25 setembro 2010

Quando os governantes eram do tamanho de uma fortaleza


Pediu-me um amigo que publicasse o retrato de D. Diogo de Sousa, Conde de Rio Pardo, sem dúvida o último dos grandes governantes do Oriente português. Hesitei, pois, desde o século XIX, quando se fala em governantes, surge-nos amiúde a imagem de homenzinhos que tanto poderiam estar atrás de uma bancada de mercearia a vender secos e molhados, como umas mantas aos quadrados na Feira da Ladra. Perdeu-se para sempre a ideia que o poder não serve para roubar, mas para fazer honra. Perdeu-se a ideia que ser governante não quer dizer servir clientelas, concitar aplausos e panegíricos, mas exercer com inquebrantável teimosia o interesse do Estado.

Homens assim já não existem. Rio Pardo fazia parte dessa geração derradeira de homens fadados para o mando. Era um mouro de trabalho, inquisitivo, meticuloso, experiente, exigente e justiceiro. Depois, era informado, lia latim, escrevia com toques de literato e era oficial de cavalaria; em suma, um clássico. Com 67 anos no dia em que foi deposto, mantinha intocada a panache e o orgulho de uma casta de serviço que foi varrida pelas chamadas ideias novas. O retrato que ainda hoje se encontra no Palácio do Hidalcão, na galeria dos Vice-Reis de Goa, parece desafiar o tempo. Antes assim, que se salve o passado, pois do presente não se falará !

22 setembro 2010

Quando a estupidez faz política

Cumpriram-se no passado sábado 189 anos sobre a conjura militar que depôs em Goa D. Diogo de Sousa, Conde de Rio Pardo, Vice-Rei da Índia e homem de grande integridade e visão. Ao ser desapossado do posto no qual investiu a sua máxima competência e zelo, morreu com Rio Pardo a última possibilidade de Portugal se integrar na nova ordem internacional saída da derrota napoleónica e consequente hegemonia global marítima britânica. Os seus inimigos liberais quiseram fazer estragos irreparáveis na imagem e compleição do Estado da Índia, decretando sem pestanejar a extinção de todos os focos de acção diplomática e comercial que D. Diogo de Sousa havia estabelecido ao longo de meia década de intensa actividade. Juntamente com Rio Pardo, terminou a carreira de Miguel de Arriaga Brum da Silveira, o célebre Ouvidor de Macau, estratega da recuperação de Portugal no quadro da aliança marítima luso-britânica. Foi um desastre, pois os libertadores, como se auto-proclamavam, fizeram contra Portugal no Oriente mais que a soma de holandeses, franceses, maratas ,omanis e piratas haviam logrado ao longo de séculos. Foi, sem tirar, tudo muito parecido com aquilo que Melos Antunes, Rosas Coutinhos e demais libertadores conseguiram, quase sem oposição, realizar ao longo do ano e meio em que devastaram Portugal. É certo que a história nunca se repete, mas às vezes repete-se, para pior.