07 Dezembro 2010

Nepotismo e fisiologismo

A tendência para oferecer a familiares cargos públicos pode ser interpretada de duas maneiras: ou como um abuso de favor, violando o princípio da separação entre a esfera do privado e o do público; ou uma defesa para quem ocupa cargos e requer apoio e lealdade só garantidos pela comunhão do sangue. Não devemos ser excessivamente impiedosos para quantos, indicando um irmão, um primo ou um cunhado para um cargo de assessoria, se justificam com o argumento da segurança e inviolabilidade do segredo inerente ao exercício de funções políticas. O nepotismo é natural, isto é, faz parte intrínseca da natureza social do homem. Tenho para mim que, se um irmão, um primo ou um cunhado possuírem assinaláveis qualidades de mérito e inteligência, a sua nomeação facilita ab initio o bom sucesso do posto de quem o nomeia.

Contudo, persiste uma lamentável confusão entre nepotismo e fisiologismo, comumente chamado compadrio. Trata-se de coisas absolutamente diferentes, pois se o nepotismo moderado pode ser benéfico, o compadrio só se justifica na apropriação de cargos públicos para favorecimento de amigos sem benefício para terceiros. O fisiologismo é um abuso, pois sabendo que fulano, cicrana ou beltrana são imbecis, incompetentes, falhos de escrúpulos, madraços, inúteis, persistir na sua nomeação é ferir mortalmente os lugares que lhes foram oferecidos. O fisiologismo confunde tudo, até a finalidade e o múnus da função. No fisiologismo, todas as medidas tomadas - e até os cargos criados - se realizam sem outro fito que o de prover um lugar, meios e riqueza a uma pessoa, passando por cima do interesse público e fazendo das instituições empresas de lucro para grupos informais parasitando o Estado. Há mil e um exemplos de fisiologismo conhecido nesta terceira república. Pessoas há que nomearam a mulher, filhos, sobrinhos e amigos para lugares, impondo a sua eleição para cargos oficiais sem outra justificação, sem a simples exibição de um curriculo. Como o Estado morreu, tudo se centuria como um troféu de conquista; como o serviço público não passa de uma grossa mentira, as instituições servem, apenas, para prover lugares e as políticas para favorecer amigos.

05 Dezembro 2010

Os grandes dias da monarquia tailandesa



Hoje comemora-se o 83º aniversário do Rei da Tailândia. Pai da Pátria, Avatar de Vishnu, Senhor Cujos Pés Repousam sobre as Nossas Cabeças, Espada Vitoriosa, Protector de Todas as Religiões ou, simplesmente Nosso Senhor ou Nosso Pai para o povo tailândes, é o mais antigo chefe de Estado em exercício e um dos mais importantes estadistas vivos. De novo, uma verdadeira muralha de corações juntou-se para prestar tributo de admiração e agradecimento ao primeiro trabalhador da nação por sessenta e quatro anos de entrega ao bem comum. As imagens falam por si e dispensam palavras. A Vontade Geral voltou a exprimir-se em apoio ao seu Rei.

À quatre pattes: miséria da blogosfera

Tudo se limita a Sócrates. Atacar, desfazer hierarquias com palavrões e sem argumentos, cobrir ministros de impropérios, dar importância a coisas ínfimas e a flatus vocis. O país precisa, sim, daquela receita um dia proposta por Papini: não ouvir rádio, não ler jornais, não frequeentar cafés. Eu acrescentaria: não ler blogues. Isto tudo se transformou num despejadouro para ódios doentios e irrupções de pus. Estreita, agressiva, vingativa, miserável, a dita blogosfera já nem se disfarça com os atavios das literatices de algibeira que em tempos ainda fazia concessões a saloniers. Quanto às antigas salonieres de outrora, desapareceram enrubescidas, pois o vernáculo foi trepando e as tertúlias, com os seus confrades em emulação de graça e espirituosidade, deram lugar a tabernas de vinho ordinário e carvão que a tudo se cola. Convenço-me que as pessoas a mais não querem aspirar. Tudo tem uma explicação. A chamada "democratização", o maior flagelo e inimigo da liberdade e do espírito, dá voz a quem nunca a teve. Já não se trata - coisa insignificante - dos erros ortográficos, da ausência de referências elementares que noutros tempos constituiam cartão de visita obrigatório para qualquer homem civilizado. Tudo isso é nada, neste preiamar das massas armadas de computadores e blogues.
A blogosfera portuguesa já quase só tem Sócrates, futebol ou sexo; enfim, a cada sociedade aquilo que merece. Valerá a pena perseverar ?

01 Dezembro 2010

1º de Dezembro: a Liberdade e a censura

Telejornais da uma da tarde: futebol, nevões, banco alimentar, mais futebol, trânsito e a crise da Irlanda, ainda transida pela factura que terá de pagar à plutocracia rapinadora. Sobre o 1º de Dezembro, nada. Pois, 1º de Dezembro quer dizer "estamos fartos do jugo", "queremos ser livres", "nós somos independentes". Para quem trabalha para o jugo, a opressão e a dependência, este dia não convém ser lembrado aos portugueses.