10 setembro 2010

Sião latino e Sião americano

Foram vinte, trinta, quarenta ou mais os italianos que marcaram para sempre a face da moderna Banguecoque. Escultores, pintores, arquitectos e decoradores, ceramistas e vitralistas deram à capital do Sião, já de asfalto e trens eléctricos, os cinemas, os teatros, grandes hoteis e a aura de confortável magia que garantiu o sucesso do turismo desde os anos 20 do século passado. Já aqui deixei dois apontamentos, um sobre Galileo Chini, outro sobre Corrado Ferocci (aliás Sinlapa Bhirasi). Nos últimos dias tenho andado entusiasmado com um outro notável italiano que aqui deixou obra imensa. Gerolamo Emilio Gerini era militar e aqui chegou com um contrato do governo siamês para prestar assessoria militar. Inteligente, culto e desenvolto, aprendeu thai, interessou-se pelas artes, pela história, arqueologia e tradições orais, transformando-se num perito de sânscrito e estudos budistas. Foi um dos fundadores da Siam Society e marcou sulco profundo. Escreveu muito e fê-lo como ninguém. Que eu saiba, foi o primeiro a tocar nas pedras do mú bâan (aldeia) Protukét de Ayutthaya e, depois retirou do esquecimento a comunidade Protukét de Pukhet, estudo que aconselharia a qualquer interessado nestas coisas da presença portuguesa no Sudeste-Asiático.
Que diferença entre a potência do espírito latino, a sua entrega e amor a esta terra e a esta gente e aquilo que sucessivas gerações de americanos aqui deixaram. Com excepção de Jim Thompson, que foi o artífice da produção industrial da seda tailandesa, os americanos aqui não deixaram nada que mereça atenção; pior, como me dizia há tempos um embaixador, os "americanos foram a maior desgraça que aqui aconteceu". Diferenças !
Quando é que termina a era americana ?



Vivere – Tito Schipa










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Hoje sinto-me assim: mission accomplie

Eram 5.45 da manhã de sexta-feira quando a tecla do ponto final negro caiu implacável sobre o branco do ecrã. Ordens cumpridas, trabalho terminado. O primeiro livro sobre as relações entre Portugal e o Sião está feito. Há dias felizes. Como dizia Friedrich der Große, que tenho sempre em cima da minha secretária: "o maior e mais nobre prazer que um homem pode ter neste mundo é o de descobrir novas verdades e o segundo o de abanar velhas mentiras".

09 setembro 2010

Manâmbuas ripademar santanhocos pihamaiáu

Um encontro inesperado no metro de superfície de Bangkok. Ouvi falar português e cumprimentei o casal de sessenta e tal anos. Disseram-me que aqui estavam desde anteontem, que são naturais de Lisboa mas que estão estabelecidos em Luanda. Em menos de cinco minutos, entre a Estação de Siam e Asók, foi um desfiar de ditos idiotas sobre Portugal, referências à "independência", ao "presidente Neto", ao "colonialismo", à exploração "vergonhosa que os portugas" (sic) por lá fizeram, à "democracia" e aos meninos do Huambo, os tais que "Vão aprender coisas de sonho e de verdade, Vão aprender como se ganha uma bandeira, Vão saber o que custou a liberdade". Foi como um murro no estômago. Depois, olhei e vi que os dois não passavam de criaturas semi-cretinas, da tal geração que afundaram o país e que agora estão em África porque pinga e não por qualquer outro elevado propósito. O homem deixou para o fim, como quem mostra a medalha, a sua palma de ouro: "sabe, eu não fiz a guerra, com muito orgulho. Desertei". Ao afirmá-lo, um brilho de orgulho assomou-lhe à íris. Que lição de sacrifício e cidadania. De facto, enquanto a biologia não tratar de vez dessa maldita geração dos sorridentes idiotas, nada feito.

Depois, só me lembrei daquilo que sempre ouvi da minha mãe: "manâbuas ripademar, santanhocos pihamaiáu". Querem saber o que quer dizer ? Pois, abram um dicionário de calão ronga-português. Ao sair, disse: "sabem, eu sou de Moçambique, África Oriental Portuguesa e lá tenho enterrados bisavós, avós e todos os meus sonhos e ilusões a respeito das liberdades, das independências e da vossa geração". Saí e nem me virei. Eu sei, tenho mau feitio e já não me calo nem perante o Papa.

07 setembro 2010

África nossa: resistência da memória


A minha mãe não é uma figura literária nem uma muleta ideológica, uma bandeira ou uma frase-feita. Existe. Nasceu em África há setenta e sete anos, viveu no mato e cresceu, como qualquer filha de quadro administrativo colonial, numa casa branca de dois andares, com um jardinzinho à frente e o pau da bandeira onde, todas as manhãs, o meu avô fazia continência à bandeira portuguesa que subia no mastro enquanto o corneteiro soava a ordem de respeito. Durante anos, foi a única criança branca num concelho do tamanho do Baixo Alentejo, pelo que aprendeu os idiomas locais e brincou com as crianças negras das aldeias vizinhas. Em vez das bonecas, encontrou no desenho e na pintura companhia para os seus sonhos e fez-se artista sem frequeentar academias. Pinta há setenta anos. Teve o seu momento de consagração em 1973, quando realizou na Casa Amarela de Mouzinho de Albuquerque, em Lourenço Marques, uma exposição que concitou os maiores aplausos. Foi com o dinheiro dessa exposição que saímos de África para não mais voltar, pois o cataclismo abateu-se sobre todos, nós os que partimos para o exílio, eles que ficaram entregues ao que sabemos. Da sua boca nunca ouvi um lamento, uma frase ditada pelo ódio. Aliás, se há pessoa menos racista neste mundo, mais amante de África e daquilo que a África é para nós - nossa pátria - essa será certamente a minha mãe.

Aos setenta e sete anos continua a cultivar o seu jardim de memórias. Vive em África em pleno Alto do Lagoal, em Caxias. Tudo o que a cerca - os objectos, os livros, as fotografias - são o magro espólio desse século em que por lá esteve a minha família. Finalmente, depois de 37 anos de silêncio, os seus quadros voltarão a ser expostos, agora na Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha. A sua obra é já considerada única, pois constituiu a mais extensa galeria de memórias coloniais existente em Portugal. Estou certo que a minha mãe, aos 77 anos, será uma revelação para muitos, ela que nunca teve lóbis nem nunca andou atrelada a grupos e galeristas que fazem o sucesso postiço de tanto artista. O tempo acaba sempre por chegar, mesmo que seja aos 77 anos. Parabéns, Ana Plácido.


05 setembro 2010

Nós, pied-noirs


O Paul, africano como eu, tem sido das poucas amizades europeias perduráveis que fiz na Ásia. Vinte e poucos anos mais velho do que eu, nasceu na Argélia e pela Argélia pegou em armas para defender o direito de permanecer na terra que amava e era a sua pátria. Traído pela França, como gosta de frisar, sobretudo por esse enigma camaleónico, mitificado e intocável que é De Gaulle, percorreu o mundo e a sua vida é uma aventura. Ao abandonar a sua Argélia, ele que lutara pela França, recebeu o prémio de um mandado de captura emitido pelas autoridades de Paris. Foi para Espanha e daí para Portugal, o único país que lhe deu acolhimento, pelo que tem por nós uma grande simpatia. É, à sua maneira, um lusófilo.

Depois, foi professor universitário no Senegal e Madagáscar, esteve na República Centro-Africana e no Zaire, conhece como ninguém o que resta da velha Indochina Francesa e vive entregue à leitura. Já não há homens assim. Alia uma grande cultura histórica, literária e teológica [católica mas não cristã, como gosta de dizer, pois cristão transformou-se em sinónimo de parvoíce americana] a dotes de grande conversador. Dos ocidentais que conheço, foi dos únicos que ousou sair às ruas durante os combates de Maio e fez reportagem, ouviu os intervenientes, riu-se do corta-cola dos enviados das agências ocidentais e partilha comigo a convicção de que a Tailândia esteve a milímetros do abismo. Como se recusa aprender "essa língua de piratas e mercadores que é o inglês", aprendeu Thai para comunicar com os thais. Vive entre thais sem cair no ridículo de querer ser thai, pelo que o seu ocidentalismo é, sem tirar, igual ao meu. Ah, esquecia-me, fala e escreve árabe !

É um "direitista" como eu, ou seja, não é racista, não é euro-cêntrico, não acredita em estórias da carochinha nem no romantismo dos recitativos grandiosos e ocos com que se entretém a direita tribalista. Tem a grande qualidade de dizer em poucas palavras aquilo que é essencial, tocando no cerne sem se perder em fogos de artifício. Um dia, sem hesitações, definiu a França como um país de "regicidas" e disse, perante o estupor de ouvintes sem grande preparação política que "a democracia são 60 anos da história europeia, ou seja, quase nada". É um monárquico estético e não acredita, decididamente, no universo de plástico e nas superstições em que vivem emparedados dos farang aqui estabelecidos. No Paul encontrei um outro africano branco, apanhado no fogo cruzado e réu involuntário no tribunal da história que juntou vítimas e assassinos, leais combatentes e desertores, patriotas e derrotistas.

Estou absolutamente convencido que a Argélia, como o meu Moçambique, perderam ao deixar-nos sair. Agora que se aproxima mais um "7 de Setembro", vejo que a ingrata História nos deu razão. Nós éramos o grão de sal que se perdeu na sopa da independência.



L' Hymne des Français d' Algérie – Jean Paul Gavino












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N'oublier jamais