20 agosto 2010

Não me falem em cultura

A cultura e a tradição justificaram o seppuku, a excisão (vulgo mutilação genital feminina), a lapidação de adúlteras, o talhar de membros e narizes de pequenos ratoneiros, o ferro caldo para apóstatas, os suplícios públicos, a tortura, as fogueiras e em seu nome se levantaram as mais iracundas vozes da conservação quando se tratou de justificar a escravatura. A civilização, essa bate-se por causas nobres: a despenalização das drogas, o infanticídio até às não sei quantas semanas, a bondade da guilhotina e da cadeira eléctrica, as guerras libertadoras e até a bomba atómica lançada sobre duas cidades japonesas. Não há diferença senão no modo: são biombos de hipocrisia e aquietadoras da cobardia irresponsável.

Anteontem, um touro teve a brilhante ideia de fazer justiça pelos próprios cornos. Os homens da cultura dirão que a tourada é milenária, que a tensão entre o homem e o animal atinge culminâncias e que o sangue derramado é gota no oceano da carnificina muda que nos chega ao prato do bife, da galinha à fricassé ou da lagosta cozida viva. Por mais que queira compreender o argumento, o pouco de civilizado que tenho impede-me de aceitar que uma tradição, só por ser tradição, tenha vantagem sobre a repulsiva brincadeira envolvendo centos de espectadores inebriados com o sofrimento de um animal. Entre a tourada e as lutas de gladiadores, optaria pela arena do Circo Máximo. Aquele senhor Touro valeu uma tese de antropologia animal.

19 agosto 2010

Para fazer subir o moral


O DN, talvez a última amarra ao país distante, noticia hoje que a maioria dos crimes de pedofilia ocorrem no seio da família (que novidade), que há oito a dez milhões de armas em Portugal (que segurança) e que Portugal se encontra na 27ª posição entre os países onde melhor se vive no mundo (que alívio). Daqui a quatro meses volto a passar os olhos pelo jornal para ver se não há novidades.


Die Dreigroschenoper

18 agosto 2010

Cine paradiso Siamensis: o lugar do português


A Luang Pridi Phanomyong, uma das figuras decisivas e controversas da vida política tailandesa do século XX, devo a gratidão de poder ter usufruido centenas de horas de estudo na biblioteca da Universidade de Thammasat, por ele criada. Não foi apenas um político como tantos outros que a memória sepultou: foi jornalista, ensaísta, legislador, investigador, novelista e realizador de cinema. O Rei do Elefante Branco / Phra Jáw Changpeuk (1940), inspirado em novela homónima do próprio Pridi, é hoje considerado pelos cinéfilos um ícone do cinema a preto-e-branco. Conta as guerras entre siameses e birmaneses das décadas de 1540 e 1550, em que Fernão Mendes Pinto participou como soldado da fortuna integrado nos chamados Farang maen pren (corpos militares de europeus) ou samák (voluntários). A presença dos portugueses é uma constante ao longo da fita. Ali está a imagem do farang estereotipada pela fantasia thai do estrangeiro branco, violento, peito couraçado, espada à cintura e arcabuz.


Anteontem pela noitinha assisti à sua projecção ao ar livre, em plena capital. O filme é, bem entendido, um vibrante manifesto nacionalista e emparceira com fitas da mesma geração: Ivan o Terrível, de Eisenstein, Coroa de Ferro, de Blasetti, Camões de Leitão de Barros. Dirão as más línguas que integra a campanha patriótica em curso. Diria, antes, que faz parte - utilizando um palavrão que detesto - do "imaginário" nacionalista thai. Valeu a pena ver a tela encher-se com os grandes planos de batalha, o espaço invadido pelo não-stereo, o magnífico projector dos anos 40 a lançar o jacto de luz.


สดุดีมหาราชา

15 agosto 2010

Barrela patriótica

O patriotismo não é ideologia nem doutrina; é um sentimento sem o qual a sociedade, as instituições e o Estado carecem de significado. Tão habituados às "desconstruções" dos camartelos do marxismo - que tudo reduziu a "alienações" e interesses de classe - e do mais prosaico capitalismo - que procedeu à dedução do sentido da vida colectiva pelo "bem-estar" e consumo - espantamo-nos perante a natural intervenção do Estado no fomento do patriotismo. Sim, a verdade - ericem-se os "jovens da geração de 68", que andaram décadas a apedrejar os símbolos nacionais - é que sem patriotismo não há nem civismo nem cidadania. Percorri os bancos do liceu e da universidade recebendo verdadeiras barrelas de anti-portuguesismo. Hoje, o patriotismo português está confinado ao esférico e os governantes não sabem como recuperar a unidade, pois o patriotismo é como uma liturgia: se não se celebrar diariamente, se não for permanentemente regado e inculcado, desaparece. E o que fica do irreparável vazio desse poderoso elemento agregador ? Governantes sem autoridade, o Estado sem finalidade, cidadãos de coisa alguma. O patriotismo não é de esquerda nem de direita: é nacional.


Tocou o telefone e um amigo meu, que trabalha para o governo tailandês, convidava-me para a inauguração de uma exposição que marca o início de um vasto ciclo de iniciativas que em boa hora o governo desencadeou para exaltar os símbolos nacionais. Vesti-me à pressa e à hora combinada cheguei ao local do arranque da campanha. O vice primeiro-ministro acabara de chegar e uma multidão de jornalistas disparava girândulas de flashes. Simples, com a grandeza de tudo quanto dispensa apresentações, deu-se início à sessão. Uma procissão das bandeiras nacionais da Tailândia empunhadas por jovens das escolas secundárias da capital, desfilou com solenidade exibindo o friso das bandeiras deste reino, dos tempos de Sukhothai e Ayutthaya à presente era de Banguecoque. Marchas patrióticas, cantadas por uma rapariga de vibrante voz, explicavam a sucessão das batalhas e guerras que fizeram deste país, velho de 800 anos, um rematado sucesso de sobrevivência e liberdade.



Os jovens aprendem na escola, do infantário à universidade, tudo o que os distingue dos outros. Sim, patriotismo quer dizer orgulho, pertença, diferença e disso não se envergonham os thais, que levam a extremos a sua singularidade sem que tal se exprima pela retórica do belicismo e do ódio contra o estrangeiro. Nas escolas há actividades patrióticas, o curriculo escolar inscreve-as como disciplinas obrigatórias e quem não souber a complexa trama de símbolos, bandeiras, pavilhões e flâmulas - da Casa Real, do governo, dos ministérios, das províncias e das Forças Armadas - , bem como os hinos, marchas e textos mais representativos da história de heróis e heroínas não passa ! No fundo, o patriotismo é mais importante que a aritmética, justifica a gramática e a literatura, dá substância à História e à Geografia, abre passo à preservação da natureza, da fauna e da flora. Depois, a Tailândia é uma monarquia budista. É, também, uma democracia, e se isso quer dizer "soberania popular", o povo só tem significado se for protagonista de uma vontade colectiva que ultrapassa as gerações. Explica-se, assim, o triunfo sobre o comunismo nos anos 60 e 70 e, recentemente, o estrepitoso fracasso da conjura plutocrática-mundialista que quase atingiu os seus objectivos.

Terminada a apresentação do calendário patriótico, a marinha real exibiu-se na praça fronteira. Um mar de aplausos e o hino nacional cantado por todos os assistentes. Aqui, as Forças Armadas não têm vergonha da farda que envergam, aqui não se padece desse tão ufano "civilismo" que por outras paragens reduziu os militares a funcionários públicos; aqui, ao Ministério da Defesa só ascendem titulares com formação militar. Conheci em tempos um "objector de consciência", por sinal filho de um ex-desertor, que tinha por tema predilecto catilinar contra Portugal. Anos depois encontrei-o "quadro superior dirigente do Estado". É preciso dizer mais ? Sim, Portugal precisa, com a máxima urgência, de uma boa barrela patriótica. Não é preciso ter grande imaginação: venham copiar à Tailândia. É para isso que existe a cooperação entre Estados.

แผ่นดินของเรา = Pên Din Khong Ráw (A Nossa Pátria)