18 abril 2011

Terrível justiceiro: um dos maiores portugueses vivos falou por nós, os que não têm voz




Tenho dito e repetido a um dos meus maiores amigos: "emigre já, saia, aqui ninguém respeita ninguém, os espíritos superiores estão condenados a morrer emparedados". Sei do que falo. "Não vale ultrapassar", é o lema. Os medíocres, os patetas arrogantes, os despenteados mentais, todos ligados em redes de corrupção, invejosos e impiedosos, não deixam o ar entrar, matam tudo que tenha duas pernas e mais de 50 cm de altura.

Cansado de ler sobre as politéias do Sudeste-Asiático, os Reis-Deuses de Angkor e Ayutthaya, levantei-me da mesa e liguei a televisão. Surgiu-me na pantalha Rentes de Carvalho, talvez um dos maiores portugueses vivos, que trocou a Holanda por Portugal para poder continuar a ser português. O homem falou com a habitual modéstia e simpatia e foi atroador: dissecou o cadáver deste país, afirmou que vivemos do chupismo, que aceitamos que nos cuspam em cima conquanto caiam umas moedas, que Portugal devia reaprender a ser pobre - a boa pobreza, que a há, medieval e espiritualizada, sem jipões e gente semi-analfabeta metida em fatecos - e afirmou que a revolução fora um desastre, o politicamente correcto uma infâmia e as inquisições só mudaram de nome. Em vinte minutos - que não foram censurados, pois não podiam censurar - empurrou-me para a decisão inabalável de, uma vez mais, sair. Vale a pena por cá ficar? Sinceramente, não.

O que nos pode amarrar a uma sociedade onde nem as mais elementares regras da cortesia são respeitadas, onde uma carta oficial não é respondida, um gesto amável interpretado como um incómodo para quem o recebe ?

9 comentários:

NanBanJin disse...

Vale a pena ficar por aí? Pois, sinceramente, assim como está e é, não. Nem pouco mais ou menos.

A este seu dedicado leitor, quantas vezes lhe dá também uma súbita e violenta crise de Saudade pura e dura — dessa de poder aí estar junto dos seus, de poder continuar a ser, também, e aí, entre os seus, português — e voltar...
Voltar? Voltar para onde e para o quê?...

Assim, de termos um país defunto, antes recordá-lo como um ente querido que partiu, e celebrar tão-só, pela memória, o que de melhor ele outrora nos deu.
Nada mais nos resta.

Abraço Amigo, do Japão,

Luís Afonso

Nuno Castelo-Branco disse...

Não vi. Uma pena não se encontrar no youtube.

Nuno Carvalho disse...

Sublime!

O programa pode ser visto no portal da RTP.

fcmoncada disse...

Portugal há-de renascer. Isto é mais uma descida aos infernos, suponho que nunca antes tão longa, nem tão fundo. Todo o 'Ocidente' se contorce, aliás, há já largas décadas, pelo menos, numa, mais que aguda, dantesca, crise de identidade.
Haja fé, ainda; não sei como, nem quando (anos, décadas, séculos?), mas espero que haja ainda suficientes energias morais para que seja possível uma renovação civilizacional in extremis, mas decisiva. Talvez que, para isso, a Europa precise de ajuda vinda de outros continentes. Quem sabe?
Francisco Cabral de Moncada

Isabel Metello disse...

100% de acordo- uma sociedade fechada, que mantém e nutre vícios estruturais que valorizam dinâmicas maléficas e cobardes só pode dar nisto...ainda, ontem, estava a falar com Amigos que costumam gozar com o facto de eu referir que a matriz cultural verdadeiramente cosmopolita do Moçambique colonial tem, inevitavelmente, de chocar com uma mentalidade dominante queirosiana...é este o cancro que destrói esta nação...enfim...

Isabel Metello disse...

100% de acordo- uma sociedade fechada, que mantém e nutre vícios estruturais que valorizam dinâmicas maléficas e cobardes só pode dar nisto...ainda, ontem, estava a falar com Amigos que costumam gozar com o facto de eu referir que a matriz cultural verdadeiramente cosmopolita do Moçambique colonial tem, inevitavelmente, de chocar com uma mentalidade dominante queirosiana...é este o cancro que destrói esta nação...enfim...

Celso R. disse...

Nuno Castelo-Branco pode ver em http://camaraclara.rtp.pt .

António Bettencourt disse...

Acabo de assistir. Grande homem. Pena que a entrevistadora esteja constantemente a cortar a palavra.

Horácio disse...

A quem interessar, o estupendo Rentes de Carvalho escreve com regularidade no seguinte blogue: http://tempocontado.blogspot.com