17 abril 2010

Nos píncaros do patriotismo

ความฝันอันสูงสุด (Kwam Fân Súng Sud = Sonhar até ao extremo do Céu) uma das centenas de peças compostas pelo Rei da Tailândia, é um dos mais belos textos poéticos de exaltação nacional que me foi dado ouvir. De um patriotismo sem agressividade, protector da memória e da identidade, apela à fortaleza do coração, ao orgulho e serviço. Pela voz de Santi Sunpé, "aristocrata" de indiscutível mérito artístico, transformou-se nos últimos dias num verdadeiro hino para quantos defendem a manutenção de uma Tailândia fiel às suas raízes. De fora, naturalmente, tudo o que representa a agiotagem.

Iam-me matando quando o disse há vinte anos




Há quase vinte anos, na embaixada do Brasil, na presença de um friso de "intelectuais", disse precisamente o que agora Soares [tardiamente] exprimiu. Foi um verdadeiro sururú de virgens ofendidas. A Cabo Verde, acrescentaria S. Tomé e Príncipe, Cabinda, Timor e, por que não, Macau, empandeirada à China sem que jamais tivesse sido reclamada por Pequim. A história da estupidez é coisa longa e penosa de se ler.

A chuva que desarma


A estação quente prolonga-se até finais de Maio, mas as grandes bátegas anunciam-se. Pela segunda noite, a capital foi batida por forte, cerrada e prolongada chuva e a escuridão deu lugar a um espectáculo de fogo celestial e ribombar de trovões. O acampamento vermelho e quantos nele permanecem - serão 2000 ou 3000 - tem de se defrontar com este inimigo natural. Ao contrário dos líderes, que dormem em confortáveis camas de hotéis, podem tomar o banho quente e o pequeno-almoço na suite, os militantes trazidos dos confins do país estão expostos à chuva, ao frio e à exasperante mudança de esteiras e haveres para locais resguardados.

Os noticiários tornaram-se vazios. À profusão de boas e más-novas dos últimos dias e ao laconismo de tudo o que na noite de ontem foi anunciado, pesa incómodo silêncio sobre a capital e nem mesmo o anúncio da rendição dos líderes vermelhos às autoridades, anunciada para 15 de Maio, aliviou o desconforto e a clara sensação que algo está para acntecer. 15 de Maio ? Daqui a um mês ? Não, deve ser engano ou tentativa de ganhar tempo e prender gente num reduto de 500x500 metros que se transformou numa prisão para quantos dele pensaram fazer uma base para a conquista da capital.

16 abril 2010

O que me disse o astrólogo há minutos


Amanhã, o povo tailandês vai levantar-se em clamor imenso e energia transbordante para defender o Trono e repor a ordem nas ruas.

Governo não cede um milímetro perante a subversão

Oficiais mortos no cumprimento do dever


Abhisit acaba de fazer uma comunicação ao povo tailandês, afirmando manter a serenidade e a certeza na vitória final contra os agentes da subversão, mas sempre no quadro da constituição, no respeito pelo Estado de Direito e em obediência aos princípios universais dos Direitos do Homem. O governo continua a trabalhar, quer ver restabelecida a ordem e a paz, não vai negociar com gente procurada pela polícia e não aceita ultimatos de grupos que violaram a lei e recorrem à violência. Para tal, conta com o contributo decisivo das forças armadas, da polícia e dos cidadãos.

Refluxo: não haverá nem comunismo nem plutocracia


É nos momentos de aflição que se revelam as qualidades das pessoas. Ontem, a rainha Sirikit visitou demoradamente o hospital onde se encontram acamados os mais de duzentos militares que sofreram ferimentos durante os recontros do passado fim de semana e demonstrou, pela segunda vez em três dias, total solidariedade da Casa Real com as forças armadas. O trono não abandona, não foge às responsabilidades, não se atemoriza perante o poder da rua. Como aqui temos vindo a repetir à exaustão, o regime é sólido e funda-se num velho pacto que ninguém poderá destruir. A subversão terá de passar por cima de milhares de cadáveres para derrubar monarquia e a democracia.



Entretanto, hoje pela manhã, mais de vinte mil pessoas encheram por completo a avenida que conduz ao 11º Regimento de Infantaria, onde se encontra o primeiro-ministro desde o início da crise. Gritaram repetidas palavras de ordem contra o comunismo, o terrorismo e Thaksin e entregaram ao comandante da unidade um longo abaixo-assinado de apoio à democracia. Apressadamente, as agências de [des]informação estrangeiras avançaram com uma estimativa de umas "mil pessoas". Só os cegos e os facciosos ainda não se deram conta que está em curso a retomada da rua pelo povo que, finalmente, despertou e se prepara para defender a liberdade e o Rei contra o vasto complot urdido do estrangeiro. Talvez nem seja necessário o tão pedido golpe de Estado para defender o regime.

15 abril 2010

Fartos do Prec no Monumento à Vitória

Dizia-me hoje um pobre homem que vive da venda ambulante de fruta - este não é vermelho, não fala da "aristocracia", do "feudalismo" e da clique palaciana - que as forças armadas têm de intervir e que prefere mil vezes um governo militar ao regresso de Thaksin ao poder. As palavras deste humilde trabalhador não me colheram de surpresa, pois, ao contrário do esquematismo de quantos pretendem forçar a ideia de uma Tailândia a braços com um prenúncio de "guerra de classes", o problema do país não é de natureza social, mas política. Há um grupo minoritário, violento e decidido, bem apetrechado e armado, dotado de grandes meios financeiros e solidariedade de países terceiros que quer tomar o poder e proceder a uma mudança drástica do regime e do sistema e quer levar até às últimas consequências um programa oculto de destruição do Estado e de todas as instituições que são arrimo do país. A democracia e a monarquia correm perigo de morte e são muitos os que exprimem sem rebuço a necessidade de fazer parar a espiral de violência antes que seja tarde de mais.

A Tailândia está há quase quatro anos em PREC e as forças políticas e a sociedade civil parece não possuirem meios para resolver o impasse, pelo que uma vez mais, como no passado (1973, 1976) as forças armadas - que tudo têm feito para evitar a intervenção - recebem crescentes sinais de apoio por parte da maioria silenciosa do povo que trabalha e reclama o direito a uma vida normal. Hoje, uma vez mais, uma manifestação do grupo Amar a Nação concentrou-se na Praça da Vitória e reclamou a paz e o fim do terrorismo psicológico vermelho que está a esgotar a paciência e a proverbial calma dos thais. Não, não eram "aristocratas" nem gente trazida em autocarros e camiões de recônditas aldeias do nordeste. Era gente normalíssima, jovens, colarinhos brancos, reformados, funcionários públicos, comerciantes e operários que gritavam pelo Rei e pediam o regresso da ordem à capital.




Maha Chulalongkorn (composta por SM o Rei)

14 abril 2010

O que os dana


Gun, 12 anos de idade


Sunkha, 11 anos de idade
Hoje, no consultório médico, li um interessante artigo sobre o potencial artístico asiático. Espantado fiquei quando confrontado com os números absolutos. A Tailândia ocupa a terceira posição, só atrás da China e do Japão, no que concerne ao número de concertistas clássicos, alunos de conservatório, número de artistas plásticos e arquitectos. Temo que tudo isto venha a desaparecer se, sobre esta sociedade civilizada e refinada se abater o espantalho grotesco do homem novo semi-letrado e ordinário das negociatas.

Plutocracia: o poder sujo


Diz o autor que..."em resultado disto, a Tailândia está hoje praticamente dividida em feudos controlados por obscura gente endinheirada (...) o conflito das últimas semanas reflecte conflitos entre estes e também, com políticos que são um pouco mais idealistas e não susceptíveis de se acomodarem aos pontos de vista dos primeiros". Mais avisa que os políticos idealistas - apenas consigo ler o nome Abhisit, um homem até hoje acima de qualquer suspeita -, perderão a presente batalha, deixando o país ser governado por escroques milionários que o colocarão no caminho de se tornar num Estado falhado". Não será muito difícil entendermos que o alvo do académico apenas pode ser um: Thaksin e a restante clepto-plutocracia - interna e externa - que o cerca e que trouxe mercenários para batalha no centro da capital.

13 abril 2010

O Estado honra os seus servidores

Com a presença da Rainha Sirikit e do Príncipe Herdeiro, realizaram-se em Banguecoque as solenes exéquias de um oficial do exército morto nos sangrentos confrontos do passado sábado. A presença da família real é um expressivo acto de coragem cívica e lembra aos servidores do Estado e da Coroa que as leis e instituições vigentes não foram abandonadas nem esquecidas num momento decisivo em que se decide o ser e não ser desta nação. Não se tratando de um acto político, mas demonstração da unidade e fortaleza do Estado, pretende honrar aqueles que servem a causa pública com o sacrifício da própria vida.

A guerra que junta e não mata

Na companhia de uma vizinha fui ao orfanato perto de casa para saber como vão as crianças e levar-lhes alguma coisa do pouco que lhes posso oferecer. Pelo caminho, verifico que a cidade renasceu do traumatismo dos últimos dias. As pessoas estão entretidas com batalhas de água e bolas de farinha. Banguecoque terá perdido dois terços da população. É todos os anos o mesmo. Durante uma semana, caravanas enchem as estradas em direcção às províncias e a capital hiberna. Só fica quem deve e em certas zonas há quase tantos turistas como tailandeses.
A crise política hibernou também. Até os vermelhos se dispersaram um pouco por todo a cidade para as inocentes brincadeiras do ano novo thai. A palavra de ordem é deitar baldes de água sobre o maior número de incautos e quebrar as inibições de um ano. Nestas batalhas de água ninguém é poupado. Nem polícias e soldados são poupados a valentes regas.
Ao regressar a casa, um grupo de vermelhos molhados até aos ossos dançam no meio do passeio e insistem que os molhe com a bisnaga que a minha amiga me ofereceu pela manhã. Parece que a febre política desapareceu e voltaram a portar-se como thais. Talvez a quadra possa arrefecer os ânimos e fazer sentar a uma mesa as pessoas sensatas que não querem ver o país cair no abismo.

Provas irrefutáveis: AK-47


Red Shirts Terrorists on 10 April 2010 Bangkok Thailand
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12 abril 2010

A trama

As armas em boas mãos. As imagens transmitidas pelos canais de televisão não deixam margem para dúvidas. Só numa esquina havia seis atiradores com AK-47, dois dos quais despejaram carregadores sobre o exército [e outros manifestantes desarmados] voltando segundos depois com as armas recarregadas.


O que aqui é dito com lucidez e desassombro - dir-se-ia aqui estar - não me exige mais exercícios de esclarecimento. Os hospitais estão cheios de gente crivada com munições que o exército tailandês não usa. Disse-me alguém muito bem informado que as AK-47 vieram do Camboja e que os instrutores trabalharam durante semanas para ensinar os milicianos a usá-las. A um sargento hoje exibido nas câmaras foram retirados três projéteis de arma usada pelo exército de uma potência regional. Entretanto, estranha-se a saída precipitada de Banguecoque de muitos diplomatas. Porque será ?

O que os astrólogos me disseram




A conjunção astral para os próximos dois dias é a mais auspiciosa. Acabou a grande turbulência. Aguarda-se o triunfo da paz.

Técnica revolucionária: quebrar todas as convenções


Os vermelhos passearam hoje em caravana por toda a cidade os corpos dos militantes falecidos nos recontros do passado sábado. O espectáculo da exibição pública de cadáveres presta-se a muitas interpretações. Para os thais, a passeata fúnebre foi uma clara violação das mais básicas regras do budismo, mas para os vermelhos tratou-se de intencional propósito de elevar a parada e fazer crer que todas as convenções foram banidas e que se instalou - pelo menos no espírito de quem pratica tais actos - um não-retorno que prenuncia a escalada no conflito.


A psicologia das revoluções é assunto apaixonante. Para o revolucionário, a instalação da violência psicológica como estado normal da vida social e individual é condição propedêutica para a aceitação da inevitabilidade da violência física. Liquidando as barreiras que impedem comportamentos considerados criminosos em situação de normalidade, reduz-se a capacidade de defesa daqueles que se poderão opor ao curso dos acontecimentos e imobiliza-se pelo medo aqueles que, não estando directamente envolvidos, são supostos defensores da ordem estabelecida. O terror psicológico imobiliza, confunde e até chega a culpabilizar as vítimas do processo revolucionário.


Nós também tivemos casos de flagrante terrorismo psicológico, bem expressos em actos que qualquer português minimamente equilibrado reputaria como actos de selvajaria, mas que em efeverscência foram tomados como normais: reuniões magnas de alunos julgando professores, seguidas de humilhação pública destes - pontapeados e atirados pelas escadas das universidades - despedimentos e saneamentos com "justa causa", queima de bibliotecas e arquivos históricos, vandalização de monumentos do património nacional, ocupação de casas privadas e edifícios públicos, piquetes, devassa da intimidade, apropriação de objectos da fazenda do Estado para uso dos bandos revolucionários, etc, etc.


O terrorismo psicológico explica-se pela inferioridade numérica de quem faz a "moral revolucionária". A agitação revolucionária é executada por uma ínfima minoria. Invertendo todas as categorias, evacua-se a substância das instituições - a polícia e o exército, os tribunais e a escola - e despe-se de respeitabilidade aqueles que são os representantes e mantenedores do equilíbrio social. Se o bando revolucionário queima, mata, ocupa, desobedece às leis, tal quer dizer que a ordem antiga acabou e que cabe aos revolucionários legislar a partir de um folha em branco. A chamada "pureza revolucionária" é isso mesmo: o poder nu, a violência sem inibição, a inexistência de leis escritas, a transformação do adversário em inimigo do "progresso" e do curso da "história".


No curso dos acontecimentos, espezinhadas as hierarquias, sobem à tona os aventureiros sem escrúpulos, gente que em situação de normalidade nunca seria tida em conta, sem nível, sem inteligência e sem aqueles predicados que fazem o currículo de qualquer indivíduo considerado útil à sociedade. É o tempo dos doentes agressivos, dos paranóicos, dos vingadores, dos bombistas e dos pistoleiros. Quando serena o extremismo, os mais espertos entram na nova ordem e afivelam a máscara de probos e obedientes acatadores da lei, enriquecem e tomam-se de exageros legalistas. Os outros, os tolos, ficarão sempre ancorados ao tempo distante em que foram pequenos reis durante os cinco, sete ou dez meses em que mandaram, vandalizaram e implantaram a lei da selva. Aqui, começou-se com a infame cena do sangue contaminado com HIV. Seguiu-se a normalização da desobediência, os ataques bombistas em toda a capital, o assalto ao parlamento e o fogo real sobre o exército que tentava conter as manifestações recorrendo a canhões de água, gás e balas de borracha. Só falta invadir as instituições, orquestrar julgamentos populares (leia-se, da ínfima minoria) e abater os "culpados" em frente do paredão. Tudo é normal em revolução.

11 abril 2010

Defender a liberdade


Após a sangrenta jornada de ontem - cujo relatório e peritagem se aguardam - pressente-se que algo maior está por chegar. Se o sistema não conseguir encontrar agora o compromisso mínimo das partes com capacidade para dialogar, manter as diferenças e controlá-las no quadro da competição que a democracia estabelece como regra, corre-se o risco da exportação da crise, sendo que outras instâncias poderão chamar a si a legitimidade da ordem em crescendo reclamada por sectores importantes e influentes da sociedade. Há no movimento vermelho dois ou três líderes que possuem meios, autoridade, experiência e popularidade suficientes para deter a fase de espiral insurrecional em que se entrou. Há um governo dirigido por um homem de predicados superiores, probo, flexível, líder do mais antigo partido democrático do Sudeste-Asiático. Se nos próximos dias não se lograr a ponte do entendimento básico que a cultura democrática exige como condição para o jogo eleitoral - que não pode ser entendido como um contar de espingardas - a Tailândia reclamará, uma vez mais, uma solução autoritária que ninguém quer, mas que pode surgir como a única resposta ditada pelo instinto de sobrevivência do corpo social, do Estado e da unidade nacional. Nesta tensa trégua, só espero que triunfe a inteligência sobre os ardores e paixões cegas.