07 agosto 2010

Japonismo: a Ásia abandona a era ocidental

O movimento iniciou-se há muitos anos e como todas as mudanças culturais foi quase imperceptível na sua fase inicial, a chamada fase da extravagância. Hoje, a moda é o Japão e a Coreia do Sul. Se a pujança nipónica se explica, a coreanofilia causa-me engulho, pois se há país na Ásia extrema que menos motivos tem para servir de referência a quem quer que seja, esse será certamente a Coreia, onde tudo é plástico, que trocou a sua velha consigna de "reino eremita" pelo mais deslavado pentecostalismo das seitas-empresa norte-americanas. Tanto dinheiro não conseguiu gerar um músico, um escritor, um realizador de cinema de nota. Se alguma coisa coreana existe digna de curiosidade [mórbida], essa será, sem hesitação, o paraíso concentracionário do Norte, uma estória da Anita com bomba atómica e tudo.

Hoje, em frente de minha casa, concentrou-se uma pequena multidão de fãs da banda desenhada japonesa, desses seriados terríficos de sangue, decapitações e figuras com caras de bebé capazes dos mais acabados holocaustos. É a mitologia asiática em nova versão, com muita tecnologia e poderes mágicos, combates de titãs, avatares, embates do fogo e da água, do vento e da terra, figuras eternamente jovens, quase pueris, trespassando monstros saídos das entranhas da terra, caídas do espaço sideral ou cuspidos da fornalha dos vulcões.

Há quem lhe chame infantilismo. Não, trata-se de mitologia e da necessidade da magia num mundo que se horizontalizou e quase se suicidou pelos "pecados mortais da civilização" do dinheiro e do consumo. No Ocidente, Harry Potter, esse fenómeno ainda por estudar - talvez tão representativo do retorno do mágico como o foi Tolkien para as décadas passadas - transformou-se em ritual de passagem e "involução" para uma "cultura antiga" - de genética medieval e intemporal - onde tudo é possível, onde triunfou a manipulação e domínio das forças materiais, das leis naturais e demais aconchegantes certezas iluministas e positivistas.

Os jovens gostam de violência. Impossibilitados de a exercitarem, descarregam-na nos jogos de computador e consolas. As manga estão tintas de sangue e "perversão". As figuras lunares, os transformistas, os solitários carregando danações e comportamentos compulsivos inebriam os leitores; aliás, não são leitores, mas fiéis, seguidores, concelebrantes de um mundo paralelo, de uma porta para a outra dimensão. Alguns dirão, agarrados à tradição literária ocidental, toda feita de "figuras sociais", que isto é coisa menor, paraliteratura, sub-literatura ou o que lhe quiserem chamar os teóricos da literatura.

Passei uma vista de olhos pela secção infanto-juvenil de uma livraria tailandesa e dois mundos terçam armas: a cultura velha do "didáctico" e do "enciclopédico" luta desesperadamente contra a emergência do mágico e do heróico. Sim, os jovens não querem e até desdenham do "conhecimento dos velhos", do "estudo" e da escola fora da escola. Querem isto: combates, lutas, guerras. Toda compostinha, a escola, quis virar a página aos genes e formar "cidadãos". Qual quê, tirou-lhes as batalhas, as espadas, os amores eternos - os ingredientes da mais básica literatura de sempre - e matou-se. Os jovens vingaram-se e criaram o seu mundo.

06 agosto 2010

Foi há 50 anos

Passam neste mês de Agosto 50 anos sobre a visita de Estado que SSMM os reis da Tailândia realizaram a Portugal. Protocolo de Estado em grande forma, banquetes, visitas e honras ornadas pela curiosidade e logo entusiasmo que o povo de Lisboa dedicou à bela rainha Sirikit. Entrada no céu português com cerrada escolta dos jactos da nossa Força Aérea, visita ao Alfeite e ao Hospital do Ultramar - então na vanguarda da investigação no domínio das doenças tropicais - mais três banquetes (Estufa Fria, Queluz e Ajuda), recepção nos Paços do Concelho e despedida multitudinária na Portela, com muita tropa e estandartes, governo em peso e grandes acenos no momento da despedida. Portugal recebeu na proporção da sua dimensão e na condição de mais antigo aliado do velho Sião. Foi tudo pleaneado ao segundo, com uma dignidade e elegância que não mais se voltou a ver em terras portuguesas. Infelizmente, perdeu-se o tom solene e a grandeza que o Estado deve afivelar quando recebe. Uma pontinha de monumentalidade não faz mal a ninguém ! Hoje mostraram-me o álbum do Protocolo de Estado tailandês e senti uma pontinha de orgulho ao verificar que batemos aos pontos holandeses, dinamarqueses e alemães na arte de puxar pelos galões. Que se restaure, depressa, o éclat das grandes recepções.


04 agosto 2010

Agradecimento

Aos Jansenista, Insurgente, Delito de Opinião e Crónicas do Rochedo especial agradecimento pelos votos de felicitações na passagm do 5º aniversário de Combustões.

5 anos de Combustões


1825 dias, 2307 mensagens, 466.000 visitas. A divisa ficou: aqui nunca se disse mal de Portugal, não se fez lóbi, nunca se proferiu um palavrão, um insulto pessoal, não se espalhou boatos, rumores e intrigas, não se agitaram bandeiras de partidos nem se espalhou boa nova alguma. Fazer um blogue, alimentá-lo, perseverar, abordar temas que não reproduzem o jornalismo e a conta-corrente da politiquice exige um grande esforço mas, sobretudo, um grande prazer de partilha. Autista q.b. em relação a tudo o que me fez abandonar o país, mas sempre fiel a uma ideia de Portugal que teima em reclamar a luz num tempo de trevas e de conspiração da idiotia, Combustões tentou ser alfarrábio, gazeta, álbum de memórias, caderno de apontamentos, sebenta. Não é muito nem pouco. Foi o caminho que escolhi. Tchin tchin !


Debussy: De l'aube à midi sur la mer