31 dezembro 2011

O homem, actor do destino



Documento filmográfico surpreendente que coloca uma figura histórica em presença. Retirado de Franco, ese Hombre, 25 Años de Paz, com texto e locução de Blás Piñar, não é apenas uma mera peça de propaganda. Oferece o  inédito de um Chefe de Estado colocado no centro do palco da história, agindo sob instruções do realizador, como qualquer outro actor. O actor, então caudilho de Espanha, deixa de mandar, submete-se ao papel que lhe atribuiu o realizador, deus ex machina por antonomásia. O documentário, hoje considerado uma obra-prima do cinema documental, permite também outra leitura. Os estadistas aspiram à eternidade, mas sobre eles há forças que sobrelevam a sua capacidade, pelo que saber governar é compreender a transitoriedade e olhar sempre por cima, numa perspectiva transtemporal, a vida da comunidade sobre a qual exercem a sua missão. Franco compreendeu-o. Deixou à Espanha a Monarquia, síntese do passado, agente de unidade e força para o futuro. Outros não o souberam, infelizmente para nós, Portugueses.

O mundo de hoje é diferente. A democracia, a participação cidadã e as liberdades fazem parte do clima civilizacional do nosso tempo. Quem dela se apartar não pode, decididamente, participar na vida pública. Tal não implica, porém, que se subverta a essência pela aparência, que os interesses permanentes da nação se deixem alienar pelo amadorismo, pelas paixões ideológicas, pela incompetência atrevida e pelo improviso. A Europa precisa, de novo, de grandes estadistas - de direita, como de esquerda, pouco importa - homens de missão que se entreguem por uma vida ao pesado sacrifício. 

30 dezembro 2011

Marimbo-me para o "perigo amarelo"


Andam danados com o negócio com os chineses. Quem ? Quem esperava poder lucrar com o "negócio alemão" ? Quem não sabe que a Alemanha, dona do negócio, está a 2000 km de distância e nos trata como os "pretos da Europa", quando os chineses estão a 15000 km e têm por hábito não alimentar camarilhas coloniais ? O furor vem precisamente daí. Os alemães precisam de mainatos e colaboracionistas para fazer o que realmente interessa à estratégia de Berlim. Anda por aí tanto mufana a fazer trabalhos de cozinha para os alemães, tanto Quisling e tanto vassalo dos novos Reich Protektors. Nós sabemos como chegámos a este nadir de respeitabilidade, a este grau zero da soberania, mas para eles tanto importa.

Para além da manifesta má-fé das nossas elites ditas bem-pensantes, há um quase-estupor por se haver resolvido para sempre esse escandaloso monumento ao  empreguismo de amigos, familiares e protegidos que foi a EDP. Quem me dera - para mal do interminável cortejo de patetas que nem para arrumadores de cinema serviriam - que a receita se aplicasse à PT, à Caixa Geral, ao Metropolitano de Lisboa, à TAP, à Carris, à Estradas de Portugal, à EPUL, à Docapesca, à ANA, à CP.

Não há perigo amarelo coisa alguma.Há, sim, um claro perigo alemão e um perigo europeu que foi crescendo na proporção da inépcia de quase quarenta anos de governos irresponsáveis que alienaram e nos deixaram na miserável situação em que nos encontramos. O perigo amarelo é um mito, um mito distante, um topos de literatice oitocentesca. O verdadeiro perigo está cá dentro, come-nos por dentro, vende-nos hora-a-hora, enriqueceu e transformou a sociedade portuguesa numa caricatura de futebóis, negociatas ordinárias, favores, socialites de gente vinda do nada - quem nem à mesa sabe comer - que nos empobreceu e agora, incapaz de resolver os problemas que adubou, se quer converter à viva força na elite provincial e marginal de um império sem cérebro entregue ao arbítrio de merceeiros.

Por que raio me meto em questões destas ? Eu nunca vivi de expedientes, a política não me interessa. Vejo que andam por aí os habituais sabichões das psicologias colectivas e das antropologias a escrever pérolas sobre a venalidade dos chineses, a ganância dos amarelos, o cinismo dos mongólicos, a dissimulação dos amarelos. Estranho, pois, ao longo da vida, as pessoas mais correctas, afáveis, amigas, leais e trabalhadoras que conheci eram amarelas. Aprende-se todos os dias !

29 dezembro 2011

O meu ano de 2011 terá 18 meses


O ano é uma convenção. Se me perguntassem quando começou 2011, diria que foi em Outubro do V. ano de 2010, quando iniciei a redacção da minha dissertação conducente às provas de doutoramento. 2011 terminará, pois, em Março ou Abril de 2012, quando entregar ao meu orientador o texto final de 500 páginas, 3500 horas de escrita e centenas de noites passadas em branco debruçado sobre papéis. Em Fevereiro de 2011, ou seja, o 4º mês desse ano extenso, apresentei em Bangkok um pequeno livrinho sobre o Tratado Luso-Siamês de 1820, texto que me permitiu afinar o processo de escrita e depuração da talha dourada da literatice vã. Coube ao Professor António Vasconcelos de Saldanha a árdua tarefa de me disciplinar, coisa que o fez com a máxima autoridade. Só não aprende quem não sabe obedecer e o poder esclarecido tem a vantagem de deixar semente e exemplo. No 14º mês de 2011 - que os leitores conhecem por Dezembro de 2011 - inaugurou-se na Biblioteca Nacional a exposição Das Partes do Sião, para a qual trabalhei como Comissário-adjunto do meu orientador Vasconcelos de Saldanha. Sessenta dias (e noites) redigindo o livro, catalogando, anotando, comparando, lendo e relendo aquele que - perdoem-nos a imodéstia - ficará como o melhor breviário - para o público geral, como para os investigadores - sobre as mais antigas relações entre Portugal e um Estado asiático.As pessoas gostam de criticar. Aliás, em Portugal, como um dia disse Adriano Moreira, "há pessoas que trabalham e outras que se limitam a colar rótulos". No fundo, no mundo, desde que o há, os homens dividem-se entre aqueles que acrescentam e aqueles que subtraem. No que às comemorações dos 500 anos respeita, demos o que podíamos e o que não podíamos: militância, paciência, estudo. Palavras, leva-as o vento e neste particular, salvámos a honra do convento.


É assim. Quando a vontade não verga, quando há algo que se deve fazer por honra para não se perder a face, tudo se consegue. 2011 tem sido um ano longo e sofrido, mas valeu as penas e sacrifícios. Gostaria que os meus concidadãos aprendessem a ética do sacrifício, do cumprimento da palavra dada, fossem menos ociosos, menos palavrosos e, sobretudo, mais consequentes.

28 dezembro 2011

Atracção irresistível pela fórmula monárquica ou porque as ditaduras macaqueiam a realeza



Estranho que os nossos caros confradres esquerdistas do Jugular e do 5 Dias não se tenham pronunciado ainda sobre o relevante lugar atribuído pelo regime norte-coreano aos falecidos Grande Líder e Querido Líder na história do movimento comunista mundial - considerados sobre-humanos e cujos recitativos biográficos se transformaram em hagiologias - como não façam qualquer exercício de reflexão em torno da elaborada cenografia que rodeia as exéquias, nem se dignem emitir opinião sobre uma teoria do poder cujo mecanismo de transmissão e legitimação se processa por herança familiar.

Para aqueles que sofrem de acessos de liberalismo infantil - doença que está para a direita como o esquerdismo para o comunismo - o poder deve repousar nas mãos de banqueiros. É só. É elemento de toda a evidência que o poder, para os adoradores do dinheiro e dos negócios, serve apenas para fazer "mercado"; logo, tratando-se de "negócio", a transitoriedade da liderança não deve instigar manifestações de afecto. O grave no superficialismo de alguns liberais é a manifesta incapacidade para sondarem o que de mais importante existe no jogo político e na posse do poder. Desconhecem, ou querem deixar de parte, o mistério da vontade de poder e a dimensão religiosa de qualquer concepção política. O comunismo, contraditoriamente, fê-lo e teve quase um século para montar o cenário psicológico que agora atingiu proporções finais na Coreia do Norte.

As cascatas de lágrimas de Pyongyang podem ser vistas como magnífica encenação e carpideirismo, mas são, sejamos mais sérios, documento único para os estudo e compreensão da dimensão sagrada existente em todas as formas de governo, mesmo aquelas que arrogantemente se dispuseram eliminar a religião, substituindo-a pela Utopia do paraíso para cá da morte. 
Triunfante fica, pois, a ideia monárquica segundo a qual o Rei não é dono nem Deus, mas também não é negociante, mas sim, natural e humildemente, o rosto humano da comunidade.

PS. Confesso que recebi com perplexidade exaltadas manifestações [epidérmicas] - algumas publicadas, outras cujo nível me obrigam a censurar - que evidenciam incapacidade de pensar os problemas de forma "académica", ou seja, despidos de qualquer "pistis". Este não é um blogue-seita, nem visa cruzadas; não é, decididamente, como os livrinhos da Anita.

26 dezembro 2011

O mar pertence aos Protukét

Herdeiros de uma tradição de cinco séculos, os Protukét do Sião continuam a marcar presença na sociedade tailandesa, ocupando funções que foram dos seus pais e avós no exército, na marinha, na diplomacia e na administração pública. O Comandante de Fragata Ing Saravut Dias, chefe da comunidade católica de Bangkok, director dos estaleiros navais da Marinha Real Tailandesa e credenciado engenheiro naval, lançou ao mar mais uma vedeta de intercepção de alto-mar, a T994, inteiramente concebida pelo seu gabinete de projectos. É tempo de Portugal pensar seriamente a necessidade de restabelecer relações - culturais, comerciais, científicas, tecnológicas e militares - com a Tailândia, país onde subsiste a última grande comunidade de ascendência portuguesa no Sudeste-Asiático. É tempo de procurarmos saídas para o atoleiro europeu e voltarmos, de novo, ao mar.

25 dezembro 2011

Obituário na quadra natalícia: Joahannes Heersters (1903-2011)


Contemporâneo de Marlene Dietrich, Brigitte Helm e Leni Rienfensthal, amigo de Franz Lehár e actor preferido de Hitler, Joahannes Heersters atravessou as tempestades do século XX europeu sobre os palcos ou sob os holofotes dos estúdios da velha UFA - do mudo à era da televisão - falecendo aos 108 anos de idade com o palmarés do mais velho actor no activo. Estrela do musicall da Europa de língua alemã, o holandês sobreviveu às tormentas da guerra e da polémica e transformou-se no fóssil vivo de uma Europa há muito desaparecida, sempre rodeado por vénias e aplausos, mas perseguido pelo síndroma "Leni Riefensthal". Um caso raro de longevidade e sucesso em tempo de descartáveis, lembrando que o talento, a perseverança e o trabalho tudo sobrelevam.
 
Ich werde jede Nacht von Ihnen traumen

23 dezembro 2011

O que está para além da biologia

Hisahito, futuro Imperador do Japão

O tempo passa, os homens envelhecem e a biologia faz o seu curso. Nas monarquias, os reis são eleitos todos os dias e em vez das urnas [dos votos como do luto] pulsa no coração da nação e do povo a unidade que não se discute, a liberdade que não se se questiona. Akihito prepara-se para o momento em que fechará os olhos. O Trono do Crisântemo será um dia ocupado por Hisahito, 126º de uma linha ininterrupta de imperadores. No Imperador está toda a história, toda a literatura, o teatro, a música, as artes, a língua, as instituições  de um povo. Sem eles, não há cultura, mas modas; sem eles, não há história - que é a de ontem, de hoje e de amanhã - mas apenas momentos. A monarquia é, para as sociedades e para os homens, o que a religião representa para o espírito e o pensamento para a inteligência. Só quem não compreende isto se atreve insurgir contra a necessidade biológica, social, cultural e espiritual da Restauração.

22 dezembro 2011

Portugal kim-il-sunguista ou "foi aqui que o dótór Pouco se sentou"

Rimo-nos como bijagós da ausência do sentido do ridículo nos outros, mas nesta terra povoada por descendentes de celtiberos, berberes e marranos - sempre governada a knut, sempre pronta a abocanhar a imprevidente mão do tratador - passam-se coisas espantosas - diria democrática e abrilinamente fascinantes - que deixariam de boca à banda Wells, Orwell, Virgil Gheorghiu ou Kafka. Muitos de nós têm o privilégio de, ao longo da vida de trabalho terem passado por situações horripilantes, pagando gota-a-gota o preço dessa estúpida liberdade que tão grandes amargos traz.

Lembro-me de um amigo que há anos, após dez anos de serviço numa universidadezeca - daquelas poligrupo que fizeram a fortuna de ex-sacristães e cavadores de batatas - ter sido convidado para uma reunião de urgência convocada pelo auto-proclamado reitor da mercearia de diplomas. A vítima ingénua acabara de oferecer à dita drogaria uma biblioteca que cumpria todos os requisitos exigidos pelos inspectores do ministério; formara pessoal, estabelecera política de aquisições e o cardex de assinaturas, construíra o catálogo em-linha, fizera um pouco de tudo - catalogação, indexação - sem qualquer respeito por horários, sábados, feriados, serões e noitadas caseiras. Ora, biblioteca terminada, os donos do negócio de diplomas arranjaram uma marmanja, nomearam-na bibliotecária sem lhe darem conhecimento, concederam-lhe o louvor público e puseram-no a andar.

Dias depois, a drogaria fez parecida ao desditoso amigo. Anos antes, andava por aí uma revoada de bibliotequice - todos queriam arranjar cabidela na rede de leitura pública - e pediram-lhe que ali montasse uma banca que vendesse a pataco cursos de pós-graduação em "ciências documentais". Como bibliotecário encartado, fê-lo. No terceiro ano de existência, o curso era o mais procurado pela clientela. Rendia bons cabedais, estava em franca expansão. Feito o trabalho do mouro, o lugar de direcção foi transaccionado a um tolo - homem que mal sabia assinar o nome - e o meu conhecido defenestrado.

Também conheço alguém (Mister X) que um dia se atreveu concorrer a um desses concursos ditos públicos destinados, creio, à provisão de lugar de chefia de divisão ou de direcção de serviços. Teve o infortúnio de ganhar, pois o lugar estava há muito prometido a um amigo - corrijo, um ex-camarada de partido - do presidente da instituição. A criatura passara semanas em visitas inopinadas aos seus futuros subordinados, dando-lhes lições, fazendo reparos, apresentando o grandioso plano dos amanhãs ridentes que os esperavam. Quando o resultado do concurso foi conhecido, um terremoto. O fulano que já era dirigente antes do concurso fora preterido por Mister X. Ora, aí começou um calvário que se arrastou por anos: mobbing, reuniões marcadas pela direcção sem que fosse convidado, subordinados instruídos para não frequentarem o gabinete da vítima, desprezo, silêncio, intriga e difamação. Um dia, resolveu mudar de ares, trocando a atmosfera viciada em que vivera por uma longa deslocação ao estrangeiro, de onde voltou com formação de topo no percurso académico. Ao apresentar-se, mandaram-no para um local gélido e fora-de-portas, onde vegetou submetido a uma capataz desmiolada que recebera instruções para o tratar como Mengele não tratava as suas cobaias. Assim, um fulano com obra publicada, falando fluentemente cinco línguas e longa experiência profissional, recebeu como tarefas quotidianas as de receber as malas das visitas, limpar o pó e carregar cadeiras. Ali encontrou uma antiga colega, que julgava morta, pois desaparecera sem rasto anos anos. A colega disse-lhe, como o Abade Faria a Edmont Dantès, que caíra na masmorra dos esquecidos por se haver atrevido levantar uma ténue objecção ao seu director-geral, um desses dótores Poucos que ao longo das últimas décadas se apossaram, uma a uma, das instituições deste que outrora foi um país. Soube, há pouco, que se abriram as portas dos calabouços da Junqueira após a última viradeira eleitoral e que os mortos regressaram à vida. Nós também temos, aqui dentro de portas, mil e um casos de kim-il-sunguismo. 

Um Kim Jong Il quase pacato


O esquematismo e a paixão toldam as pessoas mais razoáveis. A visão norte-americana empobreceu de forma dramática a análise das relações internacionais, forçando o alinhamento contra-natura entre o discurso de ficção gore e a decisão estratégica. Ao longo das últimas duas décadas perdeu-se, decididamente, essa elementar faculdade de análise ponderada que torna possível a abordagem compreensiva às realidades do mundo. Quem perdeu foi o Ocidente, que reduziu a caricatura grotesca tudo o que se lhe opusesse. Nunca como hoje, para nosso mal, o Ocidente esteve tão mal informado e tão incapacitado para compreender a complexidade do mundo. Incapacitado de compreender, rodeou-se de fantasmas - o "eixo do mal", "as armas de destruição massiva", "os hediondos ditadores", "o terrorismo" - que requerem cruzadas cósmicas cujo resultado é por todos conhecido.
A Coreia do Norte - assim como a Síria e o Irão - fazem as delícias do esquematismo e sobre tenebrosos recitativos de quase science fiction se vão acrescentando histórias a estórias, ao ponto de se exigir que a abordagem académica séria só seja aceite conquanto incluir adjectivação condenatória.
Ao seguir a reportagem de Kim Jong Il - fora do cenário da grande praça de Pyongyang - assalta-nos em doses iguais o ridículo de um pequeno homem rodeado de atenções que distribuiu casas (com papel higiénico e fósforos e tudo) aos aparatchik e aquilo que supomos estar por detrás do regime. É esta elementar dose de subtileza que se exige. Aquele regime deve ser pavoroso, é grotesco, o culto da personalidade que instituiu ultrapassa as mais delirantes distopias, mas não pode viver contra a vontade de toda a gente. Não haverá espaços de felicidade genuína ? É tudo propaganda ? É tudo encenado ? Se assim é, como pode um país a morrer à fome suportar o intolerável jugo de facínoras ao longo de quase setenta anos ? Que mistério é esse ?
A Coreia do Norte vive no nosso tempo uma utopia totalitária à 1930, um modelo congelado que subsiste, mas que não é - não as há - uma máquina do tempo. O medo que nos inspira advém simplesmente do facto de se apresentar como uma possibilidade alternativa ao nosso mundo, à nossa maneira de viver, às nossas aspirações e valores. Imagine-se o Camboja de Pol Pot se este não tivesse caído em 1979 e o seu jugo se tivesse prolongado por décadas até aos dias de hoje. A visão de cidades desertas de gente, na acepção de pessoas, tal como as entendemos, enche-nos de medo. Tudo o que rodeia a Coreia do Norte acciona medos e automatiza o estupor. Porém, o totalitarismo, ao invés de ter os dias contados, pode ter um futuro promissor. Há quem diga que o mundo, ao invés de marchar para aquilo a que chamamos de liberdade, poder aproximar-se lentamente de formas mais ou menos explícitas de totalitarismo. Aliás, nunca como hoje, foi tão grande o arsenal de meios de condicionamento e manipulação. Há quem se atreva perguntar se, também nós, não estaremos já a viver uma forma benigna de totalitarismo mascarado.

20 dezembro 2011

Delagoa Bay: viagem ao princípio da memória

Um surpreendente blogue de Manuel Botelho de Mello que nos conta a história de Moçambique, dos velhos dourados dias às tragédias que calamos. Surpreendido, também, por ali encontrar os meus familiares.Um Portugal que acabou. Nós também tivemos a nossa Shoah !

Os meus avós maternos, 1931

Tias-avós, anos 40

Bisavó paterna, anos 40

Felizmente não existo


Júris, votações e concursos já pouco me dizem, pois de experiência própria há muito abandonei a cândida ilusão de viver entre gente honesta, inacessível à corrupção, ao favor imerecido e ao mais estreito tribalismo. Num país dominado por pequenas panelinhas e onde, do porteiro ao presidente, tudo está arranjado, não é de espantar que até na blogosfera o grupismo, o comensalismo e a pernada se substituam à emulação da pena. Leio de quando em vez blogues - há coisas bem mais importantes sob o sol - e ainda me espanto com a mediocridade, o analfabetismo, por vezes roncante, outras vezes afectado, dos candidatos a tribunos da plebe, da burguesia da "direita social" e até da estupidez inteligente da intelectualite.
O Combate de Blogues, coisa inventada para dar cabidela a candidatos ao opiniarismo à Marcelo, à Medina Carreira ou à Sousa Tavares - sem graça e com atrevimentos acnosos de adolescente - esquece-se de blogues de ideias, onde diariamente se exercitam a graça culta, a provocação inteligente, se formam e informam leitores. Esses não interessam. O que importa é copiar a Lusa ou a triste crónica da politiquice trampolineira de S. Bento. 
Vivemos num tempo medíocre, de medíocres e para medíocres.

Tribunal Criminal Internacional para governantes iranianos


Reza Pahlavi, anteontem.

19 dezembro 2011

18 dezembro 2011

Goa, 1961: aqueles que souberam morrer e aqueles que não os seguiram


José Manuel Catalão Oliveira e Carmo, o último herói da Índia

Faz hoje 50 anos que a Índia, abjurando a sua propalada não-violência, invadiu o Estado Português da Índia. Um acto injustificável à luz do Direito Internacional, devidamente sancionado pelo Tribunal de Haia, lembrando aos ingénuos que o direito da força raramente se submete à força do Direito e que a moral que rege o comportamento dos Estados é coisa que a polemologia arruma no canto extremo e invisível da prateleira da vontade de poder.
A Índia Portuguesa era, desde o século XVI, a mais apurada expressão da presença de Portugal no mundo. Não era uma colónia, mas um Estado; os seus habitantes não eram nem colonos nem colonizados: eram cidadãos de pleno direito e os seus filhos, nos tempos de glória como nos do ocaso estiveram presentes em todos os actos marcantes da vida portuguesa: nas letras e nas artes, na ciência, no ensino, na administração, na missionação ou ao serviço de Marte.
Em Goa estava a sede do Padroado Português, como repousa ainda, no sarcófago de prata o Apóstolo das Índias. Os Vice-Reis e, depois, os Governadores-Gerais, confirmavam a investidura recebendo da imagem de S. Francisco Xavier o bastão de comando. A Índia Portuguesa era, contrariando a lenda negra e a novena de mantras da propaganda, um dos mais progressivos rincões do sub-continente indiano.
"De facto, quem percorre a Índia Britânica e, pondo de lado meia dúzia de cidades modernas, se interne nos centros nativos, nas populações rurais, chega necessariamente a esta conclusão: a Índia está hoje no mesmo estado de há mil anos! As aldeias, o povo, a mentalidade, os usos, os costumes continuam na mesma. Falta a higiene, a pior das misérias, atraso, ao passo que as nossas aldeias respiram certo bem-estar e o nosso povo vive uma vida incomparavelmente superior, sob todos os aspectos, à da população nativa da Índia inglesa"(1).
A actividade cultural que se desenvolvia em língua portuguesa na Índia britânica era motivo de grande orgulho e a animação tocava a investigação histórica, a crónica política e até produção literária e ensaística. O Investigador Portuguez em Bombaim, nos anos da década de 1830, O Echo de Bombaim, editado por uma Press Mercantil na década de 1860, deram corpo à necessidade de criar centros destinados a públicos mais exigentes e cultos. Assim nasceram o Instituto de Educação Portuguesa (1855) e em 1902, o Real Instituto Luso-Indiano. Os mais de vinte mil indo-portugueses recenseados em Bombaim em 1881 eram vinte cinco mil em 1915 e na véspera da Segunda Guerra abeirava-se a comunidade da meia centena de milhar. Em Bombaim, grande metrópole do Índico, na mudança do século XIX para o século XX havia 341 clubes goeses, com catorze mil associados, dos quais mil e quatrocentos eram homens ligados a actividades do mar. Para eles havia tipografias editando em português, escolas e igrejas. Um jornal em língua inglesa - Our Nation - gozava de grande autoridade e as paróquias editavam profusamente livros, folhetos, jornais e pagelas. A proeminência deste grupo não se prendia, apenas, com a inclinação para as humanidades e para as ciências jurídicas. Um dos mais afamados médicos-cirurgiões oftalmologistas no Império britânico era o Dr. Acácio da Gama (1845-1902). Nascido em Goa, formara-se no Medical College e na Universidade de Bombaim. A sua entrega aos mais pobres e o trabalho que desenvolveu nos bairros católicos valeram-lhe a outorga pelo Rei de Portugal do colar da Ordem de Cristo e eleição para a direcção da selectiva British Medical Association. Portugal na Índia era, indiscutivelmente, um caso de sucesso.
Depois, vieram os "ventos da história", crença que fez escola e não passa disso mesmo, de uma crença. Portugal tinha de sair, mesmo que saísse contra a vontade da população que era portuguesa e portuguesa queria permanecer. A prová-lo, o facto de após a invasão, abandonando as suas casas, haveres, laços, empregos e a terra onde haviam nascido os pais dos seus avós, trinta mil indo-portugueses se terem recusado ficar em terra onde ondulava outra bandeira que não a portuguesa. A saída dos indo-portugueses foi um referendo com os pés ao abuso e à arbitrariedade da invasão.
As ordens que vieram de Lisboa eram precisas. Sair, só empurrados. Os militares, mais que os paisanos, compreendem ou devem compreender o que significa o sacrifício derradeiro que lhes exige a carreira que voluntariamente abraçaram. Oliveira e Carmo compreendeu-o. Sacrificou-se pela honra e foi militar. Os outros, aqueles que pensaram quando não deviam pensar, que não cumpriram quando deviam cumprir, que partiram as espadas quando as deviam empunhar, que deitaram ao chão a bandeira quando a deviam levantar bem alto; esses, não foram militares. Há quem pense, erradamente, que os actos inúteis devem ser evitados. Errado, o acto inútil pode assumir transcendente significado. No caso de Goa, a Índia portou-se miseravelmente, Oliveira e Carmo cumpriu e não vacilou, como não vacilaram os goeses portugueses que deixaram tudo para serem dignos da sua condição de cidadãos - que reclamam direitos, mas têm deveres - e os outros, aqueles que se renderam à lógica, os pragmáticos que racionalizam, os homens dos afectos e da lágrima sentimentalóide, esses perderam. É tudo.

(1) Relatório do Patriarca de Goa, D. José da Costa Nunes, para o Governador-Geral da Índia Portuguesa, 1943, in Presença de Portugal mo mundo, Lisboa, Academia Portuguesa de História, 1982, p. 476.

17 dezembro 2011

Pródromos da nossa desgraça: Jó-Jó Papa-Prémios no tempo do comuno-terrorismo


Antes do spa da SPA, a barba de três dias, quando do PC ainda pingava e o PS era "reacção a abater". Caminhos de uma geração que nos trouxe à boca da fome.

16 dezembro 2011

Pétain: 60 anos depois


Pétain em Paris, em Abril de 1944



A amnésia voluntária, o cinismo, o mascaramento e a manipulação da verdade histórica são instrumentos do exercício do poder e da luta política. Contudo, se impostos como limite ao conhecimento e dogmaticamente se substituem às fontes da verdade, transformam a historiografia numa pseudo-ciência ou, pior, em mera propaganda. A França comemorou este ano, de forma discreta mas não isenta de debate, 60 anos sobre o passamento do Marechal de França Filipe Pétain.

A figura do velho cabo de guerra, o único grande militar gaulês do século XX, vencedor de Verdun e salvador da França, surge envolta em mistério. A França reivindicou quinhão relevante da vitória de 1918 graças a Pétain. Contudo, em 1945, condenou-o à indignidade civil, retirou-lhe todos os direitos de cidadania, confinando-o a uma cela, onde morreria nonagenário e marcado com o ferrete de traidor. Terá sido ?

Não, Pétain ascendeu à chefia do Estado através dos mecanismos extraordinários inscritos na Constituição da III República. Em Julho de 1940, recebeu da Assembleia Nacional e do Senado - em votação absolutamente democrática na qual participaram quase todos os representantes do povo francês - 87% dos votos que decidiram a sua elevação à chefia do Estado, conferindo-lhe plenos poderes para negociar com os alemães um tratado de paz, que Hitler nunca quis discutir. Apoiaram-no deputados do SFIO (socialistas), da Gauche Démocratique (radicais socialistas), da Federação Republicana, do Partido Comunista, da União Democrática, do Partido de Unidade Proletária, dos Republicanos Independentes.

O Apelo de 18 de Julho, feito por de Gaulle a partir de Londres, não foi, decididamente ouvido nem pelos representantes do povo francês, nem pela maioria da população. Há um grande mito em torno do apelo do quase desconhecido de Gaulle, texto mítico que foi sucessivamente alterado, como também mítica foi a liderança daquele a que os americanos chamavam de "candidato dos ingleses a ditador da França".

A atestar a legitimidade reconhecida do regime dito de Vichy, o facto deste haver mantido relações diplomáticas normais com a URSS até 1941, dos EUA terem mantido embaixador junto do governo de Pétain até Outubro de 1942, assim como o Canadá (Novembro de 1942) e a Austrália (1944). A luta dos "Franceses Livres"(de Gaulle) com a "França Livre" (Pétain) surgia claramente aos olhos da diplomacia internacional como uma guerra civil e não como um capítulo da guerra global.

Depois, a popularidade. Para a maioria dos franceses, Pétain era por antonomásia o nome do orgulho francês. Até aos últimos dias da sua presença na chefia do Estado, recebeu os maiores banhos de multidão de que há memória na história francesa contemporânea. Foi uma força teimosa que se opôs aos ultras fascistas da colaboração rastejante, foi um dique aos abusos dos alemães, deu alento e esperança quando não havia vislumbre de futuro numa Europa que Hitler queria sem voz e sujeita à bota alemã. Pétain foi ainda mais: percebeu que a vitória de qualquer dos beligerantes (dos Aliados como do Eixo) ofereceria condições para o colapso da Europa, com vantagem para o comunismo (URSS) e para os EUA, dois poderes exteriores à Europa. A sua atitude surgia, de manifesto, muito próxima da de Salazar: no conflito entre a Alemanha e a Grã-Bretanha eram neutrais; no conflito entre soviéticos e alemães preferiam a vitória alemã e no Extremo Oriente eram claramente favoráveis aos Aliados.

O processo de Pétain e os enxovalhos a que o submeteram parece não terem tido grande efeito junto dos franceses. Quando, alquebrado e surdo, entrava na sala do tribunal onde decorria a abjecta farsa legal, as pessoas levantavam-se, os policias prestavam-lhe continência e na rua pessoas choravam de indignação e revolta. Pétain foi o bode expiatório, mas foi, sobretudo, a moeda de troca de de Gaulle no conflituoso entendimento que este teve de selar com os comunistas; o herói trocado pelo falso herói nos arranjos conducentes à França do pós-guerra. O velho senhor transpirava respeitabilidade por todos os poros; o novo dono da vida francesa, esse, traiu tudo e todos e foi, de facto, o coveiro da grandeza francesa.

14 dezembro 2011

Luso-thais evocam passado

Foi na passada quarta-feira, na paróquia da Imaculada Conceição de Bangkok. A comunidade luso-descendente de Bangkok prestou tributo aos seus mortos, depondo no cemitério de Sam Sen uma coroa de flores ostentando as bandeiras portuguesa e tailandesa. As cerimónias foram cuidadosamente preparadas e animadas pelo chefe da comunidade, o Comandante Saravut Wongngernyuang Dias, Director-Geral dos estaleiros e doca da Marinha Real Tailandesa, em cujas veias corre o sangue de doze gerações de Protukét luso-thais.

Seguiu-se procissão pelas ruas de um dos últimos bandéis portugueses existentes na Ásia. Uma missa solene de graças encheu por completo o recinto fronteiro à igreja e foi rezada missa presidida pelo Bispo de Bangkok. É tempo de, nas Necessidades, alguém se interessar pela defesa de Portugal no Sião e garantir a esta população fidelíssima o apoio logístico mínimo para se preserve no Sudeste-Asiático a ideia de um Portugal para além dos mares e das fronteiras. Faz falta um professor primário de língua portuguesa que ensine às crianças o nosso idioma; faz falta uma aula semanal de história e cultura portuguesa; faz falta, quiçá, um jovem missionário ou uma religiosa que trabalhe nas duas escolas primárias da paróquia. Faz falta, isso sim, um pingo de respeito por aqueles que, longe, se sentem portugueses.

13 dezembro 2011

Amanhã, 4º feira, Das Partes do Sião na Antena 2 da RDP

Amanhã, entre as 9 e as 10 da manhã na Antena 2 da RDP, programa dedicado à exposição Das Partes do Sião, agora patente na Biblioteca Nacional. Para os interessados informa-se que todas as sextas-feiras, entre as 16 e as 17 horas, terão lugar visitas guiadas, sujeitas a marcação prévia através do email rel_publicas@bnportugal.pt ou telefonema para Relações Públicas da BNP.

11 dezembro 2011

Descoberta a maior colecção portuguesa de fotografias sobre o Sião

Foi há uma semana. Dávamos os últimos retoques na exposição Das Partes do Sião, quando recebi um telefonema da minha irmã Ângela Camila: "Miguel, estás sentado ? Acho que descobrimos o El Dorado da fotografia portuguesa no Sião". Lá fomos em correria ver o achado, discutir o negócio e arranjar os cabedais para adquirir o tesouro. E que tesouro ! Cinquenta albuminas, de 1860 a 1905, assinadas por Francisco Chit e Joaquim António, dois "artistas de luz" que marcaram profundamente a história da fotografia no Sudeste-Asiático e integram hoje qualquer trabalho sobre a história contemporânea daquela região do planeta.
De cortar a respiração: fotos de estúdio, com os reis, os príncipes, os governadores de Macau de visita a Bangkok, os cônsules de Portugal, os membros da comunidade portuguesa na capital do Sião, os protegidos chineses registados na legação, vistas de Bangkok, dos seus templos e palácios; um eloquente desfilar de grandes mortos, pequenos protagonistas e ilustres desconhecidos. Fotos anotadas a lápis no verso, com preciosa informação sobre o local, data e figurantes.
Falei com o Professor António Vasconcelos Saldanha e este pediu de imediato que incluíssemos duas ou três peças na exposição. Lá estão: o retrato do Rei Chulalongkorn no dia da coroação, por Francisco Chit; a Orquestra Filarmónica de Bangkok, constituída por portugueses, que fez brado por aquelas paragens no virar do século; um friso de Protegidos Chinas em frente do Consulado-Geral de Portugal, por Joaquim António.
Os fotógrafos - Francisco e Joaquim - também revelam traços de carácter. Francisco Chit era um homem cheio de talento, mas foi toda a vida um funcionário do Rei. Discreto, quase invisível por detrás da câmara, servindo com modéstia o seu senhor; um ausente-presente na grande obra que deixou.
Joaquim António, esse, era um homem cheio de expediente e atrevimento. Não havia foto de grupo onde não quisesse pousar, sempre de charuto semi-fumado numa mão, panamá de palha na cabeça, oculinhos redondos fundo-de-garrafa, fato janota. Sabia fazer carreira e convidava-se.
A colecção merece um álbum e estudo detalhado. Talvez para 2012, quando defender e publicar a tese desinquietarei alguma editora para revelar o filão agora desenterrado.
Como disse Teresa de Saldanha, "há sempre um milagre". A quem o diz.

Náusea ou "livre, sem lóbi, seita, loja, templo e partido, absolutamente indisponível para entrar em camarilhas, carregar malas e fazer de mainato"


O país, ontem como hoje, aguardando a comoção profunda do imprevisível. Sente-se no ar que algo acabou, mas não se sabe ainda o que está para vir. Já ninguém dá a cara por algo que dentro em pouco poderá comprometer. Lisboa continua, tristonha mas orgulhosa, a mostrar a estrangeiros as grandezas de um passado morto. Ontem passeei pela baixa e de um estrangeiro, deslumbrado com a vista de Santa Justa, a certeira punhalada: "vocês já foram tão grandes. Como puderam descer tão baixo ?"

Apetecia-me ter-lhe respondido com um comboio de nomes: Vasco Gonçalves, Otelo, Rosa Coutinho, Cunhal, Manuel Alegre, Mário Soares, Freitas, Sá Carneiro, Pintassilgo, Cavaco, Guterres, Sampaio, Barroso, Sócrates, CGTP, UGT, SUV's, RGA's, PREC, bancos e seitas, camarilhas e lóbis. Ele não compreenderia. Calei-me e senti que se não se fizer agora, amanhã não teremos mais que passado. No fundo, sinto-me feliz por não dever favor algum, de me ter transformado num estrangeiro no meu próprio país, ter assistido a todos os ultrajes e me manter fora de capelinhas. Como disse há dias a algumas amigas minhas, "mon pays me fait mal", após pagar 2000 Euros do meu bolso para garantir o sucesso de uma actividade que o Estado não pode pagar - tão falido anda - e receber de um dirigente do Estado a seguinte cuspidela: "encheram isto e agora temos de deitar todo este lixo fora". O "lixo" era, tão só, comida !

Como 98% dos meus concidadãos, só peço uma coisa, tão pequena que se escreve com meia dúzia de letras: justiça. Faz falta uma revolução - de Maio, de Junho ou de Janeiro - que varra o pântano e premeie o trabalho, o sacrifício e o patriotismo. Tudo o mais são teorias, modelos, retóricas.


Lisboa; Domingos Marques, Revolução de Maio (1937)

09 dezembro 2011

Pour le plaisir du Roi




Para o acto de inauguração da exposição Das Partes do Sião, agora patente na Biblioteca Nacional, foi servida uma refeição tailandesa. Os oito empregados tailandeses, sabendo ser Dom Duarte de Bragança o Chefe da Casa Real e pretendente ao Trono de Portugal, ficaram entusiasmadíssimos e deram mostras da maior exultação, servindo-o com todas as provas da etiqueta siamesa. Como manda a educação, falaram-lhe sempre com as mãos juntas, à maneira de prece, tal como o fariam com o seu Rei. Que falta nos faz uma monarquia neste tempo de trevas !

08 dezembro 2011

500 anos de relações luso-tailandesas: missão cumprida



Com a presença de quase duas centenas de convidados e de personalidades (General Rocha Vieira, em representação do Chefe de Estado; SAR, o Senhor Dom Duarte de Bragança; Embaixador da Tailândia em Portugal; Professor Pedro Dias, Director-Geral da Biblioteca Nacional de Portugal; Secretário Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros; representantes das administrações das fundações Calouste Gulbenkian e Oriente; dois antigos embaixadores de Portugal na Tailândia, José Eduardo de Mello Gouveia e António de Faria e Maya; directores dos grandes arquivos portugueses; bem como deputados, políticos, professores universitários e académicos), teve ontem lugar na Biblioteca Nacional a inauguração da exposição Das Partes do Sião.

Carta de Albuquerque informando o Rei D. Manuel I das diligências efectuadas para o envio da primeira missão diplomática portuguesa ao Sião

Trata-se, com a modéstia de escala que a situação dramática que todos vivemos exige, de um grande acontecimento cultural e patriótico, como ficou, aliás, patente nas palavras dos oradores. A expressão de grandeza que faz falta aos tempos que correm, a exibição pública e sem rebuço de incontido orgulho, a natural vocação de Portugal para o mundo, a permanência do nosso nome além-fronteiras, eis a intenção deste acto de patriotismo científico, que não ofusca a verdade histórica, não ofende o brio académico nem situa as relações de portugal com o velho Sião num plano de mera evocação. Ontem, naquele grande edifício no Campo grande, duas centenas de portugueses e tailandeses rememoraram os passos de uma caminhada comum que perdura há meio milénio; sem dúvida, um exemplo que devia servir a todos quantos, pela paz e no respeito pelas diferenças, exigem um mundo livre de agressão.
Ali estão as grandes crónicas reais e das ordens religiosas. Ali estão os instrumentos diplomáticos, os documentos de chancelaria, os mapas, as cartas ânuas, os testemunhos de outros europeus sobre o carácter único das relações entre os portugueses e os siameses, as manifestações do assentamento de bandéis de portugueses no Sião. Ali estão, também, as glórias da literatura, do estro de Camões ao picaresco de Mendes Pinto.


As vitrinas sucedem-se. Século XVI, as primícias da aliança. Século XVII, a consolidação, as vicissitudes da interferência francesa. Século XVIII, a tragédia da tomada, saque e destruição de Ayutthaya, a fuga dos portugueses e seu estabelecimento em Thonburi. Século XIX, a renovação das relações Estado-a-Estado. Século XX, a preservação da memória.



Grande uniforme, com Grã-Cruz de cavaleiro da Ordem do Elefante Branco, máxima condecoração tailandesa, pertencentes ao Embaixador Mello Gouveia


Mas há uma dimensão humana, sofrida e tenaz: a dos portugueses que se fixaram no Sião e ali, fugidos de guerras e ameaças, refizeram as suas vidas e se fizeram leais servidores dos Reis siameses, sem nunca abandonarem a fé católica e a lembrança da pedatura portuguesa. Os testamentos, os votos, as orações e a resistência aos padres franceses, as batalhas onde derramaram o sangue; uma história que merece ser conhecida, um capítulo infelizmente pouco estudado desse Império Invisível que se manteve na Ásia e ainda persiste em alguns bairros católicos da actual megalópole de Bangkok.


E porque não há povo sem Reis, nem cultura sem história, as visitas reais de Chulalongkorn e Rama IX a Lisboa, em 1897 e 1960, atestando a permanente atenção dos soberanos thai pela velha aliança com o país do extremo Ocidente, o país do Portugueses.





Há coisas que não deixamos - não podemos deixar - que outros as façam. Uma dessas é, sem discussões, o de cumprir uma missão que se nos exigia enquanto povo neste ano dos 500 anos de celebrações. Fizemo-lo, quase sem meios, lembrando a velha e sempre nova expressão do Padre António Vieira, segundo a qual "os portugueses fazem o que podem; Portugal faz o que costuma". Os amigos, a família, os colegas, estiveram lá todos. Gratos ficámos pela presença de SAR, o Senhor Dom Duarte, dos primeiros a chegar e dos últimos a partir, que nos alentou na expressão da sua consabida simpatia, humanidade e serviço a todas as causas que honram o nome de Portugal.

Inauguração exposição "Das Partes do Sião"

05 dezembro 2011

Das Partes do Sião, quarta-feira, 7 de Dezembro, na Biblioteca Nacional


É já na quarta-feira, pelas 18 horas que abre ao público na Biblioteca Nacional de Portugal às 18 horas a exposição Das Partes do Sião, comemorando os 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia. Organizada pela Secretaria de Estado da Cultura /Biblioteca Nacional e pelo Instituto do Oriente, a exposição é servida por uma catálogo de 130 páginas que permite ao leitor percorrer o longo caminho das relações entre portugueses e thais nos diversos testemunhos dessa relação única nos anais da história das relações internacionais. Tratados, cartas de Albuquerque e dos Vice-Reis da Índia, cartografia, plantas de Ayutthaya, cartas e crónicas de missionários, fotografias, litografias e retratos dos mais representativos protagonistas da história luso-siamesa, reunindo peças da Biblioteca Nacional de França, Missões Estrangeiras de Paris, Biblioteca da Missão Jesuíta de Portugal, da Torre do Tombo, do Arquivo Histórico Ultramarino, da Biblioteca Nacional de Portugal, da Sociedade de Geografia e de colecções particulares; eis o resultado de meses de infatigável trabalho realizado pelo Professor António Vasconcelos de Saldanha e por mim, que não deixou de receber o apoio do MNE.

Não se trata apenas de um catálogo, mas de uma antologia de textos relevantes dessas relações, com notas biográficas e de contextualização, instrumento que passa a ser de referência para estudiosos e para curiosos. Passar das anedotas e das curiosidades a uma visão integradora, sem deixar de apontar os mais representativos textos da historiografia portuguesa, do século XIX à actualidade.

O livro de apoio pretende, também, abrir novas linhas de investigação, dando especial ênfase à acção continuada da minoria católica luso-thai, do bandel de Ayutthaya aos bairros católicos de Bangkok, revelando fotos inéditas de Joaquim António e Francisco Chit, portugueses que fizeram da arte da fotografia um dos mais preciosos testemunhos do Sião da segunda metade do século XIX.

Igualmente, o percurso extraordinário de portugueses de Macau que se instalaram no Sião no segundo quartel de Oitocentos e cujos filhos alcançaram lugares de grande influência na administração e no Estado durante os reinados de Rama III, Rama IV, Rama V e Rama VI.

04 dezembro 2011

Grandeza de que o mundo precisa


Em Bangkok, 84º aniversário do Rei Bumiphol, Rama IX, o Grande, ou simplesmente Pai. Amanhã, em Lisboa, cerimónia organizada pela embaixada da Tailândia em Portugal. Na quarta-feira, dia 7, na Biblioteca Nacional de Portugal, inauguração pelas 18 horas de grande exposição "Das Partes do Sião" comemorativa de meio milénio de relações entre Portugal e a Tailândia.

02 dezembro 2011

Os estripadores de Lisboa



E os estripadores de bancos, de universidades, de empresas públicas, de câmaras municipais, mais os estranguladores económicos, os lenocidas culturais, os carteiristas do erário público, os bolinadores de cargos públicos, os trombadinhas das redes partidocráticas ? E os crimes continuados contra a nação, o bem-comum, contra o Estado, o património histórico ? Nada disso interessa à Judiciária, às comissões parlamentares, às altas autoridades, aos observatórios ?

01 dezembro 2011

O "nós" que quer dizer "somos livres"

A república do Prakistamos


Mário Soares disse ontem na TVI que acabámos de viver anos grandiosos de abastança, felicidade, criatividade artística e científica e reconhecimento internacional. Não fosse o trágico da situação em que nos encontramos - nunca tantos portugueses se viram forçados a fugir, literalmente, do país; nunca tantos sofreram processo semelhante de empobrecimento; nunca o nome de Portugal se viu tão diminuído e ridicularizado, chegando a hora de nos colocarmos às mãos de um triunvirato de estrangeiros - e as palavras alucinadas do velho prestidigitador apenas encontrariam desdém, indiferença e pasmo.
A verdade é que, antes, o país tinha passado, presente e futuro. Hoje, o presente é de chumbo, o passado perdeu ponto de aplicação e o futuro está barrado. Honestamente, não creio que Passos Coelho consiga ultrapassar a tormenta. O problema não é tanto de natureza financeira, mas de regime, de elite e atitude. Nunca em momento algum do passado fomos tão mal governados e comandados, nunca como hoje a acção governativa se viu tão reduzida e tão vazios os corações.
No passado, em momentos de depressão, ainda havia um Sá da Bandeira, um Herculano ou um Garrett - todos "homens de esquerda", para acentuar o reservado do diagnóstico - e o país possuía uma reserva de gente disposta a sacrifícios.
Os "anos dourados" a que aludia Soares mataram a elite, encanalharam o povo, mataram o patriotismo sem o qual a existência colectiva perde sentido. Como sempre, os processos longos da história não são apercebidos. Esperámos 100 anos (ou 37, pouco importa) e o veredicto caiu implacável sobre as cabeças de duas ou três gerações que nos torturaram ao limite com mentiras e crenças que, saltava à vista, eram piedosas mentiras ou manifestas provas de ódio a Portugal. Ora, um país não pode ser governando por quem o odeia.
Solução ? Só uma. A monarquia. Só essa ruptura permitiria reencontrar o elo perdido e devolver aos portugueses a honra de o serem. Sem ela, não há futuro. É tempo de lutar pela nossa descolonização.

30 novembro 2011

A "questão do carro"

Mota Soares trocou a lambreta pelo espada. Quem critica ? Quem se enche de zelos pinamaniqueiros ? Quem se eriça, brada e acusa ? Ora, Mota Soares não precisa do Estado para ter um carro daqueles. A família onde nasceu mecanizou-se no início do século XX e, mais Mercedes, menos Audi, não é por um carro que se vai esganiçar. Quem se exalta com um monte de lata montada sobre quatro pneus é gente outra; gentuça que se julga ter feito gente pelas artes do trepadorismo que fez do regime uma escola de vícios e privilégios imerecidos.

Se eu fosse Mota Soares não queria a carripana para nada. Um exemplo ? Sem dúvida, sobretudo para os ex-pés-rapados que se julgam gente quando transportados em carroças "topo de gama".

28 novembro 2011

Fados

Xaile encarnado, Agora que nada somos, Contigo fica o engano, Fado da mentira

27 novembro 2011

No dia 7, na Biblioteca Nacional: convite


É já no próximo dia 7 de Dezembro, pelas 18 horas - com danças e comidas tailandesas - que terá lugar o acto público por ocasião da inauguração da exposição Das Partes do Sião, momento alto em Lisboa das celebrações dos 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia. Ocasião única para seguir a trajectória das relações entre os dois países nos mais de cem documentos expostos - das cartas de Albuquerque ao Atlas de Fernão Vaz Dourado, dos tratados e convenções à literatura e à fotografia - para a exposição foi concebido catálogo ilustrado com 130 páginas, precedido por estudos.
Comissariada pelo Professor António Vasconcelos de Saldanha, coadjuvado por mim, Das Partes do Sião nasce da reunião de esforços entre a Biblioteca Nacional de Portugal e o Instituto do Oriente da Universidade Técnica de Lisboa, merecendo precioso apoio do MNE e de relevantes instituições (Sociedade de Geografia, Arquivo Histórico Ultramarino, Torre do Tombo, Brotéria, Biblioteca da Ajuda, Biblioteca Nacional de França, Arquivo de Macau, Arquivo Histórico do MNE). A vida faz-se caminhando. Não parar, nunca.
Estão, pois, os leitores e amigos deste blogue convidados para o evento.

25 novembro 2011

Um furacão chamado Jacques Pauwels



Jacques Pauwels, um dos mais carismáticos historiadores do nosso tempo, está a criar furor com a abordagem desinibida e herética a temas até hoje considerados intocáveis. Ouçamo-lo, suspendendo reacções epidérmicas. Uma lição magistral.
Ouvindo Pacheco Pereira na Quadratura do Círculo, diria que "uma vez comunista, comunista para toda a vida". Para agradar aos dois profissionais do protesto, o Silva e o Proença - cada vez mais rotundos, cada vez mais patéticos lembrando o imenso vazio dessa coisa em que se transformou o sindicalismo - ali debitou em meia dúzia de minutos os tropos da mais retinta retórica anti-constitucional, não deixando de fazer os rapapés ao PC, deixar os saguates aos "camponeses alentejanos" e até genuflectir perante o mito (anti-democrático) da "indignação" daqueles que se encontram "à margem dos partidos". Terminou com um ataque ao Primeiro-Ministro. Perante coisas destas, só posso dar razão retrospectiva aos Basílios Teles e aos Joões Franco.
Isto não sai, decididamente, do pântano do bota-abaixo, das micro-invejas, das "pequenas vaidades irritadas e irritantes" (Camilo) de uma certa gente formada na escola do agit prop e do descarrilamento de comboios. A geração de Pacheco não presta, comprovadamente.

24 novembro 2011

Um gostinho de PREC

Piquetes dando caça aos "amarelos", cocktails molotov arremessados contra repartições públicas, não acatamento dos serviços mínimos, três práticas associadas aos profissionais do sindicalismo e do protesto, lembrando o mito soreliano da greve geral que fez história no chamado "sindicalismo revolucionário".

Um gostinho de PREC - o poder da rua - que faz tábua-rasa dos resultados eleitorais, demonstrando que para essa gente a legitimidade das urnas não existe e que se mantém intocado o desdém pela democracia. No fundo, esta "greve geral" é a greve dos insustentáveis privilégios de uma certa "consciência europeia" que persiste. Quem faz greve ? Os não-produtivos, o emprego e não o trabalho, o Estado e não as empresas que lhes pagam mordomias incompatíveis com a aldeia global dos direitos de que se dizem defensores.

O primeiro PREC deixou exangue o doente, um doente que crescia 10% ao ano. Um segundo PREC seria a morte certa.

Bilderberg/Goldman Sachs tomoram o poder em Itália

23 novembro 2011

A mãe judia do fascismo



Margherita Sarfatti, uma das mais brilhantes intelectuais do início do século XX italiano. Jurista de formação, literata, salloniere e mecenas de artistas, socialista anti-marxista e moderna, foi amante de Mussolini e coube-lhe formar o jovem político e agitador. Uma biografia proibida, lembrando a origem socialista do fascismo. Uma leitura esclarecedora em tempo de crise moral do liberalismo.


La canzone dell’Africa

22 novembro 2011

O gajame



São umas grandes senhoras. Ocupam lugares que não merecem, fizeram da lei uma anedota, cobriram as mais elementares virtudes de irrisão. De que vale trabalhar, cumprir e esgotar-se em canseiras se tudo está nas mãos "delas", se tudo depende do nihil obstat de gente que nunca teve um assomo de energia mental, que nunca se submeteu à lei, que viciou todas as regras, que escorraçou a concorrência e ainda exige que os dalit (intocáveis, sem casta) se lhes submetam naturalmente ?

O clube delas está cheio. Não entra ninguém. "Queres ser ministra ? Então, escolhe". "Queres ser diplomata ? Olha, abriu um concurso público e entras". "Queres ir para Bruxelas ? Criamos um lugar para ti". Há sempres criados ao dispor. Há sempre um moço de fretes para carregar a mala. Há sempre um mujique de faixa de couro à cintura para arrastar a barca. O gado humano - hominum pecudumque - que se arraste no seu pequeno mundo, se entretenha e viva na escala do micrómegas.

O gajame tem de tudo. Meninas parvas, com nomes de família: que importância se dá em Portugal a uma qualquer menina tonta se for uma Sousa e Melo, uma Godinho da Silveira, uma Pereira de Castro, mesmo que tudo isso não passe de nomes de mercearia ou de tratantes de escravos da costa de África. As meninas estão por todo o lado. Basta que saibam falar na criada, na República Dominicana ou nos negócios do cara-metade (o Diogo, o Martim, o Cristovão) para fazer carreira. Depois, há as Cátias, as Vanessas, as Sónias saídas da obscuridade. Querem fazer dinheiro, querem poder e subiram em anos aquilo que antes exigia umas quatro gerações.

Dizia-me uma amiga que já não tenta. Esgotou-se. Rendeu-se à evidência e submeteu-se à lei de bronze das meninas patetas pintadas de louro e das mulheres-homem de buço e saia-saco e saia-casaco que se entranharam nas instituições como piolhos num sobretudo.

20 novembro 2011

Uma quase libertação


Acabou a desgovernação do PSOE. Pela segunda vez em três décadas, os socialistas abandonam a Moncloa com a Espanha à beira da bancarrota, 23% de desempregados, a maior inflação da zona Euro. Zapatero foi uma praga e conseguiu a proeza de ultrapassar o desastre de Gonzalez. À corrupção do antigo líder somou uma persistente, teimosa e quase suicida tentação de semear o caos e ressuscitar velhos ódios. É evidente que este governo do PSOE tinha por objectivo inconfessável a diminuição da instituição monárquica. A rua - esse grande teatro das multidões - disse-lhe que não. Não querendo assumir as responsabilidades, Zapatero desapareceu.
Ganhou o PP. Sabe-se que o PP é pouco mais que nada: burguesia desmiolada e iletrada com tiques de conservadorismo fanado, a defesa da propriedade, a prioridade para a economia e é tudo. A Espanha invertebrada a que aludia Ortega está lá toda. Contudo, antes um governo de homens de negócios que um grupo de lunáticos; antes o livro da mercearia que a cartilha ideológica. Bárbaros por bárbaros, é preferível o jugo dos señoritos.

O último general aristocrata da Europa partiu há 70 anos


Amedeo Umberto Lorenzo Marco Paolo Isabella Luigi Filippo Maria Giuseppe di Savoia,Duque de Aosta e Vice-Rei da Etiópia, foi capturado há 70 anos num recôndito lugar de Amba Allagi após heróica resistência face aos britânicos. Foi considerado o último de uma linhagem de grandes cabos de guerra e, talvez, o derradeiro militar a submeter-se a códigos de honra que a modernidade selvagem proscreveu. Com ele foi, também, a sepultar a monarquia italiana e uma certa ideia de fraternidade de armas e da guerra sem ódio ao inimigo. Os britânicos renderam ao derrotado as maiores honras militares.Em Itália, as organizações monárquicas dedicam à efeméride colóquios e edições e o seu filho homónimo, agora reconhecido como o chefe da casa real e pretendente ao trono, não deixou de evocar a integridade de carácter e o supremo sacrifício da vida que caracterizaram a trágica vida do grande militar. Um exemplo, num tempo de marçanos e homúnculos.




Silenzio Fuori Ordinanza

18 novembro 2011

Os "visitadores"






Dizia-me há tempos um amigo existir flagrante similitude entre os "visitadores" papais de Seiscentos e Setecentos e alguns quadros dirigentes da função pública. Os visitadores, que trabalhavam para a Propaganda Fide - logo, para os franceses que se queriam apossar uma a uma das missões portuguesas no Oriente - vinham de Roma com as blandícias e honras inerentes às púrpuras cardinalícias. Eram acolhidos pelo clero português com as maiores provas de estima. Mostravam-lhes o progresso das missões, o povo educado, as igrejas e colégios, a obra regada com o suor do trabalho árduo e o sangue das perseguições e martírios. Mostravam-se surpreendidos por assistirem às grandes expressões da fé, aos cânticos em latim, às crianças tocando música sacra, aos hospitais, enfermarias e leprosarias, às irmandades e ao respeito que os locais tributavam aos bons e ingénuos padres do Padroado. Depois, partiam. Ao chegarem a Roma, redigiam a memória e contavam enormidades, soezes mentiras, difamavam e pediam que tais missões fossem retiradas aos portugueses. Foi assim na China, no Tonquim, no Camboja, na Birmânia, no Sião e em Malaca.


Tudo isto continua a passar-se, mas os "visitadores" não são estrangeiros, mas portugueses. São dirigentes, subidos pelas artes de um sistema corrupto, pelo nepotismo, pelos falsos concursos públicos, pelas curibecas, lóbis e camarilhas de impostores e atrasados mentais que tomaram de assalto o serviço público. Têm como única missão diminuir, impedir, matar, imobilizar, não deixar fazer. Enquanto tal gente estiver nos lugares que ocupa, para mal do Estado, do povo e das instituições, Portugal continuará como um Montenegro do extremo-ocidente. É essa gente que nos mata, que convida a sair e fugir do pântano fétido em que se transformou Portugal nestes tempos de chumbo. Há, notoriamente, uma ditadura de imbecilidade que a todos nos esmaga. Não é uma crise económica. É uma crise de atitude, de gabarito, de ética e cultura política.


16 novembro 2011

Louras e segregadas: agora, o racismo é anti-louro


A impostura dos direitos cívicos nos EUA. São louras, não pertencem a nenhuma minoria, não foram envolvidas em qualquer despistagem de "substâncias perigosas" nem em qualquer escândalo sexual. Cometeram um crime imperdoável: venceram 15 dos 17 jogos e os responsáveis pelo desporto de Nova Iorque tinham de encontrar um alibi para as excluir. Inventaram a desculpa: as regras proibem que se joguem mais de 16 partidas. A equipa foi eliminada por despacho. O racismo impiedoso tem destas coisas.

Paulo Portas na AR: lucidez e moderação

A intervenção de Paulo Portas no parlamento foi um alívio para quantos, amargurados com boatos alarmistas sobre o encerramento de embaixadas, vaticinavam o pior. Afinal, Paulo Portas agiu em conformidade com o bom-senso e decidiu aquém das expectativas; isto é, não aplicou o critério cego do encerramento estribado numa certa mentalidade de merceeiro que desde os anos 90 invadiu lentamente e maculou as prioridades da política externa portuguesa em benefício da chamada "diplomacia económica". As relações externas não são um negócio. Nós, que nunca fomos cartagineses, gente de bazar e negociatas, entendemos a política externa como exercício da presença de Portugal nos negócios do mundo. Os nossos "negócios" são, à cabeça, a memória, a história, a cultura e a língua. Os vinhos, os azeites, as resinas, as amêndoas e os trapos e couros estão lá, mas não são prioridade.

Foi uma grande lição. Falava-se, entre outras, no encerramento da Embaixada de Portugal na Tailândia. Claro, a Tailândia pouco importa de Portugal, nós pouco importamos da Tailândia, empresas portuguesas na Tailândia não as há. É possível inverter, é possível melhorar e abrir negócios com os tailandeses. Contudo, as relações com a Tailândia são alimentadas pela história e pela cultura, as mais antigas entre um Estado europeu e uma nação asiática. Paulo Portas sabe-o e não ofendeu essa velha e jamais alterada relação no ano em que se celebram 500 anos. Parabéns, Ministro !

14 novembro 2011

Ardente democracia




Como se previa, após o festim criminoso, os assaltantes lutam pelo produto do saque. Uma brilhante democracia desponta nas areias líbias, entre as rajadas e as explosões que já não são de celebração, mas ajustes de contas e rixas entre os bandos armados pelas petroleiras. Para os cândidos, os supersticiosos das bem-aventuranças liberais, os espalhadores de mercado e demais seguidores da barbaridade unidimensional da vida para o estômago, as dores Líbia (e no futuro da Síria) nada dizem. As pessoas, se não são estúpidas, são parvas e vice-versa. O grande problema é que alguns dirigentes do decadente Ocidente são parvos e são estúpidos.