10 junho 2010

Liberdade

O vendedor percorria a feira gritando "selos do Senhor da Vida", "compre a nova colecção de selos do nosso Pai". Um casal de idosos britânicos olhava-o e tentava compreender o motivo da azáfama que cercava o vendedor. As pessoas paravam, não hesitavam e compravam uma ou duas cartolinas brilhantes com o retrato do Rei tendo no canto superior direito, debroado a ouro, o selo da emissão. Após uns minutos, a senhora inglesa perguntou-me se eu compreendia a língua e se podia traduzir o que o homem ia debitando. Ajudei-os e o marido interrompeu-me com um gesto da mão direita e disse: "sim, eles gostam do seu Rei como nós gostamos da nossa Rainha. É normal."

A mulher parece não ter gostado da definição e acrescentou: "as pessoas amam os seus reis porque os reis somos nós, a nossa história, a nossa cultura e aquilo que nos faz independentes e diferentes. Ou está a ver um francês ou um italiano a comprar selos com a cara desses tipos (sic bastards) que os enganam, roubam e ainda por cima exigem que lhes paguem as reformas douradas ? Eu nem morta seria obrigada a levar para casa o focinho (sic muzzle) de um desses phoney baloney".

A Inglaterra não vai entrar nessa coisa chamada União; ou antes, está lá como quem faz parte de meia dúzia de associações e não paga as quotas. Aquilo é passageiro, insubstantivo, irrelevante.

08 junho 2010

Caramba, devo ter costela de Cassandra


Aqui disse há dois meses que a invasão vermelha de Banguecoque reunia o que de pior podia haver na sociedade tailandesa. Logo no primeiro dia, andavam em estridentes buzinadelas num mar de bandeiras vermelhas e clamores triunfalistas, resolvi ir ver a turba de invasores e lavrei impiedosa sentença: aquilo era gente que nunca vira em três anos de Tailândia e mais de doze anos de visitas ao país. Dir-se-ia uma população subterrânea, invisível aos olhos mais armados, gente que nem nas zonas vermelhas - leia-se, de lanterna vermelha do submundo da "indústria" de Patpong - se via: gente com todos os traços patibulares de população presidiária, fazendo gestos obscenos com os dedos, gritando palavrões capazes de fazer corar a Fanny Hill. Mas não, diziam os românticos, aquilo era o bom povo camponês "explorado e segregado pelo double standard", pela "aristocracia parasitária", pela "clique da corte", a "oligarquia", o "exército golpista", os "5% que vivem das mais valias do povo trabalhador" e outros rodriguinhos que fui desconstruindo ao longo das semanas da crise [que foi um golpe de Estado falhado] até se converterem numa certeza: aquilo era, sem tirar, o Partido Comunista da Tailândia e um movimento que, a triunfar, provocaria o colapso desta sociedade, o fim do regime e do sistema e milhares e milhares de mortos.

Agora, com o processo de investigação correndo, os factos, os protagonistas e os objectivos do movimento vão-se tornando claros como a mais cristalina das águas. No debate parlamentar da passada semana, o Ministério do Interior facultou dados relevantes sobre os envolvidos no golpe de Estado e facultou informação em primeira mão sobre os "mártires" da reposição da ordem e segurança nas ruas. Hoje pela manhã tive acesso a um documento confidencial contendo matéria explosiva sobre as "inocentes vítimas" da acção das forças da ordem. Onde pensava encontrar pobres trabalhadores braçais, "proletários e camponeses", balconistas, estivadores e vendedores de rua "lutando por uma sociedade igualitária e mais justa" [como rezavam as tendenciosas crónicas encomendadas pelas centrais de intoxicação] deparei com uma lista bem mais interessante:

- Das 80 vítimas mortais anunciadas no rescaldo da operação de limpeza das ruas de Banguecoque, 75% possuiam cadastro criminal e eram notórios facínoras repetidamente condenados pelos tribunais. Há de tudo: ladrões comuns, traficantes de drogas, violadores, traficantes de armas e 8 (ou seja, 10%) com crimes de sangue cometidos ao longo dos últimos anos. Até dois "monges" cadastrados, um deles detido por seis vezes havia. Boas vocações. Eu bem os vi no acampamento vermelho. Os "homens de negro" armados eram, afinal, vulgares bandidos contratados e usados como tropa de choque. Foram eles que usaram as armas, que lançaram as bombas, que agrediram um pouco por toda a cidade cidadãos indefesos. Foram eles que assaltaram e lançaram fogo aos bancos, aos centros comerciais, às lojas e cinemas. Com toda a propriedade semântica chamei-lhes "lumpen". Estava errado. Não era o lumpen: era a escória.

Não vi nenhum dos fogosos defensores das causas justas lamentar a morte dos polícias e soldados, esses caídos no cumprimento do serviço. Toda a encenação tinha um objectivo: branquear, exaltar e transformar em mártires os milicianos vermelhos, afinal o que de pior havia na sociedade que estiveram a milímetros de destruir.

07 junho 2010

Falsas dinastias, falsos reis

Gente gananciosa e ávida; desertos mentais e afectivos. Horizontalizadores, estes novos Levellers sonharam com um mundo de plástico, torres de vidro e a soberania do Homem Novo, "cidadão do mundo". Fizeram da usura uma religião, reduziram a política a marketing, a cultura em mercado, a educação em negócio. Reinaram impantes durante duas décadas, legislaram contra o Bem Comum, inventaram entidades supranacionais para alargar as fronteiras da coutada, fizeram guerras para espalhar a boa nova, tornaram o Ocidente odioso aos olhos daqueles que em nós confiavam.

Às suas mãos foram abatidas, uma a uma, as fronteiras que faziam a riqueza e a diversidade dos povos do Ocidente. Planificadores, recusaram aos povos a liberdade económica, riscaram tratados que estilhaçaram a segurança do pão e do trabalho, abriram as portas do Ocidente à China para agora a quererem ver abatida e substituída pela Índia. Às suas mãos, fizeram-se as relocalizações, demoliu-se a agricultura e coroou-se o colarinho branco como novo equites, servido por milhões de escravos trazidos para ecelerar a proletarização da detestada "classe média" de empresários e quadros que se lhes opunha. Abateram o que sobrara das antigas elites, dos corpos profissionais, dos velhos partidos e do associativismo que eram barreiras à expansão do totalitarismo.

Tudo isto aconteceu e ninguém se apercebeu que era uma revolução, tão profunda e perdurável como qualquer dos cataclismos que no passado mudaram para sempre a face do mundo. Surgiram novas referências e novos ídolos, gente surgida do nada fazendo o clamor de exigências montadas sobre grandes mentiras. Tudo o que lhes lembra o passado foi varrido. É este o admirável mundo integrado, globalizado e uniformizado. Tudo passou a global: o clima, o mercado, as ideias, as modas, a língua. Tudo perdeu a magia às mãos desta gentuça.

06 junho 2010

Comem crianças ao matabicho


Sei que entre os asiáticos a reputação dos norte-americanos foi caindo década a década desde aquele longínquo ano de 1833 em que Edmund Roberts e W. S. W. Ruschenberger tentaram estabelecer relações diplomáticas com o sultanato de Omã, com o Sião e o Dai Viet. Para os governantes desses potentados, os EUA não existiam senão como vaga referência geográfica, mas os enviados do presidente vinham tão entusiasmados com os sonhos de amizade perpétua e comércio que as cortes tiveram a paciência de os receber e, até (Omã e Sião) com eles assinarem uns tratados que nunca passaram do papel. Os Eua não tinham império asiático, não interferiam, não incomodavam.


Porém, em 1853, a simpática imagem começou a desvanecer-se quando os quatro navios negros comandados por Perry chegaram a Yokosuka (Japão) com ordens expressas para abrir fogo sobre juncos, portos e cidades costeiras se os teimosos Tokugawa persistissem no isolacionismo das ilhas nipónicas. O Japão cedeu. Três anos depois foi a vez do Sião, quando um diplomata soi–disant chamado Townsend Harris chegou a Banguecoque com todo o tipo de ameaças se o Reino do Elefante Branco não se submetesse ao "livre comércio". O Sião cedeu e os americanos ganharam confiança e passaram a executar a política de canhoneira a todo o Pacífico e Mar da China, direito da força que aplicaram indistintamente a concorrentes europeus (Espanha, 1898), a evasivos asiáticos (China, 1900) ou a exóticos ilhéus (Havái, 1894). Todos se vergaram perante o Americano que seguia na peugada do mais enxuto triunfalismo imperialista.


Os Eua exportavam aventureiros e missionários e importavam coolies. De quando em vez, um jornalista romântico percorria as rotas da Ásia e insinuava-se junto dos candidatos a ditadores, como foi Edgar Snow, amigo de Zhou En-Lai, propagandista do mito de Mao que fez mais pela angelização do tirano vermelho que qualquer remessa de canhões e granadas oferecida por Estaline ao abrigo do "internacionalismo proletário". A sua Red Star Over China é, indiscutivelmente, uma das mais bem conseguidas campanhas de propaganda pró-comunista do século XX, apenas comparável ao Ten Days that Shook the World, de John Reed, outro americano que fez de Lenine um salvador aos olhos da opinião que se publicava no crédulo Ocidente.


Depois, foi a Segunda Guerra. Via há dias a série televisina Pacific e perguntei-me se aquilo que ali se escancarava - um velho mito adubado pela propaganda de guerra - poderia ser apresentado no Japão, que continua a resistir à visão hollywoodiana de uma guerra entre fanáticos kamikaze e o "individualismo democrático" dos americanos. Ora, os EUA não ficaram aquém dos nipónicos na prática das mais refinadas patifarias. Aquilo foi uma guerra de extermínio sem contemplação que só ficou a dever à barbárie nazista-comunista de Hitler e Estaline por ter lugar numa parte do mundo pouco coberta pelas câmaras do jornalismo. Os americanos arrasaram o Japão com fósforo e, no derradeiro instante, como a criança que quer experimentar o novo brinquedo, lançaram bombas atómicas. Foram duas, mas se tivessem mais à mão, teriam sido cinco, dez ou vinte até o Sol Nascente se converter num deserto.

Os asiáticos, apercebi-me há pouco, veneram o very british, sentem curiosidade pelo raffinement dos franceses, atracção pelo excesso de italianos e espanhóis e mantêm a ideia, certamente viciada pela memória, do pioneirismo da "Potência Histórica" portuguesa. Dos americanos têm medo; diria, sentem uma quase repugnância pelo mascar convulsivo de pastilhas-elásticas, pela linguagem gestual que estimam ameaçadora, pelo falar sem-cerimónias, pela violência que pressentem nas fitas americanas. Têm, em suma, reputação de selvagens. Como os mitos são mais importantes que tudo o mais, dos EUA ficou a imagem da guerra de aérea que MacArthur desencadeou na Coreia, no seu pedido de lançamento de 100 bombas atómicas sobre a China, aliada de Kim-il-Sung, de My Lai e do Agente Laranja no Vietname. Para os asiáticos, é estreita e dubitativa a opção entre America e Comunismo, pois dos dois receberam as maiores provações. Acresce que a política asiática dos EUA, invariavelmente nas mãos de gente tola e alvar, favorece a preservação do "carácter asiático" das tiranias comunistas, pelo que as pessoas tendem a desculpar os vermelhos pela inépcia norte-americana.
Há tempos, falando com um bom amigo tailandês sobre a sua família, abordámos os tempos da guerra. O avô fora um dos últimos Luang (Visconde) sob a monarquia dita absoluta e nos anos 30 e 40 serviu o Estado ocupando relevantes postos na administração. Quando veio a guerra, o Sião optou pelo campo japonês, mas era uma guerra a fingir, sem campanhas no exterior das fronteiras. Em 1943, os EUA começaram uma campanha de bombardeamentos visando minar as vias de comunicações japoneses. Pensaram os tailandeses: "isto é uma guerra que não nos diz respeito, pois no fundo nunca fomos inimigos de americanos e britânicos". Ilusão infantil. Os americanos passaram a bombardear Banguecoque de noite e de dia. Queimaram bairros inteiros, mataram milhares de pessoas. A tragédia foi tal, que a capital foi abandonada em finais de 1944 e a população enviada para os campos. É um assunto tabú, mas basta esgravatar um pouco e sai uma torrente de ressentimento anti-americano. Os Eua foram, de facto, o maior acicatador de ódio anti-Ocidental na Ásia.