16 julho 2010

Desaforos colonialistas


Um conhecido meu, há muito radicado na Tailândia, homem de grande fortuna familiar e vida sem sobressaltos, decidiu empacotar a casa e transferir-se para outro país do Sudeste-Asiático. Disso me deu conta em longo mail elencando razões que estima eloquentes em abono da sua decisão. "Os thais são irracionais", "culturalmente desinteressados", "ignorantes ao limite", "julgam que a África é um país", "não sabem quem foram Mozart, Disraeli ou Picasso", "falam e escrevem um mau inglês", "não nos entendem" e outros argumentos judicativos. Pois bem, na resposta que tive a paciência de montar, lembrei-lhe que o europeu da rua, que só domina a ciência dos futebóis, não sabe que Thimphu é a capital do Butão e Naypyidaw de Myanmar, que os tailandeses não se referem ao seu país como "Tailândia" mas como "Muang Thai", que Bangkok é para os thais "Krungthep", que Deus (Prajáw) é Shiva e não o Yavé judaico, que o recitativo primordial é o Ramayana e não o Antigo Testamento, que a fonte da inspiração e guia é o Divyavadana. Nada disso interessa, é tudo de somenos, coisa para bárbaros. Afinal, Carlyle e o Benjamin Kidd do Control of the Tropics estão bem vivos, agora transmutados em diplomacia do dólar, o novo Manifest Destiny que acredita piamente nas cruzadas, a autoridade moral da libertação sob ameaça das armas ou da chantagem económica.

Neste luco-fusco do Ocidente, já sem a grandeza de um S. Francisco Xavier, de um Albuquerque ou de um desses temerários loucos - Camões, Fernão Mendes - só sobressai a arrogância desse pensar pequeno que fez dos mercadores o que de odioso os orientais guardaram dos homens brancos e rotundos que lhes assediam as portas. Ouvir-se-á um suspiro de libertação no dia em que todos abandonarem, de vez, essas terras onde viveram como reis tratando os naturais por cima da burra.

14 julho 2010

Portugueses


"Os seus padres eramos nós, os missionários portugueses. É que a religião, nestas paragens, andou tão intimamente ligada à ideia de nacionalidade que ainda hoje português e cristão são sinónimos". (...) [Um indiano acercou-se de mim e disse]: "se o inglês é bom para fazer negócio, para rezar só o português".

X, Crónicas de Viagem
in: Boletim Eclesiático da Diocese de Macau. n. 304 e 305, Julho e Agosto de 1929

As coisas são como são. Há menos de um ano, em pleno Camboja, um agente da autoridade perguntou-me de onde vinha. Quando lhe disse que era português, olhou sorridente e curioso para o meu passaporte, brincou com o dedo sobre a armilar e disse: "ah, Kristan". Preparando-me para regressar ao Oriente, dediquei algum do meu tempo livre à arrumação da minha biblioteca, que aguardava a mão do dono após três anos de abandono, com obras à mistura e muito pó acumulado. Abri um belo álbum sobre a pintura namban e reparei, como quem olha pela primeira vez, que naquelas naus que demandavam o Japão em busca de riqueza e conversos, só havia dois brancos: o comandante e o missionário. Todos os outros eram amarelos (chineses), pardos (malaios, siameses), castanhos (indianos) ou negros (africanos). Eram os portugueses. Quem não o percebeu ainda - o segredo da nossa sobrevivência, a razão do nosso império e da nossa universalidade - nada percebeu, afinal, da sua nacionalidade.
Hoje pela tarde, no arquivo em que presentemente recolho documentação alusiva aos protukét do Sião, encontrei a correspondência que travaram dois cristãos, um de Malaca, outro de Banguecoque, entre 1816 e 1826. Tratavam-se por irmão, contavam as pequenas felicidades e amarguras do dia-a-dia, pediam informações, trocavam confidências sobre os negócios. Depois, compreendi que nunca se haviam encontrado, que tinham por intermediário um navegante que tocava ocasionalmente as cidades em que viviam. Foram amigos durante uma década, mas nunca se encontraram. Eram, apenas, "portugueses". Dava uma bela novela.