28 fevereiro 2011

Banguecoque português: conferência na Siam Society

A receita mais simples, a mais verdadeira, aquela que sintetiza o sentido de Estado, a razão clara e implacável e o entusiasmo que conquista corações. Na passada terça-feira, em pleno coração da capital do velho Sião, Portugal obteve retumbante vitória a que alguns chamariam de mediática, mas que prefiro tenha sido uma afirmação de vitalidade da nossa presença nesta parte do mundo onde o sol se levanta. O salão de actos da Siam Society acolheu cerca de 250 pessoas que ali vieram para pagar tributo aos 500 anos de relações luso-tailandesas. Estava lá tout le monde: corpo diplomático, reitores e académicos, altas patentes civis, hierarquia católica, amigos de Portugal, estudantes dos leitorados de Chulalongkorn e Thamassat, luso-descendentes e largas dezenas de europeus e americanos residentes no reino. Lobriguei, também, entre a assistência, portugueses do Bandel de Banguecoque e satisfeito fiquei ao saber que um destes nossos compatriotas comprou de uma assentada seis livros para distribuir no kampong. É importante que os nossos compreendam que um livro publicado em inglês oferece a muitos estrangeiros, desconhecedores do nosso idioma, importante capital de informação sobre os nossos fundos documentais. No caso vertente, o Portuguese-Siamese Treaty of 1820 trata de forma absolutamente nova a negociação de um tratado que marcou a adesão do Sião à comunidade internacional e demonstra, também, que o tratado Bowring, assinado com os britânicos em 1855, não passou de cópia adulterada do nosso tratado. A História exige permanente revisão.

Ao Embaixador Jorge Torres Pereira coube o papel de representante do Estado: lembrou as glórias do passado, apresentou o programa de iniciativas que em Banguecoque decorrerão ao largo deste ano cheio de iniciativas promovidas pela nossa embaixada e renovou a determinação de Portugal em restaurar em plenitude a mais antiga aliança existente entre uma nação europeia e um Estado asiático. O programa académico das celebrações decorre da estreita colaboração entre o Ministério dos Negócios (Missão das Celebrações na Ásia), a Embaixada de Portugal na Tailândia e o Instituto do Oriente da Universidade Técnica de Lisboa, representado na figura de António Vaconcelos de Saldanha. O Embaixador Jorge Torres Pereira abraçou com entusiasmo o programa e manifestou notável capacidade ao longo destas curtas semanas iniciais no posto.
Procedeu, no acto, à entrega formal de uma Asiática Portuguesa à biblioteca da Siam Society - lote de uma centena de obras de grande aparato oferecida pela Direcção Geral do Livro/Biblioteca Nacional de Portugal e que passarão a integrar o catálogo da mais rica colecção bibliográfica especializada na história, cultura e antropologia do Sudeste-Asiático - passando à apresentação dos conferencistas convidados para o evento: o Professor António Vasconcelos de Saldanha e este V. criado.
Torres Pereira fez mais: teve a amabilidade de iniciar a intervenção em língua tailandesa, passe de mágica que conquistou de imediato o favor do público.

António Vasconcelos de Saldanha desenvolveu com a autoridade que se lhe reconhece a linha que aqui havia desenvolvido há dois anos, quando no mesmo local proferiu memorável aula sobre o Bandel Português de Ayutthaya. Demonstrou com rigor académico a tese do pioneirismo português na construção da presença do Ocidente na Ásia, desarmou quaisquer resistências e elencou os pontos-chave estruturantes do lugar e papel de Portugal na construção do mundo moderno. Enquanto catedrático, coube-lhe apresentar e comentar o meu livro The Portuguese-Siamese Treaty of 1820, agora publicado e à venda nas livrarias, integrando o tratado de 1820 na sucessão de expressivos actos diplomáticos que remontam a 1511, ano em que um emissário de Albuquerque visitou Ayutthaya e foi recebido pelo rei Ramatibothi II. Guardou para o fim da intervenção o anúncio de um magno simpósio internacional que em Novembro reunirá em Banguecoque as academias portuguesa e tailandesa em torno da presença portuguesa na Tailândia.

Quis a assembleia interpelar-me sobre o livro agora publicado. Nestas coisas, não se deve titubear nem assumir vergonhas nacionais, paralisantes complexos de inferioridade e a sempre velha história dos coitadinhos pedindo desculpas pelo facto de existirem. Fi-lo em tom de defesa agressiva e procurei desmontar um a um os mitos que teimam em repetir-se a respeito de Portugal no Oriente. Correu bem e um pouco de lógica apaixonada e verbo incandescente não fazem mal a ninguém. Só nos respeitam quando, sem fantasia e com plena frontalidade assumirmos o nosso papel no mundo.


Ao terminar, confesso que exausto e ainda a pesar-me nas pernas o efeito do jet lag,recebi dezenas de pedidos para autografar o livro. Servir Portugal é um honra e se cada um o soubesse fazer na exacta medida das suas competências, Portugal teria outra visibilidade. Um dos presentes, embaixador da Tailândia num país da União Europeia e parente próximo da família real, teve a gentileza de me confessar que ficara encantado com a sessão e que havia formado um outro juízo sobre Portugal e os portugueses. No mesmo registo, um dos luso-descendentes expressou ao Professor Vasconcelos de Saldanha a importância e impacto do acto, segredando-lhe estar cheio de orgulho pelo ascendente que os oradores haviam conseguido e pela "forma como haviam dito coisas difíceis com tamanho desembaraço".

Portugal marcou uns quantos pontos e colocou-se no mapa das grandes iniciativas culturais do calendário tailandês. É estranho, mas a verdade é que, ao terminar o acto, franceses, belgas, ingleses e amricanos vieram protestar grande simpatia pelo tom e conteúdo das três intervenções. Fico satisfeito. A Embaixada de Portugal apostou alto e venceu em toda a linha, a Universidade Técnica não deixou cair por terra o seu bom nome e tudo acabou em excelente confraternização graças ao cocktail proporcionado pela nossa representação diplomática em Banguecoque.

À saída, um mar de sorrisos e amabilidades faziam jus ao triunfo português. Jantar num restaurante de Sukhumvit e passagem por um bar panorâmico, nos píncaros do 56º andar de uma torre desta grande metrópole que foi, por uma noite, a nossa capital,pois esta noite foi, sem exagero, a noite de Portugal na mais cosmopolita das cidades da Ásia.



7 comentários:

JP disse...

Parabéns, Miguel! Abr. JP

NanBanJin disse...

Os meus sinceros parabéns, Caro Miguel.

Que o exemplo prossiga e mais o sigam.

Um Grande Abraço,
do Japão,

Luís Afonso, NBJ

PEDRO QUARTIN GRAÇA disse...

Parabéns Miguel! Excelente. Mais uma vez a bandeira de Portugal bem alto! A azul e branca, é claro! abraço

PQG

M Isabel G disse...

Muito fixe, Miguel:)

Calor Humano disse...

Caro Miguel,

Venho fazer-lhe uma proposta.

Porque não escreve um pequeno artigo na wikipédia sobre "Portuguese-Siamese Treaty of 1820"?

A wikipédia é, hoje em dia, o mais forte veículo da propagação da informação pela internet, e é muitas vezes - e erradamente - desvalorizada pelos eruditos, por não compreenderem que é à wikipédia que o internauta comum vai buscar infromação, neste caso, histórica, entre outras.

Tendo o Miguel o saber necessário, seria perder uma oportunidade única não o ter a escrever um artigo de valor sobre o tema, artigo que provavelmente ninguém está mais apto para escrever que você.

Como poderá ver por esta ligação, isto é que surge quando pesquisamos por "Portuguese-Siamese Treaty of 1820":

http://en.wikipedia.org/w/index.php?title=Special%3ASearch&search=Portuguese-Siamese+Treaty+of+1820

Sugiro fazer o mesmo para a wikipédia portuguesa.

Não sei se está familiarizado com o método de funcionamento da wikipédia. Se não está, caso queira, envie o seu artigo - em português e inglês se quiser - para o meu e-mail: pedro.fernandes.duarte@gmail.com, que eu encarrego-me com todo o gosto de o pôr on line.

Muito obrigado e parabéns pelo seu trabalho.

Um abraço,

Pedro

Nuno Castelo-Branco disse...

Esta sugestão quanto à wikipedia, é muito positiva.

Gi disse...

Parabéns mais uma vez. Fico muito contente por haver quem procure honrar a história de Portugal.