04 janeiro 2011

Não vejo, não leio, não ouço: não votar é o remédio


Dieta rigorosa, desintoxicação radical, absoluta privação de contacto visual e auditivo com os candidatos ao sólio presidencial, o tal que foi usurpado pelas bombas e revólveres, jamais teve a elementar atenção de interpelar os portugueses e assim ficou, absoluto, impune, ilegal e ilegítimo por décadas e décadas. Não ceder à tentação de participar, não conceder a dúvida do mal menor, não comparar nem tomar partido por nenhum dos artistas em palco. O melhor voto é o não voto. O melhor presidente da República é o Rei, a melhor votação para a chefia do Estado aquela que prescinde de eleições, de máquinas partidárias, de confetis e out-door's, mas aquela que se realiza geração a geração, com o concurso das gerações que passaram e das gerações que virão e reafirma o pacto da vontade popular e da identidade nacional que fizeram o Estado Português.

Os candidatos que se candidatem, os presidentes que presidam, mas que o façam sabendo que há portugueses, muitos portugueses, que neles não vêem o árbitro equidistante, o servidor da causa pública, o orgão de soberania independente. Votar é caucionar, colaborar, transigir com um sofisma, com uma impostura e com um insulto aos portugueses. Eu, não voto e como não voto, não sei quantas caras, caretas, carantonhas e gárgulas se apresentam a sufrágio. Ficar em casa, abrir um bom livro, ouvir música, estar com a família vale mil chapeladas da lotaria dita republicana. Como acreditamos na República - ou seja, na Política - e como só há Política quando a totalidade da Cidade se revê nas instituições, recusamos participar numa fraude.

Passei há dias pela sede de candidatura do Professor Cavaco. A foto que acima reproduzo é sintomática da intensa vida republicana. Não vive, existe e nem pede desculpa aos portugueses. Um jazigo; eis onde temos vivido nestes cem anos de república sem República.

7 comentários:

Nuno Castelo-Branco disse...

O que impressiona, é a azáfama e o entusiasmo que a foto mostra. Mais dia, menos dia, contratam uns tantos figurantes.

João Amorim disse...

A sede do Porto fica bem na Avenida dos Aliados, no mesmo espaço que é sede de todos os candidatos laranja ao município. Assim, ao estilo ex-stand de automóveis, e que belas máquinas lá moraram. Tanto espaço e tanto vazio, sem ninguém, tal a foto que mostra.

Gi disse...

A minha opção está feita.

Paulo Selão disse...

Na «Mui Nobre e Sempre Leal Cidade de Évora» passa-se a mesmíssima coisa. Uma casa às escuras com uns autocolantes e a morada de um site qualquer. Não vi bem. Obrigado mas dispenso Olhei só de relanço. Desprezo. Virei a cara e evitei olhar para lá.

Lionheart disse...

O logotipo de campanha então é "felicíssimo". A bandeira da república já não se recomendava, mas metendo o amarelo em destaque pelo meio, parece que estamos na Bolívia.

A esquerda aposta numa alta abstenção para forçar uma segunda volta, ou pelo menos enfraquecer a "maioria" presidencial e a autoridade de Cavaco, em caso de vitória na primeira volta. Como monárquico que sempre desconfiou do personagem Sócrates e da maioria absoluta PS, lá fui votar no "professor" há cinco anos, para ver se havia algum respeito pelo menos. Foi o que se viu. Para que é os monárquicos hão de se dar ao trabalho de salvar este "regime"? Que se lixem todos.

Nuno Castelo-Branco disse...

Precisamente, Lionheart. Não temos nada que ir ajudar gente que apenas pensa em si. Fiquemos em casa. Como se costuma dizer, "agora... que se desenrasquem!"

Carlos Velasco disse...

Caro Miguel,

Tendo em conta que eles têm o poder de destruir o produto do nosso trabalho, transformar a nossa vida quotidiana numa rotina penitenciária e ainda por cima passar por cima dos valores ancestrais em que assenta a nossa civilização, ficar em casa não é ignorar essa gente, afinal, o resultado da acção deles na nossa vida é concreto; ficar em casa é simplesmente aceitar a capitulação. Sabendo que nenhum candidato oferece alternativa, mais vale ir votar e escrever o que vai no coração naqueles papéis. Se o voto nulo, de preferência com pragas ao regime e aos políticos, ganhar, estaremos muito mais perto da ruptura com a putanocracia do que se abstendo.

Um abraço.