dos Donuts com 700 calorias, conseguiu a proeza de transformar em ciência oficial o natural interesse pela fornicação !


Afinal, a vestal ultrajada, violada e agredida pelo predador era, nem mais, uma prostituta, uma traficante de drogas, uma lavadora de dinheiros suspeitos. Ao politicamente correcto de mãe solteira, africana, muçulmana, seropositiva e mulher (caramba, que comboio de causas justas) juntou-se aquilo que era a figura real. O boneco da vítima - a generalização motivadora de uma "causa" - desabou sobre a figura real e agora não sabem o que fazer. Não faz mal, enterrem a mãe solteira, africana, muçulmana e seropositiva e vão à procura de outra "causa" que permita explosões e bandeiras da genderização. A visão fotonovela da vida continua a imperar, por vezes com luxuosas encadernações em pele de carneira carmesim com ferros a ouro e lombadas com nervuras. Ora, vão-se despir !

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Mas a Mme. Strauss-Kahn está sempre ao lado do marido, aconteça o que acontecer. Os fast-food sexuais do dito senhor são sobejamente conhecidos e "pelo que se diz", bastante temidos, seja o alvo uma jornalista, uma senhora num cocktail qualquer ou ainda, a açafata do quarto. Para mais, o fulano é quase patibular!
A verdade é que o homem coloca-se a jeito e oportunistas não devem faltar para o aproveitamento que faz pingar na conta bancária. É claro que não sendo um qualquer e que ainda por cima o nome mostra çlara pertença a uma conhecida e sacrossanta comunidade que Nova Iorque resguarda como bendito tesouro, também poderá pairar a suspeita de um impulso branqueador do caso. Imagina se em vez de Kahn ele se chamasse Kurzbach ou Esser....? Mesmo milionário - e o escandalosamente exibicionista sr. Strauss-Kahn não tem sido um bom relações públicas em causa própria -, por mais apartamentos, carrões, mansões e caviares que exibisse, há muito estaria misturado com o bando de tatuados de penitenciária. O mundo é mesmo assim e talvez não fosse má ideia aguardarmos.

Paul disse...

Tout ça c’est du non-évènement… Les USA c’est décidément rien du tout… Vraiment rien à l’échelle de l’Histoire. Seules les civilisations imprègnent l’Histoire… Reste Nafissatou… Cette Nafissatou qui éclabousse tous nos bien-pensants. Un jour, il faudra bien penser à lui témoigner gratitude. Tout au moins en France. Quoique musulmane et grande pécheresse, ne mérite-t-elle pas cependant une canonisation ? Par son abnégation sous la souillure n’a-t-elle pas sauvé la France ? D’un prédateur aux alliances bien plus dangereuses que le mal-aimé héréditaire anglais… Un jour viendra, où peut-être Sainte Nafissatou sera célébrée un jour de mai, en même temps que Sainte Jeanne d’Arc…

Isabel Metello disse...

Miguel, tb não gosto da "genderização" de negro vestida e, paradoxal e geralmente, masculinizada :) mas a seguinte senhora não é africana, nem Mãe solteira e nem seropositiva e prostituta e avança com as mesmas queixas, alegando que terá sido bem prejudicada na sua vida profissional por não se ter prostrado perante os apetites de Sua Excelência Magnânima (para além dos danos psicológicos inerentes :) http://www.cmjornal.xl.pt/detalhe/noticias/internacional/mundo/escritora-acusa-dsk-de-violacao...

(gosto muito do Correio da Manhã e do Sol, pois foram dois media que actualizaram uma resistência contínua ao socretinismo quando doía :)

...ok, mas poder-se-á argumentar: por que, então, se calou durante tantos anos? Creio que a resposta veio da outra senhora, creio que polaca, que trabalhou com ele, que diz ter sido assediada e que afirmou ter acedido, de facto, para não prejudicar a sua carreira, corroborando, assim, a mesma tese (interessante, pois é a mais poderosa, foi a única que afirma ter acedido aos apetites do boss e ninguém lhe aponta um dedo...:)

...eu, que adoro séries policiais, creio que há aqui várias incongruências explícitas (com base no que leio nos media, claro :) (a) uma detida que quisesse passar, maquiavelicamente, por mártir iria continuar a prevaricar, mantendo os alegados contactos com os supostos clientes num hotel, enquanto estava sob custódia das autoridades como tem sido alegado???? Por favor!!! (b) DSK recusar-se-ia a pagar a uma prostituta para que não se visse envolvido num escândalo, chegando ao ponto de fugir para o aeroporto e deixando o telemóvel para trás?hum... Já toda a gente sabe que dinheiro não lhe falta e que, se assim fosse, bastava pagar-lhe uma soma similar à que pagou por noite lá no hotel e a senhora calava-se, já que a defesa de DSK a dá como tão miserável ; (c) mesmo que a senhora fosse uma prostituta- não poderia ser violada e queixar-se de o ser?; (d) se ela é seropositiva por que é que DSK está tão feliz da vida e não tem medo de ter sido infectado???...e se se protegeu, por que então fugiu? nein...há, por aqui muitas incongruências...
...e depois há a circunstância de ser muçulmana- hum...uma muçulmana desonrar-se desta forma?
...ah e o conteúdo do telefonema ao traficante, onde os media dizem que se ouve mais ou menos isto :) "Eu sei o que estou a fazer. Ele é rico"...assim, retirado do contexto até pode parecer revelar uma armadilha, mas tb pode ser interpretada como: Eu sei que me tenho de proteger, pois ele é rico e pode mandar-me volatilizar...pelo menos, assim, terei a protecção das autoridades...

...bem, só Deus Saberá o que por lá se passou, mas que a plutocracia está, mais uma vez, a vencer está...