13 agosto 2010

Dia da Mãe

Em minha casa, tributo a Sirikit

Foi ontem pela noitinha. A habitual massa humana, ostentando na lapela o monograma da Rainha e segurando uma vela amarela acesa na mão direita, repetiu no Terreiro Real (Sanam Luang) o solene juramento de fidelidade ao trono e à rainha. Não pude ir, mas como tantos outros milhões de pessoas espalhadas por todo o país, fiz o juramento em casa, na companhia dos vizinhos. A monarquia é, indubitavelmente, um grande dique face às misérias da plutocracia e da alvar patetice que domina meio mundo. Ontem foi o Dia da Mãe, aniversário natalício da Rainha Sirikit, sem dúvida um dos mais fortes pilares da liberdade neste país há pouco ameaçado pelas garras canalhas do dinheiro e da americanice.



เพลงสรรเสริญพระบารมี

12 agosto 2010

Intolerâncias

Persiste o mito resistencialista [italiano e francês] do pós-guerra de uma luta sem quartel entre o fascismo e o comunismo. Chega-se ao extremo de recobrir a extensa e complexa família dos fascismos sob a designação genérica de "nazi-fascismo", numa lamentável como intencional amálgama de planos tendente a dissociar do fenómeno a sua real e matricial genética socialista. O nazismo foi aliado do fascismo, mas esse entendimento parece surgir como uma associação acidental - isto é, histórica - e não como uma relação de parentesco. O fascismo, é verdade, ensinou Hitler a fazer uma ditadura, mas entre os dois movimentos parece haver tantas e irreconciliáveis contradições que só a custo os poderemos colocar na mesma família. Aliás, atentando à experiência histórica, a relação de afinidade, nos modos e políticas, parece ser maior entre o nazismo e o estalinismo que entre o nacional-socialismo e o fascismo enquanto ideologias.
De facto, o fascismo foi uma variante socialista da recusa do liberalismo e do capitalismo, mas também dos fundamentos da civilização cristã. O fascismo nasceu republicano, socialista, estatista e transpersonalista mas teve de conviver com circunstâncias adversas à sua implantação, uma mesologia social e cultural que o obrigaram a um modus vivendi com a monarquia, a Igreja Católica e a sociedade italiana. A via italiana para o totalitarismo falhou, absolutamente, porque o fascismo - é um facto - não existiu. O que houve em Itália foi um regime autoritário com tiques e aspirações totalitárias que nunca vingou. A falar-se desse regime, deve-se utilizar com propriedade a consabida expressão de Arendt, segundo a qual esse fascismo não passava de "uma vulgar ditadura de direita". O que houve em Itália foi um regime mussoliniano, pois que todo o regime, não obstante a procura de legitimidade ideológica, viveu sempre da relação entre o seu líder e o povo italiano. Quando Mussolini caiu em desgraça, o regime e o fascismo estatelaram-se.

De Guglielmo Salotti , Nicola Bombacci: un comunista a Salò, publicado em 2008 - a que só agora tive acesso - vem demonstrar que o fascismo puro, isto é, aquele que nunca teve de se adaptar às circunstâncias da governação, foi, da sua génese aos derradeiros dias de Salò, um movimento socialista. Bombacci foi líder do Partido Socialista Italiano com Mussolini e, depois, um dos fundadores do Partido Comunista Italiano. Após a Marcha sobre Roma, com o consenso mussoliniano com o velho liberalismo, a Igreja e a Monarquia, Bombacci manteve-se fora. Com a ruptura do consenso, com a derrota militar e a criação da República de Salò- um Estado fantoche manipulado pelos alemães - deu-se aos "velhos fascistas" poder para reeditarem as premissas do movimento. Não podendo governar (os alemães não o deixavam), empenharam-se na "purificação" do fascismo. E o que nasceu desse esforço ? Republicanismo, defesa das nacionalizações, formulação de uma teoria de co-gestão empresarial, sindicalismo revolucionário, anti-catolicismo militante. O PCI quis ver nessa cartada um desesperado movimento demagógico. Infelizmente, os factos contradizem a simplificação. Ao longo dos anos do consenso, os elementos ideologicamente mais "puros" do fascismo dedicaram-se à teorização ideológica e ao "combate cultural", pois que Mussolini deles não precisava para governar a Itália. Ao longo dos anos 30 e inícios de 40, cripto-comunistas e fascistas puros conviveram e fizeram o que o regime mussoliniano lhes permitia fazer: revistas, cinema, ensaio, literatura. O tão aclamado Neo-Realismo nasceu desta camaradagem entre comunistas e fascistas, bem pagos e integrados nas estruturas do Ministério da Educação Popular, do Instituto Luce, na Gioventù Universitaria Fascista e no Dopolavoro. Em 1943, Bombacci, ao invés de optar pela resistência, optou por Salò e pelo seu velho amigo Mussolini.

O Duce teve sempre grande interesse pela URSS, talvez mais genuino que o que sentia pela Alemanha nacional-socialista. Mussolini manteve boas relações diplomáticas com a URSS - na noite que precedeu o ataque alemão à URSS, houve grande jantar-festa na embaixada soviética em Roma, com a presença dos mais altos hierarcas do regime, pelo que as más línguas sugerem que Hitler não informou Mussolini do iminente ataque à Rússia de Estaline com medo que os amigos fascistas italianos informassem o Kremlin - e ao longo dos dois anos que se seguiram Mussolini defendeu sempre a ideia de uma paz separada entre o Eixo e a URSS. O anti-fascismo foi, pois, uma estória do pós-guerra !

Depois, há atitudes denunciando genética comum. Não deixam ninguém falar, berram e ameaçam quando postos em causa, não autorizam réplica, julgam que são donos da palavra e da verdade, insultam e desprezam tudo o que não compaginar com a sua (deles) liberdade opinativa, cultivam a vitimização, recorrem sistematicamente à propaganda e à exploração sentimental, vivem no grupismo do partido, da loja ou da curibeca, detestam a solidão, punem os dissidentes; em suma, "fascismos" que têm medo de se ver ao espelho !


Vado vinco e torno

09 agosto 2010

Elefantologia lusa

Não brincamos. É uma ciência veneranda com direito a biblioteca interminável de obras com chancela científica sobre o mais tímido, dócil e inteligente dos animais, eventualmente com uns dedos de inteligência, asseio e vida social acima dos bípedes implumes, vulgo humanos. A elefantologia está, de novo, em crescendo. Hoje, na livraria da esquina, contei seis títulos entre novidades e reimpressões. Para os thais é uma divindade e há espalhados pela cidade santuários dedicados a Ganesha e ao elefante de Erawan, um colosso tricéfalo branco-rosa que põe a um canto qualquer figura mitológica do panteão greco-latino.


Quando em Bangueoque se inaugurou a estátua equestre do Rei Rama V (r. 1868-1910), a multidão exalou um ahhhh de espanto, pois a representação de um rei a cavalo quebrava todas as expectativas e constituia quase um insulto à sacralidade do monarca, avatar de Vishnu. Um Rei, só montado no dorso de um proboscídeo elefantídeo. Para os thais, o cavalo é um frágil animal e o seu uso estava destinado a capitães de mesnada, nunca a um Rei. A grande heroína nacional deste povo é a rainha Suriyothai e da intrépida amazona há centos de estátuas espalhadas por toda a geografia tailandesa. Suriyothai está sempre retratada como cornaca no momento decisivo da batalha contra os invasores birmaneses em que foi trespassada por uma lança. A revoada dos pandas é coisa induzida pelo negócio dos zoo's, mas quando esta passar voltará, como sempre, o afecto que os thais têm pelos elefantes. Portugueses houve que se interessaram pela "antropologia do elefante". Mostrei há semanas em Lisboa a uma professora tailandesa uma obrinha cheia de garbo que saiu do cálamo de um dos nossos mais aguerridos cônsules-gerais no Sião, Frederico Pereira, que aqui esteve ao longo da década de 1890 e deixou brilhantes relatórios e impressões sobre a sociedade e instituições siamesas. Frederico Pereira entrou pela porta grande da elefantologia. Deixou os Elephantes, um livro raríssimo que, se fosse traduzido, colheria o maior aplauso entre os elefantómanos. Aqui fica, pois, a sugestão para um dos nossos editores.

08 agosto 2010