01 maio 2010

As cunhas

Diz-se por aí que 45% dos lugares para o primeiro emprego são "encaixados". Não creio, pois se assim fosse, o país ainda seria liminarmente justo ou, melhor, tendencialmente benigno. A cunha, a pretensão, o telefonema, se feitos para um amigo ou um familiar, seja tolo ou inveterado madraço, ainda se compreende. Aliás, quem nunca pediu por um amigo ou quem nunca se sentiu apreensivo pela sorte de um familiar menos impositivo, ou não tem amigos ou detesta a família. Nunca acreditei na absoluta isenção nem na indiferença sentimental ou afectiva em relação às pessoas. Há pessoas de quem gostamos; há pessoas que detestamos, pelo que preferimos ter a trabalhar connosco um simpático pateta a ter de pagar juros ilimitados por uma inteligência sem carácter. O que me custa aceitar é a abstração do princípio do nepotismo, tornando-o universal. Pedir a um amigo empresário que dê emprego a um amigo é um acto de caridade que será partilhado pelo empregador. No fundo, ninguém perde, com excepção do empregador que perde conscientemente por magnanimidade. O mesmo não acontece com o Estado. Ao viciar um concurso público, o Estado perde duplamente: emprega um peso morto e priva-se de o ter a servir um indivíduo qualificado. Para mais, perde a lei e perde a sociedade. Mas não nos preocupemos em excesso, pois o Estado, da mais alta magistratura ao mais humilde contínuo, está viciado na confusão existente entre o público e o privado. Quem manda, vê o Estado como seu. O favoritismo muda, então, de nome: passa a ser a merecida recompensa dada a um determinado partido por haver vencido as eleições. Chamo-lhe saque e não há como impedir a prática, pois o partido que a seguir vier fará o mesmo. Quando ouço um desses Demóstenes parlamentares increpar o governo pela existência de redes clientelares, só me apetece perguntar-lhe como chegou a deputado. Se no nobre areópago estão os mais capazes dos portugueses, o melhor será fechar a luz e trancar a porta.

30 abril 2010

Ódio à cultura à solta em Banguecoque

Por onde passam os vermelhos, destruição e ódio quimicamente puro. Fotos do Monumento à Democracia que dispensam qualquer comentário. O que esperava os tailandeses se caissem sob o jugo de tal gente.

Banguecoque é sempre Banguecoque


Sair em Banguecoque tornou-se uma aventura. Já não horários. O Metro fecha inopinadamente, hoje às 8 da noite, ontem às 11, anteontem esteve encerrado. Os supermercados abrem ou fecham segundo as instruções do governo. Os restaurantes idem. Já não entro numa livraria há duas semanas, como aos cinemas também já não vou. Se se vai a Silom, a certeza de encontrar manifestantes Amarelos é tão grande como a de assistir ao rebentamento de uma bomba. As pessoas mantiveram o optimismo. Estão armadas com a certeza da vitória final, entrincheiradas no seu amor pelo Rei e sonham com o regresso à normalidade.

Depois, há tropa, barreiras e auto-stop por todo o lado. As ruas estão mais seguras. O exército passou a fazer parte da vida da cidade. Nunca exército algum foi mais mimado que o da Tailândia. Os soldados vão engordando com o passar das horas. Bolos, gelados, sacos de fruta, sopas trazidas de casa; tudo oferecido pela população que até lhes dá sabonetes, lhes oferece flores e roupa interior lavada em troca de uns dedos de conversa e muitas fotografias.

O aspecto destes defensores da democracia e do trono mudou radicalmente. Uns arranjaram namoradas - a minha cabeleireira já tem um namorado camuflado - outros mudaram ligeiramente a farda, colocaram toalhas humedecidas na cabeça, outros cobriram-se de fitas tricolores da bandeira nacional ou apuseram autocolantes com um vibrante "Ráo Rák Nay Luang" (Nós Amamos o Rei) nas granadas de gás lacrimogénio que pendem dos suspensórios do equipamento de combate.

Os thais são criativos. A indumentária civil mudou. As cores neutras desapareceram. Só se vêem camisas que indiciam a fidelidade do portador. A capital está vigilante, mas os dias da amargura e da incerteza passaram. Só se aguarda o dia decisivo em se anunciar que a conspiração que visava destruir o modo de vida deste povo passou à história e que, de novo livres de ameaças e de bandos armados, os cidadãos da Cidade dos Anjos regressem à sua vida de sempre, alegres e pacíficos. Afinal, a crise foi benéfica. Os tailandeses reaprenderam a solidariedade, falam uns com os outros sem olharem a barreiras de classe. Voltaram a ser um só povo e um só coração.

O indizível: métodos polpotianos. Depredar hospitais

Aconteceu esta madrugada. Um bando de caceteiros irrompeu pelo Hospital Chulalongkorn, situado nas imediações do acampamento vermelho, forçou a entrada e procedeu à localização de supostos militares escondidos nos corredores da cave. Fuga precipitada de doentes, enfermeiros e médicos, gente transportada em maca, pacientes recém operados e outros entubados revistados nos seus leitos. Uma vergonha que mereceu já uma intervenção do primeiro-ministro, que considera este o acto supremo de indignidade que atesta a perigosidade, a total ausência de escrúpulos e a marginalidade dos grupos que instigam ou executam tais práticas. Sim tirar, uma prática Khmér Vermelha.

PCT: armados até aos dentes

A polícia e o exército reais lançaram ontem uma vasta operação auto-stop em Banguecoque que se saldou pela detenção de setenta e nove indivíduos por posse ilegal de armas de guerra. Todos os suspeitos possuiam nos respectivos automóveis documentos ou material de propaganda vermelha que os indicia como militantes do movimento subversivo. A tese governamental de um vasto complot contra o Estado e a monarquia vai ganhando consistência. Diz-se agora, aliás sem grande surpresa, tamanha a magnitude das provas recolhidas, que por detrás do movimento Camisas Vermelhas há um partido político há muito proscrito, que se supunha desactivado, mas que tem sido o eixo coordenador de toda a turbulência política e escalada da violência. Esse partido não é outro senão o Partido Comunista da Tailândia, derrotado militarmente nos anos 70 e agora actuando sob pseudónimo. Nada disto é novo. No Camboja, Pol Pot e o seu movimento fizeram a guerra contra Lon Nol em nome de uma "Frente Domocrática". Ao tomarem o poder, persitiram em manter secreta a identidade do movimento e só em 1977 foi revelada a existência do PCK (Partido Comunista do Kampuchea). A flagrante coincidência é atestada por pequenas mas indesmentíveis analogias: a opção pelos uniformes negros, a origem campesina do movimento, as ligações ao Camboja, a existência de uma ala militar cujo comando se encontra na penumbra, a procura de "guarda-chuvas" e figuras simbólicas que reforçam a invisibilidade da direcção do grupo (no Camboja era Sihanouk, na Tailândia são Thaksin e Chavalit) e, agora, o claro apelo ao derrube do "feudalismo" (i.e. da monarquia). Só quem desconhecer em absoluto as técnicas usadas repetidamente pelos comunistas se poderá espantar - ou simular espanto - perante tais coincidências.

28 abril 2010

Na aldeia dos escudos humanos

Passei há minutos pelo acampamento vermelho, cada vez menos concorrido. Subsistem cerca de 2000 ou 3000 mil pessoas: metade homens armados, lança de bambú com aplicação metálica perfurante no extremo, pistola enfiada no cós das calças; a outra metade mulheres, idosos e muitas crianças de tenra idade, sintomaticamente colocadas ao longo dos eixos de aproximação para uma operação militar de reposição da ordem e da lei. Na aldeia dos escudos humanos tudo evidencia sintomas de degradação, cansaço extremo, inevitabilidade de colapso. É gente boa, simpática e pacífica, usada numa aventura que se anunciou como uma "revolução" e acaba com promessas de resistência numantina contra o exército. O governo diz que não quer matar nem ferir inocentes, precisamente o que a liderança vermelha aguarda.

Reparei que a abundância de comida acabou, que o cheiro nauseabundo se tornou insidioso e as montanhas de lixo cresceram. Seria bom que tudo acabasse com a rendição voluntária dos cabecilhas e que lhes assomasse um pingo de consciência humanitária, pois o que mais indigna em tudo isto é a total ausência de escrúpulos em usar vidas alheias para jogos de propaganda. As fotos falam por si e ao vê-las aumenta o respeito que sinto por Abhisit.


Sinais

O regresso do Primeiro-Ministro à sua residência oficial constitui sinal de confiança do governo legítimo na breve conclusão do actual episódio da crise política tailandesa. Os confrontos que nesta tarde opuseram forças militares a milícias vermelhas nas cercanias do aeroporto de Don Muang são demonstrativos da crescente volubilidade táctica dos rebeldes, agora apostados em iniciativas cuja racionalidade ninguém parece compreender. As tropas de choque bateram-se bem e foram alvejadas a tiro pelos vermelhos, mas desta vez a muralha militar não vacilou e obrigou os díscolos a retroceder para a sua base no centro de Banguecoque.

Soube-se que o complot contra a monarquia é bem mais sério e profundo do que se supunha. As autoridades limitaram-se a apresentar um gráfico com as mais expressivas conexões de uma rede conspirativa que é complexa e envolve pessoas aparentemente não associadas entre si. Porém, o governo encontra-se na posse de imensa massa informativa que tem vindo a ser reunida desde há semanas e as provas são, a todos os títulos, esmagadoras contra quem tenta minimizar ou duvidar da autenticidade das acusações que o governo produziu. Uma fonte que estimo de reconhecida idoneidade afiança que não há nem nunca houve desinteligências entre o governo e os chefes militares, mas um intencional jogo de simuladas contradições visando estudar as reacções dos rebeldes, levá-los a actuar desabrida e irreflectidamente e a exibir o extremismo que queriam ocultar da opinião pública e dos media internacionais.

Ontem, para desfazer dúvidas, a forte e influente comunidade chinesa realizou o maior comício de rua em defesa do governo e do Rei. A China Town encheu-se literalmente de pessoas e o trânsito em Yaoarat - a maior artéria da cidade chinesa - esteve paralizado, tão grande era a massa de manifestantes. Ainda hoje voltaremos com mais notícias sobre a situação de grande tensão que se vive em toda a capital e arredores.

26 abril 2010

Governar pela crueldade

Coitadinhos dos tailandeses


Li recentemente num jornal português que a história contemporânea da Tailândia é uma série infindável de golpes de Estado, atestando "atraso" da "ideia democrática" e a fragilidade da sociedade civil. Ornamentada com a exibição de tal ferida (18 golpes de Estado desde 1932), esqueceu-se a articulista de lembrar os ignorantes leitores que em Portugal, entre 1910 e 1975, tivemos dezoito golpes ou tentativas de golpe de Estado.

Lembramos: Golpe republicano (1910), Movimento das Espadas (1915), 14 de Maio (1915), Revolta de Sidónio Pais (1917), 28 de Maio (1926), Revolta Reviralhista (1927), Revolta Fracassada de 20 de Julho (1928), 17 de Junho (1930), Revolta da Madeira (1931), 26 de Agosto (1931), Golpe Nacional-Sindicalista (1935), Revolta dos Marinheiros (1936), Revolta de Beja (1961), Golpe Botelho Moniz (1962), Golpe das Caldas (1974), 25 de Abril (1975), 11 de Março (1975), 25 de Novembro (1975). Dezoito golpes na Tailândia, dezoito em Portugal. Em suma, à Tailândia não somos devedores de qualquer exemplo.

A luta contra o totalitarismo quase a triunfar

25 abril 2010

M-79: falemos de armas

Tem sido rica em aspectos a discussão sobre o lança-granadas M-79 que esteve na origem dos disparos sobre a multidão fiel ao Rei, que há dias aqui relatei e de que fui testemunha presencial. Li hoje mais de dez artigos de jornalistas ocidentais sobre o incidente e fiquei com a clara impressão que os preclaros profissionais da informação nunca viram o artefacto bélico em questão. Li que era impossível bater alvos a tal distância, que a granada jamais poderia ter sido lançada do acampamento vermelho, que a trajectória da munição seria irregular. Ora, se de armas pouco sei, a verdade é que durante cinco anos consecutivos foi a minha arma no Regimento Operacional em que prestei serviço. Contas feitas, terei feito em carreira de tiro e dando instrução a nove sucessivas levas de recrutas umas centenas de tiros com a arma, pelo que de olhos fechados a posso montar e desmontar, carregar e visar alvos. É uma arma muito leve, pequena (70 cm), que cabe em qualquer saco de ginástica e de fácil manuseamento, pelo que qualquer pessoa com prática a pode usar com grande eficácia. Confesso, que tantos anos passados, se me colocassem nas mãos tal monstrozinho, ainda a poderia utilizar com a precisão que a minha inabilidade permite. A M-79 faz, geralmente, tiro curvo; isto é, não é uma arma de fogo directo horizontal sobre alvos e dispara-se, tal como a granada dilagrama ou o morteiro, fazendo o cálculo da distância do alvo a bater mediante um marcador que expressa o grau de inclinação pretendido. Contudo, pode ser usada na horizontal se carregada com uma granada especial, dotada de esferas e estilhaços, neste caso sobre concentrações de infantaria que não distem mais que 40 ou 50 m do local do disparo.

Descartada esta possibilidade, pois que as perfurações que vi parecem-me provocados por estilhaços da granada convencional de 40mm, que ao bater o alvo emite estilhaços de formato irregular, julgo (quem sou eu?) que o disparo foi indirecto (curvo), a longa distância e com granada normal. O que me chamou à atenção no dia do atentado foi a distância entre os locais visados, o que me leva a aceitar a ideia que a arma estava a ser usada no limite do seu raio de acção e, como tal, era difícil precisar com rigor alvos. Se os três primeiros disparos, seguido de um quarto, parece terem sido calculados com alguma precisão, o último foi, como se diz em gíria militar, uma "franganada". O atirador puxou o gatilho e ela saiu e caiu perto do hotel na esquina fronteira ao Parque Lumpini onde estaria o atirador. Esperemos, pois, pelas peritagens.

Quase a vencer

Uma batalha sem quartel contra forças poderosas que não olharam a meios, espezinharam todas as convenções e estavam apostadas em destruir por atacado a sociedade tailandesa. Está quase a vencer e revelou-se ao longo deste ano de governação um estadista na mais alta acepção do termo. O apoio popular que se espraia por todo o país, a intransigência em negociar com gente armada, a preocupação em mater todas as leis e princípios que salvaguardam o Estado de Direito e as liberdades de cidadania, eis os pilares indestrutíveis da governação de Abhisit. A Tailândia ficar-lhe-á reconhecida, a democracia triunfou, a monarquia mostrou-se mais forte do que nunca. Agora, é uma questão de dias. Cumpre-lhe, restaurada a paz, investir toda a energia do Estado na erradicação das bolsas de subdesenvolvimento rural e na promoção de políticas de integração que tornem impossível que pobres camponeses, a alma deste povo, voltem a ser usados e abusados pela plutocracia.