23 março 2011

Desnorte nacional

Andam alvoroçados uns e outros com a queda do governo. A queda de qualquer governo no início de legislatura é um desastre. Andamos a destruir o país alegremente desde 1976, pois que 74 e 75 foram, declaradamente, de fogo-posto. Nos últimos 35 anos tiveram os espanhóis cinco chefes de governo, a Alemanha teve cinco chanceleres e a Dinamarca cinco. Portugal teve 12 (doze), ou seja, um primeiro-ministro cada dois anos e meio. A contabilidade assusta: se para cada governo há em média 14 ministros e 30 secretários de Estado, teremos, em 35 anos, 168 ministros e 324 secretários de Estado.
Se a sucessão fosse ditada por fracturas ideológicas profundas, a alternância política teria como fundamento a diversidade de futuríveis. Mas não, em 35 anos fomos governados pela mesma receita: PS, PS+CDS, PSD+CDS, PS, PSD, PS, PSD+CDS, PS, PS. O regime fechou-se, loteou, dividiu para repartir, apropriou-se da coisa pública, inibiu a sociedade civil, tomou decisões históricas sem ouvir o país. A 3ª República já leva quase tantos anos quantos o Estado Novo e qual é o resultado ? Tornou-se o país mais rico, mais influente na cena internacional, resolveu os problemas, procedeu às tão reclamadas "mudanças estruturais" ?
Ora, o que surge de manifesto é que perdemos a agricultura e as minas, perdemos a marinha mercante a frota pesqueira, destruímos a construção e reparação navais, matámos a metalomecânica, afugentámos as multinacionais e o investimento estrangeiro. Para ludibriar o desastre, fizemos crer aos portugueses que eram ricos, europeus, que o trabalho manual sujava, que era o tempo dos estrategas empresariais, dos gestores de negócios, dos brokers, dos sociólogos, dos economistas e dos informáticos. Casa sim, casa não, uma dependência bancária, pessoa-sim, pessoa-sim, um "doutor" ou uma "doutoreca".
Em 1974 havia 170.000 funcionários públicos. O país tinha 25 milhões de habitantes e 2 milhões de quilómetros quadrados; hoje temos 800.000 funcionários encurralados em 89.000 km2. Está tudo dito.

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