31 março 2011

Vá lá, um ditador que faz jus aos galões



Quando os dedinhos em V e os Allah U Akbar se espalharam por todo o mundo árabe, nessa pseudo-revolução acéfala que ainda ninguém conseguiu definir, cantaram os crentes nos amanhãs ridentes mil cornucópias louvaminheiras a esta primavera dos povos. Naquelas moles não mais vejo que o dedo daquilo que não oferece cartão de visita, mas está sempre como presente-ausente das tramas da intriga internacional. Fez-me lembrar a tal "revolução" tailandesa de 2010, a tal que não foi e que era, afinal, enorme mise-en-scène congeminada pelas agências de imagem acopladas aos parasitas da riqueza alheia. Eles dão democracia e em troca pedem petróleo. No caso da Tailândia, "eles" - refasteladíssimos em sinecuras milionárias e olhando os thais como criadagem - quiseram fazer crer ao mundo que o povo tailandês estava tomado de frenesim libertador e iria destruir o "feudalismo". Não passaram e isso fez-me rebolar de riso. Ao ver tanto farang milionário falhar em todas as previsões, só me lembrei do Jeremy Irons no Madame Butterfly, que enviava para Paris torrentes de relatórios anunciando a iminência da abertura da China ao Ocidente ...em vésperas da revolução Cultural !


Quanto a Kadafi, esperava que desaparecesse e cumprisse a caricatura do ditador no exílio, vivendo como um Cresus. Mas não, deu luta. Um ditador assim, sim. Já estava cansado de ditadores que não dão luta, mas Kadafi fez jus ao estatuto e baralhou tudo. As suas forças recuaram. Depois, tomaram a contra-ofensiva e quando estavam a milímetros de desbaratar os V's dos Allah U Akbar, inventou-se uma intervenção dos paladinos da democracia pelo petróleo. De novo, Kadadi recuou, mas debitam as agências que o efeito ar deixou de ter préstimo. Os aviões sabem lançar bombas, mas sem a infantaria, repetem o Afeganistão e o Iraque. O Ocidente quer guerras limpas, sem o fedor dos campos de batalha. Quer bombardeamentos cirúrgicos, como se tudo fosse uma consola de jogos para miúdos de 12 anos. Kadafi foi ao terreno, ao fumo e fedor da batalha. E agora ? Acho-lhe piada. Evoca-me cada vez mais a figura de Jugurtha, que deu luta a Roma e se transformou em símbolo de orgulho para os povos que não queriam nem a Pax nem a liberdade que a Roma republicana levava na ponta das lanças.

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Podes simpatizar com Kadhafi, mas comparar a Líbia e o seu regime, com aquilo que vigora na Tailândia, parece-me demais.

Antagonista S. Editora disse...

Por acaso é uma figura que me inspira, mais pelo passado revoltoso do que pela actual excentricidade.

Combustões disse...

Não, não simpatizo nada nem se compara com a Tailândia em nada a não ser com a ingerência arrogante, neo-colonial de uns tipos sentados algures a fazer contabilidade sobre as riquezas que podem extrair de um país insultado.