13 novembro 2010

Em defesa da governação solitária

A consabida tipologia das democracias, de Sartori, foi liminarmente recusada como expressão de preconceito e pessimismo. A verdade é que o tempo se encarregou de dar plena justificação ao conceito de "democracia latina", sinónimo de incompetência, corrupção, nepotismo e demagogia. Em sociedades com forte gradiente autoritário, hierarquizadas e orgânicas, cadeia de comando e um instintivo respeito pela autoridade, a vaga democrática dos anos setenta do século passado trouxe a desagregação do Estado, a pulverização da justiça e uma total desobediência face às leis, resultando nisso a apropriação do Estado por grupos de amigos e redes clientelares, o descontrolo e o despesismo, o gigantismo do funcionalismo público, a inimputabilidade das chefias e o fim da separação dos poderes. O parlamentarismo não funcionou na Grécia, como se mostrou suficentemente inepto em Espanha e Portugal, pelo que para salvar a democracia e as liberdades civis, importa recorrer quanto antes à concentração do poder e à sua personalização. Sendo adepto da monarquia, não posso deixar de ver com bons olhos a possibilidade do presidencialismo e de um governo que emane do critério meritocrático de selecção de governantes. Estamos na 25ª hora. Agora, já resvalando para o precipício,importa perguntar aos portugueses se querem uma ditadura, resposta natural à bagunça, ou um regime presidencialista que restaure a confiança na vontade nacional. Já não há muito tempo.

11 novembro 2010

Ângela Castelo Branco desvela Barreto fotógrafo

A minha irmã Ângela apresentou hoje em casa cheia a obra fotográfica de António Barreto, agora disponível num belo álbum com retrospectiva de meio século de actividade. O homem tem sete ofícios e a de fotógrafo, quiçá das mais interessantes da sua plurifacetada e rica personalidade, é uma daquelas paixões juvenis que jamais cedeu passo ao desencanto. Barreto é um homem interessante e com interesses vários. Não é um apparatchick nem um carreirista. Por mais distante que se encontre dos meus pontos de vista, o respeito pela sua independência coloca-o num nível de distinção em tudo distante dos "homens públicos" que não produzem. Quando cair a cortina do julgamento da história e as figuras ganharem escala, Barreto será lembrado - como Sottomayor Cardia ou Henrique Medina Carreira - pelo culto da liberdade e pelo destemor com que soube sempre, estando dentro do regime, fazer o seu caminho com trabalho, criatividade entrega às suas paixões e disponibilidade para pensar [e fotografar] a realidade do Portugal do nosso tempo sem o reducionismo da ideologia. A Ângela está de parabéns; o António Barreto ofereceu hoje aos olhos e sentidos dos portugueses a sua visão plástica dos homens, das cidades e paisagens que inundam o nosso quotidiano.

07 novembro 2010

Portugal na CCTV

Dinheiro chinês é igual a qualquer outro


Hoje assisti à procissão de motorizadas e limousines que atravessava a cidade em direcção ao Palácio da Ajuda. Coisa oriental, como muito bem fica a quem recebe o homem que ocupa o lugar do Filho do Céu, no umbigo do mundo, ou seja, o sucessor dos imperadores da China. Eu tenho para mim que se o inferno nos estender a mão, devemos fazer um pacto com o diabo sem lhe vender a alma. Deixemo-nos de esquisitices e pruridos: as relações entre Estados fazem-se por interesse e não por princípios. A China ocupa o Tibete, a Manchúria e o Turquestão ? Pois, isso que fique para as justas causas e as nobres cruzadas, conquanto Portugal se envolva o menos possível. Que eu saiba, os consabidos "homens de causas" nunca terçaram armas pelo Havaí, por Guam, pelas reservas indias nem pelo pelo Novo México.Obama virá e também deve ser bem recebido, aplaudido, mimado e levado aos ombros se nos trouxer algo.

Ao invés, esses insuportáveis "comissários europeus", aqui aportam semana sim, semana não, para nos dar ordens, diktats amiúde carregados de ameaças, como quem coloca um caldo em frente de um faminto e lhe diz: "hoje comes, amanhã só tens o caldo se fizeres o que te mandarmos fazer". Essa tem sido a Europa. A China está longe, muito longe, não nos manda comissários, não nos ameaça com a privação do caldo, não nos impõe regulamentos nem a expulsão de clube algum em que ocupamos o lugar extremo. A China, ao contrário da Europa, exibe sempre elegantes atitudes, nos gestos como nas palavras.

Tenho falado muito sobre este tema com o meu irmão, que acertou em cheio e faria corar de ciúmes a multidão de opinativos, assessores e "espertos" que invadem certos ministérios. Infelizmente, a nossa sina é a de dizer aquilo que os outros não querem ver.