18 dezembro 2010

Bella Italia


Ali há debate político a sério e sem inibições tecnocráticas. O ministro La Russa enfrenta na tv um daqueles contestatários profissionais que o modelo social europeu produziu em escala fordiana. Um festim, uma orgia de palavras que só beneficia a saúde da democracia e devia ser aplicada como receita para os debates sensaborões da nossa televisão.

17 dezembro 2010

Tiriricação ou a morte da democracia



O Pedro Quartin confere hoje justíssima relevância à entrada de Tiririca na arena parlamentar. Trata-se, sem dúvida, de uma imensa blague para quantos defendem - por vezes contra a evidência, como é o meu caso - as excelências do regime representativo. Ora, parece haver aqui algo que colide com as minhas convicções políticas e até antropológicas. Tiririca não foi para o parlamento pela democracia. Chegou lá para a matar, no caso vertende, a ferir mortalmente com o ridículo que é a pior das armas.
A democracia, quando se transforma no circo populista, deixa de ser o sistema fundado na soberania popular, mas no seu inverso: uma mera maioria niveladora, canalha e odiosa acicatando a mais concessões, a mais "império do homem da rua", a mais demagogia. Para o "homem da rua", democracia quer dizer "dêem-me mais dinheiro", "quero comer melhor", "os impostos são um roubo", "deviam ver o que é viver cá em baixo". No fundo, essa visão, mais a de quantos pedem esse "poder popular" implica, num ápice, a morte do jogo político, a morte do discurso e do contra-discurso. O "homem da rua", vota por votar ou vota por intuições - a intuição na fraqueza de quem tudo vai dar, como o fez com Guterres, campeão do impoder - ou ainda correndo atrás do primeiro alvissareiro que lhe prometa mais comida, mais dinheiro, mais tudo. Que eu saiba, nunca político algum populista prometeu mais bibliotecas, mais televisão de qualidade, mais rigor no ensino. O "homem da rua" quer tudo, mas não sabe o que é a cidadania, odeia o Estado, detesta os tribunais, nunca foi à escola e do Bem-Comum só conhece os remédios de graça, as pensões e reformas, o rendimento mínimo obrigatório, o direito ao protesto...

Cada vez compreendo melhor o velho Voltaire, que era um verdadeiro modelo de benfeitor. Em torno do seu Chatêau em Ferney deu emprego a mais 800 operários, vestiu-os, alimentou-os e com eles manteve uma relação de igual para igual. Contudo, quando lhe perguntavam se era defensor do governo popular ria-se, ria-se a bandeiras despregadas. Por que seria ?

Bem, dou uma trégua à intransigência. Vendo bem, temos Tiriricas às dúzias nesta fase lusco-fusco do regime. Há Tiriricas como presidentes dos governos regionais, Tiriricas nas câmaras, Tiriricas no Parlamento Europeu, Tiriritas na presidência e administração de bancos e até, quem sabe, em ministérios sobraçando pastas. A Tiricarização do regime é galopante, com a agravante de não conquistar risos. Logo que aparecem na pantalha, televisão desligada !
Há uma diferença entre povo e "homem da rua", vulgo ralé. O povo é um conceito abstrato e remete para uma unidade de consciência de colectividade, partilha de cultura e ideias consideradas únicas por aqueles que nela participam. Povo não é um grupo ou uma classe de rendimento, pelo que, em sentido moderno quer dizer Nação. Povo somos todos.

15 dezembro 2010

Novíssimas do Sião: a siamesa da Évora quinhentista

Graças a uma conversa absolutamente fortuita com um amigo investigador, estamos a milímetros de destruir um lugar-comum que se trombeteava pelas holandas desde há séculos. Em 1608, um galeão holandês comandado por Corneluis Matelief trouxe à Europa uma embaixada siamesa enviada pelo rei Ekathotsarot. Recebidos por Maurício de Nassau, os diplomatas permaneceram na Haia rodeados por viva curiosidade. Muito se tem escrito sobre esses "primeiros siameses na Europa de Seiscentos" e há dois anos, em Banguecoque, foram esses fastos lembrados em exposições e conferências por altura das celebrações milionárias dos quatro séculos de relações entre a Tailândia e a Holanda.

Um pequeno senão. Os holandeses receberam siameses, sim senhor, mas quase trinta anos depois de uma rapariga thai ter saído dos porões de uma das naus da carreira da Índia para aqui passar o resto das sua vida como escrava "Índia de nação sioa" ao serviço de uma casa nobre. Foi baptizada, recebeu nome cristão e viveu em Évora. Mais uma pequena pedra para o sempre incompleto como fascinante edifício da história das relações entre os dois países.