28 agosto 2010

"Olhe, vizinho, eu cá vou votar na suástica"

A cidade está cheia de suásticas. "Phêuan Bân, fâng dí-di, dijân já song kânén siang chók dí", ou, por outras palavras, "caro vizinho, eu cá vou votar na suástica". Era a minha vizinha do lado, uma senhora de uns cinquenta anos, professora de História no liceu do bairro. Fez-me a confissão no elevador, pois perguntei-lhe se estava preparada para votar nas eleições locais de amanhã. Retirou do saco das compras um prospecto do Novas Políticas e apontou para a suástica com um grande sorriso e acrescentou: "são os melhores e nunca se meteram em corrupção". Não sei se será este o veredicto das urnas, mas parece-me sintomático do cansaço de anos de lutas políticas que quase terminaram numa guerra civil induzida pelo homiziado Thaksin e o seu movimento vermelho. A radicalização da vida política levou à ascensão do movimento que pugna por um budismo rigoroso, pela aplicação da autarcia económica e pela refundação do nacionalismo thai. Partido de militantes, com grande capacidade de mobilização, auto-proclama-se Exército Budista da Tailândia e não abdica da mais dura terminologia. Considera a democracia uma "fraude ao serviço dos ricos", defende um sistema de representação orgânica, é ferozmente anti-ingerência farang na vida tailandesa e diz que é tempo do país voltar ao pacto original, o que quer dizer à monarquia tradicional. Julgo que não serão grandes as possibilidades eleitorais do movimento, mas se ultrapassar os 15%-20% será, sem dúvida, um tsunami político, pois no futuro próximo o actual governo ficará refém de uma opinião pública conquistada pelas soluções radicais. Naturalmente, esta suástica nada tem a ver com a outra. Aqui, a suástica dá pelo nome de Boa Sorte e com o trevo ecologista ao centro quer dizer voltar à pureza do Budismo e ao templo da natureza.


O Partido propõem-se acabar com a especulação imobiliária, erradicar os bairros de lata mercê da nacionalização de largas áreas da cidade e incentivar a construção de bairros sociais através da iniciativa cooperativa. Defende uma política verde, com prioridade para os peões, interdição do trânsito em zonas comerciais e estender a rede do metropolitano. Neste particular, pode-se considerar uma formação política de vanguarda. Não se trata de um movimento desprovido de quadros. Os seus animadores e dirigentes são amiúde académicos, havendo também um largo contingente de dirigentes de associações religiosas, grupos cívicos e ambientalistas, bem como muitos artistas, escritores e jornalistas.Afirmam ser os médicos da Tailândia e querem curar o país dos excessos da febre do dinheiro.



27 agosto 2010

Monarquia e liberdade

No próximo domingo realizam-se eleições em Banguecoque destinadas a eleger os deputados locais. A situação mudou, muito e para melhor ao longo dos últimos meses. Reposta a ordem e segurança, as liberdades políticas voltaram ao quotidiano dos cidadãos e partidos. A capital vai assistir a uma luta renhida entre três formações ideológicas muito diferentes e do pleito de domingo começará a desenhar-se o futuro quadro político do país. Ao "centro", o Partido Democrático do primeiro-ministro, partido monárquico advogando reformas lentas e seguras. Abhisit foi o grande triunfador da tentativa falhada de golpe de Estado plutocrática-comunista que assolou a Tailândia no início do ano. Agora, que a economia oferece números de crescimento imparável, terá tempo para consolidar a dinâmica. À "direita", o amarelo Partido das Novas Políticas, monárquico, budista militante, nacionalista e anti-globalização. O resultado que vier a obter mostrará ou não as suas possibilidades como força de desempate, caso os vestígios do thaksinismo ainda consigam expressiva votação. À "esquerda", os vermelhos, já sem a retórica inflamada do passado, muito lavados e cautelosos. O vermelhismo violento está atrás das grades e começa, como aqui dissemos, a surgir uma esquerda trabalhista, moderada e respeitadora do Estado de direito.


Hoje, em vários locais da capital, a comissão nacional de eleições realizou jornadas públicas de apelo ao voto - qualquer que seja, azul, amarelo ou vermelho - lembrando aos cidadãos que a participação é a alma da democracia e que cabe aos eleitores acorrerem às urnas para escolherem os candidatos da sua predilecção. É uma lição de democracia e liberdade, esta que o regime tailandês oferece ao mundo, calando cerce a má-vontade, má-fé e mentiras que os inimigos da Tailândia andaram a espalhar por meio mundo durante o golpe vermelho. A democracia é um método e uma cultura. Os tailandeses estão a construir o caminho da reconciliação, mesmo que alguns bandos terroristas persistam em recorrer à violência e intimidação. Ontem, uma granada foi lançada e feriu gravemente um segurança, mas para os tailandeses tal é interpretado como um acto localizado e insignificante. É sempre bom lembrar que os inimigos da liberdade e da monarquia não páram e que, para terroristas, só há o desprezo e a força da legalidade. Há que ensinar aos terroristas a bondade participação política, do diálogo e da legitimidade pelo voto.
Fotos Combustões

26 agosto 2010

Só a Alemanha se salva da vergonha




Falei hoje com um oficial superior do exército tailandês enviado ao Afeganistão como observador. Não se trata de um homem dado a grandes emoções. Disse-me calmamente que a guerra está praticamente perdida, que as notícias da CNN são filtradas ou inventadas, a coligação só domina as grandes cidades [de dia], que ninguém se pode aventurar sair só e sem escolta de Cabul, o governo perdeu o controlo sobre a maioria do território, as forças americanas estão reduzidas à defensiva, a droga e o alcoolismo atingem proporções inimagináveis e que aquilo se transformou num sórdido negócio para os plutocratas. De todo o desastre iminente, só se salvam os alemães. O Bundeswehr dá caça aos guerrilheiros, sobe montanhas, percorre os desertos, acampa fora das cidades e ganhou a confiança da população. De facto, faz falta à Europa a grandeza da Alemanha. Sei que estas coisas são politicamente muito incorrectas, mas há que voltar a falar no rearmamento da Alemanha, pois se algo de muito grave se passar sabemos que não podemos contar com os americanos, em retirada do Iraque depois de uma derrota inapelável.


Jan Kiepura: Heute Nacht oder Nie (1932)

Também quero um país destes


A Tailândia está em "crise", dizem os entendidos ocidentais. Sim, boa crise esta que conhece 9% de crescimento económico (2010), 1.6% de desemprego, inflacção de 3.4% e uma dívida pública correspondente a 40% do PIB. Nós, europeus, cheios de futuro, estamos a correr em tropel para níveis de rendimento e consumo próximos dos anos 60, temos dívida pública que se aproxima dos 85% e desemprego real a bater os 15%. Depois, há o double standard. Na Tailândia, um deputado vence 1000 Euro, um ministro 2000 e o presidente do parlamento 3000 por mês. Nós estamos bem, pois batemos em double standard as mais empedernidas "aristocracia". Ah, falta falar da justiça thai, também flagelada pelos avisados ocidentais. Na Tailândia, o tempo médio de criação ou a extinção de uma companhia é de dez dias, como a constituição de um processo por difamação é de 30 dias, com 15 para trabalho dos tribunais e 15 de recursos; ou seja, dois meses. Na esclarecida Europa, isso arrasta-se por três ou quatro anos, com as custas a correrem pelo difamado. Bendita crise esta, a da Tailândia. A receita podia passar a integrar o cabaz das exportações do país, que só no passado ano aumentaram 50%.

25 agosto 2010

Coisas que ficam


Dei aulas naquela universidade durante uma década, mas ali fui também responsável pela biblioteca e director do Curso de pós-graduação em Ciências Documentais. Foram anos trepidantes de actividade distribuída pela Biblioteca Nacional, com uma corrida ao jornal diário onde exercia funções [não remuneradas] como director-adjunto, nova corrida para as aulas do mestrado na Universidade Nova, que viria a concluir em 1999, mais um táxi em velocidade contra-relógio para chegar a horas à universidade para leccionar a cadeira de Introdução ao Pensamento Contemporâneo. Assim foi durante três mil dias. Foram anos interessantes, mas confesso que hoje não faria metade, pois com o passar dos anos apercebi-me que devemos fazer uma coisa de cada vez e que o dinheiro não é tudo. Aliás, que eu saiba, nunca ninguém fez dinheiro a trabalhar. O dinheiro faz-se por outras vias, mas como dele só preciso para viver com independência e dignidade, recolhi-me à vida de funcionário público e julgo ter feito dois bons mandatos enquanto chefe de divisão de investigação numa instituição que existe há mais de 200 anos. O problema de hoje é que as pessoas vivem para mil projectos, mas raramente deles fica a mais pequena migalha que assinale essas correrias.

Como saí de Lisboa em 2007, com bolsa em boa hora concedida pela FCG, não tive conhecimento do lançamento de uma obra magna, grande como um tijolo, que as edições lusófonas publicaram nesse ano. Há semanas, inesperadamente, o livro veio ter-me às mãos e lá estava um ensaio que escrevera a pedido do então reitor da Lusófona, o Professor Fernando Santos Neves. Li-o como se não fosse meu, pois tantos anos passados já mal me lembrava daquilo que escrevera. Para quem se dedica à investigação, o que fica é o papel impresso, com erros, com vulnerabilidades, ideias entretanto corrigidas. É como se víssemos uma foto antiga. Agora, que estou no momento culminante de anos de estudo sobre as relações em Portugal e a Tailândia, em vésperas da defesa de tese sobre o assunto que me trouxe a este canto do mundo, só antevejo o momento em que "a tal obra" chegue às rotativas e fique para dez, cem, duzentas pessoas que se interessam por estas coisas. Um livro não é escrito para os outros. É para nós. O importante é aquilo que ele produziu em nós. Quando "o tal livro" sair, vou fazer umas férias longas, despreocupadas, serenas. Estava a remoer estas vulgaridades virgilianas quando tocou o telefone. Era o meu chefe que me dizia: "Miguel, avance com isso porque para o ano há muito trabalho".

23 agosto 2010

Perdemos o mar, ficamos com os touros e os bofetões no Lobo Antunes


A direita portuguesa, perante as aporias da acção, prefere [sempre] fazer o maior mal possível. A direita portuguesa é a mais semita da Europa, pois raramente exercita a razão e do sagrado só tem a percepção do proibido e a sede da punição. A tara moralona a que aqui por várias vezes me referi, associada à tara jurídica, transformou a direita que temos em coisa tão imprestável que só faz mal às instituições que julga defender - a Igreja, as Forças Armadas, a propriedade - e às crenças (boníssimas) que fazem o mistério da identidade nacional. Contra tudo, não é por nada e até se virou contra aquilo que dela fazia uma excepção no magma do odioso tribalismozinho europeu.

A direita portuguesa faz mal a Portugal: tornou-se racista num país sem raça; é "europeia" num continente onde nunca estivemos; é pelas "tradições" que passaram e revolucionária na cópia daquilo que sempre repelimos. A direita portuguesa especializou-se no ataque ao Brasil e ao brasileiro, quando o único futuro que nos pode salvar da bantustização da "gorda, velha e hipócrita" Europa é o Brasil, futura grande potência. Por isso, sem nunca ter aberto um livro, sem saber escrever duas linhas ou associar duas ideias, fez-se paladina do anti-acordo ortográfico. Por isso, sem jamais ter posto um pé na Baía, em Luanda, Lourenço Marques, Goa, Macau ou Timor, desdenha da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, o tal forum que foi vilmente traído pelos "europeístas" num tempo em que a Europa era a nova pimenta, o novo ouro e a nova Mina do Rand. Fez-se pró-Berlusconi, pró-Le Pen, pró-plutocracia à outrance, pró-tudo o que conseguiu associar ao sucesso e ao poder que não tem e nunca terá, pois é a direita que ficou onde ninguém quis ficar.

Com excepção de algumas plumas ilustres - Rodrigo Emílio, António Manuel Couto Viana - de uma voz de excepção - José Campos e Sousa - e de duas ou três cabeças que insistem em chamá-la à razão, a direita portuguesa não fez um escritor, um músico, um pintor, um escultor, um cineasta, nada. Ficou-se pelas pragas e rabujices, pela difamação e miríficos "ajustes de contas" e "tribunais da história" que nunca se reunirão. Ficou a direita com as promessas de bofetões ao Lobo Antunes - quem, se não um rematado cobarde, pode ter o topete de bater num homem de 70 anos ? - como antes o fez com Saramago, que era criatura odiosa, mas até nos deu um Nobel. Ora, a direita não pede o regresso às tradições que fizeram Portugal confundir-se com Oceano, Império, África, Ásia e Américas. Ora, não pede a direita a Restauração da monarquia, que foi o esteio do mais lavado portuguesismo. Não, isso não interessa. O importante são as touradas - de morte, se possível - proibir isto e aquilo, dar uns bofetões ao Lobo Antunes e fazer uma fogueira com o milionário papel impresso de Saramago. Não, o latim não interessa, a literatura não pesa, o aprimoramento e o estudo cansam. A maior prenda que poderiam dar à esquerda é, sem tirar, a direita portuguesa.