30 outubro 2010

Monstrozinhos saídos da proveta do regime


Uma chuva diluviana. Local: a paragem de autocarros. Chegou uma mulher molhada até aos ossos transportando ao colo uma criança recém-nascida envolta num pequeno cobertor axadrezado que pingava. No banco, sentadas e conversando aos berros, com palavrões à mistura com os "baris" e os "tás a ver?", três miudoscas com atavios de "boas marcas" - possivelmente vivendo nas torres das Amoreiras - recebendo consecutivas chamadas do Luís, do Afonso, do "Dênis". Olhando com absoluta indiferença para aquela mulher transida de frio, ali se mantiveram na converseta carregada de pulsões hormonais discorrendo sobre os Luíses, os Afonsos e os "Dênis". Não me contive e perguntei se não tinham reparado que ali estava alguém com uma criança de um mês ou dois. Uma das fedúncias, a muito custo, levantou o enorme traseiro willendorfiano e disse "então, sente-se se quiser". A paragem estava cheia e ninguém ousou proferir a mais pequena migalha de reprimenda.

De facto, estas meninas são o produto de trinta e tal anos de deseducação, desprezo pelas convenções mais elementares de um sistema de ensino que forma criaturas semi-letradas, gananciosas, egoístas e maus cidadãos. Os outros, os adultos a quem cabia dar-lhes a lição de civismo, transformaram-se em cobardes amargurados. São trinta e tal anos de regime. Regressei ao neolítico.

Es gibt keine Frau die nicht lügt

28 outubro 2010

Não, a minha pátria NÃO é a língua portuguesa


Repete-se até à exaustão uma banalidade de Pessoa, que por ser Pessoa não pode ser discutida. É uma banalidade perigosa que se transformou em certeza, em mandamento intemporal e se impôs ao comportamento do Estado como uma obrigação. Não, a minha pátria não é a língua portuguesa. Por essa quimera estamos há trinta e tal anos a esbanjar meios no ensino da língua portuguesa onde esta já é língua oficial - Guiné, S. Tomé, Moçambique - e noutras paragens onde os leitorados de português deviam ser investimento do Brasil e não de Portugal: Venezuela, Argentina, Chile, Uruguai. Por essa quimera, que parece só servir para dar empregos a professoras do ensino secundário, não se tem passado - na Ásia, em África e na Europa - dos umbrais do minimum minimorum destinado a formar guias turísticos, empregados de mesa e telefonistas de embaixadas. Não é responsabilidade do Estado português ensinar português a quem quer que seja. Quanto muito, cumpriria ao Instituto Camões estabelecer parcerias com universidades estrangeiras, facultar-lhes meios iniciais programáticos, metodológicos e de professores até que se criassem raízes. Os melhores centros de ensino de língua portuguesa na Ásia não dependem de Portugal: são autónomos, animados e dirigidos por professores locais e batem largamente em condições técnicas, tecnológicas e visibilidade académica os nossos leitorados. O Japão e a Coreia do Sul têm departamentos de língua portuguesa cheios de vitalidade e não pedem a Portugal o favor de uma bula de confirmação.


Se, em vez de insistir na gramática e nas primeiras letras, se desse prioridade à conquista das universidades, preparando-se cursos de cultura portuguesa destinados a servir as necessidades da investigação local, facultando conceitos, informação precisa sobre história portuguesa, traduzindo e publicando os imensos e quase inacessíveis fundos documentais portugueses, a língua, instrumento de comunicação, surgiria como manifestação do entusiasmo gerado pela curiosidade intelectual dos novos lusófilos. Ao contrário, não dá ! Até ao presente, não deu e só se tem insistido nesse erro porque há interesses em campo: ordenados, linhas de amiguismo, certificações, cargos. É um lóbi, e um lóbi inútil que desperdiça os recursos públicos e impede o inevitável, ou seja, a co-responsabilização luso-brasileira numa política global de difusão dos nossos comuns interesses geo-linguísticos. O Instituto Camões não devia ser coisa portuguesa. Devia ser instrumento de parceria luso-brasileira, irrigado por fundos dos dois países e servir para formar competências, certificá-las e favorecer a instalação de quadros médios nas empresas que lidam com o espaço lusófono ou, ainda, favorecer a instalação de companhias portuguesas (sobretudo brasileiras) num tempo marcado pela emergência do Brasil como potência económica mundial. O inútil cruzadismo pela língua não resultou. Ou o Brasil se interessa pelo investimento a fundo perdido ou não se deve prosseguir num caminho que se revelou, senão inútil, quase insignificante nos resultados.


Felizmente, a língua portuguesa não é coisa em vias de desaparição, como o são a francesa e a italiana. Há duzentos milhões de pessoas que a utilizam diariamente, há estados que a ela recorreram para não desaparecerem, pelo que em Angola, Moçambique e Cabo-Verde o Camões devia mudar de rumo e deixar a responsabilidade do ensino da língua aos ministérios da educação dos respectivos países. Outro erro, coisa tremenda, tão em voga para a linguística como os estudos do "género" para tudo o mais - há género em tudo - tem sido a chamada "crioulística". Não interessa a Portugal partir, quebrar a unidade da língua, fazer concessões ao exótico e a corruções, mas é o que se tem feito em nome de um complexo de ex-colonizador. Quem quer aprender o português exige que lhe ensinem a língua viva. Essa de querer retirar do sepulcro variantes do português já quase extintas, supondo que os descendentes de portugueses as irão ressuscitar, com elas reforçando a "identidade" (outro palavrão em voga) é um rematado disparate. Vão dizer aqueles que não gostam de pensar: "lá está ele a exagerar". Não, meus amigos, não é exagero, é o que é. Nisso, como noutras coisas, sou muito carré: o que deu esse ensino do português ? quantos escritores, quantos trabalhos académicos publicados, quantos amigos conseguiu Portugal em trinta anos de dinheiro investido nesse terreno infecundo ?
Uma última observação que poderá ter o curso de provocação. Um só padre português nas paróquias de Banguecoque, Singapura, Malaca e Flores teria impacto maior que vinte "leitores" de português. Sabem porquê ? Bem, porque os católicos tailandeses, de Singapura, da Indonésia e da Malásia são "portugueses" mas não estão interessados na língua portuguesa. Amam Portugal porque a nossa religião é a "religião dos portugueses", ou seja, a sua, deles. Infelizmente, a Igreja portuguesa já não quer saber da missionação para nada. Está gorda e bem encostada ao pequeno quotidiano do viver sem desafio.
Não, não se trata de assunto de pessoas. Aqui, como sabem, não há ataques pessoais nem se cultiva o estilo ad hominem. Trata-se de um problema de conceitos. O Instituto Camões já teve - e tem - a dirigi-lo servidores do Estado que às suas tarefas se entregam com a maior dedicação e entusiasmo. Trata-se de um problema em não pode nem deve ter "culpados". Nos termos e opções em que vive, dar ao Camões relevância é tão improvável como conceber um navio feito em granito. Qualquer que seja o gabarito do timoneiro, o destino à vista é um afundamento.

24 outubro 2010

É o mar meus senhores


Abriria mão dessas brilhantes tradições recentes do futebol, da gravatinha pequeno-burguesa e das gestões se o mar voltasse a ser o destino nacional. Sem o mar, nunca teríamos sido; sem o mar, a Europa dos bantustões e das microgeografias, das guerras por 2x5 km2 e dos campanários sem horizonte ter-nos-ia atraído para o destino dos povos insignificantes e não teríamos sido mais que austurianos, leoneses ou galegos. Foi o liberalismo caseiro, com a tentação da lojeca, da caixa segura e da vida quieta -a ambição da burguesia - que nos encheu de pavor pelo mar. Antes, havia portugueses por todos os mares, servindo sob todas as bandeiras, arando e ultrapassando oceanos. Depois, desapareceu o mar, acabaram os pescadores, os marinheiros, as redes e os batéis e Portugal passou a ser império sem marinha, antes de ser ponta rochosa de um continente fechado à aventura, ao risco e ao trágico. Submarinos ? Só dois ? Devíamos ter 10. Com a quase certeza do retorno do mar - logo que a Europa se finar e o Brasil nos estender a mão - há que explicar aos portugueses que Portugal (isto é, Madeira, Açores, Cabo Verde, S. Tomé, o Brasil e Timor) só poderá ser se for 8 partes de água, uma de sofrimento e outra de aventura.