
Os homens revelam-se na adversidade. "Muitos inimigos, muita honra", como diziam no velho Lácio ou, glosando Larochejaquelin, herói da Vendeia, "Si j'avance, suivez-moi ; si je meurs, vengez-moi ; si je recule, tuez-moi". Os líderes são líderes porque sabem dar o exemplo. O Egipto revelou ontem ao mundo como o sim e o não de um só homem podem ser decisivos para a vida ou morte de uma nação.
Ao fim da tarde, as notícias anunciavam a resignação do velho leão. Fê-lo com dignidade e sem debandar, como tantos o fazem nas mesmas circunstâncias. Não cedeu, não se rendeu, não mandou entregar fiéis seus às mãos da plebe e não fez promessa alguma. Saiu como devem sair aqueles que nada devem: de cabeça erguida. É água cristalina que Mubarak vai ser entregue às feras e submetido aos maiores enxovalhos. Aqueles que virão - que não respeitam lei e legalidade alguma - tudo farão para que a tal justiça que dá pelo nome de "islâmica" inicie a matança com uma morte ritual: a do homem que susteve o ambismo durante décadas.
Sei que para o Egipto a democracia tal como a entendemos é coisa tão quimérica que nela so acreditará quem vive obnubilado. O Egipto vai ser - espero enganar-me - a fonte das dores de cabeça da Europa. Com a crise do Egipto aprendemos uma coisa: nos americanos não se pode confiar.
Oum Kalthoum. Raq el Habib (1941)
4 comentários:
Bem vistas as coisas, tornou-se num "tio"...
...muitos que hoje regozijam com a queda do Mubarak, ainda vão praguejar pela perda do fiel da balança às portas da velha Europa.
Ou muito me engano ou em breve as várias facções entre os manifestantes vão começar a «limpar-se» uns aos outros... E depois as Forças Armadas inventam outro Mubarak versão softcore.
Outro cenário é um Irão às portas da Europa...
A América fez a Hosni Mubarak o que antes já fizera connosco. Abandonaram-no, como no 25 de Abril de 1974 abandonaram Portugal. Depois foi a vez de Mobutu e de Savimvi. A tratar assim os seus aliados a América não vai longe!...
Rui Moio
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