25 junho 2010

Chegou a nau do torna-viagem

De mão amiga da comunidade católica de Santa Cruz de Banguecoque, chegou a nau torna-viagem com fotos das celebrações do Dia de Portugal no reino do Sião, com participação em força dos luso-descendentes - agora com direito a um Grupo de Danças Tradicionais Portuguesas, ensaiado pela nossa Embaixatriz Maria da Piedade Faria e Maya - e de centenas de participantes, onde pontificou a segunda figura do Estado, o presidente do Parlamento tailandês.

No ano que precede as celebrações do V Centenário da chegada dos Portugueses ao Sião, o Navio Escola Sagres - com visita prevista para a primeira quinzena de Outubro do corrente ano -, foi a atracção. Um lindíssimo centro de mesa em cristalino gelo esculpido por um chef tailandês, foi mote para a generalidade das conversas para esta antiquíssima e sempre evocada aliança e permanentemente renovada pelo sangue dos mais de dez mil luso-descendentes que habitam os bairros católicos da capital. Como aqui não se diz mal de Portugal e porque existe um Portugal muitíssimo maior que a conta corrente de desgraças debitadas no derrotismo de café, e porque Portugal é mais uma ideia que um mero bilhete de identidade de ocasião, estes actos de afirmação patriótica são a esperança da perenidade do nosso país no mundo.

20 junho 2010

Lisboa renascida

Não vivo em Lisboa há três anos, pelo que perdi a habituação que cansa os olhos e torna espessa a vista. Aterrei há dias, de passagem para visitar a família e realizar a última etapa de uma investigação, longa de anos, que me levou ao Oriente e acabou por me fixar em Banguecoque.

Lendo os blogues e os jornais em linha disponíveis, acompanhando o estendal de escândalos, latrocínio e impunidade que parecem ter-se fixado como condenação ao viver português, confesso ter adiado vezes sem conta a hora do regresso, nauseado com a putrefacção que sentia a milhares de quilómetros. Os ecos distantes deste tempo sem tempo levam à desesperança e à renúncia, em tudo fazendo recordar o terrível título de uma das mais dolorosas obras de António Manuel Couto Viana, meu amigo de sempre que me pregou a partida de subir aos céus dias antes da minha chegada: Ponto de não Regresso. Nesse livrinho, Couto Viana comparava Portugal a uma vala, nove palmos por três.

Porém, uma agradável surpresa aguardava-me. Não encontrei uma Lisboa moribunda ou cadavérica, desfigurada, maltrapilha e imunda como aquela que conheci. A nossa capital, aprumada, enxuta, lavada, pintada, arborizada e digna parece contradizer o pessimismo que vai na cabeça dos portugueses. Ontem passeei longamente pela cidade e fiquei maravilhado com a transfiguração de uma cidade que foi de Abecassis, Soares-filho, Sampaio e Santana antes de cair nas mãos de Costa. Como sou absolutamente avesso a partidarismos, como desconfio de camarilhas e curibecas, posso lavrar testemunho imparcial do que me foi dado ver.

António Costa fez obra. Contrariando a maledicência crónica, a má-fé, a verrina e o sarcasmo, coisas inventadas entre nós pela "maldita geração de 70", encontro uma Lisboa capital europeia. A cidade está irreconhecível, belíssima e ataviada com os encantos que só os poetas nela viam nos terríveis anos - que foram décadas - de vandalização metódica às mãos de edis que a odiaram, prostituíram, queimaram e "monstrificaram". Eu não voto, nunca votei, mas se um dia regressar, espero encontrar na presidência da CML o homem que me reconciliou com a minha capital, que restituiu vida e me devolveu a esperança no futuro do meu país. Sei que as pessoas não gostam de ouvir de mim tais elogios, mas seria injusto se o não fizesse.