07 fevereiro 2011

Opções e respeito


Há algo que me inquieta no pronto-a-pensar de um certo americanismo carregado de perigosas infantilidades. O actual mito da democracia para a Arábia Saudita, para o Nepal, o Vietname e a Birmânia não passa de réplica do ardor da abertura de mercados a todo o custo que foi bandeira do mais violento e agressivo imperialismo colonialista do século XIX. Foi em nome dessa liberdade que se atacou a China e a soldadagem libertadora andou aos pulos em cima do trono imperial na Cidade Proibida, que a Birmânia sofreu três guerras, se impôs o tratado de Perry ao Japão, Bowring ameaçou com valente canhoneio os siameses e o Camboja foi transformado em Protectorado. Já aqui falámos várias vezes em "questões de sapatos", mas para quem está habituado a usar o direito da força em nome da força do direito internacional - há sempre uma piedosa mentira ou uma cruzada redentorista para salvar quem o não quer ser - há que mudar o mito mobilizador cada vinte anos.

Lembrava-me há tempos um amigo que as mais sólidas "democracias" asiáticas têm entre si uma característica inquietante: são democracias se e só se o partido no poder for sempre o mesmo. Os casos singapureano e japonês são por si eloquentes para nos arrastarmos em exemplos ociosos. Vendo bem, durante a Guerra Fria, o Ocidente era muito mais respeitador das diferenças de talante e cultura que fazem dos Estados entidades dotadas de soberania. Soberania quer dizer liberdade para ter e preservar instituições, formas de organização social e política. Tudo isso foi substituído nos últimos anos por uma crença uniformizadora, arrogante, absoluta a totalitária de espalhar macaqueações de democracia por todos os azimutes. À custa de tanto quererem replicar em terreno infecundo a tal democracia, o Ocidente vai ano a ano perdendo aliados e amigos. O desastre da política de sanções contra a Birmânia, atirou o país para os braços da China. O desastre da política de "direitos humanos" levou Khomeiny ao poder no Irão, os sandinistas na Nicarágua, Hailé Mariam na Etiópia e Mugabe no Zimbabwe. Ao longo das últimas semanas, quem sempre fez dos outros laboratórios de experiências tentou desagregar por atacado todo o norte de África e Médio Oriente.

Ouvia há dias uma das orações de Fareed Zakaria, escritor menoríssimo que se transformou em tele-evangelista das guerras justas. Um discurso sem raciocínio, com implantes de argumentos de fé e permanente invocação de abstracções. Lembro-me ter lido há anos um dos seus livrinhos e pasmar com tanta ignorância histórica. É este o perigo.Trata-se, amiúde, de gente sem qualquer preparação para compreender a diversidade do mundo, das pessoas e das culturas. O actual imperialismo da democracia a todo o custo - o tal que queria à viva força ver as afegãs de calções e top - a perseverar, vai provocar um recuo sem precedentes da capacidade de influência ocidental e abrir portas a forças de magnitude inimaginável.

2 comentários:

Klatuu o embuçado disse...

Esta trapalhada toda do Egipto até me tem sido iluminante - supunha que o Ocidente estivesse bem menos idiota, mas afinal...

swedenborg disse...

Esse "americanismo" pró-mundialista que quer arrastar meio mundo para o arremedo do que chamam de democracia pode ser debitado da conta dos left liberals, verdadeira SS do mundialismo ONUsiano e dos straussianos neoconservadores, que são apenas trotskistas com uma nova causa. Há todo um universo de paleoconservadores e libertários nos EUA que só querem diminuir o governo e viver suas vidas em paz. Isolacionismo? Por que não? Melhor do que sairem por aí fazendo merda e entregando de bandeja o resto do mundo para os capos das grandes corporações, da tecnocracia e das máfias governamentais.