22 março 2011

Respeito sem temores reverenciais


De um investigador canadiano residente no Sudeste-Asiático, recebi hoje uma simpática manifestação a propósito do livrinho que há um mês apresentei na Siam Society. Diz-me o historiador que se lhe revelou uma perspectiva que desconhecia e documentação à qual aqueles que não dominam a nossa língua não têm acesso, acrescentando que a invisibilidade editorial portuguesa no circuito livreiro é uma das causas para a não-existência de Portugal; ou seja, quem não aparece não é, não existe, está de fora. Tudo o que se fizer para divulgar os imensos recursos bibliográficos e arquivísticos portugueses merece aplauso e se à divulgação se adicionar a perspectiva portuguesa - conquanto séria, fundamentada e rigorosa - pode-se fazer serviço sem atropelo da deontologia académica e amor pelo conhecimento.

No que às coisas portuguesas da Ásia respeita, confesso que já só leio duas ou três autoridades e as restantes, tão estafadas na repetição de coisas sempre glosadas e tão apegadas à miséria das cronologias, ponho-as de parte. Como suspeitava, parece que tudo está por fazer no que ao Oriente português respeita. As pessoas não gostam de trabalhar, pelo que se encavalitam em meia dúzia de topos, não se dão ao trabalho de ler exaustivamente fontes secundárias e primárias, portuguesas como estrangeiras, falta-lhes capacidade hermenêutica, não se conseguem libertar de etiquetas e lugares-comuns; enfim, estão cegas ou deixaram-se enredar na teia de medos e temores reverenciais. Depois, há a atitude. A universidade portuguesa ensina o medo, inibe a liberdade, erige altares e mitos e não se dá ao trabalho de se aventurar no desconhecido.

Estava ontem a dar os últimos retoques num capítulo referente à Missão de Frei Francisco das Chagas Ribeiro ao Sião, entre 1783-85 e pasmei com algumas passagens, plenas de disparates que encontrei em escritos de dois investigadores portugueses que verteram opinião sobre essa embaixada. Parece que tendo a evidência em frente dos olhos, se mostraram incapazes de compreender e interpretar o mais escorreito português dos documentos. Depois, glosando uma obra francesa de finais do século XIX, encontrei, pela voz de um francês, aquilo que os nossos preclaros "historiadores" não haviam conseguido ler... em português !
Afinal - e isso não compreenderam as nossas sumidades - houve uma Entente luso-francesa na Ásia entre 1777 e 1789. Portugal, que saíra vitorioso da Guerra dos Sete Anos, não queria uma Inglaterra demasiado forte - aliada, mas perigosa - fez as pazes com Roma a respeito das jurisdições apostólicas, aceitou engrenar na "Liga dos Neutrais" congeminada pelo conde Vergennes, o homem que dominou a política externa de Luís XVI e juntou-se à França na intervenção no Vietname. Está lá tudo nos documentos, mas a culpa não é dos documentos, mas de quem os não consegue ler.

2 comentários:

Daniel Azevedo disse...

O Miguel tem paixão no que faz, por isso obtém os resultados que obtém.
Os "investigadores" das universidades estão no seu empregozinho a ganhar a vida e querem é manter o "tacho".

Disse num dos seus posts que para finalizar este seu último trabalho tinha lido mais de uma centena de livros e mais uns "quantos" documentos. Eu pergunto-lhe: esses universitários de que fala, na sua carreira alguma vez lerão metade disso? Ou é tudo citações de artigos para fazer mais artigos comentando os artigos?

Cumprimentos

Carlos disse...

"confesso que já só leio duas ou três autoridades e as restantes ... ponho-as de parte."
"As pessoas não gostam de trabalhar ... não se dão ao trabalho de ler exaustivamente fontes secundárias e primárias... enfim, estão cegas ou deixaram-se enredar na teia de medos e temores reverenciais..."
???
isto nem parece seu caro Miguel...