16 setembro 2010

O paraíso deve ser tropical

O inferno, para os cristãos, é uma caldeira, tal como o nárók o é para os thais, com a atenuante de não ser eterno. Para os muçulmanos, o zamhareer, o círculo mais duro da condenação, é gélido. Contudo, que eu saiba, o paraíso de todas as religiões assemelha-se: é frondoso, abundante, ameno e sereno. Pensei nisso várias vezes, pois o além é imaginado como o melhor local onde se pode viver para sempre; logo, reproduz a ideia de ambiente mais querida pelas pessoas. Eu, que nasci em África, abomino o clima europeu, seja o continental - com as chuvas gélidas do outono, o frio cortante e seco dos invernos escuros, os verões irrespiráveis, as torrentes primaveris - seja o "atlântico". Pensar que terei de passar o próximo inverno em Portugal deixa-me apreensivo, pois tenho ido visitar a família no verão e nem sinto a diferença.

Aqui, o calor é permanente, mas há coisas espantosas que se podem fazer para o combater. Por exemplo, ontem estive toda a noite acordado a dar os últimos retoques num trabalho. Às cinco da manhã desci as escadas e meti-me na piscina. Água morna do solão da véspera. Umas braçadas, seguidas de um duche e pequeno almoço. Depois, ventoínha de tecto em máxima rotação e um sono de oito horas. Acordei às 3 da tarde e fui comer à beira do Chao Phraya, no restaurante do hotel ao lado da nossa embaixada. Refeição terminada, voltei a casa e sentei-me no pequeno jardim. De súbito, o esquilo da árvore desceu até uns dois metros da minha cabeça e falámos durante uns minutos. É esta a maravilha dos trópicos: viver numa cidade de 10 milhões com direito a esquilo privativo e uma piscina fresca às cinco da manhã. Na Europa, se contasse, dir-me-iam que estava louco.

13 setembro 2010

A África da minha mãe

Sisal

Casamento

Machamba

O café para os patrões

O barbeiro

O senhor Administrador

O poder da estupidez


La bêtise est infiniment plus fascinante que l'intelligence... L'intelligence a des limites, la bêtise n'en a pas! (Claude Chabrol)

É um dos mais fascinantes mistérios da humanidade, a estupidez. Tem um poder tremendo, impõe-se, fica, lança raízes, reproduz-se e é copiada porque é simples, convincente, não exige esforço. A estupidez é comummente associada à maldade. Discordo, a estupidez está lá, não corre riscos e medra em todos os terrenos e atmosferas. A maldade denuncia-se pois, como o bem, ocupa um lugar, reclama obra. O grande drama do tempo presente não é a maldade, pois para lhe fazer frente surgiu sempre, na mesma proporção inversa, quem a combatesse. A estupidez, não, não tem nem amigos nem inimigos, existe por si e é absoluta. Não é privação. É estado. A maldade cansa-se, pode ser eliminada, trancada atrás de barras, a estupidez não. Por isso, é a mais poderosa força na história dos homens.

12 setembro 2010

Açores-Tailândia


Foi assinado em Banguecoque um Protocolo de Cooperação entre a Embaixada de Portugal na Tailândia e o Observatório Regional de Turismo dos Açores, representado pelo Professor Carlos Santos. Visa o acordo incrementar a divulgação dos Açores na Tailândia e a captação do fluxo turístico tailandês para o arquipélado atlântico num momento em que aumenta exponencialmente o número de tailandeses que procuram destinos turísticos na Europa. Iniciativas como esta indiciam a crescente preocupação das nossas autoridades em equilibrar a balança das relações entre os dois países. Onde antes havia portugueses nas praias da Tailândia, passará a haver turistas tailandeses com forte poder aquisitivo em terras portuguesas. O Embaixador Faria e Maya deu conta do crescente número de pedidos de vistos para turismo. Com a aproximação das celebrações dos 500 anos de relações entre os dois países, jornais, revistas e canais televisivos tailandeses acordam para a divulgação da história e cultura portuguesas e há que aproveitar sem desfalecimento a oportunidade que se abre.

Ontem, passando por um quiosque para comprar a revista mensal Silapá-Prawatisát (Arte e História), a mais prestigiada revista cultural tailandesa, deparei com um longo artigo sobre o regicídio de 1908 e a revolução republicana de 1910. O autor, Professor Krairoek Nana, é um amigo nosso e foi-lhe confiada pelo governo tailandês a redacção da obra oficial sobre os 500 anos. Tudo parece encaminhado para aliar memória e relações comerciais. Aliás, não é o turismo uma indústria ?

Blogues portugueses na Ásia: o muito bom, o muito mau e o nada

Antes do advento da blogosfera, havia quem pensasse que a Ásia era um inexistente para os portugueses. Havia Macau, umas lembranças de Goa, uns livros sobre Venceslau, umas fotos de Pessanha. Havia, incontornável, o labor muitas vezes acrítico e assistemático, quase torrencial de bom coleccionismo arquivístico que foi o bom Padre Teixeira, que ninguém afeito a estas coisas deixa de consultar. Subsistiam, entre o literário e o ensaístico, os trabalhos de Martins Janeira e Danilo Barreiros.

É certo que dois ou três académicos de excepção, contra a corrente do esquecimento, alargaram horizontes, rasgaram caminhos, saíram da geografia liliputiana do que sobrava do Estado da Índia e são hoje a força que empurra o engenho para os vastos espaços da grande China e da Insulíndia. São eles, importa assinalar porque não têm paralelo, Luís Filipe Tomaz e António Vasconcelos de Saldanha. Na conspiração do silêncio e da ignorância que quis fazer crer aos portugueses que a Ásia estava longe, caíram no pântano as incómodas pedradas de um grande fotógrafo chamado Joaquim Magalhães de Castro. Foi graças a estes que a presença portuguesa não foi tragada pelo esquecimento, que nova leva de investigadores receberam o exemplo e o ânimo para desbravar arquivos. A Ásia das patacas e do exótico foi morrendo e vai ganhando volume uma Ásia séria, académica e com legibilidade mundial, impressa e séria que é a Ásia portuguesa feita de estudos, sem cabaia e sem ópios. Está a morrer, felizmente, a Ásia portuguesa inventada.

A blogosfera ajudou, pois, não sendo um medium académico, substitui a miserável prestação da chamada comunicação social no que à formação e informação de vastos públicos respeita. Lembro, entre o pasmado e o indignado, o atraso com que a comunicação social portuguesa se deu conta da magnitude dos recentes acontecimentos na Tailândia. Durante semanas, entre Março e Abril, com bombas e tiroteio nas ruas, limitou-se a recortar a tendenciosa conta-corrente das tais agências internacionais, facciosíssimas e prostituidíssimas. A blogosfera está aberta a todos e nela todos podem escrever na proporção das suas capacidades. Agora, a Ásia portuguesa já não é só Macau - muito embora Macau ofereça diariamente dois ou três excelentes contributos - mas é Malaca, Japão, a China, mais China, celulóide, mais celulóide, Coreia...
Como em tudo neste mundo, as coisas dividem-se em três grupos: o que é bom e fica, o que é muito mau e vai-se arrastando na lama como o escaravelho estercorário e o nada, que não existe, esteja ou não esteja.

Portugal não acaba em Elvas; diria antes que começa na espuma do mar que se estatela nas areias de Lisboa. Ontem recebi este simpático presente e é ao Nan Ban Jin que dedico estas palavras. Quero que ele aqui esteja em Bangkok para o lançamento do livro.