22 maio 2010

Hoje em Banguecoque: a vitória do povo e do exército

Derrotar o comunismo pelo trabalho

Uma coluna de betoneiras e gruas a perder de vista

Banguecoque está de novo em guerra; agora uma guerra de vassouras, pás e picaretas, mais os carros de combate ao lixo comunista que se amontoava e tudo conspurcava. O movimento no meu distrito é frenético, com milhares de bombeiros, operários e faxinas trabalhando 24 sobre 24 horas para reparar os estragos causados pela horda de incendiários e bombistas que quase destruíu o país no decurso da tentativa gorada de golpe de Estado contra a democracia e a monarquia.

Propaganda vermelha para as incineradoras

A cidade vence o comunismo e a demagogia da "luta de classes" pelo trabalho. Os operários, tal como os curiosos que às centenas se passeiam pelo devastado campo vermelho, mal tocam nos objectos, pois estão contaminados, trazem "mau karma" e infelicidade, como me disse uma simpática operária da municipalidade da capital. A massa de associados vermelhos deixou por todos os cantos os seus cartões de filiação, trouxas, malas carregadas de medicamentos roubados, milhares de garrafas de bebidas alcoólicas, facas e catanas, uniformes negros e camuflados, propaganda, autocolantes, bandeiras e tendas. Dir-se-ia os restos de um exército derrotado que ali está exposto e aguarda a lixeira e o fogo purificador que tudo tragará.

V de Vitória

A brigada feminina chegou às 8 da manhã. São mais de trezentas Almeidas, de uma força que faria inveja aos nossos operários da Margem Sul. Estão alegres, riem-se e cantam enquanto trabalham. Ali não vi olhos tristes e obrigação, nem tão pouco expressão de afinidade com os supostos "trabalhadores" que por ali fizeram enormidades ao serviço do plutocrata Thaksin e dos seus aliados comunistas. Os orientais possuem a singularidade de fazerem das tragédias motivo para união. O exército reencontrou o seu lugar na sociedade thai, os civis despertam do pesadelo e falam, os trabalhadores humildes - aqueles que mais prejudicados foram pelo desastre - demonstram uma fogosidade que contrasta com a proverbial kwam-ki-kiet (preguiça) dos siameses. A uma delas perguntei se levava para casa restos vermelhos. Riu-se e fez um grande V, como quem diz que "nós estamos a continuar a luta e não sou vermelha".

O exército, o povo fardado, na luta contra a sujeira vermelha

O exército abandonou as espingardas e faz-se representar por dois regimentos de engenharia. A praça grande do Central World mudou radicalmente desde ontem. Do pódio das discursatas incendiárias não há traço, como não há também das fétidas latrinas vermelhas, do estendal de tendas e barracas, das minas e armadilhas que se encontravam por todo o lado. Foi tudo varrido, amontoado em camiões das forças armadas e levado para bem longe de Banguecoque para posterior destruição.

O outrora Siam, com galerias de pequenas lojas

Os vândalos fizeram da área um verdadeiro cenário lunar. Foi tudo arrasado, pilhado, calcado e partido com requintes de impotência e mau perder, como o incendiário que, não podendo mudar o mundo, se compraz com a terra-queimada. Tudo isto me fez lembrar Estaline em 1941 e Hitler em 1945: fazer o maior mal possível aos próprios concidadãos, desempregar o maior número possível de pessoas, destruir propriedades, pequenas e grandes companhias, lançar no desespero e na fome aqueles que não integravam as fileiras do bando totalitário. É necessário dizê-lo e repeti-lo: se aquela gente tivesse atingido os seus propósitos, teriam feito o mesmo a meia Banguecoque, pois agora que se realizam investigações em profundidade sabe-se que o mesmo destino estava reservado ao Wat Phra Kéw (o Templo do Buda Esmeralda) e a palácio real.

Uma clínica esmagada sem piedade

Fui dar com uma clínica inteiramente depredada pelos díscolos. Material cirúrgico moderno partido a martelo, milhares de embalagens de medicamentos queimadas, ficheiros atirados para o chão e até uma imagem de Buda decapitada. Era esta a libertação que se cantava dia e noite nas lavagens de cérebro que tornaram a massa vermelha absolutamente incapaz de contrariar as ordens dos líderes que incitaram tais enormidades.

O ódio vermelho à felicidade dos simples

No interior dos cinemas EGV, disse-me um militar, tudo aquilo que o fogo não lambeu, as machetes e picaretas vermelhas fizeram em tiras: cadeiras, material de som, os bares e até as instalações sanitárias, tudo esmagado em meia hora por centenas de homens vestidos de negro. Quem ali foi sabia o que fazia. Lembrou-me Phnom Penh, que trinta e cinco anos depois da dita libertação - reconhecida com hossanas pela França e pela Suécia - ainda se debate com graves problemas no que respeita a locais de lazer e cultura. Há decididamente no comunismo um ódio profundo ao ócio, à alegria e às pequenas liberdades que fazem a felicidade dos simples.

Material pesado: quem pagou ?

Quem pagou tudo isto ? De onde veio tanto dinheiro para alimentar, vestir, arregimentar e pagar a milhares de mercenários e figurantes, quem comprou as centenas de armas de fogo, os milhares de granadas e munições que foram hoje finalmente apresentados aos adidos militares acreditados em Banguecoque ? Quem pagou os vinte geradores de electricidade, as sessenta carrinhas, as centenas de projectores, colunas de som, enfermarias, os milhares de toneladas de víveres e gasolina que ali se consumiram ao longo de dois meses ? Não acredito, como alguém sugeriu, que tal dinheiro viesse dos bolsos de "camponeses", pois que eses lá estavam eram pagos. Terá sido só o mecenático Thaksin, ou houve outros dinheiros, dinheiros de estados e governos, de fundações e ONG's ?

Avenida da Liberdade

O futuro

Com a falta de géneros nos supermercados da capital, fui comer à cantina de um hospital. Por lá encontrei doentes e seus familiares, alguns vizinhos e também estrangeiros afectados pela vaga de violência vermelha que quase imobilizou a Tailândia. Na parede, em grande evidência, o futuro: o Príncipe Dipangkorn Rasmijoti, que um dia ascenderá ao trono. Aqui está o mistério da perdurabilidade das monarquias, a força da renovação perpétua que cruza a memória do tempo longo com o tempo por fazer; o triunfo da monarquia sobre as ditaduras ou sobre os caprichos passageiros. É por isso que sou monárquico.

21 maio 2010

Serviço cumprido

Encerrado o capítulo crítico por que passou a Tailândia, regressa Combustões à actividade corrente. Não queria deixar passar a oportunidade sem antes agradecer aos 4000 leitores que nos últimos dias visitaram esta tribuna, que fizeram fé nas minhas palavras, que me acompanharam nos mais de cem quilómetros palmilhados numa Banguecoque devastada e me impuseram que não parasse e oferecesse ao conhecimento de portugueses e brasileiros a outra face de um conflito que também se disputava na frente informativa. Nós ganhámos nas previsões, na análise e na resistência à mentira difundida pelos fabricantes de emplastros. Impedimos que se consumasse na comunicação social portuguesa o triunfo do corta-cola, do minimalismo da propaganda plutocrática e dessa estupidez inteligente que insiste em tratar a opinião pública como se de crianças se tratasse.
Aqui não houve "breaking news" do The Nation ou do Bangkok Post. Foi tudo feito no terreno, com uma mísera máquina fotográfica, a pé ou de motorizada, de madrugada ou durante o dia, ora falando com vermelhos e amarelos, soldados e meros observadores, ora transmitindo em primeira mão informação reservada conseguida de fontes credíveis. Chegava a casa, falava com um jornalista amigo, redigia e disponibilizava a crónica do dia dez horas antes de Lisboa, no outro extremo do mundo, acordar com notícias de véspera, velhas e já ultrapssadas pelos acontecimentos.

A blogosfera portuguesa portou-se bem; diria que durante as primeiras semanas se substituíu a rádios, televisões e jornais. Ao Pedro Quartin Graça, grande amigo da Tailândia, que manteve acesa a chama no Corta-Fitas e desenvolveu iniciativas que aqui não posso revelar para que o Estado português e seus decisores fossem informados sobre a real natureza do conflito tailandês, o meu respeito. Ao Nuno Castelo-Branco, meu irmão, também bom conhecedor deste país onde viveu, pela infatigável presença na impiedosa crítica das mentiras que iam sendo tecidas pelos inimigos do regime - afinal, inimigos do povo tailandês - o meu tributo de admiração.

Ao José Costa Santos, à Lusa, à Rádio Renascença, RTP-notícias, Diário Económico, Destak, ao Filipe d'Avillez, ao José Marques da Costa, à Gi, Filipe Delfim, Pedro Marques, Francisco Cohen, Daniel Azevedo, ao Leandro e ao caríssimo Último Nambanjin, à Maria, Pedro Coimbra, Ana Cristina Duarte Ferreira, Paul Galan e aos mais de 60 amigos e leitores que enviaram mensagens de amizade e sugestões, o meu penhorado agradecimento.

Esta experiência, que espero irrepetível, fortaleceu a blogosfera portuguesa. De fora, importa o justo juízo crítico, a maldadezinha e a sua irmã inveja, o pensar pequeno e a cobardia de tomar partido, a desesperada tentativa de ocultar o que aqui se ia debitando - e que foi, sem mácula de orgulho vão, a única presença portuguesa nas ruas em fogo - e o compadrio que no momento do fel da impotência trata de juntar em frente comum todos os que não aceitam a diferença, todos os que não ousam, têm medo das palavras e se comprazem com a repetição de pequenas e grandes mentiras.

Não tivesse sido o José Costa Santos, que devia ser apontado pela exemplaridade e absoluta lisura profissional enquanto jornalista, os acontecimentos na Tailândia teriam sido tratados ao gosto da censura, da manipulação e da publicidade às "justas causas", afinal aquelas que trazem a violência, desculpam os crimes e trazem a desgraça a povos por atacado.

Uma última observação a respeito da nossa embaixada em Banguecoque, que não se envolveu na intriga, não rasgou o princípio da imparcialidade e não calcou a deontologia da cultura diplomática, que esteve sempre comunicável e deu aos portugueses exemplo acabado de serviço público. Disse-me um alto quadro político tailandês que a embaixada de Portugal não deslustrou a velha amizade entre os dois estados. Senti-me feliz e orgulhoso por ouvir de um governante tais palavras. Outras embaixadas tomaram parte activa na conspiração, tornaram-se indignas do seu estatuto e mostraram a que ponto chegou a degradação do outrora nobre e selectivo corpo diplomático. Coisas dos tempos que correm.


ราชินีแห่งการรบ = Rajiníi éng Ganróp = A Rainha das Batalhas (canção da infantaria thai)

A conspiração

20 maio 2010

Os heróis do dia: a Tailândia deve-lhes a liberdade e a paz




A muralha verde não cedeu. Aguentou a pé firme a maré terrorista e ganhou. É tudo.

Prova incriminatória



Há dias, o líder vermelho Nattawut Saikua, o tal que no acto de rendição se desfez em diarreia nervosa, lançava a seguinte ameaça: "se eles tentarem desalojar-nos, lançaremos fogo a todo o país". Cumpriu-se a promessa. Há quem peça a aplicação da pena capital para o celerado.

A Siamesa Voadora

Quer rebolar-se de riso ? Conheça a Siamesa Voadora, a grande história do dia nas televisões tailandesas. Conheço a personagem desde o primeiro dia em que passei pela Utopia de Rachaprasong e é, acreditem, um verdadeiro fenómeno de ubiquidade.

VITÓRIA (5): o legado da Utopia vermelha

O que ficou desse movimento saído dos alfobres do ódio, sem programa, instigador das pulsões mais baixas, das promessas mais abracadabrantes, da demagogia mais descarada ? Parece que foi há dez anos. Num só dia, ainda fumega o coração de Banguecoque, passou-se uma página em frente e tudo isso soa a inutilidade, a passado morto, a criminosa irresponsabilidade de compagnos de route estrangeiros e tantos quantos alimentaram o monstro ao longo de anos e agora fogem à responsabilidade moral por haverem colaborado - por mais não fosse por simples estupidez e analfabetismo - para que o grande fogo se abatesse sobre a Cidade dos Anjos e quase destruísse o país por atacado. Hoje enchi-me de coragem e fui ver o cenário do desastre.


As ruas carregaram-se de luto. Os incendiários e saqueadores vermelhos tudo reduziram ao esqueleto. Prédios houve que, não sendo devorados pelas tochas ardentes, foram humilhados, pois as casa também têm alma. Ali quebraram-se as últimas amarras que sustêm a animalidade. Ali rasgou-se por prazer, partiu-se por ódio, espezinhou-se por euforia destruidora. No fundo, nada de novo no longo historial das revoluções e das utopias, que se anunciam com as mais sacrossantas cruzadas redentoras e terminam sempre no regresso às cavernas. O comunismo, com o seu ódio, os seus profetas e tarados paranóicos da virtude purificadora, mais a massa de crentes que os secunda, visitou Banguecoque durante dois meses e só deixou lixo, carcaças fumegantes de automóveis, borracha calcinada, jardins revolvidos e prédios arrasados.


Não, isto não foi por acaso. Aconteceu, foi decidido e instigado. Foi, até, interpretado como o início de uma nova era. Tudo, claro, em nome da democracia polvilhada por mentiras, como uma ferida nauseabunda coberta por panos de cânfora. Nas fachadas devastadas do coração de Banguecoque está inscrito a fogo o ódio contra a civilização, a propriedade, a empresa, o mérito de quem corre riscos, dá emprego, liberta-se pelo trabalho. Os bárbaros que quiseram matar a monarquia - símbolo da perpetuidade - e a democracia - símbolo da responsabilidade de cidadania - esconderam até ao momento derradeiro a sua verdadeira face.


O dinheiro e aqueles que lhe rendem culto e a ambição do poder sem freio e sem limite, mais o colaboracionismo de um certo Ocidente carregado de baias micro-burguesas contra tudo o que excede as tripas e o "conforto"; o tonto romantismo soixante-huitard daqueles que um dia sonharam com amanhãs ridentes, mas engordaram pelo caminho, fizeram-se parasitas do capitalismo mas não largam os estúpidos sonhos da juventude desaparecida; o completo desconhecimento da Tailândia, da sua história, língua e cultura bem salientes num certo jornaleirismo pago pela cobiça neo-colonial que quer reduzir o país a prostíbulo, casa de massagens e spas; o desprezo por uma sociedade que é diferente da nossa e a vontade de a transformar numa caricatura de Singapura, cheia de macacos engravatados repetindo o papaguear da plutocracia; os velhos demónios do jacobinismo regicida e do totalitarismo igualitário; em suma, este admirável mundo de plástico e gente parva que faz a conspiração da estupidez que uniformiza o mundo; tudo isso reunido juntou-se em Banguecoque e açulou gente paga para fazer o que ontem atingiu clímax.



Sei que o espírito tudo sobreleva e que a vida se reerguerá do seu túmulo e fará esquecer o desastre. No lusco-fusco, centenas de soldados trabalham infatigavelmente para remover o entulho e limpar as feridas. São os filhos do povo, mas este povo aceita a disciplina, o dever, as obrigações, tem sonhos e quer viver melhor. Precisamente por isso, neles quiseram ver os inimigos da "revolução", "escravos da aristocracia" e "inimigos do povo". Hoje, caia a noite, vi soldados, sargentos e oficiais travando o novo combate pela restauração da dignidade tailandesa.

Para ilustrar o recobro da dignidade cidadã e a nobreza do povo, o fim do passeio reservava-me uma surpresa. Sentado em frente de um edifío comido pelo fogo até às fundações, um guarda de 60 anos mantinha o seu posto. Perguntei-lhe por que estava ali e respondeu-me: "este é o meu lugar, estou a guardar o prédio". Grande lição de profissionalismo e integridade que faz reduzir ao nível dos vermes aqueles que instigaram, aqueles que aplaudiram e aqueles que fizeram de ontem um dia histórico. Hoje foi primeiro dia da Tailândia livre de vermelhos.

VITÓRIA (4): as fezes das fezes


Caiu hoje o último vestígio da sublevação. Pelas dez da manhã, o meu amigo coronel bateu-me à porta e disse-me que ainda não estava tudo terminado, que durante a noite o exército dera caça a grupos desorientados que teimavam em resistir, que em bairros populares os cidadãos se constituíram em grupos de vigilância e procedem à detenção de milicianos vermelhos, entregando-os às autoridades e que o templo perto de Rachaprasong ainda tinha "muitas centenas de pessoas". Centenas ? Então ontem não se haviam rendido todos ? "Não, só esta madrugada nos apercebemos que no templo havia 400 reféns sob ameaça de vinte terroristas". Após uma hora de negociações, os terroristas renderam-se e as pessoas, visivelmente aliviadas, foram transferidas para o Estádio Nacional, registadas e enviadas para suas províncias de origem.

Por lá passei a caminho do mercado de rua, pois a comida acabou, os supermercados fecharam portas, não há dinheiro nas caixas multibanco e as pessoas compram tudo o que podem. A noite foi calma e em Banguecoque como nas províncias não houve o tão falado "levantamento popular". Essa possibilidade está descartada. Ninguém dará por Thaksin uma só gota de sangue e os horrendos crimes contra o património ontem cometidos reforçam o governo. Sentei-me numa mesa de restaurante de rua e fui ouvindo as conversas. As pessoas fazem os comentários mais duros a respeito dos vermelhos e agora só se lhes referem como púak comunist (comunistas). Depois, a inglória rendição da liderança vermelha é matéria para gostosas piadas. O oficial que interrogou Nattawut Saikua, o instigador dos incêndios, disse que no momento da detenção teve um tremendo desarranjo intestinal e o cheiro que exalava era pestilento. Foi necessário dar-lhe banho e roupa lavada antes de prossseguir o interrogatório preliminar. Como um dia disse Givesius, estas são as "fezes das fezes". Quanto ao outro cabecilha, Jatuporn, que sempre considerei do melhor que por lá havia, portou-se com alguma dignidade e só pediu uma cama para dormir.

Confirmei, uma vez mais, que as bases vermelhas são gente normal, sorridente e plácida, como o são todos os camponeses thais. Disso nunca tive quaisquer dúvidas, pois confesso que os prefiro à generalidade da burguesia manienta da cidade, já cheia de tiques da globalização/parvalhização/americanização. Esta gente foi comprada, usada, prostituída por uma clique de caciques. O rapaz na foto disse-me que viera a Banguecoque para "proteger o nosso Rei" e que agora só queria voltar ao seu trabalho numa exploração agrícola para os lados de Trat, perto da fronteira com o Camboja. Foi assim que os enganaram. Pergunto-me por que razão aqui não há jornalistas ocidentais fazendo-lhes perguntas. Simplesmente, porque as respostas não interessam. O que interessa é mentir, deformar, exagerar, retorcer. Coisas das centrais de intoxicação.

19 maio 2010

VITÓRIA (3): terra queimada

Está o leitor lisboeta a imaginar a possibilidade de, numa só tarde, arderem por atacado o Centro Vasco da Gama, as Amoreiras, o Fonte Nova e o Chiado ? Pois, Banguecoque perdeu hoje, por obra humana, a quase totalidade dos seus grandes centros comerciais.
Um dos líderes vermelhos, Nattawut Saikua , que hoje se entregou às autoridades, afirmara há dias em tom de ameaça num dos seus inflamados discursos que um assalto do exército ao acampamento vermelho teria como consequência imediata a destruição da baixa comercial de Banguecoque. O fogo que hoje irrompeu e destruiu as grandes superfícies comerciais da capital não foi, assim, um desastre irreflectido resultante do descontrolo ou quebra de comando no campo vermelho: foi premeditado e inscrevia-se num plano friamente pensado e executado. Aos três biliões de dólares de danos causados à economia tailandesa por dois meses de protestos, os vermelhos cometeram hoje a proeza de, em meia dúzia de horas, duplicarem o flagelo e lançarem no desemprego cerca de oito mil pessoas. A política de terra-queimada e de terrorismo indiscriminado adoptada pelos comunistas assestou um golpe irreparável na imagem da capital, pelo que a plena recuperação de Banguecoque enquanto destino de compras sofreu um rude golpe que exigirá anos de paciente reconstrução da vitalidade eliminada pelos incendiários vermelhos. Por volta do meio-dia voltei a casa para tomar um banho. Da minha varanda assisti ao início dos incêndios. Ao sair do prédio, já dois cinemas ardiam sem controlo. Os bombeiros não se atreveram acudir ao sinistro, pois snipers vermelhos ainda davam dura réplica aos soldados.

Ao apresentarem-se às autoridades, os vermelhos deixaram atrás de si um rasto de fogo e fumo, mas pensei que tais focos se limitassem a automóveis, cabinas telefónicas, caixas de electricidade e comunicações e pouco mais. O tiroteio que ainda se fazia ouvir inibiu-me de entrar na artéria que leva a Rachaprasong. Um jornalista israelita, enviado especial do Jerusalem Post, disse-me que aquele fumo não era proveniente de pneus, mas de edifícios. Ainda vacilei, pois a enormidade da possibilidade ultrapassava o que ontem palidamente já entrevira. Os comunistas, pensava, só perderiam com tal enormidade e pagariam para sempre o ónus do odioso. Um verdadeiro suicídio político foi, afinal, o que resultou da decisão vermelha em pegar fogo àqueles edifícios que eram o orgulho da população da capital, até ontem tida como uma grande metrópole comercial.

Ao fim da tarde, o fogo consumia já os grandes prédios de Rachaprasong. Um miliciano comunista foi detido em frente do Estádio Nacional com cerca de dois quilos de relógios e objectos de joalharia roubados no saque do Central World. O oficial que o interrogava não escondia a apreensão, pois aquela detenção confirmava o pior: os vândalos haviam dado início ao saque e destruição dos centros comerciais. Quando o homem lhe disse com a maior desfaçatez que aquelas peças eram suas e que as comprara, o oficial não se conteve e quase o agrediu. Ao ser levado de mãos atadas para o carro celular, o capitão gritava "seu bandido", "criminoso", "terrorista", "tirem-no da minha frente ou mato este animal".

Da janela do meu apartamente assisto neste momento ao grande incêndio. Há centenas de carros de bombeiros que chegam, outras centenas que partem para reabastecimento, mas o que está feito, está feito. O ar está cheio de papéis em rodopio, o cheiro a madeira queimada é sufocante, a cortina de fumo vai dançando ao sabor dos caprichos do vento. O sentimento que me invade é indefinido, pois a vitória fulminante e quase sem mortos do exército foi manchada por um odioso acto de vingança que só vem selar o juízo que aqui fizera em tempos sobre esta gente dementada e este movimento totalitário e primitivo que quase destruíu o país: trata-se, sem tirar, de lumpen. Espero apenas que a mão da justiça caia, implacável e cerce, sobre os responsáveis desta organização criminosa e que no momento da aplicação da lei não haja a mínima hesitação na punição e danação daqueles que o dirigiram.

VITÓRIA (2): rendição incondicional

No centro de acolhimento do Estádio Nacional vai-se amontoando a um canto a propaganda vermelha que os militantes atiram ao chão antes de passarem pela fiscalização das bagagens que trouxeram do acampamento. Reuno uma vintena de objectos (cartões de militantes, palmas em plástico, CD's com os discursos de Thaksin, bandeiras e camisas vermelhas) e logo um soldado atira-as para um grande saco negro de lixo e novo monte se forma em minutos. Os vermelhos vêm nervosos e de cabeça baixa. Alguns nem conseguem falar e tentam explicar o inexplicável: um tinha ido visitar um primo ao acampamento, outro só lá queria ir tirar fotografias, outro estivera lá na véspera e perdera uns óculos de sol e um miliciano até se atreveu fingir que era cego. Quando lhe deram água, estendeu logo a mão à garrafa e foi detido.

A tropa sossega-os. Abrem-lhes os sacos, retiram fisgas, facas, livros vermelhos, garrafas de whisky e deixam-nos passar para a barreira seguinte, onde se procede ao registo do nome, morada e bilhete de identidade. Se o nome ou a fotografia constar da lista de indivíduos procurados ou se evidenciam características de guerrilheiros urbanos, são separados dos restantes e colocados em carros celulares para envio para os centros de detenção preparados para o efeito.

Inicialmente, vêm em pequenos grupos de dez ou vinte indivíduos. Alguns têm estampada na cara a derrota e a vergonha, pois que para os thais perder a face é mais penalizador que perder a vida. Um rapaz desfaz-se em cumprimentos de submissão ao tenente que o interroga e até pede desculpas por se encontrar em tão aflitivo transe de humilhação. Uma mulher ri-se e quer dar aos captores um saco com bolos de arroz, mas dizem-lhe que pode levar a comida. Depois, senta-se a um canto e vomita, tão nervosa se encontra. O altifalante do exército trata-os por irmãos e irmãs, diz-lhes que vão seguir de imediato de volta para as suas casas, que não temam o governo, que procurem uma das tendas de pronto-socorro caso tenham algum problema de saúde. Estou convencido que muitos destes desgraçados pensavam que iriam ser abatidos ou acorrentados, mas quando se dissipa o medo reunem-se com os amigos e familiares e ali ficam em sossego aguardando transporte.

Um homem totalmente embriagado chega e, para espanto dos militares, tem dois sacos carregados com bebidas alcoólicas. Um repórter alemão que estava por perto explicou-me que nos últimos dias o alcoól era distribuído em grandes quantidades aos milicianos, para os manter em permanente excitação. O homem foi de imediato detido por suspeita de integrar as milícias e levado para um carro celular. Reparei que a motorizada que trouxera foi registada e que o oficial assinou um documento de apreensão e deu ao detido cópia do auto. Aqui, também, o exército a portar-se com a maior dignidade.

O exército trava duros combates em frente do centro comercial Siam Discovery e vão chegando, já algemados, milicianos que se renderam. Alguns vêm descalços e de torso nu, medida cautelar das autoridades, outros, possivelmente quadros políticos, caminham para o cativeiro sem dizer palavra.

Alguns destes milicianos sofreram ferimentos na batalha, pelo que são assistidos pelos médicos e depois entregues para interrogatório preliminar a um oficial superior do exército que lhes exige um primeiro depoimento sobre a participação nos combates, informações relevantes sobre o seu grupo, o nome do líder a quem reportam, o posto que ocupavam, as armas que usaram. De súbito, uma verdadeira multidão a perder de vista surge. São centenas e centenas de pessoas em tropel correndo para a barreira. Dizem-me ser o grupo que estava no Central World e que vão ser levados para as traseiras do estádio para recolha de dados.

Finalmente, quando a multidão passa, aproximo-me de dois carros celulares. Falo com um detido, um miliciano oriundo do nordeste. Ele perguntou-me que horas eram e ali estivemos dois ou três minutos em conversa. A carrinha partiu e desejei-lhe boa sorte. Sempre foi minha convicção que a guerra não deve se feita às pessoas mas às ideias e que mesmo os "maus" têm as suas razões. Cumpre agora restaurar o país do caos em que esta gente o mergulhou e iniciar as reformas. A democracia, a legalidade e o Estado venceram uma dura prova. A Tailândia terá passado, talvez, por um dos mais dramáticos capítulos da sua história contemporânea.


VITÓRIA (1): o triunfo pela magnanimidade


A madrugada foi de intenso fogo em frente de minha casa. Depois, um silêncio prolongado. Com o nascer do sol, chegaram as forças de choque do exército real, acompanhadas por blindados, equipas médicas e snipers das operações especiais. O governo exigiu pelas sete da manhã a rendição incondicional dos sublevados, dando-lhes três horas para que depusessem as armas e saíssem do acampamento com bandeiras brancas. O prazo não foi cumprido e foi feita nova intimação. Por volta da uma da tarde, grupos isolados de vermelhos tentaram fugir através da Ponte Huá Chang e foram capturados. Com a rendição sem condições das figuras proeminentes do partido thaksinista, começou a debandada e subsequente apresentação voluntária de centenas de não-combatentes nos postos de acolhimento montados em frente do Estádio Nacional.



Contrariando o mito de supostas divisões nas forças armadas e da nunca comprovada inimizade entre a polícia e o exército, a verdade é que me foi dado ver clara cooperação e coordenação eficiente e decisiva na execução do assalto ao campo vermelho. Um polícia ferido foi socorrido na terra-de-ninguém por um jovem soldado e um soldado que perdeu os sentidos por insolação foi levado ao colo por um polícia. É esta camaradagem de armas que prevalece; não o que os rumores e fabricantes de boatos foram tecendo na fase ascendente da sublevação plutocrática-comunista.



O exército está a portar-se com grande profissionalismo e magnanimidade. Os civis vermelhos são tratados com toda a simpatia, com gestos de deferência para com os idosos e mostras de carinho pelas crianças. As pessoas carregando fardos pesados são ajudadas por soldados e vi um sargento levando ao colo um cão pertencente a uma militante vermelha. O exército venceu a luta e trata os prisioneiros como concidadãos. Há muitos enfermeiros, socorristas e médicos prestando primeiros-socorros a combatentes e não-combatentes vermelhos. O Estado de Direito não abdica das suas obrigações e, uma vez mais, o governo monárquico e democrático dá mostras de total acatamento da lei e das cartas internacionais.

18 maio 2010

Débâcle vermelha: o que resta

Fim de tarde de terça-feira. Os vermelhos reabriram a porta de Pratunam, creio que para deixar sair as pessoas de Banguecoque que ainda se encontram no acampamento e para permitir apoio logístico, dado que na Praça Siam, perto de minha casa, o exército está a trinta metros dos sublevados. Reina uma calma tensa, pois a esperança desvaneceu-se em definitivo com a total recusa do governo em sentar-se à mesa das conversações com um cadáver político. O movimento vermelho foi derrotado e às autoridades só cumpre tratar com firmeza aqueles envolvidos em actividades terroristas, cuidar dos escudos-humanos, reenviando-os para as suas províncias de origem e começar a limpar a cidade do vandalismo que a varreu ao longo das últimas semanas.

Foi uma grande vitória do regime e da democracia. A tropa não excedeu os seus limites, actuou sempre com a máxima precaução, nunca tirou vantagem do poder de fogo, nunca mandou bombardear, não mandou avançar os blindados nem impediu que os feridos vermelhos, às centenas, recebessem nos hospitais civis o mesmo tratamento e atenções destinado aos soldados caídos ao serviço da lei e do Estado. Uma montanha de lixo fétido cria uma barricada-repelente, atestando a imensa logística vermelha e as necessidades diárias de um pequeno exército que não foi - não pode ter sido - alimentado pelas contribuições de "pobres camponeses" e do "proletariado de Banguecoque", como rezavam pias mentiras. Quando tudo terminar e se fizer a revelação de nomes, empresas, bancos, ONG's e países que alimentaram esta guerra, a fúria da população e a indignação de muitos far-se-á ouvir.


O palco continua a debitar protestos. Agora há grupúsculos trotsquistas vindos do Ocidente para apelar à "resistência contra a ditadura". Que ditadura ? Que resistência ? Pensei que melhor seria que estes excitados Garibaldis pelas revoluções e tragédias alheias aterrassem em Pequim, Rangún ou Hanói e aí dessem largas à sua combatividade por causas exóticas. Eu bem disse, há quase dois anos, que com este povo não se brinca, que aqui não haveria Bastilhas nem massas humanas ao assalto do palácio de inverno. Não estarão mais de 300 pessoas em frente do palco. Já lhes conheço as caras. Estão lá há quase dois meses. São os reféns, os escudos-humanos, agora utilizados para preencher as clareiras. São submetidos dia e noite à lavagem ao cérebro dos slogans, das canções, dos aplausos. Devem estar a viver um pesadelo sem fim e só espero que recebam o melhor tratamento do governo e possam retomar, sem caciques, o normal curso das suas vidas.

Sigo pela avenida Rachadamri, que leva a Silom e fico esclarecido. As pessoas debandaram. Não há ninguém. Quase envergonhado, um miliciano rapazola diz-nos que "estão a combater lá longe, perto da embaixada do Japão". Ora, não se consegue ouvir tiro algum. Ele sabe, como nós, que já não há combates, que o exército ocupou em definitivo aquela área, que está tudo perdido. Vi-lhe vergonha nos olhos ao mentir-nos e tive pena por ele e vergonha pelos que o trouxeram para esta aventura sem glória. Este nunca mais vai querer ouvir de marchas, de Thaksin ou de mesadas. É hora de regressar a casa, tomar um bom banho e descansar as pernas de vinte quilómetros de passeio numa cidade fantasma. Despeço-me do meu companheiro de jornada e retorno. No caminho cruzo-me com uns vinte homens de negro. Estes, sim, são os guerrilheiros e estão armados até aos dentes com espingardas de guerra, carregam M-79 envoltos em panos e outro tem um RPG-7 anti-carro enrolado numa flanela verde.

Combustões nas últimas bolsas vermelhas


Em Anu Sawari Chai Samora Phum, importante nó rodoviário da capital, combate-se energicamente. Ali próximo, num bairro popular, os vermelhos possuem apoio e ocuparam posições desde sábado, reforçando-as com muitos efectivos. A população, não tomando parte nos confrontos, senta-se à porta das casas e vai assistindo aos combates. Na companhia de um jornalista thai-alemão, percorri a avenida entre o zumbido de tiros de um sniper vermelho que fazia guerra por conta própria a partir do 12º andar de um edifício em construção. Graças às explicações do meu companheiro de aventura, agora aprendi a ciência de evitar um sniper. Quando este se encontra num ponto alto, a arma, ao fazer fogo, emite uma vibração seca e há que escolher rapidamente protecção atrás de um poste de electricidade ou de um carro. Depois, ouve-se o impacto, o tempo suficiente para correr para uma nova protecção.


Em baixo de um viaduto, meia centena de vermelhos vai seguindo o desenrolar dos combates e preparando coctails molotov. O estrondo é imenso, os gritos e corrida dos milicianos indicia pânico, pois já não se atrevem abandonar a protecção garantida pelo betão. Ontem ainda controlavam por completo a zona. Hoje, estão imóveis e só se movimentam de rastos ou em corrida.


Os combates desfiguraram o bairro, que está convertido num amontoado de ferros calcinados, pneus fumegantes, casas literalmente queimadas e restos de munições, garrafas de cocktails espalhadas pelo chão e muito, muito lixo que tresanda. A municipalidade de Banguecoque deixou de recolher o lixo, pois os carros são atacados pelos vermelhos e utilizados depois como barricadas.


Uma grande explosão atroadora. O exército, cansado do franco-atirador, acaba de o eliminar com uma poderosa desgarga, para desconsolo dos milicianos vermelhos que da rua dizem em uníssono "óóó, nãooooo". Prosseguimos e entramos pelas traseiras do bairro popular. Aí, como se nada estivesse a acontecer, a população faz compras, as crianças correm e brincam, come-se e bebe-se.


O desnorte, a inexistência de uma cadeia de comando, o prazer de dar largas ao proibitivo parece ter tomado conta das milicias vermelhas. Ontem queimaram, saquearam e vandalizaram tudo a que puderam lançar mãos. Escombros de automóveis e motorizadas, caixas multibanco roubadas, cabinas telefónicas despedaçadas, eis o que ficou de uma noite de destruição. As imagens, não vá alguém dizer que foram inventadas, são cabal expressão da instalação do poder nu nos bairros controlados pelos vermelhos.



Chegamos à linha de fogo. Os vermelhos estão agachados e vão respondendo com tiros aos tiros do exército. Lançam um foguete artesanal enorme que tem por cabeça explosiva uma garrafa de cerveja carregada de pólvora e um líquido que não consegui saber ao certo o que era. A explosão é grande e eles gritam entusiasmados. Na rua, uma tabuleta rabiscada diz: antaray, hân ók = perigo, proibido sair. Atrás das barricadas, os vermelhos já nem se movimentam. O mais ligeiro gesto é presenteado com uma saraivada de tiros.



Aquele sítio é demasiado perigoso. Vistos os vermelhos, resolvemos passar para o campo das forças armadas reais. Lá chegamos após vinte minutos de avanços cautelosos por quintais, ruelas e casas. As pessoas deixam-nos passar através das suas casas e devem pensar que somos loucos. Finalmente, a primeira trincheira militar. Só nos pedem que mostremos os sacos e seguimos em frente, em direcção a Baioke - a maior torre de cidade - que ainda ontem estava sob controlo dos vermelhos.


Disse-me um soldado que os vermelhos tinham muitas armas de fogo e que ontem a sorte do confronto esteve indecisa. "Atiravam sobre tudo o que se movesse, pois controlavam os pontos altos circundantes". Um camião-cisterna foi abandonado no auge dos combates e ali está atravessado esperando um reboque. Uma carrinha que por ali passava foi varejada a tiro pelos snipers vermelhos e do ataque resultaram ferimentos graves em dois dos ocupantes. Manchas de sangue seco comprovam as suas palavras.


O exército está senhor da situação. Os soldados retiraram os casacos de combate, fumam, ouvem rádio ou dormem. A bolsa de resistência de Anu Sawari está isolada e os milicianos jamais poderão forçar a linha militar que impede o acesso ao campo vermelho de Rachaprasong, o acampamento vermelho. Dois soldados oferecem-nos água e um deles diz: "sí déng gêap péé = os vermelhos estão quase derrotados".


(Continua)



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