14 julho 2011

Política cultural do governo ? Leiam Lenine, senhores ministros !



Correm, desencontrados, rumores sobre a orientação que o governo quer imprimir às entidades responsáveis pela acção cultural. Se me pedissem modesto contributo, limitar-me-ia a aconselhar:


1. Não nomeiem para quadros dirigentes superiores (directores-gerais, presidentes de institutos) pessoas ligadas ao PS, não por nesse partido não haver gente válida, mas por razões ideológicas; sim, ideológicas. A visão PS da cultura não é neutra. É comprometida e só encontra paralelo no Estado Novo, com a agravante do Estado Novo ter um conceito de Portugal bem mais elevado que o PS, de pretender uma Paideia de exaltação patriótica, enquanto que a geração PS-Maio de 68 se ter especializado em apoucar, maldizer, ridicularizar, menosprezar e caricaturar Portugal. Depois de trinta anos de políticas de exaltação do neo-realismo, do resistencialismo, movimentos de libertação, inquisição, cristãos-novos, Saramago e ultimamente república, regicídio, bombismo e revolverismo - dois anos de celebrações para um acontecimento que foi funesto, violento e o contrário de tudo o que os valores contemporâneos apregoam - chega, definitivamente chega de política/propaganda política a coberto da actividade cultural desenvolvida pelo Estado. Se o PSD ou o CDS têm vergonha dos quadros que têm, se se sentem inferiorizados por não terem "intelectuais" e "homens/mulheres de cultura", isso é de uma gravidade tal que nem ouso fazer comentários. Se pretendem conquistar o PS, dando uns pralinés a gente PS da área da cultura, deviam ler Lenine. Sei que a direita prefere falar de números e negócios e considera a cultura coisa para senhoras. Um pouco de Eça e Camões fica bem para o café, mas a direita nunca compreendeu que quem constrói as imagens, os mitos de mobilização política e as referências - as melhores como as piores - é a cultura. Quem diz cultura diz propaganda. A cultura do estado é sempre propaganda. A propaganda é boa se for benéfica para a consolidação do patriotismo; a propaganda é má se servir para dividir e lembrar as divisões.


2. Acabem com o Camões tal como está e façam um novo instituto de alta cultura vocacionado para estimular na comunidade científica internacional a investigação académica de temas relacionados com a cultura e história portuguesas, aprofundar parcerias científicas e tecnológicas com outros países, conceber e aplicar campanhas de prestígio da imagem do país (exposições, publicações, traduções). O Camões não devia ser uma escolinha de língua portuguesa. A difusão da língua portuguesa devia caber a uma estrutura mista luso-brasileira. Ou o Brasil se interessa pela língua, ou Portugal deve abandonar a peregrina ideia de fazer missionação pelo mundo fora. O Instituto Camões nasceu de uma premissa errada e tudo o que se fizer para manter uma ideia errada - quaisquer que sejam as soluções paliativas - só agrava o problema de raíz e adia soluções de futuro. Depois, para que serve ter centros Camões em Luanda, Maputo, Bengela, Bissau, Nampula, Quelimane, Beira, Huambo ? Os PALOP falam ou não português ? E para que serve um leitorado em Bucareste, outro em Budapeste, em Taline, em Tartu, Cluj-Napoca (sim, Cluj-Napoca) ?

No fundo, sei que o Camões se transformou em anomalia, nessa lógica portuguesa de dar ocupação a pessoas em nome de "valores" fabricados para justificar o injustificável; ou seja, colocar por esse mundo fora dezenas de professores de português para animar turmas de cinco ou seis alunos em busca um certificado que os habilite a relevantes funções de guia turístico e empregado de hotel. Só me apetece dizer: vão-se despir !


Paulo Portas e Francisco José Viegas, os homens que têm nas mãos a condução de instituições responsáveis pela aplicação da política cultural portuguesa - a interna como a externa - sabem ao que me refiro. Abram os olhos, não cedam a tentações de florentinismos e habilidades. Nomeiem gente VOSSA. Governar é um acto cultural. Não se deixem enganar.

1 comentário:

João Amorim disse...

Sim! Que pena as missívas não chegarem ao Porto a que se propoêm.