20 novembro 2010

Cronofobia: a persistência do tempo desce a Avenida

A cruzada das mulheres

Há que ler as obras completas de Chernenko

Cadete de Kronstadt

Diálogo inter-confessional


Aparição da República junto da estátua da Grande Guerra

Presunção e água benta ...

A delegação enviada por Enid Blyton. Os Cinco cresceram e estão presos.

O trend outono-inverno de 1937

A segurança que se apoia

Nargorno-Karababakh desce a avenida

Energias alternativas

Um dos mais simpáticos e cativantes rostos da Boa Nova

Jerónimo de Sousa conta a estória do lobo mau às crianças-jornalistas. Há que rezar missa todos os dias

Micrómegas


Há qualquer coisa de revoltante na forma como alguns portugueses cultivam o miserabilismo. O partido anti-português de Portugal, amiúde recrutado entre os auto-proclamados intelectuais, tem como bandeiras o amesquinhamento de tudo quanto aqui se faz, o sorrisinho trocista, a trágica confusão entre o plano interno - com os seus ódios caseiros e partidários - e a representação da imagem externa, chegando a atingir proporções de deliberada traição, não fosse o insignificante de quem a produz. É uma tara, um comportamento compulsivo, este prazer em reduzir, apoucar, maldizer. Dei-me ao trabalho de visitar meia dúzia de blogues de "direita" e de "esquerda" ditos de referência e cheguei à triste conclusão que pouco os separa no azedume, auto-flagelação e boçalidade roncante sempre que Lisboa serve de palco para eventos de primeira plana e enche as manchetes internacionais. Sim, eles só toleram que de Portugal se fale nas voltas do esférico ou na iminência da bancarrota. Preferiam que fosse Madrid, Budapeste ou Tirana a receber o Tratado da União, que o presidente chinês fosse a Dublin, que Obama e o Ocidente se reunissem em Las Palmas, que fosse a Finlândia ou a Bélgica o obter o tal lugar no Conselho de Segurança. No fundo, os maiores inimigos do país são estas criaturas açuladas por um ódio doentio a tudo que prestigie, eleve e promova a ideia da centralidade de Portugal no quadro geopolítico mundial. A fatalidade do "intelectual" provinciano, de súbito confrontado com o contraditório do país pequeno, periférico, pobre e entregue a quizílias pouco menores que o buraco de uma agulha é esta. A função do "intelectual" português é a de dizer mal, se possível o pior, de tudo aquilo que deste a maldita geração de 70 lhes enche o cardápio de desculpas. Querem o país isolado, invisível, insignificante, pois a diferença de escala amedronta. Em Lisboa, quando tudo se reduz ao vazio preenchido pelo nada e pelos Ómegas caseiros, sentem-se como a bactéria na caixa de Petri: livres, desenvoltos e tirânicos. Contudo, mal aterra um avião com alguém que meça mais de um metro e trinta acordam dos fumos e desorientam-se, competindo cada barata pelo lugar no pódio da melhor contorção agónica.

16 novembro 2010

Não acreditar nos papões nem em teratologias políticas


Foi, todos o sabiam - e todos o elogiaram por isso - um nacional-bolchevista de retinta extirpe e um egomaníaco tão exigente nos rapapés como Mao, Tito, Kim il Sung e Estaline. O homem foi incensado como modelo de lucidez e destemor. Foi recebido e recebeu Nixon e Carter, de Gaulle, Pompidou e d'Estaing, Sadat, Juan Carlos, Isabel II, Paulo VI e Margarida II da Dinamarca, dele se cantaram loas, a ele se encomendaram panegíricos, numa tal competição desenfreada que os dicionários se esgotaram e os ribombantes ecos dessa versalhada barroca-comunista ainda nos enchem de espanto: Leão dos Cárpatos, Danúbio do Socialismo, Pai dos Romenos. Pois, Nicolau foi Grande Cavaleiro da Ordem do Banho, integrando o friso das maiores notabilidades do mundo dos imortais [mortos e vivos ] e para ele todos se viraram em assombro de admiração quando apoiou a "Primavera de Praga", se opôs à invasão do Afeganistão, reconheceu Israel e com ele manteve relações diplomáticas, reatou relações com o Vaticano e deu preferência aos negócios com o Ocidente.


No Estoril Film Festival, que terminou no passado fim de semana, foi a concurso uma espantosa "Autobiografia de Nicolai Ceausescu", assinada por Andrei Ujica. Ao ver o longo documentário, fiquei com a impressão que Ceausescu foi, à escala do seu país e do seu gabarito de sapateiro esfomeado e iletrado fugido à terra e arribado a Bucareste como pequeno gangster a soldo do Partido Comunista da Roménia, um homem em tudo diferente da lenda negra que por aí se mantém. Era um biltre, o lídimo representante da "classe operária no poder", mas tinha rasgo, sabia manipular os poderes que dominam o mundo e deu à Roménia a "epoca de aur" para a qual hoje muitos romenos olham com indisfarçável nostalgia. Cometeu três erros capitais: pagou a dívida externa até ao último lei, disse não ao gorbachismo da nomenclatura que queria salvar a pele a todo o custo para engrenar na transição do socialismo para o capitalismo com as alforjas cheias de ouro pilhado e, por último, acreditou no mito que outros haviam construído em seu redor. Ora, o golpe de 1989, começou por um levantamento popular anti-comunista, mas depressa se transformou num golpe de Estado liderado pela Securitate e pelo PCR. Aquela história ainda está toda por contar e só um desmiolado pode acreditar na grotesca encenação daquele julgamento ignóbil em que Ceausescu foi atado como um cordeiro sacrificial, encostado a uma parede e silenciado pelos seus cúmplices de véspera. Ceausescu, vendo bem, era um gigante quando comparado com os restantes líderes comunistas da Europa comunista, mas também gigante quando comparado com a generalidade dos governantes ocidentais que o elevaram às culminâncias e depois o deixaram nos arranjos do fim da guerra fria. Teimo que a razão capital acima aduzida - ter pago a dívida externa - foi decisiva para o desinteresse dos credores. Assim, ouçam-me governantes, nunca paguem a dívida. A plutocracia quer juros e quando a dívida é saldada, correis perigo de morte.


Partidul, Ceausescu, Romania

15 novembro 2010

A culpa a seu dono

Os empresários portugueses não podem fazer melhor. No conjunto das economias recessivas das "democraias do sul", Portugal cresceu percentualmente no período homólogo de Outubro de 2009 a Outubro 2010 sete vezes mais que a Espanha e três vezes mais que a Itália, distanciando-se da Grécia, em plena débâcle regressiva, com 4.5% negativos. As exportações subiram, o volume de encomendas em agenda prevê que a tendência do saldo comercial externo continue a progredir favoravelmente, empurrando a projecção do crescimento de 2011 para 1.3%. Em suma, se não tivessemos um Estado despesista, se acabassem com a via láctea de institutos, fundações, empresas fornecedoras de serviços ao Estado, se os 300 concelhos fossem 100, se as 3000 juntas de feguesia fossem 1000, se o parlamento não tivesse 230 deputados, mas 100, se o governo decretasse o fim das escandalosas reformas de 7000 e 8000 Euros distribuídos por amigos do regime, se fossem denunciados contratos verdadeiramente pornográficos atribuídos a apparatchik nos bancos, nas EDP's e TAP's, se não tivessemos 200 almirantes e 200 generais para umas forças armadas privadas de tudo o que faz um exército e uma marinha dignas desse nome. A culpa não é nem dos portugueses, nem dos empresários. Não é, também, da tão falada "crise que veio de fora", como há dias o sempre ligeiro Mário Soares quis fazer crer. A crise coincide com a dimenão do devorismo, da inconsciência criminosa de tantos funcionários políticos que nunca produziram o que quer que fosse, nunca tiveram emprego certo que e nunca teriam a mínima oportunidade num mercado de trabalho competitivo.

Como não somos derrotistas, ainda acreditamos que a recente descoberta da Ásia pelo nosso Primeiro-Ministro lhe permita abrir os olhos e aplicar, com mão dura, as soluções do futuro.