10 abril 2010

Na noite mais longa: vermelhos pedem a protecção do trono

Uma noite sufocante, com o termómetro a rondar os 36 graus. Silêncio sepulcral, sem vestígios da polícia e do exército na zona circundante do último reduto vermelho. Pela meia noite atravessei a pé a longa avenida que leva à praça onde se situa o acampamento dos sublevados. A rádio acabara de debitar os aterradores números da batalha do fim da tarde: 700 feridos e quinze mortos. Andei e só vi gente jazendo pelo chão ou deitada em esteiras dormindo um sono profundo.
Entro no templo ao lado de minha casa e, fiados na protecção do Iluminado, dormem famílias inteiras de camponeses. Não há vestígio de milicianos. Parece que a tarde de violência dizimou os mais ousados, os quais se encontram agora internados nos hospitais da capital, ao lado dos quase setenta soldados também feridos nos recontros. Depois de semanas ininterruptas de violência e pressão psicológica, parece ser a noite do grande sono.



Na Tailândia não há família extensa. A família é, aqui, apenas o núcleo pais-filhos, um avô ou uma avó e nada mais. As crianças mais novas dormem com os avós, enquanto os adolescentes ficam ao lado dos pais: as raparigas dormem com a mãe, os rapazes com o pai. Andei mais de quinhentos metros entre pessoas inertes, de boca aberta, pernas contorcidas, corpos em posição fetal. Foi um dia de grandes comoções que se anunciou com lutas esporádicas e terminou num caos de tiros, ambulâncias, cargas policiais e muito sangue. As forças de segurança estarão, também elas, esgotadas, pelo que o silêncio que se abateu sobre a capital é revelador do estado de exaustão em que os actores deste longo conflito civil se encontram.


No acampamento, cada vez mais sujo, estarão agora quatro ou cinco mil pessoas, a maioria em situação de reféns, pois são da província, para aqui foram trazidas pela liderança vermelha e não há meio de se furtarem pelos seus próprios meios. Compreendo agora, por que razão o exército não investiu contra esta pobre gente. Abhisit disse-o indirectamente no discurso que proferiu à noitinha: "lamento o sofrimento, os mortos e os feridos e tudo fiz para evitar esta situação".



À volta de televisores ou assistindo ao comício que se vai produzindo do palco central, as pessoas ouvem as alocuções dos oradores vermelhos. Subitamente, ouvi a voz de Khun Jatuporn Promphan, sem dúvida o mais carismático dos vermelhos, orador de excepção e de enormes recursos na arte de entusiasmar e dirigir a multidão com a magia da palavra. As pessoas foram-se levantando, outras correram para a frente do palco. A cada tirada, uma salva de palmas.

O orador foi discorrendo sobre os acontecimentos da noitinha, da gravidade da situação e do estado de não-retorno que se parece ter consumado com as lutas do dia. Contudo, preparava algo, pois aludiu uma vez ao Rei. Ao ouvirem falar no Rei, os presentes irromperam em gritaria prolongada e o orador sobrepôs-se às palmas, que continuaram a acompanhá-lo na longa tirada em voz poderosa: "nós pedimos ao nosso Pai, ao Senhor da Vida, ao Senhor do Reino; nós, que somos os seus mais humildes filhos, os mais leais, os mais desinteressados; nós que o amamos em tudo, que por ele estamos prontos aos maiores sacrifícios ..." . Foi atroadora a resposta e a palavra de ordem que acabou por calar o orador mostrou a que ponto o amor dos tailandeses pelo seu Rei se mantém: "ráu rák Náy Luang, ráu rák Náy Luang" (nós amamos o Nosso Rei).

Interpretei este grito colectivo como um pedido de protecção e intervenção do trono. Afinal, no momento derradeiro desta aventura, os thaksinistas já não pedem dinheiro, mas a dignidade da cidadania, o reencontro entre o povo trabalhador e o Rei que por eles trabalhou sessenta e três anos, a voz e o conselho daquele a quem os tailandeses consideram o seu pai. Estou certo que o Rei os ouviu e que se pode abrir a porta para a reconciliação. Uma vez mais, a monarquia demonstra a sua magnanimidade e o papel central de árbitro nas lutas civis, eixo da vida comunitária e vínculo de unidade e justiça.


Após a manifestação de adesão à figura do Rei, as pessoas voltaram a sorrir. Jatuporn fez um bom trabalho e evitou, quiçá, a total derrota e humilhação para os vermelhos. Vamos ver o que o dia de domingo nos reserva.

Forte tiroteio na zona histórica da capital (actualização)

1. Disparos de armas de repetição, núvens de gás e rebentamentos sucessivos transformaram a zona histórica em campo de batalha. Do meu prédio acabo de vislumbrar uma imensa coluna militar em direcção ao palácio real. O número de feridos entrados nos hospitais ascende a 250.
2. Foi-me dito há minutos que o número de mortos - que a comunicação social continua a apontar para oito - é superior (c. de 20) e que os feridos ascenderão a meio milhar. O exército encontrou forte resistência armada e os vermelhos recorreram a granadas ofensivas e armas de repetição, demonstração clara que o movimento se encontra em fase avançada de prepração para a luta armada. A atestá-lo, o facto de no Hospital Phra Mongkut terem dado entrada cerca de 50 soldados com ferimentos causados por armas de fogo.

Tanques já rolam em Banguecoque

Finalmente, começou a operação "tam kwamsahart" (limpeza). Na baixa da capital, onde resido, os utentes dos mercados e centros comerciais foram obrigados a abandonar precipitadamente as suas compras e a rádio e tv's pedem insistentemente que a população civil evacue as ruas para permitir a reposição da ordem. O meu vizinho coronel perguntou-me se queria ir dar um passeio higiénico. Fomos ao Comando Metropolitano da Polícia, onde se situa o Hospital Central das forças da autoridade. Nos jardins, tropa de choque, polícia militar e soldados do regimento da rainha, com os conhecidos lenços cor-de-rosa. Sorrisos, v's de vitória e a certeza que hoje ou amanhã tudo estará terminado e que alguns até poderão ir passar o Ano Novo com as famílias.


Depois, na esquina da Praça do Sião, dez minutos de conversa com membros do batalhão da Polícia de Choque, que impedem o acesso ao acampamento vermelho de camiões e motos que ostentem bandeiras thaksinistas. Os soldados estão muito descontraídos, levantam-se para saudar o meu acompanhante e perguntam-me de onde venho. Novamente ouço muitas referência a Ró-Náu-Dú e um sargento disse-me que era de Ayutthaya (antiga capital do reino) e que conhecia bem o Ban Protukét (aldeia portuguesa), para de imediato me informar que não é budista nem cristão, mas muçulmano. Este batalhão deve ser especial, pois gargalham todo o tempo. Os oficiais acercam-se, perguntam-lhes se têm sede e um soldado mais atrevido responde-lhe que lhe tragam um whisky. Uma gargalhada geral.


Como todos os thais, gostam de ter alguém a fotografá-los. Fazem pose, apagam os cigarros, ficam de sorriso parado esperando a melhor fotogenia. É o mesmo povo que ontem visitei, uns vestindo de verde, outros de vermelho. Um soldado mais jovem andava à volta e parecia ter vergonha em falar-me, até que encheu-se de coragem, puxou-me pelo pulso, sentou-se nas traseiras da viatura-cela, colocou uns óculos escuros e pediu-me que o fotografasse. Outro, retirou um lenço do bornal, colocou-o em torno da cabeça e fez-me sinal que estava preparado para "aparecer num jornal estrangeiro".


Como não podia aparecer nas barricadas vermelhos na companhia de um นายพัน (Naypân, ou "senhor de mil homens" = coronel), abandonei o meu companheiro e percorri só os mil metros que separam o cordão da polícia do ajuntamento vemelho. Que diferença entre a noite de ontem e o que me foi dado ver agora. Dos vinte mil manifestantes de ontem, não restam mais de 2000. As pessoas estão sorumbáticas, cansadas e pressente-se que já aceitaram a inevitabilidade da derrota. A tropa actuou hoje um pouco por todo lado com dureza e foi fácil desagregar as milícias de Thaksin, que pouca resistência ofereceram após disparos de gás lacrimogéneo e balas de borracha. Deram entrada nos hospitais civis cerca de cem pessoas. No acampamento vermelho tenta-se agarrar os manifestantes dando-lhes comida e bebidas em grande quantidade.

Os thais, quando preocupados, trincam a língua. O sorriso desapareceu e toda a festividade sileciou-se. As palavras de ordem que se proferem são dirigidas à polícia, lembrando-lhes que eles [polícias] também são do Issan (nordeste) e que não batam nos seus conterrâneos. Na multidão, mais um "português" com a camisa da nossa selecção. Estava tão atordoado que nada me respondeu.

Um casal pediu-me que lhes fotografasse as crianças, mas acercou-se um miliciano de camuflado e óculos escuros deu ordens aos miúdos para que cerrassem os punhos. Não foram muito convincentes. Ao reparar no panda na t-shirt da miúda, só me deu vontade recusar a manipulação. Lenine, Mao e Thaksin não rimam, decididamente, com o amorável panda.

Quem são os irredutíveis nas derradeiras horas desta segunda derrota de Thaksin nas ruas da grande cidade ? Os últimos lutadores de rua são pobres camponeses trazidos à capital, algum proletariado urbano, milicianos vermelhos e alguns monges de duvidosa genuinidade. Nunca vi monges com tal arcabouço físico, com tatuagens punk, camisolas vermelhas e lenços a tapar-lhes o rosto. Juntamente com os idosos e as crianças, servirão como escudos humanos. Vergonhas da política !

A noite está a cair. Terá chegado o momento do ataque final ?

Jornalismo abaixo de cão


Como podem os portugueses confiar o elementar direito à informação a orgãos de comunicação social que desde há um mês se mantêm em mutismo quase imbecil sobre a situação na Tailândia, quando deflagrou a presente crise ? Sei que as chefias, em muitos casos razando o nadir da inteligência, não sabem sequer localizar o país no mapa, que o futebol e as coisinhas pequenas da política caseira lhes mobilizam os parcos neurónios, mas este é um flagrante do estado a que chegou o tão reverenciado quarto poder. Chamar-lhe-ia o absoluto impoder.

09 abril 2010

Nem rebelião, nem revolução: um simpático caos tailandês

Não vale a pena sintonizar as televisões ocidentais nem os opinativos de várias linhas e recursos ilimitados, de suposta seriedade, mas que não conhecem o povo tailandês, desconhecem-lhe a língua e dos modos só estão habituados ao papel de clientes nas indústrias de diversão e relax destinadas a bolsas endinheiradas. Os thais, como disse um sensível autor italiano (Maurizio Peleggi) construiram ao longo das últimas décadas um "business of nostalgia" e outras configurações iconográficas e textuais de folk para exportação, destinadas a preencher as necessidades de "exótico" dos ocidentais que aqui procuram o diferente. Contudo, os thais escondem uma tal diversidade e riqueza de aspectos que seria arrogante reduzi-los à caricatura a que alguns roteiros de "pensamento correcto" por aí vão debitando impunemente em rábulas já lidas e aplicadas noutros locais, mas que aqui a nada correspondem.
Depois de ouvir a CNN, julguei que as coisas estariam nas vascas da agonia para o boníssimo Abhisit, o primeiro-ministro que não quer ver sangue thai derramado e vai esticando semana após semana a paciência dos mais ardorosos empregados de Thaksin. A locutora da CNN trajava sintomaticamente de vermelho, naqueles flagrantes patetas de simpatia por revoluções exóticas, conquanto que estas sejam precisamente isso: exóticas e muito distantes. É a necessidade do Robin dos Bosques que habita qualquer burguês vivendo no hemisfério ocidental. Eram sete da tarde e resolvi, uma vez mais, passar pela concentração vermelha, bem próxima de minha casa.
O que dizer ? O espírito thai tomou conta da coisa. A linha dura dos politizados e endoutrinados, dos leitores de cábulas de marxismo e de glosas de Jitr Pumisak parece ter sido ultrapassada pelo povo chão. Onde anteontem só ouvia morras ao governo, insultos ao Conselho Privado, palavras de ordem contra os "generais" e a "aristocracia", hoje encontrei muita gente, cerca de 20.000, sentados, rindo, cantando, comprando e vendendo produtos, jogando às cartas, com crianças à volta pulando e saltando. Num país onde o regime fascista foi uma palhaçada e o comunismo nem se atreveu atacar o budismo, não é de estranhar que com a passagem dos dias os participantes neste imenso piquenique se revelem como são: gente amável, sem ponta de agressividade, crédula e disposta a brincar, como é marca deste povo lúdico. Aquilo que até ontem era um comício 24 sobre 24 horas, é hoje uma barracaria de comes e bebes a perder de vista. Passou a ser uma feira popular com farturas, gelados, sopas e espetada de frango, mais vendedores de relógios, chapéus, chinelos e óculos destinada ao proletariado de Bangkok. Há música de graça e há, até, kin kao (comida) oferecida pela bolsa de Thaksin, mais remédios "free", mais karaoke "free" e muita conversa com amigos e vizinhos vindos para estas férias pagas desde os confins do nordeste. Os de Bangkok trazem os cães e falam por telefone para os amigos, recomendando-lhes a feira, pois ali se está muito "sabay" (confortável).

Chegam quatro carrinhas e a multidão corre para buscar o arroz de frango "free". Já nem ligam ao orador que no palco vai esbracejando e exigindo-lhes o tributo de palmas pela arrozada dada como se dá o "tambún" (oferenda) no templo. Ficam encantados e comem sem falar, como todos os asiáticos geralmente praticam a instituição alimentar. Comer é para comer. Ninguém fala. Caminho uns duzentos metros entre cachos de crianças adormecidas e adultos agitando umas mãos de plástico que servem para fazer o feito das palmas e entro na área de massagens. Massagens ? Sim, são dúzias de massagistas profissionais que ali montaram negócio de rua, cobrando 100 Bath por um bom "nuad rongtáw" (massagem de pés) e 150 Bath por uma "nud thai" (massagem de pernas, costas e braços). Só não vi a "massagem com óleo", praticada em casas mais resguardadas da vista lá para a zona das lanternas vermelhas de Patpong, o "bairro do prazer" da capital.

Olhando para o simpático quadro, acercou-se de mim um motociclista-táxi, mas sem a mota. Cobria-lhe a cabeça uma boina à Mao e revolucionariamente disse-me "hei mister, do you want to go to oil massage ?" É o que fazem com todos os turistas que desembarcam na Cidade dos Anjos carregados de pulsões. Quando lhe respondi em tailandês que não estava interessado, virou as costas e disse a um outro angariador de clientes para a tal massagem com óleo que eu era um kí nók, o que quer dizer "caca de pássaro" ou "estrangeiro que vive na Tailândia".

Andei por entre a multidão sentada - ninguém se dá ao trabalho de se levantar - e vi um miúdo com um ar absolutamente enfastiado. Deve aqui estar há duas semanas, trazido com os pais na caixa aberta de um camião para fazer moldura humana para a sonhada revolução social prometida pelo mais rico dos tailandeses. Chamou-me a atenção e tirei-lhe uma foto. Meia hora depois, preparando-me para regressar, circulava entre a feira e lá vi a criança. Onde antes havia um mortal tédio, agora brilhava um sorriso encantador. Estava no meio de brinquedos baratos e ali voltava a ser uma criança. Comprei-lhe um carro de bombeiros em plástico, boa acção que me custou 40 Bath (1 Euro).

Este não é, decididamente, o melhor material humano para fazer uma revolução. É o "meu" povo tailandês, que deverá ser estimado e elevado pelo governo da Tailândia urbana, ocidentalizada e democrática para evitar que este ajuntamento usado e abusado pelos pregoeiros [internos e externos] da demagogia se transforme num verdadeiro movimento violento. São necessárias reformas, justiça social, programas de incentivo, mas qualquer boa intenção de Abhisit exige que se faça, que não se perca tempo, pois a intoxicação plutocrática-comunista, acenando com o saque, o partir de montras, a "justiça popular" e a "igualdade" actua com celeridade e pode vir a danificar irreparavelmente o ethos thai. Talvez tenha chegado o tempo da monarquia voltar a arregaçar as mangas e passear-se entre as alas do povo que ama o Rei e que não o quererá ver trocado por um ditadorzinho mafioso e seus capatazes.

Patuscada de salsichinhas do Issan e náam plá


Dez mandados de captura emitidos contra a liderança vermelha, silenciamento das rádios e canal de televisão pró-Thaksin que emitiam apelos à desobediência e ao derrube do Estado de Direito, confiscação de toneladas de propaganda subversiva; eis dados relevantes que confirmam o lento apagar da segunda fracassada intentona vermelha de assalto ao poder.

O palácio real não emitiu uma só nota, o que significa que tudo está sob controlo e que o triunfo do governo monárquico e da democracia é um dado adquirido. Nesta sexta-feira, tudo indica que os comunistas tentarão desesperadamente retomar a iniciativa, mas como me disse uma das empregadas da lavandaria do prédio, "agora só lhes falta ir incomodar os animais do jardim zoológico ou os peixes do oceanário". O riso é, decididamente, a melhor das armas contra aqueles que só reclamam a democracia quando os outros a eles se submetem. A aventura tem custado a Thaksin 500.000 Euro por dia. Antes empregasse o dinheiro em actos de caridade. Quanto ao exército, consumiu até ao momento zero munições e zero granadas lacrimogéneas, sem dúvida um grande sucesso.
O movimento vermelho parece ser adepto entusiasta das soluções ambientalistas: é biodegradável, desaparece por si ! Só me ocorre o velho Marx: "a história repete-se, a primeira vez como tragédia e a segunda como comédia". O general Prem, presidente do Conselho Privado do Rei e garante da acção moderadora da Coroa, deve estar a rebolar-se de riso. Enfim, há que festejar o songkran. Bom ano novo [tailandês] para todos.

08 abril 2010

Abhisit faz comunicação ao país


Acabou há dois minutos a comunicação que o primeiro-ministro monárquico Abhisit Vejajiva fez ao país, informando em tom seguro e convincente sobre o evoluir da situação. Num tailandês extremamente acessível, destinado a chegar a toda a população do reino, o líder tailandês afirmou que as forças do ordem do Estado, as instituições e o governo, apoiados pelos cidadãos, estão lentamente a controlar os acontecimentos sem derramamento de sangue e sem qualquer violação dos direitos humanos e de cidadania. É a primeira vez que vejo Abhisit afirmar peremptoriamente que a lei e o Estado não pactuarão, não negociarão nem aceitarão ultimatos da rua. Em tom quase despreocupado, rompendo com o dramatismo dos últimos dias, até formulou um bom ano novo (tailandês) à população e falou no futuro de reformas sociais que atenuarão os efeitos da crise e juntarão de novo todos os tailandeses sob a bandeira da concórdia e da justiça.
Está-se a revelar um líder e todos com quem tenho falado sobre a crise são unânimes em reconhecer a este homem predicados de honestidade, inteligência e grande coragem. A democracia vai triunfar sobre a arruaça plutocrática-comunista e a Tailândia parece estar nas melhores mãos.

Breve

Nem tudo o que parece é. Nem tudo o que se vê reproduz a realidade das coisas. Duas informações merecedoras do maior crédito afiançam que a situação está sob absoluto controlo das autoridades e que a agitação permanente, mais que um sintoma de força daqueles que querem destruir o regime e o sistema, esconde inquietação, nervosismo e incapacidade em romper a unidade do Estado. Estão a ser gastos diariamente milhares de milhões pelos vermelhos, uma potência estrangeira está por detrás dos acontecimentos, o governo não vai cair e as forças armadas aguardam serenamente ordens de cima, sem questionar a manutenção da democracia. A isto voltaremos oportunamente.


ธงไชยเฉลิมพล (Marcha da Guarda Real)

07 abril 2010

Estado de emergência: profanada a casa da democracia

É esta a gente que quer governar a Tailândia, o mais estável, seguro e livre aliado do Ocidente no Sudeste-Asiático. Não há como os momentos de exaltação para melhor se revelar a natureza das pessoas. Para uns, basta uma garrafa de vinho; para outros, o cheiro do saque em perspectiva. As massas vermelhas andam em polvorosa, já não respeitam pessoas, ministérios e serviços públicos, estações de televisão, sedes de partidos, universidades, tribunais e até as forças da ordem. Hoje, tentaram profanar o parlamento eleito por sufrágio universal e mostraram a que ponto chegou a sublevação.

O primeiro-ministro anunciou o estado de sítio. A escalada parece deixar de fora a moderação, o comedimento e a inibição em recorrer à ultima ratio. Como tenho tentado dizer, sobre a espuma dos acontecimentos, das figuras e dos acidentes há movimentos profundos que só ganham legibilidade no conhecimento da história das ideias políticas e das instituições que regem este país. Aqui, o Estado ainda não foi devassado nem reduzido a refém da rua, como aconteceu num certo país onde a turbamulta acicatada pela Lubianka, pelos Kalinines (embaixador da URSS em Lisboa desde 1974) e pelos agentes da desordem - como ganharam com isso ! - reduziram a Universidade a um espantalho, as forças armadas em caricatura e a vida política em tragicomédia. Aqui, a liberdade e a democracia tentam sobreviver, ancoradas no exemplo do Rei e do trabalho de elevação que realizou ao longo dos últimos seis decénios.

Cada dia que passa pressinto a madrugada em que, excedido o limite da paciência, as forças armadas terão de intervir. Ainda pensei que no movimento vermelho as vozes do bom-senso e o elementar sentido das conveniências se sobrepusessem às desvairadas atoardas arruaceiras. Quem aspira ao poder não pode exibir armas de fogo, vandalizar edifícios, lançar bombas - são às dezenas as bombas deflagradas ou encontradas por deflagrar nos últimos dias - nem tão pouco apelar ao incumprimento da lei, agredir e espezinhar polícias, conspurcar as ruas com sangue contaminado com HIV e hepatite C. Só lhes falta matar gente em plena rua ou atacar o palácio real.


Foi um crescendo. De movimento que se dizia algures na área da democracia reformista, já só vejo efígies do Che, boinas estreladas, catanas, barras de ferro e gente fardada. Não tenhamos ilusões: o movimento vermelho é hoje, de facto, um movimento que visa derrubar o sistema e o regime e impor algo que por ora ainda está fora da nossa capacidade de previsão. Depois, é a mudança dos facies dos protagonistas e actores. Hoje, impera o patibular, o tipo de população presidiária e aquele tipo de gente que só se deixa retratar nas esquadras de polícia.

06 abril 2010

Três cenários para a Tailândia (1): técnica revolucionária ou os últimos dias de liberdade na Tailândia

É vasta a literatura disponível sobre a técnica de derrube violento de regimes que se subordinam a princípios e preferem morrer a exceder os limites das suas convicções. Os revolucionários, ao contrário dos regimes que querem destruir, não se limitam, não respeitam e não hesitam nos meios a utilizar: todos os meios são legítimos para o objectivo último. A receita já foi aplicada em todos os azimutes e apresenta, com variações mínimas, as mesmas características. No caso vertente da Tailândia, o processo em curso iniciou-se há muitos anos, quando Thaksin conquistou a primeira maioria, mas foi momentaneamente interrompido quando as forças armadas em boa hora evitaram a instalação de uma ditadura travestida em democracia. Tudo o que tem sido repetido à exaustão pelas centrais de condicionamento, manipulação e intoxicação mundiais não passa de um hábil esforço para desculpar os dias agitados em que vive a Tailândia e preparar as pessoas para excessos de violência que, estou certo, acontecerão. Nessa altura, adormecidas e convencidas da inevitabilidades das imagens chocantes, os noticiários tentarão apresentá-las com a moldura de "compreensibilidade" perante um evento "que tinha de acontecer" e "faz parte dos processos de mudança".

Eis quatro breves notas sobre a técnica e processo subversivos, bem patentes no evoluir da situação tailandesa.


1. Fazer crer que o país se encontra dominado por uma clique predatória e exploradora ultraminoritária, por forma a justificar a bondade do movimento vermelho e transformá-lo numa cruzada libertadora. Para isso, inventou-se o jargão que todos acabam por usar, uns por estupidez, outros por nele poderem separar o "bem" (os vermelhos) do "mal" (a "clique"). Trata-se de absolutizar categorias e impedir qualquer matização. É a velha teoria do Amigo e do Inimigo. Se se resiste ao poder da rua (vermelho), é-se inimigo da Tailândia, do progresso, da igualdade de direitos e da democracia. Se se tenta explicar que o governo é legítimo, saído de acordo parlamentar, que o Conselho Privado do Rei é um orgão de Estado, que as Forças Armadas possuem prerrogativas constitucionais para evitar o colapso violento da ordem, se se argumenta que a sociedade tailandesa não é um claro-escuro de ricos e pobres; então, está-se a fazer a apologia do "feudalismo", do "double standart", da "clique palaciana".


2. Fazer crer que o movimento vermelho é democrático e que violência democrática é legítima, pois é um mal necessário para o partejamento de uma sociedade mais justa. O movimento vermelho, minoritário nas eleições, surge como a "maioria moral" e todos quantos se lhe opuserem receberão o labéu de "inimigos da classe trabalhadora", "políticos corruptos", "fabricadores de governos", "fantoches" e partidários de formações políticas "artificiais". Uma manifestação amarela (tradicionalista) ou uma manifestação cor-de-rosa (democrática) é um ajuntamento de "privilegiados", gente da "burocracia de Estado" (como se houvesse burocracia não estatal) e "alienados" pela ideologia real. Usa-se a expressão quando se pretende separar o "povo esclarecido" [vermelho] do "povo ignorante" [amarelo ou cor-de rosa]. Se a violência é amarela, é a "reacção", o "bunker", o "imobilismo" e a defesa de "interesses" que recorre à força para se manter "contra a História". Se a violência é vermelha, expressa o "profundo" descontentamento por um regime que não quis partilhar os benefícios da riqueza e monopolizou-os em poucas mãos.


3. Fazer crer que a revolução vermelha não é contra a monarquia. A verdade, há que dizê-lo, é que os movimentos revolucionários são gradualistas e jamais revelam os objectivos mais relevantes, apresentando-se inicialmente como reformadores e correctores de pequenos defeitos e falhas por forma a conquistar ou neutralizar a capacidade reactiva das pessoas politicamente mais distraídas ou menos preparadas. A estratégia é a de atacar instituições, pessoas e grupos separadamente, acusá-las de haverem desvirtuado a monarquia e pedirem uma monarquia mais aberta, moderna e acatadora da vontade popular; ou seja, uma monarquia trancada no palácio, rendida ao poder dos factos impostos, desprotegida e impotente. Começarão por abolir o Conselho Privado. Depois, a limpeza das forças armadas e da polícia, oo controlo dos orgãos de comunicação social, a reforma da "burocracia", a mudança dos códigos de etiqueta e o fim da "língua da corte". Sem protecção, esperarão pelo falecimento do monarca para iniciar a "revelação" de factos escaldantes relativos à família real: insulto, caricaturas, histórias de alcova, dinheiros e propriedades. Manterão a monarquia por alguns anos, para demonstrar aos cépticos que, afinal, o propósito era apenas o de fazer um novo pacto entre o povo e a monarquia. Depois, a monarquia vai a referendo e perde. O "povo" escolheu e quer um "dos seus" para presidir à nova Tailândia. Thaksin será "presidente do todos os tailandeses".


4. Fazer crer que a democracia à ocidental, já sem o papel moderador da Coroa, é um dado do tempo presente. A Tailândia terá partidos, certamente, pois o processo totalitário hodierno é diferente daquele que se viveu nos anos 30, 40 e 50. Contudo, será uma democracia nominal, pois "um homem um voto" pagará eterno agradecimento à "revolução libertadora" mantendo-a no poder ad aeternum. Os adversários da revolução, esses serão proibidos de concorrer às eleições e transformados em inimigos da democracia, atirados par o exílio, encarcerados, julgados por "crimes contra o povo" ou mortos. A Tailândia, hoje a única democracia no Sudeste-Asiático, aproximar-se-á então do "modelo regional" de democracia com "deficiências", mas as ONG's, os humam righters e os observadores e "experts" nela não detectarão nada que não exista no Camboja, na Malásia ou até no Vietname e Laos, estes dois últimos considerados "regimes comunistas" mas em "lenta abertura" e "agora mais respeitadores dos direitos humanos que no passado"



Marcha comunista do Angkar (Partido Comunista do Camboja)

05 abril 2010

Agitprop, bombas e China, Abhisit fica e fortalece

Salta à evidência que a tentativa vermelha de conquista violenta do poder falhou. Os últimos acontecimentos, quiçá os últimos relevantes de uma série ininterrupta de incidentes minuciosamente preparados e apoiados do exterior demonstraram, ao contrário do que muitos pensavam, que a democracia tailandesa entrou na idade adulta, que o regime é sólido e tem a servi-lo a cidadania consciente, o funcionalismo de Estado, as forças armadas e uma plêiade de governantes inacessíveis ao medo, responsáveis e seguros.


O ataque ao coração do país falhou. Hoje, o sentimento prevalecente é que Abhisit, por quem poucos davam há um ano o simples benefício da dúvida, emerge e se agiganta como o defensor da liberdade e da monarquia, dos valores e da cultura de tolerância, da paciência e do diálogo perante adversários que vão revelando pelos actos, pelos modos e palavras, quão longe se encontram da Tailândia urbana, educada, alinhada com o Ocidente e aberta ao mundo. O movimento vermelho exibe tremenda fragilidade e só observadores obnubilados e privados de qualquer razoabilidade poderão insistir em apresentar os sucessivos actos de violência arruaceira como produto de uma quimérica luta pela libertação ou de um conflito entre ricos e pobres.


Sondagem acabada de sair, anuncia que Abhisit garante 40% de apoio do eleitorado, o que corresponde a um aumento de 10% em relação às eleições gerais de 2007. A crise que continue, pois se assim continuar Abhisit poderá atingir a maioria e prescindir de alguns associados menores. Onde está a minoria reaccionária, imobilista, aristocrática e anti-democrática ? Gostaria de lembrar que o partido thaksinista Phuea Thai conseguiu 36% nas eleições gerais de 2007 e que o governo em funções possui confortável maioria parlamentar.


Para quem continua habitado pelo demónio do totalitarismo - e há muito democrata reciclado do comunismo que jamais se libertou do esquematismo comunista dos anos 60 e 70 - a análise do processo tailandês parece violar toda a previsibilidade. Continuam a ver a Tailândia como um país subdesenvolvido, incapaz de se defender das desordens e crises que acometem as sociedades em transição, mas não compreendem que na actual crise quem representa o passado são os vermelhos e quem protagoniza a via da estabilidade e do governo representativo é o governo.


Por mais arruaças, terrorismo económico, bombas e ameaças que os vermelhos semeiem, forçando uma saída violenta que serviria para angariar o universal clamor condenatório, Abhisit não responde. A violência perde sempre perante uma não-violência segura e o poder da rua fica onde está, na rua. Ao longo dos últimos quinze dias foi-me possível detectar uma mudança generalizada de atitude por parte dos principais agentes envolvidos na intriga regional.


Os EUA tomaram, finalmente, a decisão de apoiar o regime, pois como aqui dissemos, a luta pela Tailândia joga-se no xadrez da crescente rivalidade sino-americana pelo controlo do Sudeste-Asiático e os vermelhos, tudo o indica, contam com a ajuda de Pequim. Foi Pequim quem fechou os olhos à fuga de Thaksin para o exílio, convidando-o primeiro para participar nas cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos de 2009 e, depois, terá feito os necessários arranjos para que outros países o acolherem e emitissem passaportes que o imunizaram face a pedidos de extradição. Thaksin, graças aos chineses, conseguiu no Camboja um protector regional. Ontem, Hun Sen, primeiro-ministro do Camboja, veio à Tailândia negociar com Abhisit, pois as perdas económicas do país vizinho, muito dependente da Tailândia, atingem números astronómicos. Quanto às grandes centrais de informação e desinformação planetárias, as BBC's, CNN's e France Presse's tornaram-se bem mais contidas. Acabou o noticiário forjado, a repetição de inverdades e a invenção de uma revolução libertadora. Hoje, prevalece a cautela disfarçada de imparcialidade. Abhisit ganhou na frente externa.


No plano interno, à liderança vermelha parece não mais restar que a fuga para a frente, que terminará, estou quase certo, na proibição do partido thaksinista (Phue Thai) por crimes contra a constituição, o Estado e as leis. A acontecer, o movimento, já muito minado por desinteligências, entrará em colapso e perderá capacidade de coordenação. Aguardemos os desenvolvimentos para saber se, uma vez mais, temos ou não razão no dom da antecipação.

Malditas gralhas

No texto ontem publicado aterraram incómodas gralhas, que só uma segunda leitura atenta permitiu limpar. Estando avariado o teclado português, vejo-me obrigado a usar um programa de conversão que não consegue discriminar acentos e cedilhas. As minhas desculpas.

04 abril 2010

Combustões na noite Vermelha


Nota prévia
Desmentindo o tom iracundo da campanha incitada por Thaksin a partir do estrangeiro - muito bem assessorada pelos media de referência - pretendendo enervar as forças armadas e levá-las a intervir com inevitável derramamento de sangue, a verdade é que a Tailândia é uma plena democracia. Em qualquer respeitável democracia ocidental, os tanques há muito rolariam pelo asfalto, o gás lacrimogénio fumigaria generosamente os ajuntamentos e os canhões de água limpariam o centro de Banguecoque. Ao contrário do que aqui se passou há cerca de ano e meio, quando o PAD (Amarelos) ocuparam a sede do governo (então pró-Thaksin) o actual executivo de Abhisit não lançou por ora cargas policiais, não houve rebentamento de granadas e bombas na zona do acampamento vermelho e até tem havido fornecimento gratuito de água à multidão, concedida por decisão do governador da capital, "afecto à aristocracia possidente". Este é o verdadeiro double standard.

Ontem fui à zona da manifestação Vermelha. Não obstante repetidas ordens governamentais, os partidários de Thaksin não evacuaram a zona. Os prejuízos, acabo de ouvir, estão estimados em 600 milhões de Bath e, a continuar a campanha de sabotagem económica, muitos hotéis e centros comerciais do centro de Banguecoque terão de despedir funcionários.

Façamos, pois, o relato da madrugada de ontem. Como é nosso timbre, aqui não há corta-cola dos jornais nem impressões recolhidas por telefone, não se reproduzem rumores nem se fazem elocubrações. Retrata-se o que se viu, sem exagero, lirismo, facciosismo e lentes correctoras.


Uma cidade entregue ao poder da rua

Thanon Rama I, principal artéria comercial de Banguecoque, fechada ao trânsito. Por aqui passam, em dias normais, milhões de veículos, aqui acorrem centenas de milhares de pessoas. É a zona das grandes superfícies comerciais (Siam Paragon, MBK, Siam Discovery, Central World), das boutiques e restaurantes procurados pelos turistas e famílias tailandesas. Aqui se localizam quatro dezenas de hotéis de referência, bares e discotecas, o maior campo de golfe da cidade, a Universidade de Chulalongkorn, o Thao Maha Phorom (santuário) e o grande complexo do Templo de Phatumvanaram, a sede da polícia metropolitana e o seu hospital. Ontem pela tarde, cerca de 20.000 manifestantes ocuparam a zona e tudo parou.

Quantos são os manifestantes

Concentrados na intercessão de quatro grandes artérias, os Vermelhos montaram um palco iluminado por projectores, possuem oito grandes viaturas de som e uma dúzia de camiões em torno dos quais se concentram os elementos da segurança, postados à volta do palco central. A zona de ocupam não é grande. A massa de manifestantes concentra-se numa faixa com cerca de 300 ou 400 metros de profundidade. Ali estarão cerca de 10.000 pessoas sentadas no chão, dormindo, conversando ou ouvindo os líderes vermelhos. No terreiro fronteiro ao Central World estarão mil pessoas dormindo, comendo ou cantando.

Quem são os manifestantes

A maioria dos presentes não é de Banguecoque. São famílias por atacado, com pais, avós e filhos trazidos das mais remotas aldeias das províncias do nordeste (Issan). Perguntei a mais de vinte destes manifestantes de onde vinham e as respostas colhidas foram expressivas: Loey, Surin, Khonkaen, Sakoonnakthon, Roiet, Nongkhai, Yasotron. Socialmente, poderia caracterizá-los como proletariado rural, gente que trabalha à jornada e se encontra momentaneamente desocupada neste fim de estação seca, quando toda actividade sofre interrupção e se aguardam as primeiras chuvas para o início do ano agrícola.



Os tipos étnicos são, para quem conhece o país e passou uma vista de olhos pela abundante bibliografia disponível - Karl Döhring, Schliesinger, Seri Phongpit - um retrato fiel da Tailândia rural. Tudo os distingue da população urbana: no falar quase ininteligível para aqueles que só conhecem a língua thai da capital, na profusão de amuletos, no dançar, na forma de sentar - agachados e sentados sobre os joelhos - na comida consumida e até nos hábitos de higiene.

Cada grupo tem um chefe, habitualmente trajando de negro e vestindo calças camufladas. Sobre o peito, pende um cartão com o nome da localidade de origem, cartão de membro do partido thaksinista e um número que não consegui compreender, mas que julgo indica o número de pessoas que dirige; reminiscência dos nay feudais que exibiam carta patente da sua força de trabalho.


Os tipos predominantes são o Lao-Issan e o thai-khmér, mas também lobriguei alguns lao-chineses, com traços chineses mas pele muito escura, populações que se concentram nas fronteiras com o Camboja e Laos e se cruzaram com as populações nativas.


Há, também, proletariado urbano originário do Issan. São diferentes dos restantes, pois já evidenciam comportamentos citadinos, falam uns farrapos de inglês e são menos inibidos. Trabalham em companhias de segurança, supermercados, são vendedores ambulantes, operários não especializados, taxistas e táxi-motoristas, empregados de restaurantes e pessoal de limpeza.

Um dos traços identificadores destes recém-chegados à grande cidade é o pó de talco que usam como protector contra o calor e contra o tão temido bronzeamento, pois na Tailândia a tez escura é repelida como marca de ruralidade e exposição ao sol. Depois, a música que os anima à dança é o folk do Issan, muito popular entre os núcleos de retirantes vivendo na cidade e já não a música tradicional executada com os velhos instrumentos de sopro.

O caldo ideológico


Vermelho rima com Coca Cola e Vietname, comunismo mais consumo, parece ser a grande aspiração destes militantes que se batem sob a bandeira do mais rico dos tailandeses (Thaksin). Um cartaz chamou-me à atenção e não deixa de constituir um flagrante da impreparação política do partido Vermelho. Pedem uma Tailândia não corrompida e têm como líder o mais corrupto dos tailandeses. Pedem a dissolução do parlamento e a demissão do governo, mas o parlamento foi eleito pelo povo tailandês e o governo actual saiu de uma solução maioritaria constitucionalmente contemplada pelas leis em vigor, pelo que a actual legislatura só deverá terminar em 2011, altura em que Abhisit, no cumprimento do calendário eleitoral, deverá convocar novas eleições.

O vermelho é a cor dominante. Camisas do Liverpool e até camisas da selecção nacional portuguesa, muito popular entre os fãs do futebol, encontram-se um pouco por todos os cantos da multidão. O fulano na foto ficou encantado quando lhe disse que era português e abandonou de imediato a repetição dos slogans "Abhisit Fora" e "Governo para a Rua" para gritar a plenos pulmões "Ró-Ná-Dú", "Ró-Ná-Dú".

As milícias


Gente armada de varapaus, lanças artesanais e barras de ferro circula entre os manifestantes. Os guardas trajando de negro, esses terão armas de fogo, mas não as exibem, pois parece importante manter para o exterior a imagem de um movimento pacífico. Ao aproximar-me de uns trinta indivíduos de capacete e casacões militares, foi-me dito que não os fotografasse, pois são os elementos da força de choque postada atrás do palco, responsáveis pela segurança dos líderes vermelhos. Afastei-me uns dez metros e tentei novamente. Desta vez fui bem sucedido. Os guardas até me ofereceram uma garrafa de água e disseram aguardar com impaciência o ataque do exército. Disse-lhes que não, que não haveria sangue. Ficaram surpreendidos quando afirmei que Abhsit não era um general-ditador e que não queria ver sangue derramado nas ruas de Banguecoque. O mais velho confessou-me que Khun Abhisit pen khon díí, tée ratamontrí hên pén khon may díí - o Abhisit é boa pessoa, mas os outros ministros são gente má.



O lixo e o fedor

Aquela que foi a mais cosmopolita artéria de Banguecoque está transformada num imenso vazadouro de lixo exalando emanações que desafiam as narinas mais insensíveis. Com a temperatura a rondar os 38 graus, a decomposição de alimentos, a urina e fezes emprestam à avenida o retrato da perda de autoridade que tomou de assalto o coração comercial e turístico da capital.


Há milhares de quilos de garrafas, sacos plásticos, recipientes de esferovite e restos de comida amontoados por todo o recinto. Não vi qualquer brigada de limpeza em actuação. Em frente dos melhores hotéis, empregados tentam minimizar o impacto do flagelo que se abateu sobre o distrito, mas só com o concurso dos serviços municipalizados se poderá retirar à capital o toque de Phnom Pehn que se instalou na Cidade dos Anjos (Banguecoque).



As necessidades fisiológicas de milhares de pessoas inundam a avenida e desautorizam qualquer lirismo revolucionário. Um estrangeiro saído de um hotel de máquina em riste e largo sorriso retrocedeu com vómitos e perdeu de imediato o impulso aventureiro de assistir a uma revolução.



Hamburguer Hill