03 abril 2010

Noite escaldante em Banguecoque

Ao lado de minha casa, barricadas vermelhas aguardam assalto do Exército e da Polícia de Intervenção. Os vermelhos lançaram hoje uma vasta operação de subversão e terrorismo económico visando a principal zona comercial da capital. Os prejuízos ascendem a 70 milhões de Bath. O vice-primeiro ministro ordenou aos vermelhos que evacuassem o centro de Banguecoque até às 23.15, hora local, mas o ultimato foi recusado. Combustões vai ver in loco o desenrolar da situação e aqui estarei de novo para relatar o que vi.

02 abril 2010

A Maioria Silenciosa anti-vermelha

A paciência esgotou-se. Os thais começam a sair às ruas empunhando bandeiras reais, fotos do Rei e slogans anti-vermelhos. Pelo segundo dia consecutivo, manifestações de repúdio pela onda de instabilidade criada pelos estipendiados por Thaksin tomaram conta do centro de Banguecoque. Ontem passei por Lumpini, o grande parque no centro da capital e fiquei esclarecido dos motivos daquele ajuntamento. Repetiam-se palavras de ordem em defesa do Rei, do Primeiro-Ministro Abhisit e sucessivos Song Phra Charoen, Song Phra Charoen (Viva o Rei, Viva o Rei). Aqueles milhares de cidadãos não foram trazidos em autocarros, nem pagos, alimentados ou vestidos. Apareceram e deram espontânea manifestação de apoio à monarquia, à democracia e às leis.

Sobre tudo isto, claro, Rádio Moscovo nada diz. Não interessa, é irrelevante, não faz manchete dos pregoeiros das revoluções mitificadas, mesmo que essas revoluções sejam encomendadas pelas centrais da ingerência e que os revolucionários não passem de pobre gente arrebanhada e trazida sem conhecer o motivo da guerra em que a envolveram. Ontem, a caminho da Biblioteca Nacional, atravessei de táxi o que resta do acampamento vermelho. Aquilo é uma desgraça de sujidade, gente esfomeada e vivendo em condições que partiriam o coração a qualquer ONG. É assim que Thaksin trata a sua gente. A onda vermelha - que o não foi - está com os dias contados. Falharam clamorosamente em Banguecoque e não consguiram atingir um só dos objectivos propostos.

A placidez thai começa a abrir brechas. As pessoas já se referem directamente a Thaksin como "o ladrão" (Khun Jón), traidor e inimigo do Rei. Os seguidores do proscrito começam, por sua vez, a saborear o amargo cálice da ira popular. Os motociclistas vermelhos são atacados, tiram-lhes e rasgam-lhes as bandeiras, atiram-lhes baldes de água e acusam-nos de bandidos. Acabou a impunidade. Não foi necessária a intervenção das forças armadas, nem a intervenção das milícias da direita tradicionalista e Amarela. Bastou a população comum para refrear os ânimos vermelhos. A revolução que o não foi estilhaça-se dia a dia, hora a hora, na Cidade do Rei.

Abhisit, o líder monárquico e primeiro-ministro, não cabe em si de satisfação. Ontem aparceu no parlamento com um largo sorriso e pose descontraída, prova da evolução favorável da situação e muito animado pelo apoio que vai recebendo da Maioria Silenciosa que aguardou o momento exacto para passar à ofensiva. Disto, Rádio Moscovo não falará.



Hino Real

01 abril 2010

História desconhecida dos portugueses na Ásia: o Rei do Sião salvo pelos portugueses


Portugal enquanto Potência Histórica

Portugal mantém ainda no Sudeste-Asiático o papel de "Potência Histórica" e nessa condição convoca a memória de um tempo em que foi pioneiro nas relações entre o Ocidente e as politéias budistas desta região do planeta.
A expressão Potência Histórica foi cunhada pelo Professor Vasconcelos de Saldanha e surge como a mais feliz síntese de tudo quanto Portugal, já após o ocaso do império oriental, representava para as potências asiáticas ao longo dos séculos XVIII e XIX: a de um Estado europeu que favorecia o relacionamento paritário Estado-a-Estado entre as potências europeias e os potentados regionais que, depois, os imperialismos e colonialismos francês e britânico quiseram extirpar e substituir pelo direito da força. Infelizmente, a nossa historiografia tem dado pouca, senão nenhuma atenção à história diplomática portuguesa na Ásia das Monções e subcontinente indiano após a grande viragem do século XVII, quando Portugal trocou a opção oriental pela atlântica, movendo o eixo central do seu império para o Brasil e Golfo da Guiné. Oferecemos hoje um exemplo elucidativo da permanência do estatuto que continuou a assistir Portugal enquanto agente de intermediação reconhecido pelas demais potências.

O Rei Chulalongkorn
Crise do Palácio Fronteiro. Sião, 1874-75
O Sião possuia, na tradição indiana, uma monarquia bicéfala. Contrariando a lenda do "despotismo oriental" que o Iluminismo espalhou como característica definidora de um regime centrado na figura do Rei, o Sião era uma politéia plural. O Rei dividia funções com um "Segundo Rei" (Uparat), o qual intervinha em todas as tarefas da governação, possuía exército e funcionários, corte própria, dispunha de autonomia sucessória e só dependia do Primeiro Rei em matéria de cabimentação orçamental. Residia o Uparat no Palácio Fronteiro (วังหน้า=Wang Na) e era um poderoso contra-peso e até rival do primeiro titular do Estado. A tensão entre os dois palácios foi marca da vida política siamesa ao longo dos séculos, mas durante o período Banguecoque assumiu por vezes uma tal crispação que quase precipitou o país na guerra civil. Rama I, o primeiro rei da actual dinastia (r.1782-1809), teve de defrontar permanente luta contra o seu Segundo Rei. Ao morrer o Segundo Rei, os seus filhos tentaram um complot contra Rama I, mas a conspiração foi descoberta e estes sumariamente executados.

Uparat ou "Segundo Rei" do Sião

Quando o Rei Rama IV (Mongkut) morreu, em 1868, o poder foi exercido por um regente (Suriyawongse) até que o filho mais velho do falecido rei (Chulalongkorn) atingisse a maioridade. Chulalongkorn (Rama V) assumiu plenas funções em 1873. Concomitantemente, o seu primo Vichaichan recebeu o Uparat. O novo Uparat era a cabeça do chamado Sião Conservador, poderosa facção que, não sendo xenófoba, queria uma lenta transição do regime e exigia que as relações entre o país e os estrangeiros (europeus) fossem marcadas por absoluta paridade, na linha que o tratado luso-siamês de 1820 estabelecera. Era o Sião Conservador uma força revisionista, pois sugeria que os tratados desiguais recentemente firmados entre o Sião e as potências ocidentais fossem corrigidos e se regressasse à letra e espírito do tratado com Portugal. Uma outra facção, hoje apelidada Velho Sião, reunia a velha aristocracia e era adversa a qualquer alteração do regime, opunha-se a qualquer cedência aos europeus e era, até, partidária do caminho da guerra se os europeus ameaçassem o país. A estes dois partidos opunha-se o chamado Jovem Sião, liderado pelo novo Rei Chulalongkorn, que defendia a total abertura ao estrangeiro, a modernização tecnológica e construção do Estado moderno à imagem dos Estados-nação europeus.

Quando o Jovem Sião quis proceder à revisão da constituição histórica do Sião, antiga de 300 anos, pedindo a concentração de poderes nas mãos do Primeiro Rei, bem como a revisão da política fiscal e a criação de novos organismos de governação - nomeadamente o Conselho Privado do Rei - o Sião Conservador, liderado pelo Uparat, opôs resistência. Ao Sião Conservador juntaram-se as forças do Velho Sião. O país estava na iminência de uma luta civil.

Depois de uma série de acidentes que não cabe aqui evocar, o Primeiro Rei (Rama V) mandou cercar o Palácio Fronteiro. O Uparat (Segundo Rei) contava com o apoio de peso do principal representate diplomático acreditado em Banguecoque, o cônsul britânico Fox.

Januário Correia de Almeida


A intervenção decisiva do Embaixador Português

A tensão que se vivia conheceu um crescendo ao longo de todo o ano de 1874. Era novo governador de Macau Januário Correia de Almeida, Barão de S. Januário (depois sucessivamente Visconde e Conde de S. Januário) e, nessas funções, exercia por inerência o cargo de embaixador de Portugal junto das cortes chinesa, japonesa e siamesa. S. Januário conhecera o Rei Chulalongkorn quando este, ainda menor, visitara a Índia britânica em 1871. Entre os dois estabelecera-se grande confiança e amizade que se prolongaria pelos anos. Em Novembro de 1874, S. Januário, em carta enviada ao Chao Phrya Phra Khlang (Ministro siamês dos Estrangeiros) informava que visitaria Banguecoque em finais desse mês para apresentar cartas credenciais. Tudo indica que S. Januário fora informado pelo Rei Rama V da crispação entre os dois palácios, pois o governador de Macau precipitou a viagem e seguiu a bordo de um veleiro de Hong Kong, dispensando o habitual vaso de guerra português que levava os embaixadores ao Sião. S. Januário chegou a Banguecoque e foi recebido informalmente pelo Rei. Dias depois, rebentava a crise e os dois palácios envolveram-se em escaramuças. O cônsul britânico Fox, amigo do Segundo Rei, permitiu que o Uparat fugisse do seu palácio para a legação britânica. Era como se a Grã-Bretanha tomasse partido do Sião Conservador e requeresse a intervenção militar armada inglesa contra Rama V. Nessa tarde de 5 de Janeiro de 1875, o Chao Phraya Phra Khlang convocava o Embaixador português e o cônsul-geral de Portugal para uma reunião de urgência no palácio real. Não sabemos o que se terá tratado nesse encontro, mas tudo indica que S. Januário tomou a decisão de entrar em contacto directo com o governador de Singapura, Sir Andrew Clark, homem que bem conhecia e que tinha pelo Rei Rama V grande afecto. O Rei Rama V enviou, datada de 5 de Janeiro, um cabograma a Clark após o encontro com S. Januário. Coincidência ? Não, evidência do conselho do embaixador português.

Sir Andrew Clark
O governador britânico de Singapura mandou um telegrama, informando que só chegaria a Banguecoque no dia 18 de Fevereiro. Entretanto, temia-se uma sublevação contra o Primeiro Rei. No dia 12 de Fevereiro, S. Januário foi recebido de novo por Rama V e terá assegurado o apoio português e fornecido importante informação sobre a iminente intervenção de Sir Andrew Clark, já consertado com os portugueses. A chegada de Andrew Clark coincide com a partida de S. Januário. Não sabemos se os dois governadores se terão encontrado, mas surge como evidência que Portugal mantivera em Banguecoque o seu embaixador até à chegada do diplomata britânco, que descompôs e desautorizou o cônsul Fox e tomou o partido oficial do Rei contra o Segundo rei.
Em 1897, Chulalongkorn visitou Portugal. No dia da chegada, com uniforme de general da Guarda Real, o velho Januário Correia de Almeida cavalgava ao lado da carruagem descoberta do rei siamês. Chulalongkorn jamais terá esquecido que devia àquele idoso o trono em que se sentava e a coroa que cingia.


Let Us cross the river

31 março 2010

A criança universal


Eles estão entre nós

No passado sábado, na mais portuguesa das casas de Banguecoque, o anfitrião desenvolveu com sagacidade e erudição uma oportuna reflexão em voz alta sobre o Triunfo dos Porcos, lembrando a actualidade de Orwell. O autor de 1984 e de Burmese Days, ao contrário do que muitos pensam, não é datável nem se deve circunscrever à crítica desse tremendo desastre que foi o socialismo real. A escrita de Orwell mantém o raro condão da plena legibilidade, pelo que as suas metáforas cumprem os requisitos da universalidade da obra. Ao passar hoje por uma sala de exposições, deparei com dois eloquentes testemunhos pictóricos orwellianos. Os porcos de hoje já não vestem as farpelas de comissários de boina verde acachapada, mas as frioleiras da Armani. Os porcos de hoje não declamam sobre a posse colectiva da propriedade, os planos quinquenais, o stakanovismo, a conspiração internacional contra o paraíso cercado de arame farpado, mas prometem a abastança colectiva, o direito universal ao colesterol, o direito às guerras de libertação daqueles que eles pensam penar sob o jugo de arcaicas instituições. Os porcos de ontem exigiam a pobreza colectiva; os porcos de hoje acenam com a universalização da riqueza. Os porcos de ontem queriam destruir tudo o que lembrasse o passado: queimaram livros, destruiram as obras de arte, erradicaram as "superstruturas" e acenaram com o Homem Novo. Os porcos de hoje transformaram a cultura numa indústria e a indústria em cultura, partindo do pressuposto que aquilo a que as pessoas dão importância e compram constitui marca de qualidade; logo, Emily Brontë vale menos que Margarida Rebelo Pinto.


Os porcos de ontem tinham uma obsessão: destruir os tronos, todos os tronos. Os porcos de hoje têm uma obsessão: alcandorarem-se a tronos de ouro maciço e pedras rutilantes. Para isso, para que ninguém tenha a veleidade da comparação, querem ver desaparecidos os tronos de outrora, não querem ser confrontados com verdadeiros reis, verdadeiros príncipes e velhos ecos sociais da ordem antiga. Tudo tem de desaparecer para, sós e sem acareação, constituirem a nova realeza dos pneus, a nova aristocracia dos cartões de crédito, os príncipes da banca, dos supermercados, dos centros comerciais, tudo recoberto com ONG's, humanitarismo, bolsas e prémios, galardões e publicidade. Antes, os velhos tronos falavam de literatura, de história, de espiritualidades: hoje, os novos tronos falam de "ilhas de sonho", marcas de charutos, "vinhos de reserva", do novo Maserati, do golf, de Las Vegas, de Macau e de jactos para Executive Flyers.


Os porcos de ontem odiavam o dinheiro, mas usurpavam os bens produzidos pelos outros animais, reduzidos de novo à servidão. Os porcos de hoje não trabalham. Se falam em capitalismo, vivem da riqueza dos contribuintes, da tirania fiscal, do terrorismo da lei que só se aplica aos reticentes. Vivem acomodados na faladura sobre as pobrezas do mundo, mas todo o dinheiro que lhes enche as contas bancárias provém do Estado e dos contribuintes. É o socialismo de financiação. Nunca correm riscos: nunca abriram uma loja, uma empresa, não deram emprego a quem quer que fosse. O dinheiro vem todo dos outros. Assim vale a pena.



Selección de Polkas



O discurso da amálgama. Confundir tudo para instalar o "mercado"

30 março 2010

Voltar aos 10.000

10.000 era o meu número. Depois, sem a política de campanário, amansadas as fúrias caseiras, longe da vista e do coração tudo o que me impacientava, mudei o rumo desta tribuna. Não há futebol - goste dele quem gostar - mais nudezas, palavrotas e insultos. Ficou o Sudeste-Asiático, o meu horizonte de hoje. De início, foi o descalabro. Ninguém gosta de escrever para um auditório vazio. Foi um longo pedra a pedra. Alguém terá dito que lê este blogue como uma fuga diária, um escape, uma evasão exótica. Aceito, estas páginas serão para muitos uma versão adulta do Salgari, com rajás e sultões, piratas e heróis de ontem e hoje. Agora, sim, volto ao meu Combustões como era, com 10.000 leitores mensais. Obrigado pelo interesse.

29 março 2010

Na biblioteca de um fascista que se converteu à monarquia


Vive entre os EUA - onde foi professor catedrático de oncologia pediátrica - e Banguecoque, onde possui um pequeno apartamento uns andares abaixo do meu. É um senhor com cerca de oitenta anos, toque aristocrático e aspecto jovial. Todas as manhãs faz uma hora de pesos no ginásio e dá umas quantas braçadas na piscina. Depois, reclina-se na cadeira de lona, lê os jornais e abre um livro. Há tempos, apresentei-me e ali estivemos uma manhã inteira falando de história da Tailândia. Nessa tarde, o porteiro veio dar-me um envelope contendo um livro intitulado Rattanakosin de Outrora, ou seja, Banguecoque de outros tempos. A assinatura autográfica era a do meu vizinho: Vibul Vichit-Vadakan. O apelido despertou-me atenção. Vichit-Vadakan ? O teórico do nacionalismo radical thai, que foi o maior panfletário da sua geração, director do Instituto de Belas Artes, ministro dos negócios estrangeiros da Tailândia durante a guerra (1942-1944), autor de novelas, peças de teatro, ensaios políticos e filosóficos ? Retribuí a amável aferta com o catálogo de uma exposição realizada na Biblioteca Nacional de Portugal em 2005, intitulada Os Portugueses e o Oriente (1840-1940), da qual eu fora comissário. Dias depois, ao encontrá-lo de novo, confirmei o parentesco de Luang Vichit-Vadakan e falámos nesse período em que o Sião abandonou o absolutismo régio, redigiu a primeira constituição e outorgou a soberania ao povo.


Foi uma revolução que começou sob os melhores auspícios e terminou numa brutal ditadura que mudou para sempre o destino e feição desta sociedade, trouxe os militares e a burocracia para o poder e ensaiou, no quadro tailandês, a via siamesa para o totalitarismo. O pai Vadakan estudara em Paris, onde se apaixonou por uma francesa - com quem viria a casar - mas também pela cultura política europeia de então, marcada pelo nacionalismo extremista e pela tentação de um mundo novo que o comunismo anunciava. Vadakan fez amizade em Paris um outro estudante siamês chamado Plaek Khittasangkha, que o mundo viria a conhecer como Phibun Songkram, o homem que chegou a ditador fascista da Tailândia e, depois, reciclado pelo Ocidente nos anos da Guerra Fria, voltaria ao poder com o beneplácito de Washington.

Secretária de trabalho de Vichit-Vadakan
Chegados ao poder através de um golpe militar, os jovens revolucionários de 1932 impuseram ao Rei Prajadiphok (Rama VII) uma constituição - jamais referendada - e conseguiram durante quatro anos manter a aparência de uma frente política incluindo os elementos mais reformistas e "avançados" do Sião urbano. Contudo, esse grupo heteróclito que se deixara seduzir pelo Ocidente, incluia monárquicos liberais, socialistas, comunistas e fascistas. As tensões iniciais foram resolvidas, pois os laços pessoais de amizade que os uniam pareciam poder conter as divergências profundas que os separavam. No fim, Phibun sobrepôs-se e assumiu a figura de ditador, declarando o banimento das oposições, a constituição de um partido único e produção legislativa muito próxima daquela que então se ia ensaiando na Alemanha nacional-socialista. Exaltava-se o militarismo, o expansionismo territorial, a cultura thai sobre o "elemento externo" (muçulmanos, católicos e minorias étnicas) e pela primeira vez em 700 anos de história, os thais viram desaparecer de cena a figura do Rei. Prajadiphok, homem gentil e adepto de uma solução à inglesa, não quis mais aceitar o crescendo totalitário e, pretextando uma viagem à Europa por motivos de saúde, ali contestou os atropelos e ameaças de que fora objecto enquanto monarca constitucional. Phibun mandou que todos os retratos do Rei fossem retirados e destruídos, baniu a família real, lançou milhares de monárquicos nas prisões e campos de concentração e emitiu decretos contra qualquer pessoa que ousasse defender publicamente a pessoa do monarca exilado. Para salvar a instituição, Rama VII abdicou e a chefia da Casa Real passou para um seu sobrinho, uma criança de nove anos chamada Ananda Mahidol, que vivia na Suíça. Ouro sobre azul para Phibun. Foi nomeada uma regência e o país assim ficaria ao longo dos 15 anos seguintes entregue à ficção de uma monarquia com um Rei ausente.

Propaganda de Vadakan: tirar das paredes tudo o que lembrasse o Ocidente

Onde antes havia a figura paternal do Rei, passou a dominar a de um Phibun "Pai da Pátria", homem da providência, "Consciência da Nação", "Primeiro Cidadão". Coube a Vadakan o papel de promotor do novo regime. Homem de letras, bom organizador e conhecedor das técnicas de condicionamento massivo, foi pró-ministro da propaganda. Através da rádio e dos jornais, nas salas de cinema, nas escolas e nas empresas passou a vigorar o culto do novo herói thai. Os thais foram mobilizados para descobrirem e denunciarem os inimigos "internos", os "parasitas do povo" (aristocratas), os "judeus do Oriente" (chineses), os "cúmplices do colonialismo" (católicos) e os "elementos anti-nacionais" (contestatários). De 1938 a 1942, foram emitidos 12 Mandatos Culturais que cobriam legislação sobre o trajar, o decoro, a atenção devida aos idosos e aos doentes, os horários do sono e de vigília, o uso obrigatório de uniforme, o que se devia comer e o que não se devia, a natalidade e a fertilidade, expressões de cortesia, a nova caligrafia, o uso obrigatório de cinzeiros, o teatro legal, a música que se devia ouvir, a obrigatoriedade da exposição em cada casa de uma fotografia do líder. Assim prosseguiu o regime no seu Chartniyom - nacionalismo - até ao início da guerra. Aliada do Japão, a Tailândia fez guerra à França na Indochina e, depois, abriu as portas aos exércitos nipónicos quando o Japão invadiu a Malaya e a Birmânia britânicas em 1942. Vadakan fora o artífice da aliança com o Japão e como Ministro dos Estrangeiros tudo fez para que a Tailândia se sentasse à mesa da vitória ao lado da Itália e da Alemanha e pudesse reclamar a inclusão do Laos, do Camboja e da Malaya numa Grande Tailândia. Quando a sorte da guerra se virou contra o Eixo, Phibun foi afastado e a Tailândia a custo tentou sobreviver ao castigo ocidental.


Ordem alemã conferida a Vadakan
Entretanto, Vadakan tornara-se mais cauteloso e passou a ser tido como elemento moderado no seio do governo fascista thai. Sempre fora monárquico e descobria, finalmente, a potência e importância da monarquia enquanto agente de compromissos. No pós-guerra, com Phibun de regresso ao poder, foi ardente defensor do regresso do Rei ao país. Quando em finais dos anos 50, o actual Rei Rama IX iniciou um largo movimento popular contra a tirania de Phibun, Vadakan apoiou o monarca. Phibun foi deposto, Vadakan transformou-se num dos mais destacados defensores da solução monárquica e um dos teóricos do regime que desde então vigora.
Hoje, na Biblioteca Nacional da Tailândia, passei uma hora percorrendo o gabinete do homem que sonhou com um grande império thai.

28 março 2010

Bombas e mais bombas vermelhas


Não obstante a boa vontade exibida hoje pelo primeiro-ministro, convidando os líderes vermelhos para uma serena e amigável discussão em frente das câmaras, Banguecoque tem sido sacudida por repetidos atentados bombistas. Os últimos ataques foram perpetrados contra o 11º Regimento de Infantaria, onde Abhisit se encontra desde o início dos tumultos vermelhos, saldando-se pelo ferimento de quatro soldados. Esta noite, a residência particular de um líder da coligação governamental foi atacada à granada, resultado na hospitalização de uma pessoa que circulava no passeio em frente da casa. Fala-se em divergências entre a linha dura vermelha e a facção moderada que acorreu hoje ao convite de Abhisit. Há, decerto, forças extremistas vermelhas interessadas em desarticular o gesto do chefe do governo e, talvez, precipitar uma intervenção militar.

Ao longo do debate foi clara a ascendência intelectual e moral de Abhisit, que se mostra afável mas firme na defesa da legitimidade constitucional que o assiste e na preservação da ordem. Fiquei com a clara impressão que Vira Musikapong, o líder vermelho ao centro na imagem, conhecido pela extrema volubilidade e oportunismo, se estará a preparar para saltar para o outro lado da barricada. Há quem diga que é um proteu e que se vende com facilidade.