08 julho 2011

O Rei e o fotógrafo



Os retratos fotográficos que a nós chegaram de Mongkut (1804-1868), quarto Rei da dinastia Chakri, destoam da personagem caprichosa e mundana que o cinema popularizou no The King and I, o musical de Rodgers & Hammerstein, de 1955, baseado nas dúbias memórias de Anna Leonowens. Mongkut não era, decididamente, Yul Brynner, como não era igualmente nem Rex Harrison, nem Yun-Fat Chow. As fotos de Francis Jitr tiradas na década de 1860 apresentam um homem seco de carnes, de pose hierática, rosto precocemente envelhecido com as comissuras descaídas e olhar baço e desconfiado procurando vencer o desconforto do assédio da objectiva da câmara. O verdadeiro Mongkut passara vinte e sete longos e esforçados anos entregue aos rigores da vida monástica e só chegou ao trono abeirando-se dos cinquenta anos de vida. No templo fez a escola que o palácio não podia facultar. No palácio, o Rei vivia em exclusão. No templo, Mongkut tinha por companheiros camponeses, artesãos, nobres e comerciantes, homens que haviam morrido para o mundo e renascido para uma vida de oração e estudo numa comunidade de iguais. Com eles andava pelas ruas de Bangkok mendigando a comida matinal, viajando pelo interior, ensinando, meditando, discutindo e lendo de templo em templo.

Francisco Artista, foto dos últimos anos de vida

Quando ascendeu ao trono, Mongkut chamou para junto de si um jovem luso-descendente a quem davam a alcunha de Jitr (Jitr= arte), que vivia no bandel de Santa Cruz de Thonburi. O rapaz, filho de um militar católico, parecia dotado para essa misteriosa técnica de captação de imagens que um padre francês trouxera para terras do Sião. Fez-se fotógrafo da corte, montou estúdio numa casa flutuante e passou a receber meio-Sião. Francis Jitr, assim se passou a chamar - dando um toque cosmopolita ao portuguesíssimo nome de baptismo - fez fortuna e nome. Fotografou o Rei e a corte, os hierarcas budistas, os capitalistas chineses, os aventureiros europeus e até o primeiro eclipse solar total de 1868. Morreu em 1891 e passou testemunho ao seu filho mais velho, o primeiro siamês a cursar artes técnicas na Europa, bem como à sua filha Soi, a primeira fotógrafa do Sião. A fascinante história dos portugueses na Tailândia está a vir à luz do dia .

Hora a hora, o conhecimento da história dos portugueses no Sião melhora !

3 comentários:

J. Ryder disse...

Haa o registo de nascimento ou baptismo em santa cruz que o identifique (apelido portugues dele ou de ascendentes) ?

jtp

Combustões disse...

Senhor Embaixador
Infelizmente, não há vestígio do tombo da paróquia de Santa Cruz. Pelo que nos foi possível apurar, a família de Francis Chit estava há muito no Sião e terá chegado a Thonburi após a queda de Ayutthaya. O interesse por Francis tem sido alimentado por consecutivos estudos sobre as primícias da arte fotográfica no Sudeste Asiático. Enviar-lhe-ei por mail referências bibliográficas e a documentos de arquivo existentes na biblioteca nacional da Tailândia. Em França tentarei encontrar alguma certidão nos arquivos da missão francesa no Sião. Dava um belo livro.

J. Ryder disse...

Uma fotobiografia...