30 dezembro 2010

O meu 2010: um ano para não esquecer

Irlanda, 15 de Setembro de 1916 - 30 de Dezembro de 2010
Não sou nem pessimista nem fatalista e não cultivo amarguras. As maiores provações e sacrificios, quando não matam, fortalecem. Nisto, sou muito pouco meridional ou, se quiserem, pouco semita. A vida está aí para se viver, para fazer coisas e seguir sempre, sem abatimento e sem rendições, no caminho para que as nossas ficções-dirigentes nos empurram. Este ano, agora a exalar os últimos ais, foi dos mais intensos e marcantes da minha obscura existência. Acompanhei de perto uma revolução que o não foi, assisti ao levantamento e resistência de um povo à escalada totalitária comunista-plutocrática e percorri meia Banguecoque a ou no dorso de uma motocicleta a recolher notas e fotos dos combates. Em Outubro, dei por terminado o meu primeiro livro sobre o Tratado Luso-Siamês de 1820, já o no prelo, e tenho passado estes últimos dias em casa - preso por operação cirúrgica - a preparar o meio milhar de páginas da tese de doutoramento sobre as relações entre Portugal e a Tailândia, que penso poder concluir pela primavera.

Hoje, tomou o telefone. O meu pai, informando que a nossa avó Irlanda falecera. Não tenho palavras nem consigo qualquer exercício de estilo. É um pouco de mim que morre com esta extraordinária fonte de alegrias para toda a família, a nossa Avó. Curioso. Ao terminar a chamada, senti um arranhar na porta da entrada e abri. Entrou um gato grande e gordo que saltou para cima do sofá e ocupou a casa.

29 dezembro 2010

Grand éclat

Clara, a primeira siamesa diplomata


Chamava-se Clara Xavier, ou antes, menina de Phipat Kosa, filha de Celestino Maria Xavier, aliás Phraya Phipat Kosa, secretário de Estado sob Rama V, fundador e administrador da empresa que instalou os eléctricos em Banguecoque no início do século XX e, depois, embaixador do Sião em Roma e representante do reino do Elefante Branco na Sociedade das Nações. Clara partiu de Banguecoque para Londres, onde cursou enfermagem no South London Hospital for Women. Ao receber o diploma, foi requisitada pelo seu pai e foi secretária da legação siamesa em Genebra. Tantos feitos numa só rapariga vinda do outro canto do planeta. Siamesa católica, falando fluentemente português, esta nossa Clara foi modelo para o tímido movimento que no Sião reclamava a igualdade jurídica entre homens e mulheres. Há tanto por contar a respeito dos portugueses !

26 dezembro 2010

O Presépio sem plutocracia e a revolução maneta

Uma operação obrigou-me a ficar em casa na noite da consoada. Na tarde de quinta-feira, fui-me despedir dos meus pais e ali estive por duas horas até seguir para o hospital. Na sala de visitas, um presépio como deve ser: a Sagrada Família, mais os Reis Magos e uns quantos animais em adoração ao Rei dos homens. Nem vestígios desse velho indecente e plutocrático que dá pelo nome de Pai Natal. Deveriam chamar-lhe o grande parasita, o tentador das crianças, o grande mentiroso ou, tão só, a colossal mentira. São bonecos em madeira do século XVIII que a minha mãe restaurou, restituindo-lhes o ouro e a prata.

Lá fora, no centro do lago dos peixes vermelhos - já são mais de uma centena, fazendo jus ao mais retinto malthusianismo - uma estatueta soviética dos anos 20, exaltação da tal revolução que precipitou a velha Rússia no caos e abriu portas a uma besta de duas pernas que cometeu a proeza de multiplicar por seis ou por sete os sofrimentos que Hitler conseguiu realizar contra o seu próprio povo, mais os outros povos, sem discriminação étnica, religiosa e geográfica. Três mundos distintos: o comunismo, a sua prima, a Plutocracia e a religião. O Natal lembra tudo isso. Observei com maior atenção essa alegoria aos amanhãs cantantes e reparei que à ditosa exterminadora falta o braço que empunha o martelo. A revolução maneta, o melhor que se pode oferecer aos povos sobre os quais pode cair tal flagelo. Neste mundo tudo é simbólico. Antes assim !