07 Setembro 2010

África nossa: resistência da memória


A minha mãe não é uma figura literária nem uma muleta ideológica, uma bandeira ou uma frase-feita. Existe. Nasceu em África há setenta e sete anos, viveu no mato e cresceu, como qualquer filha de quadro administrativo colonial, numa casa branca de dois andares, com um jardinzinho à frente e o pau da bandeira onde, todas as manhãs, o meu avô fazia continência à bandeira portuguesa que subia no mastro enquanto o corneteiro soava a ordem de respeito. Durante anos, foi a única criança branca num concelho do tamanho do Baixo Alentejo, pelo que aprendeu os idiomas locais e brincou com as crianças negras das aldeias vizinhas. Em vez das bonecas, encontrou no desenho e na pintura companhia para os seus sonhos e fez-se artista sem frequeentar academias. Pinta há setenta anos. Teve o seu momento de consagração em 1973, quando realizou na Casa Amarela de Mouzinho de Albuquerque, em Lourenço Marques, uma exposição que concitou os maiores aplausos. Foi com o dinheiro dessa exposição que saímos de África para não mais voltar, pois o cataclismo abateu-se sobre todos, nós os que partimos para o exílio, eles que ficaram entregues ao que sabemos. Da sua boca nunca ouvi um lamento, uma frase ditada pelo ódio. Aliás, se há pessoa menos racista neste mundo, mais amante de África e daquilo que a África é para nós - nossa pátria - essa será certamente a minha mãe.

Aos setenta e sete anos continua a cultivar o seu jardim de memórias. Vive em África em pleno Alto do Lagoal, em Caxias. Tudo o que a cerca - os objectos, os livros, as fotografias - são o magro espólio desse século em que por lá esteve a minha família. Finalmente, depois de 37 anos de silêncio, os seus quadros voltarão a ser expostos, agora na Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha. A sua obra é já considerada única, pois constituiu a mais extensa galeria de memórias coloniais existente em Portugal. Estou certo que a minha mãe, aos 77 anos, será uma revelação para muitos, ela que nunca teve lóbis nem nunca andou atrelada a grupos e galeristas que fazem o sucesso postiço de tanto artista. O tempo acaba sempre por chegar, mesmo que seja aos 77 anos. Parabéns, Ana Plácido.


05 Setembro 2010

Nós, pied-noirs


O Paul, africano como eu, tem sido das poucas amizades europeias perduráveis que fiz na Ásia. Vinte e poucos anos mais velho do que eu, nasceu na Argélia e pela Argélia pegou em armas para defender o direito de permanecer na terra que amava e era a sua pátria. Traído pela França, como gosta de frisar, sobretudo por esse enigma camaleónico, mitificado e intocável que é De Gaulle, percorreu o mundo e a sua vida é uma aventura. Ao abandonar a sua Argélia, ele que lutara pela França, recebeu o prémio de um mandado de captura emitido pelas autoridades de Paris. Foi para Espanha e daí para Portugal, o único país que lhe deu acolhimento, pelo que tem por nós uma grande simpatia. É, à sua maneira, um lusófilo.

Depois, foi professor universitário no Senegal e Madagáscar, esteve na República Centro-Africana e no Zaire, conhece como ninguém o que resta da velha Indochina Francesa e vive entregue à leitura. Já não há homens assim. Alia uma grande cultura histórica, literária e teológica [católica mas não cristã, como gosta de dizer, pois cristão transformou-se em sinónimo de parvoíce americana] a dotes de grande conversador. Dos ocidentais que conheço, foi dos únicos que ousou sair às ruas durante os combates de Maio e fez reportagem, ouviu os intervenientes, riu-se do corta-cola dos enviados das agências ocidentais e partilha comigo a convicção de que a Tailândia esteve a milímetros do abismo. Como se recusa aprender "essa língua de piratas e mercadores que é o inglês", aprendeu Thai para comunicar com os thais. Vive entre thais sem cair no ridículo de querer ser thai, pelo que o seu ocidentalismo é, sem tirar, igual ao meu. Ah, esquecia-me, fala e escreve árabe !

É um "direitista" como eu, ou seja, não é racista, não é euro-cêntrico, não acredita em estórias da carochinha nem no romantismo dos recitativos grandiosos e ocos com que se entretém a direita tribalista. Tem a grande qualidade de dizer em poucas palavras aquilo que é essencial, tocando no cerne sem se perder em fogos de artifício. Um dia, sem hesitações, definiu a França como um país de "regicidas" e disse, perante o estupor de ouvintes sem grande preparação política que "a democracia são 60 anos da história europeia, ou seja, quase nada". É um monárquico estético e não acredita, decididamente, no universo de plástico e nas superstições em que vivem emparedados dos farang aqui estabelecidos. No Paul encontrei um outro africano branco, apanhado no fogo cruzado e réu involuntário no tribunal da história que juntou vítimas e assassinos, leais combatentes e desertores, patriotas e derrotistas.

Estou absolutamente convencido que a Argélia, como o meu Moçambique, perderam ao deixar-nos sair. Agora que se aproxima mais um "7 de Setembro", vejo que a ingrata História nos deu razão. Nós éramos o grão de sal que se perdeu na sopa da independência.



L' Hymne des Français d' Algérie – Jean Paul Gavino












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N'oublier jamais

04 Setembro 2010

Der Untergang des Abendlandes


«Mais do que de perda de referências, é de uma perda de magnetismo que se trata hoje. Vive-se uma desmagnetização geral dos valores, e sem valores pode haver chefias, mas não há lideranças. Pode haver impulsos, mas não há soluções. Pode haver gestão, mas não há visão. Lidamos hoje com um mundo em intensa transformação, o que o Ocidente sente como um drama, mas o resto do mundo vê como uma fantástica oportunidade. Todos os dias verifico isto mesmo nas reuniões da UNESCO: um mundo entusiasmado face a um Ocidente desmoralizado. A energia emergente que se contrapõe à fadiga declinante, com Darwin a sugerir a todos e a cada um o seu provável futuro. O Ocidente, e nomeadamente a Europa, aparece cada vez mais como um bloco conservador, nostalgicamente à espera que o tempo volte para trás - aí a meados da década!... -, quando a ilusão do seu natural domínio mundial se começou a esfarelar. Mas não haverá regresso

Manuel Maria Carrilho, ontem no DN

02 Setembro 2010

Os camisas vermelhas sem amigos externos

Não, não é uma fotografia tirada no Soweto nos anos 70. É um carro blindado sul-africano anti-motim aplicado para defender uma justa causa, a causa dos 5% de moçambicanos frelimistas que não são miseráveis, que têm escolas de excelência com mensalidades pagas em dólares e euros, que viajam para os paraísos fiscais, que se cobrem com as armaninhadas e ocupam a totalidade dos lugares na administração, na vida empresarial e na banca. É a repressão necessária contra os camisas-vermelhas de lá, os tais 40% de desempregados, cidadãos de terceira e quarta categoria que vivem com 1 dólar por dia nas barracas de Maputo e da Beira, sem água corrente e sem electricidade. Quando aqui 5000 vermelhos, pagos a fundo perdido por Thaksin ocuparam o centro da capital tailandesa, mataram, lançaram granadas e lançaram fogo a dúzias de edifícios, houve quem os apaparicasse, os recebesse ou fosse recebido entre palmas no estrado de um comício ininterrupto. Os camisas-vermelhas de Moçambique são outra coisa: estão a impedir o "crescimento económico", "sabotar a economia", amedrontam o investimento externo. São uns bandidos, pois atreveram-se contestar os sacrossantos pergaminhos de uma brilhante liberdade que lhes faculta o acesso ao voto em eleições manipuladas. São estes, pois, os critérios dos afanosos amigos de todas as causas justas, sim, aquelas que enchem os bolsos de tanto europeu prenhe de sonhos justiceiros. Esperei dois dias para ouvir dos sempiternos d'Artagnans um simples poemeco em defesa do povo de Maputo. Nada ! O mundo é feito, decididamente, para os hipócritas.


Das lachende Saxophon