12 fevereiro 2011

Permitam-me um exerciciozinho de teoria da conspiração


Deito para o cesto dos papéis todas as teorias da conspiração, não por duvidar de conspirações - que sempre as houve - mas por as achar esquemáticas, cómodas e caricaturais. Contudo, desde que a actual felonia se espalhou pelo norte-de-África e Médio Oriente tive um vago pressentimento de haver algo de perturbador na explosão súbita de violência. As felonias no mundo árabe não têm liderança visível e assim persistem desde a sua eclosão há mais de dois meses. É tão estranha a acefalia dos movimentos - concordantes nos meios e formas de mobilização - que poderia dizer terem sido construídas pela mesma inteligência.

Hoje, ociosamente, fiz uma pequena incursão aos principais sítios web das operadoras do Médio Oriente e fiquei siderado. O maior império é o Orascom e pertence a um tal Naguib Sawiris, que acaba de participar no encontro de Davos. É detentor da Mobinil, o maior operador do Egipto (40% do mercado), o maior operador na Argélia (59%), um dos três maiores na Tunísia e um dos mais interessados grupos no mercado jordano. O sr. Sawaris tem antigas ligações com a Alemanha e é considerado um bom amigo da Suiça. É o único egípcio que participa com regularidade nos encontros do Clube Bilderberg. O director financeiro da companhia é um tal Mareuse e ocupa funções de direcção na Tunísia, Argélia e Paquistão.

Hoje, para fazer uma revolução não é necessário um partido, um movimento armado, nem jornais e televisões que preparem, incitem, espalhem notícias. Ou antes, a Orascom é o maior promotor da CNN no Médio Oriente, facultando-lhe publicidade e visibilidade.

Tudo muito estranho. No dia 4 deste mês, a direcção da Orascom protestou contra o governo egípcio por este estar a utilizar os serviços da companhia para enviar mensagens apelando aos apoiantes de Mubarak. No mesmo dia, Khaled Bichara, the chief executive of Orascom, was seen by a Reuters reporter in the main Tahrir, or Liberation, Square, protesting against Mubarak’s rule. ".
O mundo está cheio de coisas estranhas. Infelizmente, as manigâncias plutocráticas tendem a ser ultrapassadas por aqueles que possuem o fanatismo e as convicções. A ver vamos.

5 comentários:

Bic Laranja disse...

Extraordinário!
Cumpts.

Josephus disse...

http://bigpeace.com/dreaboi/2011/01/29/the-red-green-alliance-muslim-brotherhood-answer-battle-mubarak/

NanBanJin disse...

Caro Miguel:

Com todo o respeito, admiração e simpatia que lhe guardo, permita-me que aqui expresse a minha mais completa discordância com a sua interpretação e análise dos factos que fizeram o actual momento político no Norte de África, e que tem vindo ao longo destes dias, aqui no COMBUSTÕES, a partilhar com os seus leitores.

Na Tunísia um certo Mohamed Bouazizi, vendo, os seus parcos meios de subsistência, subitamente confiscados pela polícia, num acto de protesto isolado e aparentemente não premeditado, não planeado, autoimolou-se defronte de um edifício governamental na sua cidade.
Era este homem, porventura, algum agente especial da CIA? Um Lee Harvey Oswald? Um mercenário a soldo de uma perigosa e obscura Trilateral? Um Tom Cruise ao serviço de uma "Missão Impossível" para todo o serviço, diligentemente derrubando tiraniazinhas por esse 3º Mundo fora?

Não, Miguel, creio que neste capítulo estaremos todos de acordo: tratava-se tão-só de um homem desesperado, profundamente amargurado, saturado das miseráveis condições de vida em que se via obrigado a arrastar a sua existência num país onde, havia mais de 20 anos, reinavam as mais descaradas e impúnes plutocracia e nepotismo — as tais que já todos vimos, e com toda a razão, sublinho!, o Miguel criticar veementemente, quando insinuadas noutras partes do Mundo.
Porquê esta súbita simpatia por regimes que em pouco mais que nada, se distinguem do que seria a realidade numa Tailândia sob a pata de Takhsin ??

O acto isolado e não premeditado de um homem desesperado, acendeu um rastilho de revolta que alastrou longe, numa aparente campanha de dimensões sem precedentes. É certo que as tecnologias das comunicações, dominantes neste nosso tempo, cumpriram um importante papel neste processo. Mas será que esse facto implica a presença dessa gigantesca mão invisível, dessa rede tentacular de interesses obscuros que a paranóia sedenta de bodes expiatórios para tudo o que recusa, insiste em ver a cada esquina?

Caro Miguel, lamento mas não posso em caso algum alinhar com estas suas observações, e, menos ainda, repudiar o curso dos eventos nas últimas semanas no Egipto, por simples temor do mal que se possa seguir, mormente no que se refere à cobiça do poder
pelo extremismo islâmico.

E mais ainda lamento que iguais vento não soprem em Pyongyang e em Pequim.


Com toda a estima que lhe devo,
os meus mais amigáveis cumprimentos,

Luís Filipe Afonso, Japão

Zephyrus disse...

Caro Luís Filipe Afonso,

quiçá existam forças e realidades que desconhecemos. Paracelso, Giordano Bruno, Helena Blavatsky ou Aleister Crowley estudaram-nas. As organizações que herdaram tais conhecimentos estão aí, a saber, Maçonaria, Order Templo Orientis ou Sociedade Teosófica.

Cumprimentos.

Zephyrus

NanBanJin disse...

Caro Zephirus.

Com todo o respeito, não me parece que qualquer das referências que aqui deixa, ajude à discussão do que aqui está em causa — esclareço que nenhuma me é desconhecida.
Até aceito que pudesse/possa haver um aproveitamento dos eventos por uma qualquer sinistra força espreitando nas sombras. Até concebo que uma ou mais do que uma dessas misteriosas seitas sinarco-criptocráticas se insinue por um processo destes adentro.
Pois seja: isso não muda uma vírgula do que acima escrevi.

Senão, também podemos falar de discos voadores, do universo de H.P. Lovecraft, do inconsciente colectivo e os arquétipos segundo Carl Gustav Jung, e do que mais nos der na real gana, e especular sobre a influência que cada uma destas coisas poderá ter tido nesta contenda.
Faço-me entender?


Um Abraço,

Luís F. Afonso