24 junho 2011

Bem-vindos ao cortiço



Os antropólogos andam inebriados com a descoberta nos confins da selva amazónica de uma comunidade índia da qual havia apenas vagas referências. Não compreendo a excitação nem a alegria. A selva amazónica tem sido tão maltratada pelos entusiastas do "crescimento económico", do "business", do "desenvolvimento" e do "progresso" que dentro de décadas, quando a última árvore for sacrificada nos altares do capitalismo desmiolado, aquele imenso país do tamanho de um continente estará cheio, do Atlântico aos contrafortes dos Andes, de gente ranhosa, maltrapilha, violenta e ébria habitando favelas de zinco a perder de vista. É o progresso. Estes desgraçados índios que até hoje falavam com os deuses e tinham por interlocutores as estrelas, os planetas, os rios os bosques, devem andar excitadíssimos com a expectativa de passarem a usar calças e camisa, de ascenderem a cidadãos da república brasileira e prestar culto à religião democrática. Podem ter a certeza que, passada a vaga dos antropólogos - que os estudarão como a uma comunidade de orangotangos - virão os pastores evangélicos, os homens do recenseamento, os cobradores de impostos, os recrutadores, as caravanas dos demagogos políticos e até os turistas sexuais. O mundo moderno é uma má-rá-vi-lha.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Exacto!

Carlos Portugal disse...

Partilho das mesmas preocupações do estimado autor, exceto a visão essencialista e generalizadora sobre os antropólogos. Parece-me um preconceito desnecessário e nada condicente com a inteligência do autor e com os excelentes posts com que habituou os leitores.
Nem todos os antropólogos são iguais, evidentemente. Se alguma coisa une a maioria é o respeito pelo "outro" e, por isso, quero acreditar que irão respeitar (e salvaguardar) o mais possível a cultura desta comunidade.
Claro que também há antropólogos menos escrupulosos, mas, ao contrário do que sucede na esmagadora maioria das outras áreas do saber, não é possível ser antropólogo e, simultaneamente, ser nazi.
Uma das questões que perturba o trabalho do antropólogo é a mesma que preocupa o arqueólogo (aliás, nos EUA, não existe distinção entre estas duas ciências): é que ao estudar uma sociedade, tal como ao escavar uma estação arqueológica, o investigador está, ao mesmo tempo, a destruir as folhas do livro que está a ler.
Já imaginou o drama metodológico, a preocupação ética, os problemas de consciência que isto traz?
Vamos esperar que aqueles homens e mulheres, que vivem COM a floresta, sejam respeitados na sua Humanidade, pois - como quase sempre os antropólogos nos ensinam - eles têm muito mais para nos ensinar do que nós temos para lhes dar.

Niagara disse...

O mundo actual é maravilhoso, mas não é por aí além de moderno. É até um pouco antiquado em certos conceitos. Falta a muita gente ler o Papalagui.