É vasta a literatura disponível sobre a técnica de derrube violento de regimes que se subordinam a princípios e preferem morrer a exceder os limites das suas convicções. Os revolucionários, ao contrário dos regimes que querem destruir, não se limitam, não respeitam e não hesitam nos meios a utilizar: todos os meios são legítimos para o objectivo último. A receita já foi aplicada em todos os azimutes e apresenta, com variações mínimas, as mesmas características. No caso vertente da Tailândia, o processo em curso iniciou-se há muitos anos, quando Thaksin conquistou a primeira maioria, mas foi momentaneamente interrompido quando as forças armadas em boa hora evitaram a instalação de uma ditadura travestida em democracia. Tudo o que tem sido repetido à exaustão pelas centrais de condicionamento, manipulação e intoxicação mundiais não passa de um hábil esforço para desculpar os dias agitados em que vive a Tailândia e preparar as pessoas para excessos de violência que, estou certo, acontecerão. Nessa altura, adormecidas e convencidas da inevitabilidades das imagens chocantes, os noticiários tentarão apresentá-las com a moldura de "compreensibilidade" perante um evento "que tinha de acontecer" e "faz parte dos processos de mudança".
Eis quatro breves notas sobre a técnica e processo subversivos, bem patentes no evoluir da situação tailandesa.
1. Fazer crer que o país se encontra dominado por uma clique predatória e exploradora ultraminoritária, por forma a justificar a bondade do movimento vermelho e transformá-lo numa cruzada libertadora. Para isso, inventou-se o jargão que todos acabam por usar, uns por estupidez, outros por nele poderem separar o "bem" (os vermelhos) do "mal" (a "clique"). Trata-se de absolutizar categorias e impedir qualquer matização. É a velha teoria do Amigo e do Inimigo. Se se resiste ao poder da rua (vermelho), é-se inimigo da Tailândia, do progresso, da igualdade de direitos e da democracia. Se se tenta explicar que o governo é legítimo, saído de acordo parlamentar, que o Conselho Privado do Rei é um orgão de Estado, que as Forças Armadas possuem prerrogativas constitucionais para evitar o colapso violento da ordem, se se argumenta que a sociedade tailandesa não é um claro-escuro de ricos e pobres; então, está-se a fazer a apologia do "feudalismo", do "double standart", da "clique palaciana".
2. Fazer crer que o movimento vermelho é democrático e que violência democrática é legítima, pois é um mal necessário para o partejamento de uma sociedade mais justa. O movimento vermelho, minoritário nas eleições, surge como a "maioria moral" e todos quantos se lhe opuserem receberão o labéu de "inimigos da classe trabalhadora", "políticos corruptos", "fabricadores de governos", "fantoches" e partidários de formações políticas "artificiais". Uma manifestação amarela (tradicionalista) ou uma manifestação cor-de-rosa (democrática) é um ajuntamento de "privilegiados", gente da "burocracia de Estado" (como se houvesse burocracia não estatal) e "alienados" pela ideologia real. Usa-se a expressão quando se pretende separar o "povo esclarecido" [vermelho] do "povo ignorante" [amarelo ou cor-de rosa]. Se a violência é amarela, é a "reacção", o "bunker", o "imobilismo" e a defesa de "interesses" que recorre à força para se manter "contra a História". Se a violência é vermelha, expressa o "profundo" descontentamento por um regime que não quis partilhar os benefícios da riqueza e monopolizou-os em poucas mãos.
3. Fazer crer que a revolução vermelha não é contra a monarquia. A verdade, há que dizê-lo, é que os movimentos revolucionários são gradualistas e jamais revelam os objectivos mais relevantes, apresentando-se inicialmente como reformadores e correctores de pequenos defeitos e falhas por forma a conquistar ou neutralizar a capacidade reactiva das pessoas politicamente mais distraídas ou menos preparadas. A estratégia é a de atacar instituições, pessoas e grupos separadamente, acusá-las de haverem desvirtuado a monarquia e pedirem uma monarquia mais aberta, moderna e acatadora da vontade popular; ou seja, uma monarquia trancada no palácio, rendida ao poder dos factos impostos, desprotegida e impotente. Começarão por abolir o Conselho Privado. Depois, a limpeza das forças armadas e da polícia, oo controlo dos orgãos de comunicação social, a reforma da "burocracia", a mudança dos códigos de etiqueta e o fim da "língua da corte". Sem protecção, esperarão pelo falecimento do monarca para iniciar a "revelação" de factos escaldantes relativos à família real: insulto, caricaturas, histórias de alcova, dinheiros e propriedades. Manterão a monarquia por alguns anos, para demonstrar aos cépticos que, afinal, o propósito era apenas o de fazer um novo pacto entre o povo e a monarquia. Depois, a monarquia vai a referendo e perde. O "povo" escolheu e quer um "dos seus" para presidir à nova Tailândia. Thaksin será "presidente do todos os tailandeses".
4. Fazer crer que a democracia à ocidental, já sem o papel moderador da Coroa, é um dado do tempo presente. A Tailândia terá partidos, certamente, pois o processo totalitário hodierno é diferente daquele que se viveu nos anos 30, 40 e 50. Contudo, será uma democracia nominal, pois "um homem um voto" pagará eterno agradecimento à "revolução libertadora" mantendo-a no poder ad aeternum. Os adversários da revolução, esses serão proibidos de concorrer às eleições e transformados em inimigos da democracia, atirados par o exílio, encarcerados, julgados por "crimes contra o povo" ou mortos. A Tailândia, hoje a única democracia no Sudeste-Asiático, aproximar-se-á então do "modelo regional" de democracia com "deficiências", mas as ONG's, os humam righters e os observadores e "experts" nela não detectarão nada que não exista no Camboja, na Malásia ou até no Vietname e Laos, estes dois últimos considerados "regimes comunistas" mas em "lenta abertura" e "agora mais respeitadores dos direitos humanos que no passado"
Marcha comunista do Angkar (Partido Comunista do Camboja)