05 novembro 2010

Cercados de graças e podres no centro


Uma história trágica, misteriosa, sinistra por vezes na impiedade com que as elites que nos governam parecem tudo fazer para afundar o direito à felicidade daqueles que aqui ficaram nas praias à espera do barco para o exílio, para a emigração ou para o império. Houve sempre, na 25ª hora, quando todas as portas pareciam fechadas e o triunfo da morte se anunciava, um recobro de energia ou um milagre. O milagre pode estar aí, a minutos da costa, em inexauríveis lençóis de ouro negro que as companhias de prospecção dão como certos. O milagre pode chegar amanhã sob a forma de um mandarim de óculos fundo-de-garrafa. Pena tenho que tudo isso, a acontecer, venha caucionar a madracice de um povo que desaprendeu a arte de ser grande, lançou para um canto a sua vocação marítima e imperial e mantenha no poder uma geração de governantes amadores, semi-letrados e irrelevantes que não mereciam o poder nem o conquistaram.

Já estou suficientemente experimentado para saber como seriam aplicadas as receitas do ouro negro, como sei que a compra da dívida pelos chineses terminaria com mais empréstimos, mais endividamento e mais despesismo. Dizia ontem Pacheco Pereira que o BE e o PC querem uma revolução. Talvez tenham razão, pois basta andar pela rua para nos apercebermos que é isso precisamente o que querem os portugueses: uma revolução. Eu não pediria uma revolução de rua, nem da base para o topo, nem do topo para a base, mas uma revolução na cultura democrática, na transparência, no serviço público, no amor da pátria, do seu passado como da sua destinação; em suma, pediria pouco menos que o impossível. Mas tenho fé, pois a razão há muito me contou o final da história. Que venha o milagre !

03 novembro 2010

Regressem aos clássicos meus caros


As pessoas perderam o domínio da língua. Pensam, erradamente, que o código escrito é análogo à língua falada. Ora, quem não sabe escrever não pode pensar correctamente, pois o desconhecimento das regras formais impede o ordenamento do discurso. Foi o que deu a porreirização do ensino que encontra nos últimos desenvolvimento do tecnocratês e do portinglês o nadir da expressão escrita. Deixem-se de fantasias, ponham de lado o lixo sub-literário dos autores de escaparate e dos prémios literários, voltem a Vieira e Camilo - pois Eça, insuportável poseur, era um fotógrafo-escritor - e esqueçam Pessoa a um canto da estante, pois a poesia, por muito bonita que seja, sempre foi perigosa tentação para quem não sabe escrever.

Conheci em tempos, nos tempos do mestrado, uma fulana que se ufanava de "só ler Filosofia". Era Hegel para aqui, Marx para ali, Kant para acoli, Aristóteles para acolá. Contudo, naquele deserto mental cheio de citações, faltava-lhe leitura. Nunca abrira um livro por simples impulso recreativo. A leitura era, para ela, uma obrigação para a "carreira", como o manual de carpintaria para o fazedor de cadeiras, uma pobreza de cultura dita geral - quem não a sabe, nada sabe - e um quase ódio a tudo quanto catalogava liminarmente de "erudição". Essa senhora é hoje "doutora em Filosofia", mas diz "hadém em vez de hão-de", "póssamos em vez de possamos", "quaisqueres em vez de quaisquer"; em suma, uma analfabeta a dar aulas a iletrados. O resultado ? A universidade que temos, os advogados, os políticos, os gestores e os jornalistas que por aí vão destruindo todos os dias o pouco que se salvou dos clássicos. Sim, Camilo vale dinheiro e é de curso mais confiável que as pontes desse Euro malfadado e da ditadura da febre do dinheiro e do sucesso que nos trouxe a este estado de não retorno.