04 março 2011

Por Portugal no Sião

Há cerca de dois meses, a nossa leitora em Banguecoque, Luísa Dutra -cujo empenho e dedicação às suas funções merecem apontamento - sugeriu que participasse num simpósio intitulado 500 Years: Europeans in Siam, organizado pelos National Museum Volunteers. Não sabendo se ali me poderia deslocar, ficou acordado que gravaria uma intervenção a ser apresentada aos participantes dessas jornadas. Entretanto, dado ter recebido do Presidente do Instituto do Oriente da Universidade Técnica de Lisboa, Professor Narana Coissoró, a incumbência de apresentar na capital tailandesa o livro sobre o Tratatado Luso-Siamês de 1820, acedi ao convite do NMV, fazendo coincidir no calendário a sessão na Siam Society - aqui já referida - e o simpósio no Museu Nacional.


A conselho do Professor António Vasconcelos de Saldanha, sugeri aos organizadores que a minha intervenção abordasse o tema do livro, inscrevendo o tratado de 1820 como um dos mais expressivos actos diplomáticos de uma relação de meio milénio jamais interrompida. A nossa representação diplomática em Banguecoque deu todo o apoio logístico à iniciativa, montou uma pequena mostra bibliográfica e até proporcionou aos participantes uma mesa com iguarias e doces portugueses que se entranharam na tradição gastronómica da Tailândia e passaram a epitomizar a velha e sempre viva aliança entre os dois Estados: os queques e os fios-de-ovos.
O Embaixador Jorge Torres Pereira apareceu bem cedo no Museu Nacional, onde já o esperavam cerca de três centenas de participantes, na maioria europeus e norte-americanos residentes na Tailândia.
Foi um verdadeiro sucesso de bilheteira, pois a participação no simpósio requeria inscrição prévia, um excelente almoço servido sob grandes tendas levantadas nos jardins do Palácio da Frente - antiga residência do Uparat - e material gráfico de apoio de apresentação luxuosa imprenso exclusivamente para o evento. Tendo por patrono Mom Rajawong Chakrarot Chitrabongs, neto do Rei Rama V, o simpósio contou com a participação de treze conferencistas.

Ao contrário da opção que fizera no acto da Siam Society, que intencionalmente marcara com o sentimento, desenvolvi uma linha mais preocupada com a enumeração de factos desconhecidos pela maioria dos presentes. Contei a história do "Império Invisível" na Ásia, facultei a nossa visão das relações com o Oriente - mais profunda e consistente que a vaga alusão a "contactos" - e demonstrei, julgo com sucesso, que o único Estado europeu presente na vida siamesa desde o século XVI é Portugal, pois que as relações de Estado-a-Estado existentes não se podem confundir com as fracassadas tentativas francesas e são mais, muito mais, que os contactos entre companhias comerciais britânicas e holandesas com o Sião-Ayutthaya e, depois, com o Sião-Banguecoque.

A passagem por Banguecoque foi cansativa até ao limite das forças, mas valeu a pena. Além da conferência na Siam Society e do colóquio no Museu Nacional, registo para um inesquecível jantar na nossa embaixada que reuniu por uma noite a mais importantes instittuições e personalidades envolvidas no esforço conjunto de celebrar com elevação os 500 anos de Portugal no Sião. Ontem pela noitinha recebi um telefonema do Reitor de uma grande universidade tailandesa manifestando entusiasmo e grande empenho em associar a sua instituição às celebrações. Que floresçam mil flores ! Como em tudo na vida, as coisas que ficam fazem-se com 90% de suor e 10% de talento. Nós - os portugueses e instituições empenhados nestas celebrações - estamos a cumprir o interesse nacional. São poucos os meios ? Pois, que o sejam, mas o voluntariado e a militância pela causa do interesse do Estado e de Portugal tudo justificam. Ao chegar a Lisboa falei com o Professor António Saldanha. Valeu a pena e desta batalha pelo bom nome de Portugal só sairemos quando se lavrar o testemunho final: "custou-nos muito, mas vencemos". É tudo !


Ja, das ist meine Melodie

3 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

E pensar que esta gente que manda gasta milhões e milhões em inutilidades - conferências europeias onde somos ignorados, por exemplo -, quando, com um pequeno esforço, obteríamos uma preciosa posição nessa parte do mundo.

José disse...

Faço uma pequena intervenção para transmitir lhe os meus (anónimos mas fiéis) parabéns e desejar lhe as melhores perspectivas universitárias no extremo oriente. Deixo lhe também o desejo de poder ler suas intervenções (notavelmente a parte sobres os mitos).

Muito obg.

Gi disse...

Parabéns e obrigada, Miguel, pelo seu esforço.
Gostaria muito de ter oportunidade de o ouvir sobre o tema.