07 outubro 2010

A voz nunca morre


Imagina o leitor se morressem de uma assentada todos os actores, todos os cantores populares e líricos, os instrumentistas, jornalistas, locutores e escritores, pintores e arquitectos, tradutores, cineastas, mais os estilistas, os empresários das artes e do espectáculo ? Pois, foi isso que aconteceu no Camboja de Pol Pot. Em Phnom Penh, ouve-se aqui e ali, nos cafés e restaurantes, nas tendas dos mercados uma voz masculina cantando velhas cançonetas românticas do tempo do nosso yé-yé. Perguntei a um khmer de quem era essa voz. Respondeu-me, visivelmente emocionado e com uma ponta de indignação pela minha ignorância: "é o nosso Sinn Sisamouth". Pensei que estivesse vivo e insisti: "deve ser um homem idoso". O meu interlocutor disse que não, que Sin era sempre jovem. Ao chegar ao hotel, consultei a internet. Sin foi morto, como todos os artistas, pelo governo genocida de Pol Pot e do Partido Comunista do Kampuchea, o tal que a França e a Suécia reconheceram como o legítimo representante do socialismo e da liberdade. O khmer que teve a paciência de me explicar quem era Sin tinha razão. A música nunca morre. Pol Pot está morto, Sin Sisamouth não morreu, pois continua presente em todas as casas.


06 outubro 2010

A soma da paródia: 500, 500, 50, 50, 50 = 1150


Hoje, na Praça do Município estavam 500 comensais do regime, 500 actores empregados pelo regime, 50 passeantes domingueiros, 50 celebrantes da República das Bananas e 50 Darth vader's. Foi uma paródia, acentuada pela gravitas dos hierarcas, pelo sono incontrolável de Maria Barroso e pela fila a perder de vista de ex-presidentes e candidatos a presidente. A polícia esteve nervosa, incomodando o inofensivo protesto dos Darth vader's no meio da mascarada que foram estas celebrações milionárias, sem gosto e a puxar ao "cerebral", como o são, aliás, todas as encenações dos muitos ministérios da propaganda que por aí se entrechocam para ver quem pode sorver mais verbas para coisas sem préstimo, destinadas aos Públicos, aos DN's e às SIC's. Foi, perdoe-se-me o plebeísmo, uma pepineira, com os pós de pirlimpimpim que as senhoras e senhorinhos do "partido cultural" do regime conseguiram, em extremos, arrancar. Falta solenidade, falta perspectiva, falta, até - coisa que a mais refinada e malsã máquina de dourar mentiras que é a república francesa - faz às maravilhas: dar um toque de grandeza. É o regime que está velho, que perdeu a graça e se fecha no seu pequeno mundo pelintra e micro-burguês coberto com a película do dinheiro novo do funconalismo e parasitismo dos "aparelhos". No fundo, já ninguém acredita naquilo e missa sem um toque de pompa e incenso não é missa: é uma paródio. Foi isso que aconteceu hoje na Praça do Município.

O mesmo não aconteceu em Guimarães. Ali não houve verbas do Estado, empregados das geringonças e outros que vivem no aquário, propaganda e palmas compradas. Seriam 1000, talvez um pouco menos, mas ali foram sabendo ao que iam e sem promessa do tal lugar atrás da secretária no ministério, na secretaria de Estado, na Fundação ou na junta. A diferença é esta. A república e a mesnada de senhores que alimentam o mito e por ele são amesendados conseguiu a proeza de, em 100 anos, não conseguir explicar aos portugueses o que isso é. Quanto à monarquia, 100 anos depois, todos a sabem definir.

05 outubro 2010

Livres fomos, livres seremos


História desconhecida dos portugueses na Ásia. Um tal Encarnação

O Encarnação, ao lado dos tambores. Sir Robert Hart, em fato creme

A história é simples. Em finais do século XIX, o governo chinês quis reformar o sistema alfandegário e aplicar o modelo ocidental. Foram feitas várias tentativas, todas goradas, pois o desconhecimento e a corrupção dos mandarins mandatados para tal tarefa levou a que se contratasse um inglês do Ulster como director-geral dos serviços aduaneiros imperiais. Sir Robert Hart (1835-1911) era um portento que aliava capacidade organizadora inexcedível a uma tal probidade que os comerciantes ocidentais estacionados em Xangai afirmavam "ser demasiado forte para ser destruído e demasiado honesto para ser corrompido". Foi, em vida, um dos mais poderosos e aclamados homens, recebendo dezenas de condecorações e reunindo um pecúlio invejável resultante do mais alto ordenado pago a um estrangeiro na China dos Qing. Hart tinha o seu jardim secreto. Era melómano entusiasta e dedicava todo o seu tempo livre à música. Um dia, lembrou-se que poderia formar a sua banda musical. Entre o seu pessoal, havia dois europeus amantes da música, um holandês chamado van Aalst, responsável pelos correios, e um português chamado E. E. Encarnação. O Encarnação era excelente professor de música e em dois anos pôs de pé uma banda especializada em reportório musical militar, bem como em animar bailes no bairro das legações em Pequim. A sua banda foi a primeira a fazer carreira na China e popularizou a música ligeira europeia em terras da Imperatriz Dragão. Encontrei a referência em Paul King (In the Chinese Customs Service, London, Heath Cranton, 1924), mas outros há que aludem a esta faceta de Hart. Não há dia que passe que não esbarre com estas pequenas histórias de compatriotas nossos que pelo mundo britânico deixaram sulco profundo. De facto, está por fazer quase tudo no que à história dos portugueses na Ásia diz respeito.

04 outubro 2010

Lula


Não custa dizer mal, arrasar e depreciar, mas nestas coisas há que dizer, sem agravo de outras considerações, que Lula foi um grande presidente e que o peso da língua portuguesa e daquilo que esta representa na geopolítica mundial muito lhe ficaram a dever. Pouco elaborado, rústico, pé-rapado ? Pois, mas deixou obra e bateu o pé à ingerência americana, deu a milhões de brasileiros nova esperança e a burguesia muito lhe ficou a dever, pois Lula no poder quis dizer menos assaltos, menos propriedade devassada, menos raptos. Mais corrupção ? Isso não tem importância, pois o Brasil - como Portugal - quem governa rouba: rouba em nome da lei e dessa estranha legitimidade que os votos conferem para furar todas as convenções. O Brasil é hoje a 5ª economia mundial. Nos oito anos de Lula ultrapassou a França, a Inglaterra e a Itália. É pouco ? Sonho com o dia em que os portugueses, cansados da Europa, se virempara o Brasil e renovem, como outrora, a união com o Brasil.

03 outubro 2010

Raquíticas celebrações


A chuva chegou a Lisboa. Com o frio, o vento e a caras contraídas pelo recente anúncio da recessão - que teve o efeito de uma Estalinegrado sobre os arrebatados celebrantes da tal república do Dente de Ouro e dos pistoleiros do Terreiro do Paço - parece que tudo se está a compor para um funeral digno do Padrinho de Mario Puzo. Os áulicos de Belém - reposteiros-móres, assessores, moços de estribo e demais trabalhadores desocupados, onde nem falta o vetero-testamentário Sarsfield Cabral, subitamente tomado pelos delírios do febrão republicano - organizaram hoje uma fruste festa no palácio que foi dos príncipes antes de se transformar em lugar de má frequência. No fundo, isto é a república, com a moldura das velhotas trazidas em dois autocarros e com direito a farnel, mais os comensais cativos das comissões, os jornalistas semi-letrados reduzidos a psitacídeos, as araras, os periquitos e toda a flora de flores do mal da estupidez, da gula insatisfeita e da mentira incontinente. A república é uma festa.