02 outubro 2010

O homem certo no lugar errado



Um pouco de ucronia. Se João de Almeida, o herói dos Dembos e grande espada de serviço, não estivesse em Huíla em 1910, mas em Lisboa à frente dos seus homens, teria havido república ? Por outras palavras, não será a história o registo de acidentes que só se explicam pela convergência acidental de factores ? Se Almeida estivesse com Couceiro, taria dado metralha à metralha e defenderia a legalidade contra uma minoria terrorista que mudou a história do país. Nada é certo, nada é previsível nem inelutável. Basta ter uma vontade forte no momento certo para evitar desastres irreparáveis.

"É que realmente era difícil, em Portugal, ser simplesmente português". Henrique Galvão, História do nosso tempo: acção e obra de João de Almeida, Lisboa, A.M. Teixeira &Filhos, 1931

01 outubro 2010

Desfazer mentiras sobre o Oriente português


Tai-hei, de Redondo Júnior (1952)


Fez escola, rendeu lugares e até medalhas dizer mal de Portugal, mas a tarefa de quem por estas coisas se interessa é duplamente gratificante: calar quem mente e dar voz aos documentos. Ora, se um documento pode mentir, todos os documentos não mentem. A verdade, digamo-lo sem desfalecimento, é que os arquivos, bibliotecas e hemerotecas desse mundo estão cheios de testemunhos da obra portuguesa. Conheci em tempos um padre católico, agora indianíssimo -mais indiano que o filo-nazista Chandra Bose - que recebeu ordenação em Goa, foi cidadão português e que depois, para agradar aos seus amos (os tais que promoveram o etnocídio do povo indiano português de Goa, Damão e Diu) se especializou em denegrir o nosso nome, chegando a extremos de insultar um dos criadores da ordem religiosa à sombra da qual se fez homem. Um dia, num colóquio, dava largas aos ataques a S. Francisco Xavier, o Apóstolo das Índias, até que um académico português o interpelou. O indianíssimo interrompeu o seu censor e perguntou-lhe: "você está a defender os Jesuítas ?". O português ripostou: "você não é Jesuíta ?". A criatura ficou pálida e sentou-se. Sim, o combate pela História é um combate presente e pelo futuro.

30 setembro 2010

Se eu fosse chinês: relativismo cultural total


Há quem acredite na pseudomorfose de uma cultura global, de uma só raça humana, de um só sistema político planetário, de um esperanto ideológico, de um só regime económico, de uma lei universal. São fantasias, perigosas como ingénuas, alimentadas por pessoas que querem elevar um tribalismo específico à ditadura do único ou daqueles que, considerando-se "cidadãos do mundo", começam por não ter pátria alguma. Neste mundo tudo é diferente, tudo é relativo ao grupo social em que se nasceu, à religião herdada, aos paradigmas que se sorveram no biberão e nunca nos abandonam. Convidaram-me para uma sessão que teve lugar na universidade Chulalongkorn, subordinada ao apaixonante tema da perspectiva que os Farang (estrangeiros brancos) têm da Tailândia. Não pude ir, mas recebi ecos de dois amigos que por lá passaram e ouviram as costumeiras ossanas ao bezerro de ouro daquilo que, não funcionando no Ocidente, se quer à viva força impor aos pobres e bárbaros thais. Espanta-me o atrevimento, como me indignaria se um chinês chegasse à Europa para nos exigir o "modelo social chinês". o "modelo económico chinês", o "regime político chinês", a "família chinesa", o culto dos antepassados, o Feung Chui, os chop sticks...

Aquilo que me atrai na Ásia é o absolutamente novo, o inesperado, o diferente. Mas há mentezinhas que não o compreendem. As pulsões totalitárias habitam as mais cândidas almas.

Belos livros sobre Portugal


Portugal, um livro que servia, nas palavras de António Ferro, para "matar saudades de Portugal". Previsto para o ano da Exposição do Mundo Português, só chegaria ao público em finais de 1946. Reunia as melhores penas da cultura portuguesa do tempo (Orlando Ribeiro para a Geografia, Luís Chaves para a Etnografia, Marcelo Caetano para as Instituições e o Direito, Delfim Santos para o Pensamento e Cultura, Diogo de Macedo para a História da Arte, Luís Teixeira para o Turismo) e contava com os melhores ilustradores e artistas plásticos em actividade (Frederico George, Manuel Lapa, Tom). Um pequeno monumento à arte de bem fazer e um manual de lavado patriotismo destinado a formar públicos.

29 setembro 2010

É preciso copiar, copiar, copiar



Exaltação patriótica, cultivar o amor-próprio, juntar, integrar e uniformizar sentimentos positivos. A Tailândia fá-lo diariamente sem ditadura, pelos pobres e ricos, pela maioria e pelas minorias. É assim que se faz a unidade e a cidadania. Um exemplo a copiar.

Belos livros sobre Portugal


John dos Passos escreveu-o no verão de 1968 com o título The Portugal Story, sem dúvida um dos mais vibrantes textos de prosa doutrinal patriótica portuguesa escrita no século XX. Passos foi sempre um socialista mas neste livro, uma das mais bem concebidas e esmeradas edições da velha IBIS, o culto por Portugal e pela sua gesta marítima e imperial atinge culminâncias. Não é nem pretensioso nem didáctico à António Sérgio. É espontâneo, não tem tiques nem se polvilha de rodriguinhos de "nacionalismo estético". Devia ser ensinado nas escolas.

27 setembro 2010

Nuno Castelo Branco na Sagres, em Banguecoque

O Nuno, meu irmão, oferece o seu contributo à visita do navio escola Sagres a Banguecoque, prevista para a primeira quinzena de Outubro. Contactou com o nosso embaixador na Tailânda, António de Faria e Maya, oferecendo três telas a óleo alusivas a três navios da Marinha Portuguesa que noutros tempos e circunstâncias tocaram a "Veneza do Oriente", respectivamente o brigue São João Baptista, que levou a missão encabeçada por Carlos Manuel da Silveira, em Julho de 1820, a canhoneira Tejo, que ali esteve em 1890 tendo como comandante Venceslau de Morais e a canhoneira Bengo, que aportou em frente do nosso Consulado durante a crise franco-siamesa de 1893. As imagens foram elaboradas a partir de investigação feita nos Arquivos da Marinha e são, que eu saiba, a primeira contribuição de um artista português para as celebrações dos 500 anos de relações entre Portugal e a Tailândia que se iniciam oficialmente com a visita da Sagres. O Nuno prepara para finais de 2011 uma exposição em Banguecoque, inteiramente consagrada ao encontro das duas culturas.