20 março 2011

O que diz o Gurkha sobre a Líbia


Tenho um empregado Gurkha, sim, daquela "raça marcial" que serviu o Raj britânico e ainda possui uma brigada de elite no exército de Sua Majestade. Hoje, tinha a tv acesa e o noticiário debitava as imagens dos bombardeamentos que ontem a USAF, a RAF e a FAF lançaram sobre o exército líbio em nome de um qualquer direito supostamente outorgado pelas Nações Unidas. O direito, concerteza, é o da força e não o de qualquer princípio outro.

O homem olhou demoradamente, baixou os olhos e enquanto trabalhava disse sem a mínima alteração do habitual tom de voz calmo: "boss, eles querem dar a liberdade aos líbios e em troca pedem o petróleo. A partir de hoje o boss podia cortar-me o salário e dar-me democracia. Se eu não aceitasse a democracia em troca do trabalho sem ordenado, o boss batia-me até eu aceitar ser livre". E há quem diga que as almas simples como a do Guran não encerram mais conhecimento que todos os cartapácios de ciência política e relações internacionais !

Resumindo os últimos episódios.

1. Dá-se um levantamento espontâneo do "povo líbio" contra o tirano. O povo que se dizia armado apenas de convicções democráticas leva tudo de vencida e chega às portas de Tripolí. Desarmados, combatem o exército líbio durante três semanas. As tv's afluem à Líbia e os pacíficos protestantes estão armados até aos dentes e nos últimos episódios até já pilotam aviões.

2. O tirano, porém, não abandona o seu posto e reconquista o terreno. As tv's começam, então, a apresentar o governo líbio alternativo existente em Londres e afirmam a pés juntos que é uma distinta plêiade de estadistas de craveira que vai levar à Líbia a liberdade. Lembro-me dos notáveis líderes da oposição a Saddam que vieram nos contentores da "força internacional" que invadiu o Iraque e tem dado àquele país anos de abundância, paz e felicidade.

3. Agora, como os líbios não se sabem libertar, fala-se num corpo expedicionário que os libertará das agruras do despotismo.

Olha, o Gurkha tem razão. Por que razão não há bombardeamentos libertadores sobre a Costa do Marfim ? E as Nações Unidas, tão distraídas estavam quando permitiram o genocídio no Ruanda ...

6 comentários:

Isabel Metello disse...

Magnífico, Miguel! A expressão da Verdade em todo o seu esplendor contra ahipocrisia sistémica de guerras que, quais video jogos, nos apresentam como "limpas", mas cujos mísseis, contrariamente ao que a guerra cirúrgica espectáculo mediática difunde, dizima, tb, inocentes!

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

EXCELENTE! EM CHEIO!

Carlos disse...

Excelente análise, Caro Miguel! É precisamente isso.

Quanto ao Ruanda, um amigo referiu-me que, em correspondência, trocou impressões com o general canadiano Romeo Dallaire, que foi comandante das forças da ONU no Ruanda durante os massacres. Ao que parece, tudo aquilo foi orquestrado, e as ditas forças foram lá deixadas apenas com armamento ligeiro e sem autorização para fazer fogo a não ser em legítima defesa. Ou seja, apenas para serem testemunhas do massacre e, se possível, desaparecerem nele. Até a emissora de rádio que coordenava os massacres continuou a emitir, depois de destruída: ou seja, a emissão era feita a partir de satélite...

Isto é tudo uma porcaria, meu caro, e a ONU tem as mãos mais sujas do que a sua antecessora Sociedade das Nações.

E parabéns ao seu Gurkha, pela sua sabedoria. Sintetizou perfeitamente a questão.

Cumprimentos.

ana disse...

Qual é o objectivo da França na dianteira destes "bombardeamentos libertadores"?

Euro Star disse...

Os rebeldes tomaram as instalações de Benghazi, utilizando buldozers.
Nunca estiveram armados até aos dentes.
Prova disso é que o ditador conseguiu destruir quase toda a oposição a oeste.

Só quando tomaram Ajdabiya, é que os rebeldes conseguiram alguma material pesado que estava em depósito. Avançaram, mas trata-se de civis sem experiência militar.

A Libia é igual ao Egipto ou à Tunisia. O problema é que quem manda é um homem que a esquerda respeitava como um grande líder.

Por isso, vemos as criticas enjoadas daqueles que há uns anos atrás cantavam odes a Kadafi

Flávio Gonçalves disse...

Muito bem, já estava preocupado pelo coro de vozes à Direita lusa estarem todos a bater palmas, com as mãos e com os pés, com a intervenção estrangeira na Líbia.