16 outubro 2010

Quando os cantores líricos vão à guerra: Takita Kikue e Huziwara Yoshie


Na luta e na adversidade, a música é a arma mais forte.

15 outubro 2010

Coisas terríveis que acontecem no país dos brandos costumes


Encontrando-me em Lisboa a redigir o trabalho que há três anos me propus fazer (as relações entre Portugal e o Sião no período Banguecoque), tenho percorrido os arquivos e bibliotecas da nossa capital para completar investigação em áreas para as quais não possuía ainda massa documental expressiva. Ora, numa das minhas deambulações, passei ali pela Calçada da Tapada, à Ajuda, onde se encontra a antiga Escola Preparatória Francisco de Arruda. Ai estudei no terrível ano de 1974-75. Acabara de chegar de África sem eira e vivia opulentamente com os meus pais e irmãos numa roulloute desse luxuoso resort que dá pelo nome de Parque de Campismo de Monsanto. Era o tempo do ódio à solta, dos "inimigos de classe", das "lutas" e das "punições exemplares", da "justiça popular" [executada por burgueses], de pinchagens, palavras de ordem, comícios, reuniões gerais, "saneamentos com justa causa". Foi um ano alucinante de humilhações e desprezo por nós, "exploradores de africanos"e inimigos do povo. Lembro-me do frio terrível desse inverno, da humidade que doía até aos ossos, da falta de roupa e comida. Sim, importa lembrar tudo isso, pois foi tudo isso que me fez duvidar pela primeira vez da bondade dos homens, dos tonitruantes princípios, dos romantismos revolucionários e demais mentiras de que todas as revoluções dizem representar.

Ao chegar àquela escola, apercebi-me que destoava das outras. Era grande, bem mobilada, confortável até, com as suas salas de aula com aquecimento, laboratórios, oficinas, ginásios, bibliotecas, antiteatros e cantinas verdadeiramente modelares no panorama português. Fora, durante quase duas décadas, um laboratório de metodologia e pedagogia inovadoras e o seu criador, Manuel Calvet de Magalhães, implantara no meio de um bairro popular e operário uma nesga da Suécia. Ali fizera milagres, formando e incutindo nos miúdos de 10 e 11 anos o amor pelas artes, pelo teatro e pelo cinema. A escola possuía uma sala de cinema e tinha um vasto catálogo de filmes formativos e documentários sobre o mundo animal, o meio ambiente, física e química, matemáticas, ciências sociais e história. Uma vez por semana, os alunos eram encaminhados pelos professores para essa sala e assistiam a dois ou três documentários, posto que pedia-se-lhes fizessem redacções sobre aquilo a que haviam assistido. Era uma das preocupações de Calvet de Magalhães: dar voz às crianças, obrigá-las a tomar posição crítica em relação ao mundo, despertar-lhes a curiosidade intelectual. Depois, era também uma escola que tinha aulas de xadrez, música, modelagem e até trabalhos oficinais que facultavam os rudimentos práticos de tudo quanto um homem deve saber fazer: consertar uma tomada, reparar um rádio, coser um botão, encadernar um livro. À entrada da escola, esculpida na pedra eterna, uma citação de Salazar: "a violência é o argumento do incompetente".

Calvet de Magalhães era salazarista, pois claro, mas um desses salazaristas muito próximos de uma certa social-democracia, como lembrou Renzo De Felice. Acreditava na desigualdade pelo mérito, no aprimoramento pelo trabalho, pela inteligência e pelo estudo, conciliava a ordem com o progresso e estava absolutamente convencido que os indivíduos devem ser guiados à luz. Foi o maior erro do pedagogo, pois os comunistas, então em frenesim de destruição de tudo quanto se lhes pudesse opor resistência, buscavam inimigos inteligentes e não idiotas ultra-conservadores. Calvet não era um desses cinzentões insignificantes que faziam as delícias do imaginário das caricaturas de Abel Manta. Era culto, dono de vontade indomável, um mouro de trabalho, dotado de grande capacidade de realização e liderança. Era, em suma, o pior inimigo do totalitarismo comunista. Pior ainda, era de um patriotismo exaltante e por toda a escola se cruzavam alusões ao passado (aos cientistas e escritores) e se afirmava um optimismo contagiante em relação ao futuro.

Em 1974, uma turbamulta de miseráveis - alguns dos quais haviam sido alimentados à mão pelo pedagogo - instaurou a revolução na Francisco Arruda. Os abaixo-assinados, as reuniões de crítica, a denúncia de colegas, a limpeza das bibliotecas de tudo quanto lembrasse "literatura reaccionária", as pressões, os jornais de parede precederam o terror. Dizia-se que Calvet era da União Nacional, que fora "denunciante da PIDE", que era monárquico, "anti-comunista primário". É claro que o homem nunca fizera política, não tinha lóbi nem funcionava em rede. Era, apenas, um grande profissional da educação e tudo isso deixara de ter valor no Portugal que resvalava para a tirania da rua e do mais desavergonhado trepadorismo, pois nos processos revolucionários surgem sempre os mais impulsivos tarados em busca de sucesso que nunca alcançariam em períodos de normalidade. Havia que matar o inimigo e a partir de Maio de 74, a célula PC iniciou a diabolização do desgraçado. Impediram-no de entrar no seu gabinete da direcção, devassaram-lhe os documentos, cortaram-lhe o telefone, impediram-no de percorrer os corredores da escola que criara, enviaram-lhe centos de cartas anónimas com as mais soezes insinuações e ameaças.Isolado, sob pressão do terror psicológico e da violência física, o mundo de Calvet desagregou-se. Fechou-se na casa de banho, deitou-se na banheira e matou-se. É este o mais acabado testemunho da mentira dessa tal "revolução sem derramemento de sangue".

12 outubro 2010

Um caso com 150 anos

"Exposição do deplorável estado da administração da Casa Pia, no antigo Mosteiro de Belém, sob a gerência do Provedor-Adjunto Jacinto Luís do Amaral Frazão, homem notoriamente maníaco, de intoleráveis excentricidades. Apelo a SM para que, conhecidos os factos, emende e extinga os desvarios e abusos que ali se praticam".
BA, Documentos Avulsos, 54-X-33, nº90, fl. 1-3, 1857
Só quem nunca fez investigação histórica aceita as novidades. Há quem acredite que o passado foi de Ouro. Ora, não foi nem pior nem melhor, talvez com a atenuante de então ainda existir uma tremenda força capaz de evitar coisas piores: o medo.

10 outubro 2010

Sagres recebe Banguecoque a bordo

A Sagres está em Banguecoque e merece a atenção dos tailandeses. Com bandas, presença das autoridades governamentais e dos nossos embaixadores, a iniciativa inscreve-se no quadro das celebrações dos 500 anos da chegada dos portugueses ao Sião. No cais, aguardava o navio escola um rancho de crianças luso-descendentes oriundas dos bairros católicos da capital. É um grupo que está a criar furor entre as crianças de Thonburi. Os miúdos gostam dos fatos portugueses, gostam das danças e já pedem aos pais que os levam semanalmente às aulas de dança. É trabalho que deixa em Banguecoque a embaixatriz Maria da Piedade e que deve ser continuado. A comissão criada para receber a Sagres é inteiramente constituída por "Protukét" de Banguecoque e dirigida por um oficial da marinha de guerra tailandesa, católico que há anos enviou o filho a Portugal para ali estudar a nossa língua.
É a primeira vez que um vaso da marinha portuguesa visita a capital tailandesa desde 1893. Infelizmente, as relações entre os dois países, tão antigas como a presença portuguesa na Ásia, têm sido caracterizadas por gritante como injustificada falta de pontos de aplicação, não só no que às relações comerciais respeita, mas em todas as áreas onde seria possível desenvolver parcerias de interesse mútuo. Aqui, onde o nosso nome evoca grandes e decisivos momentos em que esteve em jogo a independência dos thais, há que construir pontes e abrir caminhos de cooperação. A Tailândia é uma velha aliada, é a única democracia de facto na região, o seu alinhamento com o Ocidente é irrepreensível, possui infraestruturas para a fixação de empresas portuguesas no Sudeste-Asiático e mercado com massa crítica capaz de absorver importantes segmentos da nossa produção industrial, agrícola e serviços. Dizia ontem a um amigo tailandês que ocupa relevante posto no MNE que 2011 pode ser o recomeço ou o fim das nossas relações. O argumento da crise económica e da penúria orçamental nada pode justificar, pois que ao Estado português cumpre tão só incentivar, divulgar e facultar apoio a todas as iniciativas do sociedade civil e todo esse apoio não envolve verbas, mas a aplicação dos meios existentes. Quanto à Tailândia, tem feito tudo quanto pode para, sem agressividade, exibir vontade genuína em aprofundar as relações, esperando retribuição portuguesa.