10 março 2011

Desonestidades


Tão falho que sou de inteligência e argúcia, só há muito pouco tempo me apercebi de meia dúzia de evidências, por si suficientes para impugnar qualquer cândido sonho de intervenção política ou, tão só, de interesse pela coisa pública.

1. A esquerda portuguesa é, absoluta e inapelavelmente, desonesta: vive derrancada na cupidez de dinheiro e poder imerecidos, é predadora, intolerante e implacável ante tudo o que desconhece, condescendente e até paternalista para quantos não ousam incomodá-la, para além de ser insuportavelmente oligárquica e confiscatória. Gerou a maldita geração que tem hoje sessenta e picos anos, não deu um escritor ou um estadista, abjurou de todas as crenças juvenis e engordou alegremente. Diluiu-nos o passado, envenenou-nos o presente ao limite da pelintrice e emparedou-nos o futuro. Não saem, não sairão e teremos de os suportar por mais vinte anos, até que a biologia se esgote.

2. A direita portuguesa, essa, não existe. O que dela dá sinais resume-se a costumes, mais costumes, moral, moralzinha, predicações apocalípticas, teorias da conspiração, jeremíadas e sebastianismos. Tornou-se azeda, má, frustrada e como não tem qualquer formação - nem artística, nem literária, nem histórica nem coisa-alguma - todos os "valores" que proclama, o patriotismo que invoca e as bastas florestas de ideologia que glosa ad nauseam sem jamais lhe ter lido os textos transformaram-na numa caricatura. É o a-poder, um estado de espírito, um constante desabafo. Não vai a sítio algum e foi, com a sua ausência de inteligência, responsável pelos maiores desastres semeados pelas tontas bem-aventuranças da esquerda.

Convoca-se para sábado uma manifestação de "1 milhão". Tristes de nós, falhados na cópia das Europas, das URSS's e das Américas, agora reduzidos a macaquear o "modelo tunisino", o "modelo egípcio" o e "modelo yemenita". É evidente que tal manifestação não leva a nada. Começa no Marquês, acaba no Rossio e aí acaba a "revolução". Carrega esta manifestação dois mitos de sinal contrário, mas perfeitamente coincidentes com a direita e a esquerda que temos: o mito direitista da Maioria Silenciosa e o mito esquerdista da Revolução. A Maioria Silenciosa em Portugal quer duas coisas: ver televisão, com muito futebol e Goucha e ter um copo na mão e um cigarro nos queixos. Revolução ? Que canseira ou que tremendo disparate, pois aqueles que estão no poder há quase meio século são, acabadinhos, os arautos da revolução.

4 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

Exacto. Quando ontem ouvi Cavaco aderir à manifestação, ficando ao lado de Jerónimo e Louçã, percebi tudo.

Nuno disse...

O que preocupa é o silêncio dos bons...

Se nem à esquerda nem à direita haverá quem (ou como) nos conduzir a um presente e/ou futuro melhor, onde estão então os homens bons, aqueles ( e serão muitos ) que , como o autor deste texto ,nos poderiam ajudar a mudar o estado de coisas?
A solução será mesmo essa , a de baixar os braços? de desistir da coisa pública ,que é coisa de todos nós, e deixá - la entregue aos videirinhos desta vida?

Bem sei que a palavra escrita é uma arma forte e penetrante mas haveria um país melhor se as pessoas como o autor se fizessem ouvir mais vezes e mais alto e para mais gente e em mais momentos e em mais lugares

Justiniano disse...

Caríssimo Castelo-Branco, brilhante texto!! Em todos os sentidos!
Um bem haja para si

Justiniano disse...

Caríssimo Castelo Branco, brilhante texto!! Em todos os sentidos!
Um bem haja para si,