24 abril 2010

Democracia tailandesa, a que querem matar



Kanchanapisek

O tempo das fezes e dos difamadores

Depois do ciclo do sangue contaminado por HIV, da desobediência civil, da invasão do parlamento, do apedrejamento de imóveis públicos, ocupação de avenidas e levantamento de barricadas, atentados bombista, lançamento de projécteis de guerra sobre civis indefesos, desarticulação da baixa comercial e turística da capital, vandalização de monumentos e entrada em acção de grupos para-militares dotados de armas de repetição e armas anti-carro, parece ter chegado o preiamar do terrorismo psicológico.

O centro da capital está morto. Tudo parou: o metropolitano parou, as carreiras de autocarros foram suspensas, os centros comerciais fecharam. Banguecoque está, pois, totalmente refém de uma minoria armada a tudo disposta para o derrube do regime e do sistema democrático. Serão três, quatro ou cinco mil, não mais, apoiados pela estridência das agências noticiosas, por alguns países que não respeitam o estatuto internacional reservado aos representantes diplomáticos e a muitos intriguistas que manobram nos arcanos, levam e trazem recados, espalham boatos e rumores. A coisa vai na quinta semana e já se terão perdido dois mil milhões de dólares, quase trinta vítimas mortais e novecentas pessoas feridas.

Hoje passei pelo acampamento vermelho, pois impunha-se-me fazer compras e tinha de passar forçosamente por aquela barracaria a perder de vista. Muita coisa mudou deste a semana passada. É um estendal de fezes e urina, lixo e cartões e papel amontoado, um cheiro nauseabundo, crianças completamente nuas brincando e saltitando entre lixo, homens e mulheres agachados fazendo necessidades fisiológicas em plena rua, outros quase nus tomando banho na via pública. Dir-se-ia que Banguecoque voltou ao neolítico e que agora só falta assistir à quebra da autoridade que limita esta Utopia regressiva e subsequente invasão da cidade por uma horda de rapinadores de tocha na mão a pegar fogo e a saquear as lojas e mercados selados.

O estendal de roupas a secar é imenso. Há, até, um "museu" com as "provas do sangue derramado pelos mártires", devidamente integrado num shopping revolucionário onde não faltam o livrinho vermelho de Mao, bandeiras e bonés com a foice e o martelo, crachás com Marx e Lenine, "salas de aula" onde se dão lições sobre a "revolução", animadas por comissários e comissárias "educadores". A liderança vermelha perdeu o rumo e parece já nem exercer autoridade sobre o palco central onde decorre o infindável comício vinte e quatro sobre vinte e quatro horas.

Onde é que se permitia uma coisa destas num país ocidental ? Que governante europeu aceitaria ter em plena capital uma ínfima minoria a tudo disposta sem mandar avançar os carros, a polícia e o exército para jugular uma revolta destas ? Ainda pensei que os mais moderados dos líderes vermelhos pudessem segurar tais excessos, mas não, perderam até o controlo sobre o que no palco se diz. Hoje assisti ao discurso de uma milionária que foi, em tempos, a dona de uma conhecida cadeia de restaurantes japoneses. Dizem que abriu falência há cerca de dez anos e recorreu a Thaksin para a salvar da insolvência. Dele recebeu milhões e é hoje uma das mais exaltadas militantes da república thaksinista. Não sendo propriamente uma senhora, mas uma daquelas arranjistas cujos gestos denunciam a natureza e o dinheiro novo, seria de esperar que a intervenção fosse moderada. Ouvi daquela boca os maiores impropérios, as insinuações mais soezes, os palavrões mais sórdidos a respeito do Rei, da Rainha, do General Prem e do governo de Abhisit. Terminou a arenga, esgotada e quase histérica, de punho cerrado pedindo aos presentes "vingança" e o "poder para o povo".


Depois, há milícias por todo o lado fazendo formaturas e chamadas, outros carregando pneus, arame farpado, lanças e obstáculos anti-carro, há homens fardados dos pés à cabeça controlando o trânsito, equipas de enfermeiros dando "consultas". Ao sair do acampamento pela barreira no extremo oposto, um fulano, que julguei um militar, mandou-me abrir o saco para o fiscalizar. Um militar, aqui, no meio dos vermelhos ? Mas não, era um soldado de uma das milícias que Thaksin mandou para a capital. Isto está pela hora da morte.

Não passarão: o Sião ergueu-se


Thonburi, 21 de Abril

Bangkok, Sala do Trono, 23 de Abril

Udon Thani, "capital vermelha", 24 de abril

Bangkok, 24 de Abril

23 abril 2010

Trabalhadores apoiantes do Rei

Realizou-se hoje ao fim da tarde mais um comício de apoio ao regime democrático e à Coroa. A escolha do local da concentração foi objecto de alguma crítica, porquanto se situar numa vasta zona da capital inacessível aos transportes públicos e pelo facto das avenidas confluentes se encontrarem, por motivo de apreensão de ataques bombistas, vedadas ao acesso de automóveis, obrigando os participantes a percorrer quase três quilómetros a pé antes de chegarem à vasta praça da Sala do Trono, onde se ergue uma imponente estátua equestre do Rei Rama V (Chulalongkorn), objecto de grande veneração popular.

A convocatória foi feita anteontem e apelava a 100.000 manifestantes. Embora tal meta fosse difícil de atingir, terão acorrido vinte e cinco ou trinta mil pessoas, cujo entusiasmo extravasante não foi de forma alguma atenuado. Aliás, foi o maior comício realizado até hoje no decurso da crise, multiplicando por cinco ou seis o número de vermelhos que se concentram no coração da capital. Sexta-feira à tarde, acesso inacessível, medo pela repetição de uma carnificina como aquela que ontem teve lugar em Silom foram, decerto, motivos de apreensão para o povo de Banguecoque. Demorei quase hora e meia a chegar de moto ao local e ao atingir a primeira barreira do exército, fui obrigado a apear-me e percorrer quilómetros a pé sob uma temperatura que quase atingia os 40 graus. Depois, convém lembrar que estas manifestações diárias não contam com a presença de qualquer figura de relevo da vida política. São pessoas comuns e ignoradas do público que sobem ao estrado e discursam. Se Abhisit fosse o orador, a massa multiplicar-se-ia por três ou quatro.

Ao chegar à estátua de Rama V tive a ventura de assistir a uma velha prática que exprime a teoria do poder régio siamês: flores, incenso fumegante e velas são colocadas na base do monumento, as pessoas ajoelham-se e fazem preces ao Chaw Chivit (Senhor da Vida, o Rei), protector do Budismo e garante da ligação entre o mundo dos homens e o "mundo superior". Fazem-no concentradas, abstraindo-se do que à sua volta se passa ali ficam por minutos em profunda concentração.

Depois, percorri a massa de manifestantes. Saltava à evidência que ali não havia gente trazida nas traseiras de camiões nem gente paga. O único pagamento é uma garrafa de água de rosas, bem fria, oferecida por militantes do "partido amarelo" (Novas Políticas), uma foto do Rei e uma bandeirinha de papel. As pessoas sabem ao que vêm e a massa reproduz fielmente a população de Banguecoque na sua estratificação e cambiantes sociais, étnicas e religiosas.

Bastantes "farangues" (ocidentais), contradizendo a opinião corrente que a comunidade imigrante branca (detesto a palavra expatriada, um tique snob) é por atacado pró-vermelha. Depois, há os "kéék" (indianos), os muçulmanos - uma das minorias mais leais à Casa Real - os Karen e muita, muita gente do Issan residindo na capital. Sim, trata-se de classe operária monárquica que vai chegando em grupos, famílias por atacado ostentando retratos do monarca, bandeiras amarelas e nacionais, dizeres rabiscados em cartazes improvisados.

Os mais ruidosos e compenetrados no significado do acto de afirmação patriótica e de lealdade são precisamente os mais humildes, quase todos exibindo símbolos das "Novas Políticas", confirmando que a rua pertence aos tradicionalistas, posto os democráticos de Abhisit serem mais sofisticados e menos experimentados no exercício da euforia necessária aos actos multitudinários. Só me acorreu à memória uma das mais repetidas palavras de ordem que em 1975 se gritava na Fonte Luminosa, nesse grandes comícios anti-totalitários que detiveram a maré vermelha: "se isto não é o povo, onde está o povo ?"

Um indivíduo acercou-se e identificou-se como professor do ensino secundário. É simpatizante de Abhisit mas deixou-me boquiaberto com a terminologia. "Sabe, 90% dos tubarões e exploradores deste povo são amigos de Thaksin. No campo democrático e daqueles que amam o Rei, a maioria são pessoas como nós, que trabalham, se levantam cedo e deitam cedo, que fazem ginástica orçamental para sobreviver". Feliz por ver que da boca de um homem que ganha duzentos Euro por mês saltam crepitantes as palavras que esperava. Disse-lhe que na Europa era o mesmo: quanto mais ricos, ociosos e metidos nas curibecas, mais pró-isto e pró-aquilo, conquanto nunca lhes metam as mãos na carteira.

A maioria trazia um grande autocolante destinado a enviar um recado para o mundo, infelizmente mal informado pelos media ditos de referência, que fazem clara campanha a favor do plutocrata Thaksin servindo-se exageros e semi-verdades misturadas com totais mentiras. Não [queremos] presidente, resume a natureza do conflito. Thaksin quer a república oligárquica e plutocrática, o poder absoluto para governar a seu bel prazer. Os tailandeses sabem que tal república, que os defensores do multimilionário crismaram já de Estado Novo, seria o fim da democracia e o fim da separação de poderes. Depois, há a repulsa profunda pelo terrorismo, pelo vandalismo e pela protecção que Thaksin tem recebido dos regimes autoritários ex-comunistas da região. Agora, para os defensores do governo, Thaksin é, apenas um traidor.

O professor de liceu disse-me: "se os vermelhos tomassem o poder, desembaraçavam-se de Thaksin, pois ele ainda não compreendeu que já não é nada mais que um financiador". A noite começa a cair e canta-se o Sadudi Maha Raja, Sadudi Maha Ragini (Saudação ao Rei e à Rainha). Uma mulher do povo acerca-se e pede-me que fotografe o "pequeno guerreiro" (dék tahan). Perguntei-lhe se era de Banguecoque. Sim, sou vendedora de rua. Fiquei esclarecido. Esta é a mais acabada imagem da mentira que aí no Ocidente se espalha. Não, não é um problema social que se trava na Tailândia; é uma batalha entre a democracia e o totalitarismo.



เพลงสดุดีมหาราชา (Sadudi Maha Raja)

22 abril 2010

Apanhado no meio do fogo vermelho: uma noite de terror na baixa de Banguecoque


Pelas 19 horas apanhei o metro de superfície para ir ao ginásio para uma sessão de boxe. Ao abandonar a estação de Sala Deng (Silom) fui confrontado com um mar de gente que gritava palavras de ordem anti-vermelhas, vivas ao Rei e às forças armadas. Já não eram as centenas que diariamente ali vão para as imediações do campo vermelho gritar a sua raiva pela inaceitável situação em que os Camisas Vermelhas precipitaram a capital. Hoje eram milhares e não propriamente a "aristocracia" e as "classes possidentes": era o povo miúdo de Banguecoque, vendedoras, mulheres de bata saídas das cozinhas, caixeiras, taxistas, estudantes, idosos e até carregadores. O povo levantou-se em massa contra a prepotência dos grupos vermelhos e está pronta a fazer justiça pelas próprias mãos se o exército não debelar o terrorismo.

Não, não é uma guerra de classes: é uma guerra do povo contra um movimento armado, apoiado do estrangeiro e extremamente violento que não olha a meios para atingir os seus objectivos. O senhor de lenço amarelo cingindo a testa diz que conhece o inimigo há quarenta anos. Foi soldado do corpo expedicionário tailandês no Vietname e diz que os vermelhos são iguais ao Vietcongue e aos Khméres Vermelhos, pelo que está pronto para travar nas ruas de Banguecoque o mesmo combate que travou nas selvas do Vietname do Sul. Desabridamente e sem que lhe pedisse a filiação, disse-me que é membro do partido amarelo.

Uma mulher com ar de Amazona, capacete na cabeça e bandeira tailandesa diz-me que só sairá da rua quando o exército esmagar os vermelhos e que se este o não fizer, fá-lo-á com os milhares de amarelos que ali e noutros distritos da capital aguardam a ordem de ataque.

O medo eclipsou-se. Há uma euforia castrense que contagia. Gritos de guerra, cânticos patrióticos ecoam em uníssono num mar de bandeiras amarelas e tricolores que prenunciam uma luta sem quartel. Nunca pensei que por detrás de um povo tão manso e sorridente se escondesse tanta energia e vibração. As pessoas não arredam pé, querem avançar. Há pedradas de um lado e do outro. O mar humano, ao invés de retroceder, avança e está a quase trinta metros da paliçada vermelha.

De súbito, um grande estrondo. Uma granada cai sobre a multidão. Depois, uma segunda, uma terceira e uma quarta. Há gritos e berros de dor, fuga em tropel. Ouço disparos de uma arma de repetição, fazendo fogo algures de um dos prédios da avenida. Os mais temerários juntam-se ao exército para localizar e dar caça aos terroristas emboscados nos terraços. A polícia retira apressadamente e é substituída por forças de infantaria do regimento da rainha.


Um novo rebentamento de lança-granadas. Dois ou três disparos cuja origem não consigo localizar. A tropa assume posição de combate, procura protecção e aponta as armas para as varandas e telhados. Grossas colunas camufladas ocupam a avenida e avançam para o local dos rebentamentos. Devem estar a disparar de cima ou de longe, pois os lança-granadas fazem tiro curvo. Julgo que a origem dos disparos poderá ser o acampamento vermelho, dado os foguetes poderem bater alvos a 300 ou 400 metros.



As ambulâncias recorrem os feridos. Há sangue, sapatos abandonados, gente que jaz pelo chão e grita por socorro. Um homem carrega um rapaz que se esvai e vai pintalgando o caminho com sangue quase negro que lhe corre da garganta. As sirenes de socorro enchem a avenida mas os carros de som que emitem cânticos patrióticos continuam a dominar o ambiente. Umas duzentas pessoas permanecem no local, indiferentes ao perigo, e agitam as bandeiras amarelas. Vou ao hospital cristão de Silom e deparo com um verdadeiro espectáculo de dor. As ambulâncias chegam, descarregam gente crivada de estilhaços e voltam para a safra de feridos e estropiados que aguardam nas ruas que alguém as venha recolher.

Um socorrista do exército diz-me, quase indiferente, que há sessenta ou setenta feridos, pelo que o hospital não pode receber tal enchente, enviando-os para outros hospitais da capital. Faz parte de uma unidade de combate vinda do sul, onde se trava intensa luta contra terroristas islamistas, pelo que parece estar absolutamente habituado a coisas destas.


Neste instante, sai da sala de urgências um rapaz coberto de sangue. Empunha uma bandeira do Rei, vira-se para a multidão que aguarda notícias dos seus e grita a plenos pulmões: "viva o Rei", "morte aos vermelhos". As pessoas aplaudem e repetem Song Phra Charoen, Song Phra Charoen. Julguei que coisas destas só se viam nos filmes patrióticos. Mas não, estão-se a passar em Banguecoque, em frente dos meus olhos. Chego a casa e a televisão anuncia o balanço provisório: 75 feridos, um morto. Afinal, o povo tailandês está mesmo decidido a morrer pelo seu Rei.

Os tradicionalistas vão tomar o poder ?

Este é o movimento vermelho que os media ocidentais não querem divulgar

Tentei compreender a evolução dos recentes acontecimentos à luz da experiência histórica tailandesa dos últimos quarenta anos e desde cedo me apercebi da natureza ideológica do conflito, que não é senão marginalmente de natureza social mas é, sobretudo, de concepção do Estado e do sistema. O movimento vermelho, que se vai lentamente autonomizando de Thaksin - que continua como figura internacional de cartaz, mas tornou-se refém de uma lógica em que mal intervém - foi-se radicalizando nos modos e nas palavras a tal ponto que hoje é, de facto, um partido comunista apostado no derrube violento da ordem existente. Ainda pensei que Jatuporn, o mais credível e civilizado líder vermelho, pudesse controlar a deriva extremista e refrear os ânimos, colhendo os louros à mesa das negociações e abrir a porta (como o disse há mais de um ano) para criação de um partido de esquerda reivindicativa que pudesse reclamar mais justiça social e direitos laborais no quadro da vida parlamentar desta que é a única verdadeira democracia do Sudeste-Asiático. Mas não, Jatuporn está, também ele, nas mãos de gente impreparada politicamente, agressiva e expedicta que optou pelo bombismo, pelo terrorismo urbano e pela barricada. O movimento vermelho hoje só conta com o apoio do militante radical e gente que aqui com toda a propriedade caracterizei como o lumpen. Não é com o lumpen e com psicopatas que se oferece uma solução de reforma do sistema. O odioso recai, por inteiro, sobre o movimento vermelho e mesmo pessoas incolores e quase indiferentes à intriga e jogo políticos corrigiram a sua neutralidade ao perceberem que a finalidade objectiva do movimento vermelho era o derrube da democracia e o fim da monarquia. As pessoas prezam a liberdade e amam o Rei, pelo que se foram lentamente aproximando daqueles que são, na rua, o dique à instalação de um regime totalitário na Tailândia.

Este é Methee Amornwuthikul, deputado taksinista. Foi nestes termos que respondeu a uma pergunta feita por um jornalista. É este o movimento vermelho !

Sou absolutamente imparcial no que à vida política deste país respeita, mas sei interpretar o que vejo e ouço. Fui por duas vezes ao campo vermelho e segui atentamente o comício monárquico multicolor da praça do Monumento à Vitória. O movimento "rosa" e "multicolor" integra muitos simpatizantes do primeiro-ministro Abhsiti, mas toda a organização, segurança, logística e entusiasmo é obra do PAD (amarelos, Partido das Novas Políticas), uma formação de choque ("Exército Budista da Tailândia") com larga experiência e coerência ideológica que quer substituir esta democrcia por "outra democracia". A fragilidade do exército, que se mantém inerme e a docilidade e simpatia dos democráticos de Abhisit, ao invés de permitirem a abertura de um debate com os vermelhos, aumentaram a agressividade e impunidade dos comunistas. No fundo, os vermelhos perderam no oxfordiano Abhisit a única possibilidade de um pacto para reformas. Ao pedirem a sua demissão, deram a caução a quantos, no campo oposto, exigem uma solução de força. O ódio cego a Abhisit será a tumba do movimento vermelho.


Diz-me o meu "astrólogo" que a sublevação vermelha vai acabar como acabou o movimento esquerdista em 1976: grande efusão de sangue nas ruas, seguida de intervenção tardia das forças armadas. Em 1973, o Rei foi o grande promotor da abertura democrática. Os primeiros tempos foram de paz, diálogo e real liberdade de associação, reunião e expressão livre. Contudo, por volta de 1975, por indução do clandestino Partido Comunista da Tailândia, os moderados foram ultrapassados pelo agit prop marxista, as universidades transformaram-se em viveiros de extremismo esquerdista, greves sucessivas imobilizaram o tecido produtivo e repetidos insultos ao Rei obrigaram vastos sectores da sociedade a alterar a sua adesão à ideia de uma democracia decalcada do modelo ocidental. Foram os civis e não os militares que então sairam à rua e fizeram sua a bandeira do anti-comunismo e do anti-totalitarismo. O fenómeno repete-se hoje, com a agravante para os vermelhos de não terem a seu lado a população urbana, os estudantes e a pequena burguesia: os vermelhos só contam com marginalizados sociais, com gente paga trazida da província e com o núcleo dos eternos descontentes que surgem em momentos de quebra da autoridade.

O Phantamith (movimento amarelo, hoje Partido das Novas Políticas) vai aproveitar esta situação para fazer aquilo que Abhisit e o exército não conseguiram fazer: restaurar a ordem nas ruas, decapitar o movimento vermelho e instalar o seu governo em nome da segurança. Diz-me o "astrólogo" que há cerca de cinco mil amarelos prontos para eliminar a rebelião vermelha e que avançarão sem delicadezas. A secundá-los, há centenas de milhares prontos a sair à rua para aplaudir o fim do pesadelo destes últimos trinta dias. O país precisa de calma e acabou, infelizmente o tempo dos moderados: chegou o momento da luta.
spero que o cenário não se cumpra e que Abhisit consiga, pela democracia e com a liberdade, triunfar sobre o totalitarismo vermelho e sobre a tentação de um "governo forte".

21 abril 2010

Eleições, porque não ?


Os grupos subversivos e revolucionários têm por hábito invocar a legitimidade do apoio popular, falar em nome do povo e aspirar a um governo popular. Contudo, raramente aceitam o repto eleitoral, preferindo a retórica ao jogo democrático. No caso tailandês, as tão pedidas eleições antecipadas poderão, afinal, resolver as dúvidas sobre o real peso do movimento vermelho e demonstrar que tal frente plutocrática-comunista não constituiu a maioria do universo eleitoral. De facto, o partido de Thaksin só obteve 36% nas últimas eleições gerais de 2007 e o governo possui, na soma dos partidos do largo arco constitucional que o suporta, 64% do eleitorado. As dúvidas e objecções que o governo legítimo levanta prendem-se com a clara percepção da manipulação e condicionamento de parte importante do eleitorado vivendo no norte e nordeste, feudos de Thaksin. Só restauradas as condições para a afirmação livre e sem constrangimentos do exercício do voto se poderá aceitar um novo pleito eleitoral. Mutatis mutandis, é como se o PCP no Alentejo (o PSD na Guarda ou o PS no Algarve) possuíssem instrumentos de coação sobre a população residente nesses círculos eleitorais, obrigando-a votar por imposição na lista do partido dominante na região.

Estou certo que se eleições gerais se realizassem hoje, o partido de Abhisit aumentaria muito o seu score eleitoral (teve 30% em 2007), com o partido de Thaksin a descer e a entrada em cena da direita tradicionalista (amarelos do PAD, Novas Política) como terceira formação parlamentar; ou seja, ficaria tudo na mesma. Porém, o movimento vermelho mascara as suas intenções e qualquer que seja a via de apaziguamento que venha a surgir, inscreverá no seu programa de acção novas exigências por forma a manter-se na única atmosfera em que pode sobreviver: a violência, a desobediência civil e o confronto. Os revolucionários são uns bons safados !

Calma e firmeza


O tempo psicológico e o tempo político
As pessoas perguntam-me por que razão não "acontece nada". É compreensível que se queira ver resolvida a dramática crise em que a Tailândia se precipitou, mas esquece-se que o tempo psicológico e tempo dos noticiários não é o tempo da decisão política e da manobra militar. Lembro aos inquietos que as acções militares requerem planeamento cuidadoso, que exigem método e o estudo de factores que escapam à generalidade dos ansiosos. Para mais, no caso vertente, o governo é democrático e o regime não quer ver manchada de sangue a reposição da plenitude das leis. Isto não é uma ditadura nem um Estado policial como a China, pelo que não é desejável a aplicação do modelo à Tiananmen. Aqui vigora, digam o que disserem, a liberdade de imprensa, cada um pode fotografar, auscultar o ânimo de protagonistas e figurantes, reunir-se livremente e dar expressão à sua adesão a um ou outro campos. Para alguns, o governo tailandês exibe uma imagem dúctil, é pouco firme e parece colocar-se em posição defensiva. Discordo, pois o governo deve manter serenidade, informar o país e a comunidade internacional de todos os desenvolvimentos, não se deixar tomar pelo pânico nem infundí-lo na população. Abhisit tem falado diariamente ao país e mantém a actividade corrente do governo numa situação em que muitos, pura e simplesmente, abandonariam ou, pior, investiriam com cega violência.


A unidade do exército
As notícias são boas. A população civil tem dado às força armadas um grande apoio moral e material. Ainda hoje assisti a cenas que jamais poderia presenciar na Europa. As pessoas - não dezenas, mas centenas - percorrem a linha da frente e oferecem tudo o que têm aos soldados. Os soldados, por seu turno, muito longe da ideia de um exército obrigado mas não convencido, convivem com a população, exprimem lealdade ao regime e, mais importante, demonstram uma fortaleza que deixa cair por terra a velha teoria da melancia: verdes por fora, vermelhos por dentro. Só quem nunca passou pelas fileiras - eu fui militar durante cinco anos - poderá cometer o atrevimento de julgar a ordem militar nos termos em que os paisanos a pensam. A tropa não é um ajuntamento de "cidadãos" fardados. É um mundo diferente, unido por relações de lealdade e obediência, por um código ético e até por uma psicologia absolutamente distinta daquela que prevalece fora dos aquartelamentos. As chefias militares intermédias são decisivas para conflitos de natureza política. Aqui, não há milicianos nem o "cansaço em relação ao regime". O exército é estimado e muito acarinhado pelo Estado, pelo que nunca perderia tudo o que detém enquanto instituição, deixando-se ultrapassar pelos acontecimentos. A firmeza da instituição é clara. Quando se reunirem todas as condições para avançar, cumprirá.



A resistência civil
Nunca como hoje, tantos e tão variados estratos da população civil se ofereceram para defender a democracia, a ordem constitucional, o governo e a monarquia. Hoje pela tarde, caia a noite, assisti a um comício de apoio ao governo. Eram centenas de pessoas as que avançaram praticamente sobre a barreira erguida pelos vermelhos e gritaram palavras de ordem em apoio a Abhisit, às forças armadas e ao Rei. O número de manifestantes era tão grande que ultrapassava largamente os vermelhos barricados. A população perdeu o medo, como aqui o disse, e vai fazendo por todo o lado aquilo que há dias se julgava imprudente.
Esta manhã, Silom encheu-se de pessoas agitando bandeiras. Era um mar de gente a que saiu dos escritórios das grandes companhias sediadas nas redondezas e ali expressava solidariedade com o exército.

Pela tarde, na margem oposta da capital, os simpatizantes do governo encheram por completo a grande rotunda de Thonburi, num comício que ultrapassou todas as expectativas. O efeito das manifestações do Monumento da Vitória deu ânimo aos anti-vermelhos. A capacidade de convocação para actos multitudinários está assegurada, peça fundamental para o domínio da rua.
Para sexta-feira está convocado o maior comício monárquico. Da rotunda do Monumento à Vitória, os organizadores optaram por uma das maiores praças da capital - em frente da estátua equestre de Rama V - e diz-se que a massa de manifestantes ultrapassará as 100.000 pessoas, ou seja, vinte vezes aquela que os vermelhos têm no seu acampamento.

O governo não caiu e já não cai
A sublevação vermelha e seus simpatizantes nunca pensaram que Abhisit resistisse com tanta coragem a repetidas situações de grande perigo. O primeiro-ministro inspira segurança, é firme, não abdica da sua autoridade, não quer negociar com a rua e vai criando a atmosfera que obrigará os mais vacilantes a submeterem-se-lhe. Hoje, o governo teve uma grande vitória no parlamento, ao ver recusada uma proposta do partido vermelho. Na votação, os pequenos partidos da coligação governamental deram o voto ao governo, descartando a tão propalada ideia de divisões insanáveis no seio da frente anti-vermelha. Os rumores, a boataria e a intriga fazem parte obrigatória dos cenários de crise, mas os factos é que interessam e Abhisit tem vencido todos os desafios.

20 abril 2010

Banguecoque em luta pela liberdade e pelo Rei





Povo fardado aguarda o momento decisivo. Fotos tiradas hoje pelas 17.30 horas.

Cacique vermelho cai nas mãos da multidão em fúria


Hoje, pelas cinco da tarde, um cacique vermelho - sintomaticamente acompanhado por um khmér trajando a t-shirt vermelha - foi quase linchado pela multidão em plena Silom. As pessoas perderam o medo e investem contra o "invasor" com mimos que aqui me abstenho de traduzir. As expressões mais meigas são: "fora", "seus animais".

A resistência organiza-se contra o totalitarismo

A luta contra o comunismo faz-se na rua

Vandalizar monumentos


Nós tivemos algo parecido ao longo dos meses em que o Estado desapareceu de cena, as leis cairam por terra e foram espezinhadas, a propriedade pública invadida, ocupada e vandalizada por grupúsculos maoístas e trotsquistas. Destruir, mutilar o ofender a cultura não é um acto gratuito: inscreve-se num programa premeditado de violação da memória e terror que visa suspender e mesmo revogar o significado dos monumentos: levá-los à barra do tribunal da história e considerá-los mortos naquilo que representavam, reinterpretá-los e obrigá-los a outras mnemónicas.
Aqui em Banguecoque, os vermelhos tomaram de assalto o Monumento à Democracia ( อนุสาวรีย์ประชาธิปไตย= Anusawari Phrachatipathai) e ali quiseram fazer uma instalação de "arte para o povo". O resultado da breve ocupação foi eloquente testemunho do programa vermelho: fazer do monumento uma "instalação" de "happening art" e "redescobrir a liberdade por detrás da fachada que o poder cristalizou". Um grupo de "artistas" e "intelectuais" de carrapito entregou-se com afã à obra de embalar o monumento com bandeiras vermelhas, ocultar a estatuária existente e substituí-la por palavras de ordem pinchadas a tinta vermelha que começaram pela base em pedra e foram galgando pelos baixo-relevos acima. Depressa, um ódio iconoclasta extravasou do "projecto cultural" e deu largas à mais selvagem das expressões "artísticas": as figuras parietais foram pintadas com graffiti, os rostos pintados de negro, os dedos e armas partidos. Depois, as palavras de ódio, material insdispensável da paranóia revolucionária: morte a isto e àquilo, fim à "exploração", "o poder para os pobres", "todos iguais".
O governador de Banguecoque, um "aristocrata", ficou chocado ao visitar o local e deu ordens para que tudo o que lembrasse a triste destruição patrimonial fosse varrida, lavada, restaurada. Graças aos voluntários da Escola de Belas Artes de Silpakorn e aos serviços camarários, o Monumento à Democracia renasceu das trevas e hoje, sete dias após o fim da ocupação vermelha, voltou a ser o que era: o monumento à liberdade.
Entretanto, no momento em que escrevo estas linhas, os vermelhos estão a destruir todos os passeios que separam o núcleo do seu acampamento da linha da frente. O passeio público, de pedra e tijolo, fora há poucos meses renovado e orçado pela edilidade de Bangiecoque em cerca de 70 milhões de Bath, o equivalente a milhão e meio de Euro. Tudo destruído numa manhã. Em suma, a selva a instalar-se numa das mais cosmopolitas cidades do mundo.

19 abril 2010

A hora do Exército proteger o povo, o Estado e a liberdade


Cresce a onda de apoio ao governo. A multidão monárquica não pára de crescer e pede-se resolução imediata da crise, haja ou não escudos humanos e potenciais vítimas colaterais cuja responsabilidade recairá inteiramente sobre a liderança vermelha. O círculo inexpugnável fechou-se: povo, governo, forças armadas, Conselho Privado e a Coroa estão unidos e vigilantes. Aos vermelhos só resta pedir negociações ou retirar do chapéu um qualquer plano de engodo visando abrir uma brecha no dispositivo que não conseguiu afectar.

A liderança thaksinista aposta na ruína económica e no crescer do descontentamento que obrigue o regime a baixar os braços. Por outro lado, espera-se uma progressiva participação popular em quotidianas manifestações em defesa da Lei, da Constituição e da Coroa, daí a pressa dos subversivos em jogar tudo por tudo nos próximos dias, ao mesmo tempo que orquestram manobras de diversão, como "apelos ao rei", "rendição", etc. Em qualquer país europeu, uma situação que tivesse atingido uma fracção daquilo a que temos assistido, já há muito teria sido tratada de forma lapidar, para nem sequer referirmos os "métodos dinâmicos" utilizados mais para o Leste, onde o regime do presidente Putin não hesita em utilizar toda a força do Estado para a manutenção da sua segurança interna. Isto, perante o generalizado alheamento ocidental, dada a importância da Rússia. Os negócios falam antes do sangue derramado.

Banguecoque, linha da frente: les uns et les autres

A linha vermelha estende-se por uma vasta área da capital. De um lado os vermelhos, do outro o exército. A informalidade thai vai-se instalando com o passar das horas. De um lado e outro consome-se o tempo em conversas, comidas e sestas. Os vermelhos aproveitam para aguçar lanças de bambú, preparar pedras de arremesso, reforçar obstáculos anti-carro, semear as vias de acesso ao acampamento vermelho de pneus que serão usados como máscaras de fumo.

O governo diz que não pode avançar para restaurar a ordem, pois a liderança vermelha socorre-se de escudos humanos - crianças e idosos - para dominar os impetos da tropa. Esta mulher, idosa de setenta e sete anos, está na linha da frente, a uns escassos trinta metros das formações de choque de um batalhão de infantaria que bloqueou o acesso a Silom, uma das mais movimentadas avenidas da baixa da capital. Disse-me que veio de Suphanburi e está em Banguecoque desde Março. Cansada, quase exangue, esta camponesa exibe o nobre silêncio que caracteriza os thais da aldeia. Não seria digno interrogar-me com cinismo sobre o motivo da sua presença nas barricadas, mas só espero que os futuros velhos deste país não mais sejam obrigados a tamanha indignidade. Que olhem por eles, que lhes facultem os cuidados e atenções que merecem as pessoas que trabalharam desde crianças e não haverá candidato algum a ditador que os possa usar como peonagem em lutas fratricidas.

Ao seu lado, um homem simpático e aparentemente rústico, também de Suphanburi. Com ele falei uns minutos e fiquei com a clara impressão que é pessoa inteligente e com um nível de esclarecimento que contrasta com a figura rude. Disse-me que é artesão - trabalha como carpinteiro - e aqui está à espera da mudança. Ao despedir-me, desejou-me boa sorte, contradição absoluta, pois cumpria-se-me deixar a cortesia. No fundo, é tão trabalhador como eu, que tive o primeiro salário aos quinze anos e trabalho há trinta anos. Nós também temos o "double standard", que premeia os filhos, amigos, primos - todos metidos uns com os outros nas cestas e cabazes das curibecas, dos clubes, das seitas e lóbis para todos os gostos e feitios - e deixa de fora os "outros" (eu e tantas centenas de milhares) e ainda por cima nos cortam as pernas, nos enganam nos concursos e ainda se atrevem lá de cima a invocar valores, leis e sonhos. Que se danem !

A primeira linha vermelha está apinhada de garotagem e idosos. Quem lá os colocou ? Com que direito ? Como pode o exército travar uma batalha com rapazes e idosos que poderiam ser seus filhos ou irmãos, pais ou avós ? Aqui não pode ser usada a violência desbragada, mas chegará o momento em que um dos lados terá de tomar a decisão de suspender o fio da consciência e acabar com uma crise que ameaça afundar o país.



Vou ao supermercado mais próximo procurar refúgio no ar condicionado. Uma criança "vermelha", ainda de colo, vem colocar-se ao lado das minhas pernas. Dei-lhe um chocolate e deixou-se agarrar, para grande contentamento da mãe, uma camponesa de cesta de vime às costas. Tive de pedir a um turista europeu que me tirasse a fotografia, pois a mãe do miúdo nunca tinha visto uma câmara fotográfica. Este povo é intrínsecamente dócil e seria doloroso vê-lo entregue às engenharias ideológicas que tão funestos resultados tiveram no Vietname, no Laos e Camboja. Como pode uma criança de colo ser transportada para uma batalha ? Quem responderá pela sua vida ? É, sem dúvida, um pequeno, indefeso e inocente escudo humano. Que vergonha.

Passagem para o campo do exército. Os robot-cop's estão sentados - diria quase refastelados - pelos passeios. Os cidadãos cumulam-nos de todas as atenções: colocam-lhes flores na lapela das fardas, oferecem-lhes gelados, sopas, bebidas e peças de fruta. O exército é uma instituição venerada. Todos os heróis cultuados nos manuais escolares são príncipes guerreiros, soldados-mártires, espadas destemidas. A população civil, cansada e traumatizada por quatro anos de lutas civis, parece ganhar confiança quando por perto vê os militares.

Há flores - rosas vermelhas e jasmins - por todo o lado. A enfermeira sentada no camião vai recebendo simpatias da população, com muitos v's e acenos, à mistura com guloseimas, refrigerantes e estojos de plástico contendo lenços de papel embebidos em água de Colónia.

O exército ocupou o coração da cidade ontem à noite. As horas passam e esperam pacientemente que chegue o momento de avançar. Receberam instruções para não fumar em frente do público - pois que de público se trata - pelo que se refugiam nas traseiras dos prédios para fumarem ou, simplesmente, se reclinarem sobre o bornal e dormirem umas horas.

Um sargento mantém o aprumo. Olha-me quase indiferente enquanto o fotografo. Não sei o que lhe irá na alma, mas pressinto que deve ser um momento dramático na vida de qualquer soldado profissional ter de se preparar para se bater com um inimigo que não é inimigo, mas sangue do seu sangue. Mas o inimigo é outro: são os agentes da intoxicação, os que carregam bilhetes e recados, a impensa internacional prostituída ao dinheiro, os assalariados de Thaksin que dizem uma coisa e pensam outra.

Aqui passam diariamente centenas de milhares de pessoas. Hoje, o arame farpado impera.

O exército é verde-verde. A teoria das melancias não faz sentido num país que jamais conheceu guerra civil alguma. Depois, há a obediência, a hierarquia, traços vincados na sociedade thai, feita de estamentos de serviço e dever decalcados da estrutura militar. O exército é todo thai-thai, isto é, não há vestígios de thai-chin (tailandeses de origem chinesa), posto que os chineses não sentem a vocação de Marte, preferindo os negócios às fileiras. Ainda hoje, nasceu uma outra metáfora. Agora diz-se, contrariando a "teoria da melancia", que o exército é como o durão: verde por fora e amarelo por dentro, imagem bem mais convincente.

A máquina militar thai é poderosa e temida pelos vizinhos, mas tratando-se de um conflito interno, o palácio, o governo e as chefias militares parece que têm repetidamente hesitado na dilemática opção: restaurar a lei, salvar a democracia e proteger o trono esmagando uma rebelião que na Europa já teria sido resolvida com todos os meios (lembram-se da "ponte" sobre o Tejo ?)ou deixar passar o tempo até que outros - civis cansados e exasperados - tomem nas mãos a responsabilidade de sanar a crise.