07 Abril 2010

Estado de emergência: profanada a casa da democracia

É esta a gente que quer governar a Tailândia, o mais estável, seguro e livre aliado do Ocidente no Sudeste-Asiático. Não há como os momentos de exaltação para melhor se revelar a natureza das pessoas. Para uns, basta uma garrafa de vinho; para outros, o cheiro do saque em perspectiva. As massas vermelhas andam em polvorosa, já não respeitam pessoas, ministérios e serviços públicos, estações de televisão, sedes de partidos, universidades, tribunais e até as forças da ordem. Hoje, tentaram profanar o parlamento eleito por sufrágio universal e mostraram a que ponto chegou a sublevação.

O primeiro-ministro anunciou o estado de sítio. A escalada parece deixar de fora a moderação, o comedimento e a inibição em recorrer à ultima ratio. Como tenho tentado dizer, sobre a espuma dos acontecimentos, das figuras e dos acidentes há movimentos profundos que só ganham legibilidade no conhecimento da história das ideias políticas e das instituições que regem este país. Aqui, o Estado ainda não foi devassado nem reduzido a refém da rua, como aconteceu num certo país onde a turbamulta acicatada pela Lubianka, pelos Kalinines (embaixador da URSS em Lisboa desde 1974) e pelos agentes da desordem - como ganharam com isso ! - reduziram a Universidade a um espantalho, as forças armadas em caricatura e a vida política em tragicomédia. Aqui, a liberdade e a democracia tentam sobreviver, ancoradas no exemplo do Rei e do trabalho de elevação que realizou ao longo dos últimos seis decénios.

Cada dia que passa pressinto a madrugada em que, excedido o limite da paciência, as forças armadas terão de intervir. Ainda pensei que no movimento vermelho as vozes do bom-senso e o elementar sentido das conveniências se sobrepusessem às desvairadas atoardas arruaceiras. Quem aspira ao poder não pode exibir armas de fogo, vandalizar edifícios, lançar bombas - são às dezenas as bombas deflagradas ou encontradas por deflagrar nos últimos dias - nem tão pouco apelar ao incumprimento da lei, agredir e espezinhar polícias, conspurcar as ruas com sangue contaminado com HIV e hepatite C. Só lhes falta matar gente em plena rua ou atacar o palácio real.


Foi um crescendo. De movimento que se dizia algures na área da democracia reformista, já só vejo efígies do Che, boinas estreladas, catanas, barras de ferro e gente fardada. Não tenhamos ilusões: o movimento vermelho é hoje, de facto, um movimento que visa derrubar o sistema e o regime e impor algo que por ora ainda está fora da nossa capacidade de previsão. Depois, é a mudança dos facies dos protagonistas e actores. Hoje, impera o patibular, o tipo de população presidiária e aquele tipo de gente que só se deixa retratar nas esquadras de polícia.

06 Abril 2010

Três cenários para a Tailândia (1): técnica revolucionária ou os últimos dias de liberdade na Tailândia

É vasta a literatura disponível sobre a técnica de derrube violento de regimes que se subordinam a princípios e preferem morrer a exceder os limites das suas convicções. Os revolucionários, ao contrário dos regimes que querem destruir, não se limitam, não respeitam e não hesitam nos meios a utilizar: todos os meios são legítimos para o objectivo último. A receita já foi aplicada em todos os azimutes e apresenta, com variações mínimas, as mesmas características. No caso vertente da Tailândia, o processo em curso iniciou-se há muitos anos, quando Thaksin conquistou a primeira maioria, mas foi momentaneamente interrompido quando as forças armadas em boa hora evitaram a instalação de uma ditadura travestida em democracia. Tudo o que tem sido repetido à exaustão pelas centrais de condicionamento, manipulação e intoxicação mundiais não passa de um hábil esforço para desculpar os dias agitados em que vive a Tailândia e preparar as pessoas para excessos de violência que, estou certo, acontecerão. Nessa altura, adormecidas e convencidas da inevitabilidades das imagens chocantes, os noticiários tentarão apresentá-las com a moldura de "compreensibilidade" perante um evento "que tinha de acontecer" e "faz parte dos processos de mudança".

Eis quatro breves notas sobre a técnica e processo subversivos, bem patentes no evoluir da situação tailandesa.


1. Fazer crer que o país se encontra dominado por uma clique predatória e exploradora ultraminoritária, por forma a justificar a bondade do movimento vermelho e transformá-lo numa cruzada libertadora. Para isso, inventou-se o jargão que todos acabam por usar, uns por estupidez, outros por nele poderem separar o "bem" (os vermelhos) do "mal" (a "clique"). Trata-se de absolutizar categorias e impedir qualquer matização. É a velha teoria do Amigo e do Inimigo. Se se resiste ao poder da rua (vermelho), é-se inimigo da Tailândia, do progresso, da igualdade de direitos e da democracia. Se se tenta explicar que o governo é legítimo, saído de acordo parlamentar, que o Conselho Privado do Rei é um orgão de Estado, que as Forças Armadas possuem prerrogativas constitucionais para evitar o colapso violento da ordem, se se argumenta que a sociedade tailandesa não é um claro-escuro de ricos e pobres; então, está-se a fazer a apologia do "feudalismo", do "double standart", da "clique palaciana".


2. Fazer crer que o movimento vermelho é democrático e que violência democrática é legítima, pois é um mal necessário para o partejamento de uma sociedade mais justa. O movimento vermelho, minoritário nas eleições, surge como a "maioria moral" e todos quantos se lhe opuserem receberão o labéu de "inimigos da classe trabalhadora", "políticos corruptos", "fabricadores de governos", "fantoches" e partidários de formações políticas "artificiais". Uma manifestação amarela (tradicionalista) ou uma manifestação cor-de-rosa (democrática) é um ajuntamento de "privilegiados", gente da "burocracia de Estado" (como se houvesse burocracia não estatal) e "alienados" pela ideologia real. Usa-se a expressão quando se pretende separar o "povo esclarecido" [vermelho] do "povo ignorante" [amarelo ou cor-de rosa]. Se a violência é amarela, é a "reacção", o "bunker", o "imobilismo" e a defesa de "interesses" que recorre à força para se manter "contra a História". Se a violência é vermelha, expressa o "profundo" descontentamento por um regime que não quis partilhar os benefícios da riqueza e monopolizou-os em poucas mãos.


3. Fazer crer que a revolução vermelha não é contra a monarquia. A verdade, há que dizê-lo, é que os movimentos revolucionários são gradualistas e jamais revelam os objectivos mais relevantes, apresentando-se inicialmente como reformadores e correctores de pequenos defeitos e falhas por forma a conquistar ou neutralizar a capacidade reactiva das pessoas politicamente mais distraídas ou menos preparadas. A estratégia é a de atacar instituições, pessoas e grupos separadamente, acusá-las de haverem desvirtuado a monarquia e pedirem uma monarquia mais aberta, moderna e acatadora da vontade popular; ou seja, uma monarquia trancada no palácio, rendida ao poder dos factos impostos, desprotegida e impotente. Começarão por abolir o Conselho Privado. Depois, a limpeza das forças armadas e da polícia, oo controlo dos orgãos de comunicação social, a reforma da "burocracia", a mudança dos códigos de etiqueta e o fim da "língua da corte". Sem protecção, esperarão pelo falecimento do monarca para iniciar a "revelação" de factos escaldantes relativos à família real: insulto, caricaturas, histórias de alcova, dinheiros e propriedades. Manterão a monarquia por alguns anos, para demonstrar aos cépticos que, afinal, o propósito era apenas o de fazer um novo pacto entre o povo e a monarquia. Depois, a monarquia vai a referendo e perde. O "povo" escolheu e quer um "dos seus" para presidir à nova Tailândia. Thaksin será "presidente do todos os tailandeses".


4. Fazer crer que a democracia à ocidental, já sem o papel moderador da Coroa, é um dado do tempo presente. A Tailândia terá partidos, certamente, pois o processo totalitário hodierno é diferente daquele que se viveu nos anos 30, 40 e 50. Contudo, será uma democracia nominal, pois "um homem um voto" pagará eterno agradecimento à "revolução libertadora" mantendo-a no poder ad aeternum. Os adversários da revolução, esses serão proibidos de concorrer às eleições e transformados em inimigos da democracia, atirados par o exílio, encarcerados, julgados por "crimes contra o povo" ou mortos. A Tailândia, hoje a única democracia no Sudeste-Asiático, aproximar-se-á então do "modelo regional" de democracia com "deficiências", mas as ONG's, os humam righters e os observadores e "experts" nela não detectarão nada que não exista no Camboja, na Malásia ou até no Vietname e Laos, estes dois últimos considerados "regimes comunistas" mas em "lenta abertura" e "agora mais respeitadores dos direitos humanos que no passado"



Marcha comunista do Angkar (Partido Comunista do Camboja)

05 Abril 2010

Agitprop, bombas e China, Abhisit fica e fortalece

Salta à evidência que a tentativa vermelha de conquista violenta do poder falhou. Os últimos acontecimentos, quiçá os últimos relevantes de uma série ininterrupta de incidentes minuciosamente preparados e apoiados do exterior demonstraram, ao contrário do que muitos pensavam, que a democracia tailandesa entrou na idade adulta, que o regime é sólido e tem a servi-lo a cidadania consciente, o funcionalismo de Estado, as forças armadas e uma plêiade de governantes inacessíveis ao medo, responsáveis e seguros.


O ataque ao coração do país falhou. Hoje, o sentimento prevalecente é que Abhisit, por quem poucos davam há um ano o simples benefício da dúvida, emerge e se agiganta como o defensor da liberdade e da monarquia, dos valores e da cultura de tolerância, da paciência e do diálogo perante adversários que vão revelando pelos actos, pelos modos e palavras, quão longe se encontram da Tailândia urbana, educada, alinhada com o Ocidente e aberta ao mundo. O movimento vermelho exibe tremenda fragilidade e só observadores obnubilados e privados de qualquer razoabilidade poderão insistir em apresentar os sucessivos actos de violência arruaceira como produto de uma quimérica luta pela libertação ou de um conflito entre ricos e pobres.


Sondagem acabada de sair, anuncia que Abhisit garante 40% de apoio do eleitorado, o que corresponde a um aumento de 10% em relação às eleições gerais de 2007. A crise que continue, pois se assim continuar Abhisit poderá atingir a maioria e prescindir de alguns associados menores. Onde está a minoria reaccionária, imobilista, aristocrática e anti-democrática ? Gostaria de lembrar que o partido thaksinista Phuea Thai conseguiu 36% nas eleições gerais de 2007 e que o governo em funções possui confortável maioria parlamentar.


Para quem continua habitado pelo demónio do totalitarismo - e há muito democrata reciclado do comunismo que jamais se libertou do esquematismo comunista dos anos 60 e 70 - a análise do processo tailandês parece violar toda a previsibilidade. Continuam a ver a Tailândia como um país subdesenvolvido, incapaz de se defender das desordens e crises que acometem as sociedades em transição, mas não compreendem que na actual crise quem representa o passado são os vermelhos e quem protagoniza a via da estabilidade e do governo representativo é o governo.


Por mais arruaças, terrorismo económico, bombas e ameaças que os vermelhos semeiem, forçando uma saída violenta que serviria para angariar o universal clamor condenatório, Abhisit não responde. A violência perde sempre perante uma não-violência segura e o poder da rua fica onde está, na rua. Ao longo dos últimos quinze dias foi-me possível detectar uma mudança generalizada de atitude por parte dos principais agentes envolvidos na intriga regional.


Os EUA tomaram, finalmente, a decisão de apoiar o regime, pois como aqui dissemos, a luta pela Tailândia joga-se no xadrez da crescente rivalidade sino-americana pelo controlo do Sudeste-Asiático e os vermelhos, tudo o indica, contam com a ajuda de Pequim. Foi Pequim quem fechou os olhos à fuga de Thaksin para o exílio, convidando-o primeiro para participar nas cerimónias de abertura dos Jogos Olímpicos de 2009 e, depois, terá feito os necessários arranjos para que outros países o acolherem e emitissem passaportes que o imunizaram face a pedidos de extradição. Thaksin, graças aos chineses, conseguiu no Camboja um protector regional. Ontem, Hun Sen, primeiro-ministro do Camboja, veio à Tailândia negociar com Abhisit, pois as perdas económicas do país vizinho, muito dependente da Tailândia, atingem números astronómicos. Quanto às grandes centrais de informação e desinformação planetárias, as BBC's, CNN's e France Presse's tornaram-se bem mais contidas. Acabou o noticiário forjado, a repetição de inverdades e a invenção de uma revolução libertadora. Hoje, prevalece a cautela disfarçada de imparcialidade. Abhisit ganhou na frente externa.


No plano interno, à liderança vermelha parece não mais restar que a fuga para a frente, que terminará, estou quase certo, na proibição do partido thaksinista (Phue Thai) por crimes contra a constituição, o Estado e as leis. A acontecer, o movimento, já muito minado por desinteligências, entrará em colapso e perderá capacidade de coordenação. Aguardemos os desenvolvimentos para saber se, uma vez mais, temos ou não razão no dom da antecipação.

Malditas gralhas

No texto ontem publicado aterraram incómodas gralhas, que só uma segunda leitura atenta permitiu limpar. Estando avariado o teclado português, vejo-me obrigado a usar um programa de conversão que não consegue discriminar acentos e cedilhas. As minhas desculpas.

04 Abril 2010

Combustões na noite Vermelha


Nota prévia
Desmentindo o tom iracundo da campanha incitada por Thaksin a partir do estrangeiro - muito bem assessorada pelos media de referência - pretendendo enervar as forças armadas e levá-las a intervir com inevitável derramamento de sangue, a verdade é que a Tailândia é uma plena democracia. Em qualquer respeitável democracia ocidental, os tanques há muito rolariam pelo asfalto, o gás lacrimogénio fumigaria generosamente os ajuntamentos e os canhões de água limpariam o centro de Banguecoque. Ao contrário do que aqui se passou há cerca de ano e meio, quando o PAD (Amarelos) ocuparam a sede do governo (então pró-Thaksin) o actual executivo de Abhisit não lançou por ora cargas policiais, não houve rebentamento de granadas e bombas na zona do acampamento vermelho e até tem havido fornecimento gratuito de água à multidão, concedida por decisão do governador da capital, "afecto à aristocracia possidente". Este é o verdadeiro double standard.

Ontem fui à zona da manifestação Vermelha. Não obstante repetidas ordens governamentais, os partidários de Thaksin não evacuaram a zona. Os prejuízos, acabo de ouvir, estão estimados em 600 milhões de Bath e, a continuar a campanha de sabotagem económica, muitos hotéis e centros comerciais do centro de Banguecoque terão de despedir funcionários.

Façamos, pois, o relato da madrugada de ontem. Como é nosso timbre, aqui não há corta-cola dos jornais nem impressões recolhidas por telefone, não se reproduzem rumores nem se fazem elocubrações. Retrata-se o que se viu, sem exagero, lirismo, facciosismo e lentes correctoras.


Uma cidade entregue ao poder da rua

Thanon Rama I, principal artéria comercial de Banguecoque, fechada ao trânsito. Por aqui passam, em dias normais, milhões de veículos, aqui acorrem centenas de milhares de pessoas. É a zona das grandes superfícies comerciais (Siam Paragon, MBK, Siam Discovery, Central World), das boutiques e restaurantes procurados pelos turistas e famílias tailandesas. Aqui se localizam quatro dezenas de hotéis de referência, bares e discotecas, o maior campo de golfe da cidade, a Universidade de Chulalongkorn, o Thao Maha Phorom (santuário) e o grande complexo do Templo de Phatumvanaram, a sede da polícia metropolitana e o seu hospital. Ontem pela tarde, cerca de 20.000 manifestantes ocuparam a zona e tudo parou.

Quantos são os manifestantes

Concentrados na intercessão de quatro grandes artérias, os Vermelhos montaram um palco iluminado por projectores, possuem oito grandes viaturas de som e uma dúzia de camiões em torno dos quais se concentram os elementos da segurança, postados à volta do palco central. A zona de ocupam não é grande. A massa de manifestantes concentra-se numa faixa com cerca de 300 ou 400 metros de profundidade. Ali estarão cerca de 10.000 pessoas sentadas no chão, dormindo, conversando ou ouvindo os líderes vermelhos. No terreiro fronteiro ao Central World estarão mil pessoas dormindo, comendo ou cantando.

Quem são os manifestantes

A maioria dos presentes não é de Banguecoque. São famílias por atacado, com pais, avós e filhos trazidos das mais remotas aldeias das províncias do nordeste (Issan). Perguntei a mais de vinte destes manifestantes de onde vinham e as respostas colhidas foram expressivas: Loey, Surin, Khonkaen, Sakoonnakthon, Roiet, Nongkhai, Yasotron. Socialmente, poderia caracterizá-los como proletariado rural, gente que trabalha à jornada e se encontra momentaneamente desocupada neste fim de estação seca, quando toda actividade sofre interrupção e se aguardam as primeiras chuvas para o início do ano agrícola.



Os tipos étnicos são, para quem conhece o país e passou uma vista de olhos pela abundante bibliografia disponível - Karl Döhring, Schliesinger, Seri Phongpit - um retrato fiel da Tailândia rural. Tudo os distingue da população urbana: no falar quase ininteligível para aqueles que só conhecem a língua thai da capital, na profusão de amuletos, no dançar, na forma de sentar - agachados e sentados sobre os joelhos - na comida consumida e até nos hábitos de higiene.

Cada grupo tem um chefe, habitualmente trajando de negro e vestindo calças camufladas. Sobre o peito, pende um cartão com o nome da localidade de origem, cartão de membro do partido thaksinista e um número que não consegui compreender, mas que julgo indica o número de pessoas que dirige; reminiscência dos nay feudais que exibiam carta patente da sua força de trabalho.


Os tipos predominantes são o Lao-Issan e o thai-khmér, mas também lobriguei alguns lao-chineses, com traços chineses mas pele muito escura, populações que se concentram nas fronteiras com o Camboja e Laos e se cruzaram com as populações nativas.


Há, também, proletariado urbano originário do Issan. São diferentes dos restantes, pois já evidenciam comportamentos citadinos, falam uns farrapos de inglês e são menos inibidos. Trabalham em companhias de segurança, supermercados, são vendedores ambulantes, operários não especializados, taxistas e táxi-motoristas, empregados de restaurantes e pessoal de limpeza.

Um dos traços identificadores destes recém-chegados à grande cidade é o pó de talco que usam como protector contra o calor e contra o tão temido bronzeamento, pois na Tailândia a tez escura é repelida como marca de ruralidade e exposição ao sol. Depois, a música que os anima à dança é o folk do Issan, muito popular entre os núcleos de retirantes vivendo na cidade e já não a música tradicional executada com os velhos instrumentos de sopro.

O caldo ideológico


Vermelho rima com Coca Cola e Vietname, comunismo mais consumo, parece ser a grande aspiração destes militantes que se batem sob a bandeira do mais rico dos tailandeses (Thaksin). Um cartaz chamou-me à atenção e não deixa de constituir um flagrante da impreparação política do partido Vermelho. Pedem uma Tailândia não corrompida e têm como líder o mais corrupto dos tailandeses. Pedem a dissolução do parlamento e a demissão do governo, mas o parlamento foi eleito pelo povo tailandês e o governo actual saiu de uma solução maioritaria constitucionalmente contemplada pelas leis em vigor, pelo que a actual legislatura só deverá terminar em 2011, altura em que Abhisit, no cumprimento do calendário eleitoral, deverá convocar novas eleições.

O vermelho é a cor dominante. Camisas do Liverpool e até camisas da selecção nacional portuguesa, muito popular entre os fãs do futebol, encontram-se um pouco por todos os cantos da multidão. O fulano na foto ficou encantado quando lhe disse que era português e abandonou de imediato a repetição dos slogans "Abhisit Fora" e "Governo para a Rua" para gritar a plenos pulmões "Ró-Ná-Dú", "Ró-Ná-Dú".

As milícias


Gente armada de varapaus, lanças artesanais e barras de ferro circula entre os manifestantes. Os guardas trajando de negro, esses terão armas de fogo, mas não as exibem, pois parece importante manter para o exterior a imagem de um movimento pacífico. Ao aproximar-me de uns trinta indivíduos de capacete e casacões militares, foi-me dito que não os fotografasse, pois são os elementos da força de choque postada atrás do palco, responsáveis pela segurança dos líderes vermelhos. Afastei-me uns dez metros e tentei novamente. Desta vez fui bem sucedido. Os guardas até me ofereceram uma garrafa de água e disseram aguardar com impaciência o ataque do exército. Disse-lhes que não, que não haveria sangue. Ficaram surpreendidos quando afirmei que Abhsit não era um general-ditador e que não queria ver sangue derramado nas ruas de Banguecoque. O mais velho confessou-me que Khun Abhisit pen khon díí, tée ratamontrí hên pén khon may díí - o Abhisit é boa pessoa, mas os outros ministros são gente má.



O lixo e o fedor

Aquela que foi a mais cosmopolita artéria de Banguecoque está transformada num imenso vazadouro de lixo exalando emanações que desafiam as narinas mais insensíveis. Com a temperatura a rondar os 38 graus, a decomposição de alimentos, a urina e fezes emprestam à avenida o retrato da perda de autoridade que tomou de assalto o coração comercial e turístico da capital.


Há milhares de quilos de garrafas, sacos plásticos, recipientes de esferovite e restos de comida amontoados por todo o recinto. Não vi qualquer brigada de limpeza em actuação. Em frente dos melhores hotéis, empregados tentam minimizar o impacto do flagelo que se abateu sobre o distrito, mas só com o concurso dos serviços municipalizados se poderá retirar à capital o toque de Phnom Pehn que se instalou na Cidade dos Anjos (Banguecoque).



As necessidades fisiológicas de milhares de pessoas inundam a avenida e desautorizam qualquer lirismo revolucionário. Um estrangeiro saído de um hotel de máquina em riste e largo sorriso retrocedeu com vómitos e perdeu de imediato o impulso aventureiro de assistir a uma revolução.



Hamburguer Hill

03 Abril 2010

Noite escaldante em Banguecoque

Ao lado de minha casa, barricadas vermelhas aguardam assalto do Exército e da Polícia de Intervenção. Os vermelhos lançaram hoje uma vasta operação de subversão e terrorismo económico visando a principal zona comercial da capital. Os prejuízos ascendem a 70 milhões de Bath. O vice-primeiro ministro ordenou aos vermelhos que evacuassem o centro de Banguecoque até às 23.15, hora local, mas o ultimato foi recusado. Combustões vai ver in loco o desenrolar da situação e aqui estarei de novo para relatar o que vi.

02 Abril 2010

A Maioria Silenciosa anti-vermelha

A paciência esgotou-se. Os thais começam a sair às ruas empunhando bandeiras reais, fotos do Rei e slogans anti-vermelhos. Pelo segundo dia consecutivo, manifestações de repúdio pela onda de instabilidade criada pelos estipendiados por Thaksin tomaram conta do centro de Banguecoque. Ontem passei por Lumpini, o grande parque no centro da capital e fiquei esclarecido dos motivos daquele ajuntamento. Repetiam-se palavras de ordem em defesa do Rei, do Primeiro-Ministro Abhisit e sucessivos Song Phra Charoen, Song Phra Charoen (Viva o Rei, Viva o Rei). Aqueles milhares de cidadãos não foram trazidos em autocarros, nem pagos, alimentados ou vestidos. Apareceram e deram espontânea manifestação de apoio à monarquia, à democracia e às leis.

Sobre tudo isto, claro, Rádio Moscovo nada diz. Não interessa, é irrelevante, não faz manchete dos pregoeiros das revoluções mitificadas, mesmo que essas revoluções sejam encomendadas pelas centrais da ingerência e que os revolucionários não passem de pobre gente arrebanhada e trazida sem conhecer o motivo da guerra em que a envolveram. Ontem, a caminho da Biblioteca Nacional, atravessei de táxi o que resta do acampamento vermelho. Aquilo é uma desgraça de sujidade, gente esfomeada e vivendo em condições que partiriam o coração a qualquer ONG. É assim que Thaksin trata a sua gente. A onda vermelha - que o não foi - está com os dias contados. Falharam clamorosamente em Banguecoque e não consguiram atingir um só dos objectivos propostos.

A placidez thai começa a abrir brechas. As pessoas já se referem directamente a Thaksin como "o ladrão" (Khun Jón), traidor e inimigo do Rei. Os seguidores do proscrito começam, por sua vez, a saborear o amargo cálice da ira popular. Os motociclistas vermelhos são atacados, tiram-lhes e rasgam-lhes as bandeiras, atiram-lhes baldes de água e acusam-nos de bandidos. Acabou a impunidade. Não foi necessária a intervenção das forças armadas, nem a intervenção das milícias da direita tradicionalista e Amarela. Bastou a população comum para refrear os ânimos vermelhos. A revolução que o não foi estilhaça-se dia a dia, hora a hora, na Cidade do Rei.

Abhisit, o líder monárquico e primeiro-ministro, não cabe em si de satisfação. Ontem aparceu no parlamento com um largo sorriso e pose descontraída, prova da evolução favorável da situação e muito animado pelo apoio que vai recebendo da Maioria Silenciosa que aguardou o momento exacto para passar à ofensiva. Disto, Rádio Moscovo não falará.



Hino Real

01 Abril 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia: o Rei do Sião salvo pelos portugueses


Portugal enquanto Potência Histórica

Portugal mantém ainda no Sudeste-Asiático o papel de "Potência Histórica" e nessa condição convoca a memória de um tempo em que foi pioneiro nas relações entre o Ocidente e as politéias budistas desta região do planeta.
A expressão Potência Histórica foi cunhada pelo Professor Vasconcelos de Saldanha e surge como a mais feliz síntese de tudo quanto Portugal, já após o ocaso do império oriental, representava para as potências asiáticas ao longo dos séculos XVIII e XIX: a de um Estado europeu que favorecia o relacionamento paritário Estado-a-Estado entre as potências europeias e os potentados regionais que, depois, os imperialismos e colonialismos francês e britânico quiseram extirpar e substituir pelo direito da força. Infelizmente, a nossa historiografia tem dado pouca, senão nenhuma atenção à história diplomática portuguesa na Ásia das Monções e subcontinente indiano após a grande viragem do século XVII, quando Portugal trocou a opção oriental pela atlântica, movendo o eixo central do seu império para o Brasil e Golfo da Guiné. Oferecemos hoje um exemplo elucidativo da permanência do estatuto que continuou a assistir Portugal enquanto agente de intermediação reconhecido pelas demais potências.

O Rei Chulalongkorn
Crise do Palácio Fronteiro. Sião, 1874-75
O Sião possuia, na tradição indiana, uma monarquia bicéfala. Contrariando a lenda do "despotismo oriental" que o Iluminismo espalhou como característica definidora de um regime centrado na figura do Rei, o Sião era uma politéia plural. O Rei dividia funções com um "Segundo Rei" (Uparat), o qual intervinha em todas as tarefas da governação, possuía exército e funcionários, corte própria, dispunha de autonomia sucessória e só dependia do Primeiro Rei em matéria de cabimentação orçamental. Residia o Uparat no Palácio Fronteiro (วังหน้า=Wang Na) e era um poderoso contra-peso e até rival do primeiro titular do Estado. A tensão entre os dois palácios foi marca da vida política siamesa ao longo dos séculos, mas durante o período Banguecoque assumiu por vezes uma tal crispação que quase precipitou o país na guerra civil. Rama I, o primeiro rei da actual dinastia (r.1782-1809), teve de defrontar permanente luta contra o seu Segundo Rei. Ao morrer o Segundo Rei, os seus filhos tentaram um complot contra Rama I, mas a conspiração foi descoberta e estes sumariamente executados.

Uparat ou "Segundo Rei" do Sião

Quando o Rei Rama IV (Mongkut) morreu, em 1868, o poder foi exercido por um regente (Suriyawongse) até que o filho mais velho do falecido rei (Chulalongkorn) atingisse a maioridade. Chulalongkorn (Rama V) assumiu plenas funções em 1873. Concomitantemente, o seu primo Vichaichan recebeu o Uparat. O novo Uparat era a cabeça do chamado Sião Conservador, poderosa facção que, não sendo xenófoba, queria uma lenta transição do regime e exigia que as relações entre o país e os estrangeiros (europeus) fossem marcadas por absoluta paridade, na linha que o tratado luso-siamês de 1820 estabelecera. Era o Sião Conservador uma força revisionista, pois sugeria que os tratados desiguais recentemente firmados entre o Sião e as potências ocidentais fossem corrigidos e se regressasse à letra e espírito do tratado com Portugal. Uma outra facção, hoje apelidada Velho Sião, reunia a velha aristocracia e era adversa a qualquer alteração do regime, opunha-se a qualquer cedência aos europeus e era, até, partidária do caminho da guerra se os europeus ameaçassem o país. A estes dois partidos opunha-se o chamado Jovem Sião, liderado pelo novo Rei Chulalongkorn, que defendia a total abertura ao estrangeiro, a modernização tecnológica e construção do Estado moderno à imagem dos Estados-nação europeus.

Quando o Jovem Sião quis proceder à revisão da constituição histórica do Sião, antiga de 300 anos, pedindo a concentração de poderes nas mãos do Primeiro Rei, bem como a revisão da política fiscal e a criação de novos organismos de governação - nomeadamente o Conselho Privado do Rei - o Sião Conservador, liderado pelo Uparat, opôs resistência. Ao Sião Conservador juntaram-se as forças do Velho Sião. O país estava na iminência de uma luta civil.

Depois de uma série de acidentes que não cabe aqui evocar, o Primeiro Rei (Rama V) mandou cercar o Palácio Fronteiro. O Uparat (Segundo Rei) contava com o apoio de peso do principal representate diplomático acreditado em Banguecoque, o cônsul britânico Fox.

Januário Correia de Almeida


A intervenção decisiva do Embaixador Português

A tensão que se vivia conheceu um crescendo ao longo de todo o ano de 1874. Era novo governador de Macau Januário Correia de Almeida, Barão de S. Januário (depois sucessivamente Visconde e Conde de S. Januário) e, nessas funções, exercia por inerência o cargo de embaixador de Portugal junto das cortes chinesa, japonesa e siamesa. S. Januário conhecera o Rei Chulalongkorn quando este, ainda menor, visitara a Índia britânica em 1871. Entre os dois estabelecera-se grande confiança e amizade que se prolongaria pelos anos. Em Novembro de 1874, S. Januário, em carta enviada ao Chao Phrya Phra Khlang (Ministro siamês dos Estrangeiros) informava que visitaria Banguecoque em finais desse mês para apresentar cartas credenciais. Tudo indica que S. Januário fora informado pelo Rei Rama V da crispação entre os dois palácios, pois o governador de Macau precipitou a viagem e seguiu a bordo de um veleiro de Hong Kong, dispensando o habitual vaso de guerra português que levava os embaixadores ao Sião. S. Januário chegou a Banguecoque e foi recebido informalmente pelo Rei. Dias depois, rebentava a crise e os dois palácios envolveram-se em escaramuças. O cônsul britânico Fox, amigo do Segundo Rei, permitiu que o Uparat fugisse do seu palácio para a legação britânica. Era como se a Grã-Bretanha tomasse partido do Sião Conservador e requeresse a intervenção militar armada inglesa contra Rama V. Nessa tarde de 5 de Janeiro de 1875, o Chao Phraya Phra Khlang convocava o Embaixador português e o cônsul-geral de Portugal para uma reunião de urgência no palácio real. Não sabemos o que se terá tratado nesse encontro, mas tudo indica que S. Januário tomou a decisão de entrar em contacto directo com o governador de Singapura, Sir Andrew Clark, homem que bem conhecia e que tinha pelo Rei Rama V grande afecto. O Rei Rama V enviou, datada de 5 de Janeiro, um cabograma a Clark após o encontro com S. Januário. Coincidência ? Não, evidência do conselho do embaixador português.

Sir Andrew Clark
O governador britânico de Singapura mandou um telegrama, informando que só chegaria a Banguecoque no dia 18 de Fevereiro. Entretanto, temia-se uma sublevação contra o Primeiro Rei. No dia 12 de Fevereiro, S. Januário foi recebido de novo por Rama V e terá assegurado o apoio português e fornecido importante informação sobre a iminente intervenção de Sir Andrew Clark, já consertado com os portugueses. A chegada de Andrew Clark coincide com a partida de S. Januário. Não sabemos se os dois governadores se terão encontrado, mas surge como evidência que Portugal mantivera em Banguecoque o seu embaixador até à chegada do diplomata britânco, que descompôs e desautorizou o cônsul Fox e tomou o partido oficial do Rei contra o Segundo rei.
Em 1897, Chulalongkorn visitou Portugal. No dia da chegada, com uniforme de general da Guarda Real, o velho Januário Correia de Almeida cavalgava ao lado da carruagem descoberta do rei siamês. Chulalongkorn jamais terá esquecido que devia àquele idoso o trono em que se sentava e a coroa que cingia.


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