29 maio 2010

A expansão do maoísmo

O International Herald Tribune de hoje dá grande relevo à crescente perturbação interna que afecta a Índia, a braços com a progressão da guerrilha maoísta naxalista em Bengala e com a manifesta incapacidade das autoridades estatais e centrais em encontrarem resposta a um problema que ultrapassa manifestamente a dimensão de um conflito localizado. A guerrilha maoísta tem-se imposto militarmente à forças policiais e para-militares e já consegue interferir com a actividade das autoridades, amiúde diminuídas aos olhos das populações por práticas de corrupção, ineficácia e falta de conhecimento das realidades económica e social.

O problema da revivescência maoísta não é recente, mas parece ter ultrapassado o patamar das pequenas guerras de baixa intensidade e começar a interferir com a segurança de Estados e seus regimes políticos. O Nepal, que também se debateu durante dez anos com análogo movimento campesino, acabou por soçobrar, encontrando-se hoje mais próximo da esfera de Pequim. O grande jogo em curso parece travar-se pelo domínio das grandes passagens dos himalaias, que separam o sub-continente indiano do planalto tibetano, placa giratória cuja posse permite o acesso e domínio do norte da Birmânia, Bangladesh e Índia. Tenho para mim que os recentes acontecimentos na Tailândia enquadram-se neste movimento expansionista chinês em direcção ao sul, mas também em direcção à Ásia Central, onde ainda há semanas se verificou embate entre o governo do Quirguistão (supostamente pró-chinês) e um levantamento popular manobrado por Moscovo. A tensão acumula-se, pois a China, de novo uma grande potência com aspirações hegemónicas, parece não possuir nos seus rivais russo e indiano adversários com o mesmo potencial e vontade política.

Os movimentos maoístas estão em crescendo. Quem os alimenta, arma e fornece assessoria militar e política ? As características que evidenciam são de tão manifesta expressão que o acaso não cabe, decididamente, na aparente coincidência. São movimentos da periferia contra o centro, reinvindicam objectivos comuns (a luta contra a desigualdade, o "double standard", o "colonialismo" da burocracia da capital sobre as "culturas locais", a luta entre a cidade o e campo, a luta entre ricos e pobres) e utilizam meios, bandeiras e até cores que dir-se-ia padronizadas. Julgo que os dados hoje disponíveis permitem-nos ir mais longe. A China, que se quer antecipar à afirmação indiana, quer alargar o seu espaço económico e esfera de influência política e para tal exporta o seu modelo revolucionário dos anos 30 e 40 para sociedades pré-industriais e bolsas de subdesenvolvimento regionais que não conseguiram adaptar-se à mudança operada ao longo das últimas décadas. No fundo, estes movimentos "vermelhos" são animados pelo medo e pela incapacidade de populações que não conseguiram integrar-se no quadro de desenvolvimento económico e social; são movimentos marginais e "reaccionários" que desconfiam da lenta emergência da democracia, preferindo-lhe formas de democracia "holística" mais próximas das velhas estruturas de hierarquia tradicional, personalizada e muito abrigada por relações do tipo patrão-cliente. O Thaksinismo tailandês cabe perfeitamente neste retrato.

Ora, como à China falta autoridade moral no que à defesa dos direitos humanos e da democracia concerne, parece ter-se desenvolvido uma parceria China-União Europeia neste crisól de conflitos que estão a conturbar a região. A China parece ter encomendado à Europa trabalho de diminuição da autoridade e imagem dos regimes a abater. O comportamento da UE na recente crise tailandesa foi, sem tirar, análogo ao da UE no processo de abate da monarquia nepalesa: intriga, aceno de apoio político, agitação da imprensa mundial, confusão e descrédito lançados sobre governos temerosos de recorrer à força. A UE ganharia concessões para novos investimentos na China e afastaria a concorrência dos EUA em mercados de grande potencial.É, no mínimo, assustador, para não dizer que se trata da mais arriscada e sórdida jogada de destruição do equilíbrio planetário. É evidente que a Europa acabará por perder quando se cumprirem os objectivos. No momento do triunfo, será atirada para o canto por Pequim.

28 maio 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia: o horticultor do Rei

Dr. José d'Almeida (dtª) no museu Singapore is my Family

A orquídea é a flor da Tailândia e ocupa lugar cativo nos elaborados arranjos decorativos presentes em todas as ocasiões festivas. É produzida industrialmente e exportada para os quatro cantos do planeta, sendo competidora das tulipas holandesas no mercado mundial de flores. A pródiga natureza dos solos e o clima húmido e quente desta região proporcionou a mais alta concentração de espécies florais do mundo (c. de 30.000), sendo que as Orchidaceae aqui conhecem uma diversidade e beleza sem paralelo.

Ao longo do século XX, muitos orquidiologistas de renome realizaram importantes estudos sobre a espécie no Sudeste-asiático - os dinamarqueses e Schmidt e Gunnar Seidenfaden, o irlandês Kerr - mas a primeira experiência de produção industrial coube a um tal Henry Alabaster, britânico chegado a Banguecoque em 1857, vice-cônsul britânico e amigo dos reis Rama IV e Rama V. Alabaster era um erudito e homem de múltiplas prendas, tendo escrito uma Roda da Lei, importante contributo para a compreensão do Budismo, bem como prestado assessoria sobre as relações do Sião com os vizinhos britânicos e franceses. A experiência como horticulturista parece não ter tido seguimento, pois Alabaster morreu precocemente, com ele levando os segredos que desvendara.


Em inícios de 1900, o Rei Chulalongkorn recebeu uma carta de Singapura assinada por José d'Almeida, "horticulturista e florista, importador, produtor e exportador de orquídeas". José era neto de um dos fundadores de Singapura, o Dr. José d'Almeida, que assentara praça na colónia como médico cirurgião naval, mas rapidamente se transformara num dos mais destacados empresários locais, animando a empresa José d'Almeida & Filhos, actividade que lhe trouxe cabedais e respeito. Na carta, José d'Almeida (neto) apresentava-se ao Rei e propunha-se desenvolver o cultivo sistemático de orquídeas siamesas segundo as técnicas ocidentais. O secretariado do rei mostrou-se interessado e sondou o empresário português sobre as possibilidades do negócio. Meses volvidos, Almeida era feito "horticulturista de S.M. o Rei do Sião" e iniciou a sua actividade, enviando por barco espécies de estufa por si criadas. Os viveiros de plantas exóticas do Rei receberam-nas e seguiram as instruções que o horticulturista fazia chegar a Banguecoque. A experiência singrou e o Sião, senhor dos mistérios da fascinante flor, passou a produzi-las para consumo das necessidades da Casa Real, para logo depois iniciar a exportação em grande escala para os mercados adjacentes. Outra história por contar, no rosário interminável das coisas portuguesas nesta parte do mundo.

O mais amado dos tailandeses: o espaço privado

Escrevia há anos um conhecido estudioso americano, especialista em história do Sudeste-Asiático, que pedira uma entrevista ao Rei e o fora encontrar na casa de Hua Hin, sentado no chão a tratar do seu cão de estimação. O mesmo acontece com ministros e generais. Nos actos públicos, no desempenho de funções, não sorriem e são esfíngicos. Se uma hora depois os encontrarmos passeando na sua rua, andam de chinelos e calções como todos os thais ao fim da tarde. Ora, o mais amado dos tailandeses não foge à regra. Nos actos públicos é referido como o Senhor cujos Pés Repousam sobra as Nossas Cabeças, mas os thais quando a ele se referem em privado dizem, apenas, Khun Pó, ou seja, Senhor Pai.


สายฝน = Say Fon, composta por SM o Rei

O mais popular dos tailandeses: o espaço privado



Não é actor nem não é cantor, mas teve um programa televisivo ao longo de dois meses, aparecendo diariamente nas pantalhas de todos os canais para debitar a crónica dos acontecimentos relacionados com a falhada tentativa de golpe de Estado vermelha. É Coronel e chama-se Sansern Kaewkamnerd. Diz preparar-se para as suas intervenções como qualquer artista. Maquilha-se, lê e memoriza os textos, faz comentários irónicos e até graceja nos momentos mais tensos. Ganhou popularidade, tem um grande clube de fãs e bate aos pontos as estrelas das telenovelas, dos palcos e das passerelles. Aquele ar cinzentão, de falsa importância e fingido profissionalismo dos governantes ocidentais não cabe, decididamente, na ideia de militar que os thais acarinham. Uma grande lição de relações-públicas de um homem que diz amar a sua profissão e servir o povo e o Rei.
No rescaldo da crise, a televisão pregou-lhe uma partida e obrigou-o a abrir e devassar os seus segredos.

27 maio 2010

De um português em Jacarta

"Estou em Jacarta. Que diferença entre a nossa presença e a holandesa ! Tudo pode ser visto por comparação: museus e edifícios. Aqui foi uma razia completa. Tirando meia dúzia de casarões ligados ao poder-comércio, pouco deixaram. O museu do governador é de uma pobreza confrangedora. Espoliaram tudo antes da independência e não deve ter sido pouco !".

Pos, meu caro LM, eu ouvi dizer que os holandeses até as casas de banho, com torneiras e azulejos levaram. Chegaram sem nada e deixaram nada, nem uma palavra, nem a mais pequena migalha gastronómica. Nada. Enfim, sistemas de trocas.

O dia da ira


De um académico português nas ilhas austrais, um desabafo fundibulário a respeito do "turismo revolucionário" que nestas últimas semanas assaltou Banguecoque. Tom duro, quase intratável; logo, cheio de verdade. Em suma, o direito à indignação.


O que mais me indignou em tudo isto nem foram as bestas vermelhas, mas a corja estrangeira aí aboletada que reexpeliu as suas poluções nocturnas de adolescentes maoístas. Esses realmente fizeram-me explodir de raiva. Sempre do alto dos seus privilégios, das suas Harvards tão exclusivas, só para milionários, e sempre "ao lado dos deserdados e excluídos" - sobretudo longe de casa - que hipócritas e canalhas são com o seu "activismo" pela "equality": também tenho aqui alguns aganhar 10,000 dólares por mês e que com sorriso largo e testa curta vão-se gabando de terem em casa as suas t-shirts vermelhas do "Che"...

Porque não vão antes fazer antropologia para os paraísos vermelhos do Laos e do Nepal? Têm medo de se desencantar? Aquela [...] da BBC só dizia que "era tão bom os vermelhos terem agora uma sólida consciência política" - mas não há um avião para pôr esta pestilência longe do reino? Os paizinhos destes privilegiados também andaram há 40 anos no PREC português a debitar ódio contra "a reacção". Depois publicavam matérias na imprensa europeia a exigir a libertação do herói Saraiva de Carvalho e reuniam abaixo-assinados para tal efeito. Oh como eu me lembro tão bem dessa escumalha: ingleses que vinham às [...] portuguesas, e [...] suecas que iam aos machos lusitanos do Algarve a aproveitavam as horas "vacas" para fazerem revoluções altruístas entre uma cama e outra...

26 maio 2010

O despeitinho das "rádios Moscovo"



Assim se comporta a imprensa comprometida. Aliás, já não é comunicação social, mas comunicação de propaganda, de parti-pris e sibilinos remoques, eco da estupidez alvar à solta, tributo de vassalidade paga aos senhores do mundialismo dourado. Num texto sobre a apresentação do programa do novo governo britânico, a atenção foi desviada para a sumptuária da Rainha Isabel II, da dotação orçamental inerente ao Chefe de Estado e, até, à regalia que os reis de Inglaterra exibem desde há séculos em todos os actos formais. Não, a Rainha devia ter chegado de Mini-Minor, prescindir do condutor, ataviar-se com as farpelas das ditas "marcas" que fazem o encanto dos parvenus das armaninhadas, das marcianadas e das cavallinadas, ler o discurso em power-point e discretear sobre temas dos tablóides.

A diferença, senhores arautos do despenteamento mental, é que a Rainha é um símbolo nacional de prestígio acrescido, investimento no reforço da unidade do Estado, caução contra o domínio dos plutocratas, renda de dignidade. A Inglaterra, que nunca foi tomada pelo vírus continental da revolução, preza tanto sua monarquia como o Canal que a manteve afastada das pulsões igualitárias e da tirania dos códigos, das leis e do papel em que se especializaram as Torres de Babel da Europa dos colarinhos brancos. A Inglaterra é, orgulhosamente, o último bastião da Idade Média, com as suas liberdades municipais, leis consuetudinárias e constituição histórica preservadas e sempre actuais, último reduto das liberdades que não se submeteram a essa "Liberdade" uniformizada que acabou por se transformar no cansado fantasma da Democracia Totalitária. Quantos mais diamantes ostentar na sua tiara, mais livres e seguros se sentirão os britânicos.


"British Eighth" March

25 maio 2010

Os "Amarelos" são os pais da democracia tailandesa

As pessoas gostam de repetir. Ouvem e repetem e tantas vezes repetem o que ouviram que ficam absolutamente blindadas às verdades que nunca lhes disseram ou não repetiram. Desde 2007, quando se deu o levantamento "Amarelo" contra o então governo "Vermelho" dos representantes de Thaksin, os "Amarelos" são apresentados como a quinta-essência do reaccionarismo "aristocrático", adeptos do golpe de Estado militar, liberticidas de primeira plana e responsáveis pela deriva "extremista" que levou ao crescendo vermelho agora jugulado. Como não querem nem gostam da história - essa suprema forma de conhecimento, sem a qual a teoria e os enunciados morrem à míngua de sustentabilidade - vão debitando frases feitas e compilam extensos comboios de adjectivos. É o refúgio da ignorância que não se quer ver ao espelho, a mais confortável e acabada forma da recusa de pensar.

Ora, os "Amarelos" (o PAD e o Conselho Privado) são dirigidos pelos dois mais destacados defensores do Governo Civil, talvez os homens que de forma mais impressiva marcaram a transição dos governos militares para a democracia nascente agora em processo de consolidação e dos poucos políticos neste país sobre os quais nunca recaiu a mais leve suspeita de corrupção. São eles, importa lembrar, os generais Prem Tinsulanonda e Chamlong Srimuang.

Chegado ao poder em 1980, Prem conseguiu desbaratar dois golpes militares (1981, 1985). Durante o seu longo governo, os guerrilheiros comunistas foram amnistiados, a economia conheceu o grande boom e foram dados passos decisivos para a restauração do governo representativo, mercê da promulgação da lei dos partidos políticos e da comunicação social livre de tutela militar, da abolição da Lei Marcial e da consagração dos tribunais civis para tratar de questões atinentes a crimes políticos. O trabalho de Prem foi coroado pelas eleições de 1988, consideradas as mais livres e participadas desde a década de 50. A abertura de Prem foi destruída por um golpe da direita extrema em 1991, quando o general Suchinda Kraprayoon se apossou do poder. O governo formado indicado pelos militares lançou mão de um artifício de legitimação e ganhou uma consulta eleitoral que ninguém reconheceu. Foi "eleito" primeiro-ministro um homem suspeito de envolvimento no tráfico de ópio, pelo que Suchinda, pressionado pelos seus aliados norte-americanos, foi forçado a encabeçar novo governo.

A oportunidade foi explorada pelo líder do partido Força Budista, o general Chamlong Srimuang, hoje líder do PAD, que apelou a todos os democratas para que saíssem à rua e impedissem a consumação do "golpe dentro do golpe" militar. Centenas de milhares de manifestantes tomaram conta do centro de Banguecoque e em 17 de Maio de 1992, impotente para negociar uma solução política, o ditador Suchinda mandou abrir fogo indiscriminado sobre a massa em protesto. Morreram centenas de pessoas, a lei marcial foi imposta, mas os manifestantes não arredaram pé. Nesses dias arderam dezenas de edifícios públicos e o país esteve na iminência de uma guerra civil. Por fim, o Rei chamou o ditador e deu-lhe ordem de demissão em frente das câmaras da tv. O grande artífice da restauração democrática, Chamlong, fora governador da capital no início dos anos 80. No desempenho do cargo, fez frente aos grandes interesses imobiliários, protegeu os vendedores de rua, lançou sucessivas campanhas anti-corrupção, fez os primeiros bairros sociais de Banguecoque, bem como as primeiras e bem sucedidas campanhas de sensibilização ambiental. Ficou, deste então, na mira dos plutocratas. Nos anos 90, julgando que Thaksin poderia ser um elemento importante no processo democrático, cometeu o grande erro de apoiar o multimilionário. Depressa, porém, se incompatibilizou com as medidas autoritárias e demagógicas de Thaksin, afirmando teatralmente que se penitenciava por haver trazido o dragão para dentro de casa.

Chamlong não está na política para fazer dinheiro. Dorme numa esteira, come uma refeição por dia, não possui propriedades nem bens, pois que ofereceu tudo o que tinha à seita budista de que é animador. É o mais ecologista dos tailandeses e vive numa "quinta orgânica", entregue à meditação e ao ensino do budismo. É, obviamente, a antítese do plutocrata. Acresce que as suas posições intransigentes no que à liberalização do aborto respeita o transformaram num alvo a abater pelas clínicas especializadas na destruição de vidas e a defesa de uma economia que recuse a fixação de multinacionais exploradoras o lançaram na lista negra dos grupos neo-colonialistas ocidentais.
O ódio contra os dois é explicável: são ambos incorruptíveis, são servidores leais da monarquia, são democratas e recusam o populismo e a demagogia, têm folha de serviços na luta anti-comunista, não são xenófilos e não estão ligados a nenhum grupo económico estrangeiro. Tudo razões para a sua diabolização. Estamos entendidos ?

24 maio 2010

O grande útero do totalitarismo

A França sempre foi a filha dilecta do totalitarismo e guarda atestados de pioneira desde o Terror de 1793. Aí germinaram, verdejaram e expadiram-se as flores do mal da modernidade. Foi em França que o "verdadeiro fascismo", o mais puro, o menos tocado pelo oportunismo do exercício do poder atingiu requintes de escola literária. Foi em França, também, que o comunismo encontrou maior solidez, se adaptou e tornou moda entre a burguesia ociosa e refastelada dos autoproclamados círculos intelectuais. Foi em França, sob os auspícios do Comintern, que se formaram duas ou três gerações de líderes reexportados para as sete partidas do mundo no imediato ante-guerra ou, depois, no início da Guerra Fria: Enver Hoxcha, Ho Chi Mihn, Pol Pot, Ieng Sary, Khieu Samphan, Hou Yuon. Por último, foi em França que o maoísmo, a mais radical das seitas comunistas se converteu em ícone de uma geração que ainda detém parte apreciável das rédeas do poder.

Ontem, em Paris, em pleno Trocadéro, um grupo de "estudantes e intelectuais" tailandeses, quiçá pagos pela generosidade do regime que querem ver destruído, deu largas à sua maturidade vermelha, concluindo com aproveitamento a prova de tirocínio ao agit-prop da rive gauche. Reuniram-se e pediram "paz", "democracia", gritaram vivas à "revolução" e "morras à tirania". Nada que não se tivesse visto ao longo de décadas, quando o comunismo, o maior flagelo do século XX era inatacável, quando se proclamava a "superioridade moral do comunismo", quando todos aqueles que ousassem contestar a essa tremenda mentira eram apodados de "cães de fila do imperialismo", "lacaios da reacção", "agentes do capitalismo".

Ontem, Apichatpong Weerasethakun, realizador de cinema tailandês que agora recebe uma "inesperada" Palma de Ouro em Cannes, concedeu uma entrevista ao inocente L'Humanité e afirmou: "mais vous ne pouvez pas blâmer les réalisateurs thaïlandais. Ils ne peuvent rien faire à cause de ces lois sur la censure, ajoute-t-il, nous ne pouvons pas faire un film sur la situation actuelle [en Thaïlande] en raison des lois qui interdisent les menaces à la sécurité nationale. N’importe quoi peut-être nommé comme cela." Le réalisateur, qui explique avoir quitté Bangkok "alors que la ville brûlait", a exprimé l’espoir que "quelque chose changera pour le mieux" du chaos actuel. "La Thaïlande est un pays violent. Il est contrôlé par un groupe de mafieux."

Convém explicar duas coisas:

- Os estudantes tailandeses residindo em França auferem bolsas de estudo mensais atribuídas pelo governo, algumas bem generosas e que excedem em dez vezes os salários aqui atribuídos a funcionários do Estado. Conheço em Portugal um bolseiro thai que recebe mensalmente 1500 Euro, mas outros há em países do norte da Europa que recebem duas vezes esse valor. Sabe bem ser contestatário com tais bolsas !

- Apichatpong Weerasethkun recebeu do governo tailandês bolsa para cursar um curso de mestrado nos EUA, mas depois de entrou em colisão com as leis existentes e foi acolhido pela sempre solidária Alliance Française de Banguecoque, nobre instituição especializada em ensinar aos thais os rudimentos dos "direitos do homem". Faz parte, obviamente, da rede clientelar das casas que chancelam a qualidade e promovem aquilo que é "arte"e "cultura".

23 maio 2010

A grande prova: o fogo estava previsto há meses

Ler com a máxima atenção. Esta a prova incriminatória mais devastadora até hoje divulgada sobre a responsabilidade moral dos líderes vermelhos na tragédia de Banguecoque. Descartada fica a tese do acidente e da quebra da cadeia de comando.

Combustões no dia do grande tiroteio em Lumpini



No dia 19 aqui deixei reportagem sobre os confrontos do dia. Passei pelo acampamento vermelho e aí um americano filmou-me. Um celerado trotsquista entrou nesse momento em cena e disse que "iam destruir tudo e roubar todas as jóias das ourivesarias das redondezas". Eu (camisa verde clara) continuei a fotografar. O meu interesse não eram os salteadores brancos à solta por Banguecoque, mas as milícias armadas vermelhas que se preparavam para lançar um ataque ao Exército Real. Aqui fica a curiosidade.

Grand nettoyage

Banguecoque, hoje de manhã. Uma grande multidão, composta essencialmente por jovens armados de vassoras e sacos de lixo, invadiu Silom e o Parque Lumpini para a Operação Grande Limpeza. Uma grande festa da libertação e recobro da unidade nacional em torno do Rei e da Democracia, lembrando aos inimigos da liberdade que a cidadania não se subjuga pelas armas, não se rende ante as bombas e defende-se pela acção. "Não haverá comunismo", "não haverá plutocracia", aqui o dissemos no primeiro dia da crise, quando tudo indicava - pelo menos aos olhos da "esclarecida" opinião internacional, que forçava "reconciliação" e o "diálogo" com os criminosos - que o regime e o sistema se encontravam nas vascas da agonia. Hoje, pelas mãos purificadoras desta multidão de jovens, o comunismo e a plutocracia levaram uma inesquecível barrela. O meu amigo Professor Galan lá esteve e deixou-nos as esclarecedoras imagens. Palavras para quê ?









Rak Chart (Amar a Pátria)

Arsenal capturado aos "pacíficos camponeses"

Um arsenal a perder de vista foi apresentado à imprensa e adidos militares estrangeiros acreditados em Banguecoque, eloquente certificado do carácter do movimento vermelho. Para quem ainda versejava bucólicas a respeito da bondade dos Sêwa Déng (Camisas Vermelhas) a conferência de imprensa teve o efeito de um banho escocês. De imediato surgiram os habituais intriguistas farang sugerindo que tal material havia sido preparado. Ora, o exército teve o cuidado de fotografar cada peça no momento da detecção e captura, pelo que a insinuação foi impugnada. Resta saber quem deu instrução militar, onde e como este arsenal entrou em Banguecoque. Entretanto, o governo está a dar prioridade à caça a delinquentes armados, tendo revelado o envolvimento de brancos nas acções de fogo posto que culminaram com a destruição de património avaliado em meio bilião de Euros. Esperemos agora a divulgação das listas de mandantes e cúmplices, tailandeses como estrangeiros, na abortada tentativa de golpe de Estado.