02 janeiro 2011

Os heróis e os outros


O país cobriu-se nos últimos cem anos de Praças e avenidas da República, do 25 de Abril, do 1º de Maio e dos Capitãess de Abril, mais os resistentes, os poetas e literatos que desprezaram Portugal, sargentos republicanos, heróis sem conta de batalhas e guerras internas, de portugueses contra portugueses. Que eu saiba - oxalá me engane - não há uma só viela que se possa ufanar de ter o nome de um dos mais extraordinários homens de acção que o país produziu, cujos quatrocentos anos da morte correm este ano.

André Furtado de Mendonça adiou, talvez por quase vinte anos, a hegemonia da VOC holandesa no Oriente, exterminou a pirataria - sobretudo o temível Cunhale, sim, Cunhale - que assolava as águas do Índico, para além de ter sido modelo de governante inacessível ao suborno, ao lóbismo e ao fisilogismo, marcas infelizmente tão arreigadas nas elites portuguesas. Não por aí um autarca lisboeta que queira tributar ao herói de Malaca o elementar gesto de lhe conceder - e conceder-nos - uma viela, das mais pequenas, no mais humilde e ignoto barro social da periferia ? Sei que é pedir de mais, sobretudo quando poucos conhecem quem foi e o que por todos nós fez esse homem. Esse, sim, foi um verdadeiro capitão, mas os heróis, hoje, são outros, os anti-heróis !

1 comentário:

Nuno Castelo-Branco disse...

Pois, Portugal vai sendo "furtado" de todos os seus símbolos. Furtar é uma arte, bem própria de certo tipo de gente que decide aquilo que devemos ou não saber ou reconhecer.