19 janeiro 2011

Uma história portuguesa que vale um filme de Preminger


O pequeno mundo da Chicago Chinesa, mostruário feérico do Ocidente, com os seus grandes bancos, agências mercantis, restaurantes luxuosos, clubes nocturnos e hotéis onde se dançava o tango e o foxtrot ao som de grandes orquestras, ruiu subitamente em 1937, quando o Japão desencadeou a segunda fase da conquista da China, preâmbulo da Segunda Guerra Mundial no Extremo-Oriente. A debandada foi geral e os europeus que ali perseveraram inconscientes do perigo pagaram cara a ousadia da inconsciência em Dezembro de 1941, quando o Sol Nascente entrou em guerra com os EUA e o império britânico. A ocupação japonesa de Xangai foi brutal e todos os ocidentais residentes foram confinados em campos de detenção, com excepção dos portugueses, dada a neutralidade de Portugal no conflito.
A Concessão Internacional de Xangai possuía uma International Defense Force de manutenção da ordem dentro do perímetro administrado pelas potências que haviam obtido do governo chinês a cedência do direito de extraterritorialidade. Esta força miliciana integrava uma Companhia integralmente composta por residentes portugueses . Possuíam preparação militar e conheciam bem a cidade, pelo que, ao ser dissolvida a unidade por ordem do comando militar nipónico, muitos dos seus antigos membros integraram a rede de resistência ao ocupante, prestando relevantes serviços à causa Aliada ou ao governo chinês de Chungking. Um dos mais destacados elementos da resistência era o sargento Carlos Borromeu da Silva, antigo polícia portuário britânico mas detentor de passaporte português. Durante quatro anos, entre 1941 e 1945, Carlos Silva forneceu aos Aliados informações vitais sobre o movimento portuário de Shanghai, reparações navais de vasos nipónicos, desembarque de unidades do Exército Imperial destinadas à frente chinesa. Correu enormes riscos e nunca foi recompensado, lembrado ou tão só apoiado quando, em 1949, a China caiu nas mãos de Mao e Carlos teve de abandonar Xangai.


Mister Roberts

3 comentários:

NanBanJin disse...

Caro Miguel:

Mais referências, por favor.
O caso merece.

Obrigado.

Luís Afonso

João Pedro disse...

Ao ler o primeiro parágrafo, veio-me logo à cabeça "o Lótus Azul" (omeu álbum preferido de Tintin) e "o Império do Sol". Mas tal como o comentador Luís Afonso, também gostava de saber desenvolvimentos: o que aconteceu posteriormente a Carlos Silva?

Klatuu o embuçado disse...

Por razões que não vêm ao caso, há cerca de um mês andei em busca de um bom documentário histórico sobre Viriato. Por cá não encontrei nada. Já Franceses, Alemães e Britânicos, todos eles, têm produzido imensos documentários sobre resistentes gauleses, germânicos e britânicos a Roma, mas nem um sobre Viriato, por sinal o mais importante de todos os líderes europeus que resistiram aos romanos.

Se Portugal não quer saber da sua história e cultura... porque o fariam os outros. Foi o que pensei.