
O movimento iniciou-se há muitos anos e como todas as mudanças culturais foi quase imperceptível na sua fase inicial, a chamada fase da extravagância. Hoje, a moda é o Japão e a Coreia do Sul. Se a pujança nipónica se explica, a coreanofilia causa-me engulho, pois se há país na Ásia extrema que menos motivos tem para servir de referência a quem quer que seja, esse será certamente a Coreia, onde tudo é plástico, que trocou a sua velha consigna de "reino eremita" pelo mais deslavado pentecostalismo das seitas-empresa norte-americanas. Tanto dinheiro não conseguiu gerar um músico, um escritor, um realizador de cinema de nota. Se alguma coisa coreana existe digna de curiosidade [mórbida], essa será, sem hesitação, o paraíso concentracionário do Norte, uma estória da Anita com bomba atómica e tudo.


Hoje, em frente de minha casa, concentrou-se uma pequena multidão de fãs da banda desenhada japonesa, desses seriados terríficos de sangue, decapitações e figuras com caras de bebé capazes dos mais acabados holocaustos. É a mitologia asiática em nova versão, com muita tecnologia e poderes mágicos, combates de titãs, avatares, embates do fogo e da água, do vento e da terra, figuras eternamente jovens, quase pueris, trespassando monstros saídos das entranhas da terra, caídas do espaço sideral ou cuspidos da fornalha dos vulcões.

Há quem lhe chame infantilismo. Não, trata-se de mitologia e da necessidade da magia num mundo que se horizontalizou e quase se suicidou pelos "pecados mortais da civilização" do dinheiro e do consumo. No Ocidente, Harry Potter, esse fenómeno ainda por estudar - talvez tão representativo do retorno do mágico como o foi Tolkien para as décadas passadas - transformou-se em ritual de passagem e "involução" para uma "cultura antiga" - de genética medieval e intemporal - onde tudo é possível, onde triunfou a manipulação e domínio das forças materiais, das leis naturais e demais aconchegantes certezas iluministas e positivistas.

Os jovens gostam de violência. Impossibilitados de a exercitarem, descarregam-na nos jogos de computador e consolas. As manga estão tintas de sangue e "perversão". As figuras lunares, os transformistas, os solitários carregando danações e comportamentos compulsivos inebriam os leitores; aliás, não são leitores, mas fiéis, seguidores, concelebrantes de um mundo paralelo, de uma porta para a outra dimensão. Alguns dirão, agarrados à tradição literária ocidental, toda feita de "figuras sociais", que isto é coisa menor, paraliteratura, sub-literatura ou o que lhe quiserem chamar os teóricos da literatura.

Passei uma vista de olhos pela secção infanto-juvenil de uma livraria tailandesa e dois mundos terçam armas: a cultura velha do "didáctico" e do "enciclopédico" luta desesperadamente contra a emergência do mágico e do heróico. Sim, os jovens não querem e até desdenham do "conhecimento dos velhos", do "estudo" e da escola fora da escola. Querem isto: combates, lutas, guerras. Toda compostinha, a escola, quis virar a página aos genes e formar "cidadãos". Qual quê, tirou-lhes as batalhas, as espadas, os amores eternos - os ingredientes da mais básica literatura de sempre - e matou-se. Os jovens vingaram-se e criaram o seu mundo.