26 março 2010

A nossa esperança ao vento

Não é contra nada nem contra ninguém, não é nem bandeira de um partido nem de uma ideologia: é um símbolo nacional e nela se revêem todos os Portugueses. Hoje, após 100 anos de ausência, voltou triunfante e abraçou Lisboa. Não houve vandalização ou ultraje à bandeira do regime em vigor, não houve provocação nem se violou lei alguma. Subiu e parou a meia haste, como se pedisse aos Portugueses um momento de recolhimento e meditação e lhes lembrasse o difícil transe de luta pela sobrevivência em que esta comunidade se debate. Foi um apelo à unidade e à reconciliação nacional.





Honor Him

25 março 2010

Nos buracos da plutocracia


Histórias envolvendo dinheiros e negociatas, usura e doentes do business são, quase sempre, coisa sórdida. Parece estar a causar escândalo o Devil's Casino, reveladora crónica da Lehman Brothers, agora lançada para gáudio de quantos, "reaccionários passadistas", "involucionistas" e "nostálgicos" de uma economia baseada na propriedade, no trabalho, na produção e na honestidade, recusam aceitar o casamento entre a plutocracia especulativa e o capitalismo. Li ontem curtas passagens do livrinho e fiquei elucidado.
Os últimos vinte anos assistiram ao triunfo dessa barbárie de selvagens práticos, de cerrado linguajar tecnocratês, gentuça ordinaríssima, semi-letrada e exibicionista que calcou os mais elementares princípios e trouxe o Ocidente para a situação em que se encontra. Isto não se passou apenas na Wall Street. A Grécia - e agora Portugal - parentes pobres e caudatários menores do véu de superstição plutocrática do novo bezerro de ouro, consagraram-se a essa religião do dinheiro e todos somos testemunhas dos desmandos e obra de demolição empresarial a que se dedicaram desde os tempos do Professor Cavaco. Portugal paga hoje a prestações a adesão a esse sectarismo do lucro sem trabalho e da terciarização desmiolada. Queriam ser ricos ? Pois, empobreceram países por atacado e acabaram falidos.

Socialmente, essa praga assumiu-se na figura do bancário - um banco em cada esquina - do "gestor", do broker e demais parasitas do trabalho e poupanças alheias. Politicamente, evidenciou-se nesse dito liberalismo liberto de fiscalização, mais o seu cortejo de sub-crenças na liberdade individual, na iniciativa sem freio e sem controlo. Afinal, os mais avisados e "reaccionários" - aqueles que vêm na liberdade sem vigilância a oportunidade para os vigaristas e crapulosos - tinham razão: as pessoas não são merecedoras de confiança e aproveitam a mais pequena quebra de vigilância para lesarem, enganarem ou usarem os dinheiros alheios.
A cultura da plutocracia é essa: já não há mecenas, banqueiros com preocupações filantrópicas, gente que cresceu em contacto com os raros bens que outros não podem fruir. Antes, um banqueiro transformava-se num benemérito, possuia a sua colecção de arte, ia ou mandava comprar em leilões e exposições, tinha cadeira cativa na ópera. O plutocrata vai aos futebóis, compra Ferrari e até vai ao golfe, a nova coqueluche do despenteamento mental e do alpinismo social. O capitalista era politicamente conservador. O plutocrata é dessa "esquerda" difusa, admira o Che e reivindica curriculo nas barricadas, no liambismo, na objecção de consciência e até se dá ao luxo de perorar sobre as misérias do mundo a partir de uma penthouse. Nunca, como hoje, o dinheiro esteve em tão más mãos.

24 março 2010

A linguagem da plutocracia



É este o discurso dos novos bárbaros. Esta é a cultura da plutocracia. O mundo deu um grande salto atrás.

O mito do português da barrica de sardinhas e do garrafão de tinto



Persiste, alimentada pelo fanado cliché do português "pobrete mas alegrete", a ideia de que as comunidades portuguesas espalhadas um pouco por todo o mundo sempre integraram uma massa desclassificada de trabalhadores braçais, espécie de refugo de sobras e excedente demográfico atirado para os caminhos do exílio, atiçado pela fome e submetido às mais duras provações. É evidente que essa emigração existiu, mas surge como elemento de toda a evidência que foi exacerbada por um tipo específico de portugueses que inundaram o Canadá, os EUA, a África do Sul e a França nas décadas de 60 e 70 do século XX, não resistindo, porém, à acareação de uma investigação mais cuidada.

Na Ásia, o mito romântico do português aventureiro e sem eira, construído a partir de excepções, parece que só resiste na análise do tipo de português que demandou o pequeno enclave-bandel do Rio das Pérolas e o arquipélago do Havaí . Em Macau, o português foi sempre, do século XVI aos últimos dias da nossa presença, o homem de poucas letras, o embarcadiço, o polícia, o homem dos sete-ofícios em busca do alimemento diário. No Havaí, foi trabalhador braçal nas plantações da cana-de-açúcar.

Contudo, ao longo dos séculos XIX e XX, de Xangai a Singapura, de Banguecoque a Calcutá, germinaram comunidades portuguesas ou luso-descendentes altamente qualificadas, urbanas, interventivas e com visibilidade política e cultural que cortam cerce com a proverbial auto-comiseração, falta de amor-próprio e demais tiques decadentistas que continuam a comprazer os nossos plumitivos. Não há dia em que não esbarre com a revelação do anti-mito do português bem sucedido, empreendedor, respeitado e requerido para funções que outros não sabiam executar. Do estudo que actualmente desenvolvo em torno do português asiático de meados do século XIX ao eclodir da Segunda Guerra, sobressai esse outro tipo: professores, médicos, advogados, músicos, comandantes de marinha, comerciantes, bancários, tradutores, quadros superiores empresariais e funcionários superiores dirigentes ao serviço dos governos coloniais britânicos, bem como conselheiros especiais contratados pelo governo siamês.

Sabia o nosso leitor que no Sião de finais do século XIX, inundado por conselheiros britânicos, belgas, alemães, franceses e norte-americanos, trabalharam cerca de 80 portugueses em funções de topo, ou seja, 20% dos estrangeiros ao serviço do Estado, assessores de ministros e da casa real, comandantes de vasos da marinha siamesa, médicos na Cidade Interior (palácio), diplomatas, correctores, representantes comerciais das maiores companhias de seguros, despachantes oficiais, directores de estabelecimentos de ensino e até dirigentes de departamentos do Estado ? Sabia o leitor que alguns destes compatriotas nossos, nascidos em Portugal, Macau ou Hong Kong, filhos de portugueses, chegaram a ministros e depois ganharam nacionalidade siamesa ?

Sabia o nosso leitor que a companhia teatral de maior relevo na Singapura de inícios do século XX era a Portuguese Dramatic Amateur Co, que em Banguecoque funcionou em inícios do século XX uma Philharmonic Society quase inteiramente composta por músicos portugueses, que o coro português de Singapura, especializado em reportório mozartiano, era presença obrigatória na saison artística da Little China, que os professores e afinadores de pianos mais gabados de Singapura eram os Garcias ? É tempo de rever tudo o que se foi escrevendo disparatadamente sobre o "português errante", uma rematada falsidade que não tem outra sustentabilidade que essa quase doentia tentação para nos agacharmos e pedirmos a protecção dos outros.


A Small Measure Of Peace

"Ao fim de meia hora de conferência, o ministro português retirou-se com o secretário e o adido. O cavalheiro que servira de intérprete de português e siamês é o sr. Honorato de Sá, um dos mais dignos e inteligentes filhos de Macau, que pela sua perseverança e pelo mérito individual conseguiu grangear a confiança e a simpatia do ministro [siamês dos Negócios Estrangeiros]. (...)
[Ao serviço do governo siamês] acham-se os portugueses seguintes: A.F. da Costa, amanuense dos estrangeiros, J. F. de Luz, idem; A. de Sousa, comandante do Siam Supporter; B. P. Simões, intérprete do bureau internacional; F.M. Jesus, intérprete da polícia de Pak-nam; Honorato de Sá, intérprete do Ministério dos Estrangeiros; J.J. Aroso, amanuense dos Correios; J.M. Fidelis da Costa, inspector geral das alfândegas; J.M. Fidelis da Costa Jr, attaché da legação siamesa no Japão (...)".
Silva: J. Gomes da. Viagem a Siam, 1889


"The next year I was moved up past the preparatory class to Form One or Standard One as it was called. The class master was a man about 30 years old named Cordeiro. He was of Portuguese blood. I do not recall his full name. (...) Usually Master Cordeiro was kind to his pupils and taught them english most efficiently".
Phraya Anuman Rajdhon. Looking Back, 1992

Honra de continuar português

A visitar no Portugueses de Malaca.

22 março 2010

O "double standard"



Desfazendo o mito do poder de vida e morte que a "aristocracia possidente, reaccionária e egoísta" exerce sobre o povo, aqui fica, em registo ameno, a Tailândia que conheço: naturalmente desobediente, incumpridora e avessa à autoridade. A patroa, de partida para férias, adverte: "em caso algum abandonem a casa. Desliguem sempre as luzes. Cuidado !"
Aqui, há sempre no frigorífico dose dupla de iogurtes, bolachas, refrigerantes e chocolates, pois é hábito arreigado os empregados comerem tudo o que os patrões consomem. Que terrível opressão esta a que os multimilionários da liderança vermelha aludem.

Crise na Tailândia empurra Combustões para cima


Sendo um blogue atípico na blogosfera portuguesa, nos últimos dois anos e meio especialmente vocacionado para a abordagem de questões que tocam as relações de Portugal com o Sudeste-Asiático, esta tribuna tem vindo a reforçar significativamente o número de visitantes diários. De 280 visitas médias diárias, evolui hoje para 360-400 visitas, facto ao qual não será estranha a crescente atenção dada pelos portugueses [e brasileiros] aos recentes acontecimentos na Tailândia. Proporcionando uma leitura assaz diferente daquela que outros fazem, julgo contribuir para a tão pedida pluralidade de pontos de vista que a cultura democrática exige como condição elementar para o debate desapaixonado e claro. Agradecido, aqui fica a promessa que Combustões continuará fiel ao mesmo estilo.

21 março 2010

A árvore e a floresta: democracia tailandesa

Abhisit Vejajiva, rosto da Tailândia democrática

A crise política que se reacendeu na Tailândia e aqui cobrimos ao longo da última semana não deve ser encarada como uma tragédia, mas como confirmação do sucesso de um país que chega ao fim da primeira década do século XXI como caso único de plena adesão à economia de mercado, mudança democrática, emergência da sociedade civil e fruição de liberdades que são ainda coisa rara ou praticamente desconhecida nos restantes países da região.

Sucesso económico e ambiental

A Tailândia, aliada do Ocidente, cresceu economicamente ao longo das décadas de 60 e 70 como nenhum outro país do Sudeste-Asiático. Entre 1960 e 1970, a economia cresceu em média 8% ao ano e nas décadas de 80 e 90 manteve igual desempenho, não obstante as sucessivas crises que atingiram o sistema. A Tailândia, ao contrário do que muito se escreve, é hoje um país industrializado, sendo que quase metade da riqueza produzida provém do sector secundário. Desde 1970, a produção industrial cresceu 38 vezes e o volume de exportações 192 vezes. Enquanto alguns vizinhos se precipitaram na guerra (Camboja, Laos e Vietname) e daí transitaram para regimes económicos de tipo intervencionista, outro fechou-se em absoluto ao exterior (Birmânia), sendo que os restantes (Malásia e Indonésia), tão gabados pelos sucessos recentemente exibidos, assentam a sua doutrina de desenvolvimento no total desrespeito pelos recursos naturais e na devastação do meio ambiente. A Malásia e a Indonésia são hoje apontados como casos de emergência, encontrando-se à cabeça na lista das agências conservacionistas como os países onde a extinção de espécies animais atinge proporções de catástrofe biológica. Se atentarmos na mancha verde de florestas que outrora cobria a "Ásia das Monções", verificamos que a Tailândia foi o único país da região onde o recuo das florestas foi estancado. Este sucesso deve-se, sem dúvida, à emergência de um cultura empresarial marcada por crescente preocupação ambientalista. Os número de iniciativas governamentais, de fundações reais e da sociedade civil são expressivos da maturidade atingida no que à protecção do meio ambiente respeita. Só quem se atém aos números e deles se socorre sem necessária interpretação poderá exaltar as recentes façanhas do Vietname, da Malásia e da Indonésia, pois por detrás desses desempenhos há, importa lembrá-lo, um modelo de todo insustentável, habilmente induzido por grandes grupos internacionais.

Mudança democrática

Um elemento a que os estudiosos da "mudança democrática" dão pouca atenção, mas estimo relevante, senão o mais importante, prende-se com a maturidade da ideia democrática. Singapura e a Malásia, tão gabadas, são governados por partidos de cariz político ultraconservador - PAP em Singapura (1965-2010), Barisan Nasional (1970-2010) - o Camboja continua uma semi-democracia, o Laos e o Vietname são ditaduras comunistas e a Birmânia um caso extremo onde as forças armadas se constituiram em ocupante do seu próprio país.

Na Tailândia, porém, há luta eleitoral, eleições, debate político, alternativa e rotação. Pesem todas as deficiências e reparos, o sistema é tendencialmente benigno e exprime, pelo menos nas grandes cidades, a vontade do corpo eleitoral. Dos governos militares, que terminaram no início dos anos 90, já ninguém quer ouvir falar e a sociedade civil tem demonstrado capacidade para resolver problemas e impasses com inegável respeito pelas diferenças. O factor perturbador foi Thaksin, que trouxe para a democracia tailandesa o elemento cesarista e populista. A geografia eleitoral do thaksinismo mostra-o à saciedade: onde prevalece o isolamento, onde são deficientes as redes do sistema educativo e de saúde, o thaksinismo vence; onde os índices de escolaridade, sucesso empresarial e abertura ao mercado externo triunfam, o thaksinismo perde. Força regressiva e reaccionária, o thaksinismo precisa das bolsas de subdesenvolvimento ainda existentes para sobreviver. Thaksinismo e atraso económico e subdesenvolvimento são coincidentes. Por último, o eleitorado thaksinista nas regiões mais ricas é igualmente composto maioritariamente por gente ultrapassada no processo geral de crescimento: recruta-se entre aqueles que não conseguiram acompanhar, que não reuniram competências profissionais e educativas, que ficaram à margem. Não é com vendedores abulantes, operários não especializados, taxistas e carregadores que se faz uma democracia urbana.

A reforma necessária

A Tailândia correu celere e paga a factura do seu sucesso. A elite política - a presente crise demonstrou à saciedade as diferenças de qualificação que separam os agitadores das "causas justas" e a classe política que anima e mantém o sistema - precisa de tempo para reformas, pelo que a simples reclamação de eleições justas não parece constituir o nó do problema. Ninguém, senão os sectores mais avessos à soberania popular, defende um sistema não democrático. É de aceitar, contudo, que um sistema a duas velocidades possa permitir impedir a manutenção de forças que se vestem com as farpelas da democracia para a destruir e garanta, por que não, que o corpo eleitoral venha a ser organizado de acordo com a preparação para a plena integração num universo plenamente livre de decisão e escolha. A Europa passou por isso nesse longo processo de transformação do liberalismo político em democracias modernas. A universalização do direito do voto só se transformou em realidade nos anos 60 do século XX. Para os desatentos, importa lembrar que a Holanda só consagrou o sufrágio universal masculino em 1919, que a França só o reconheceu para as mulheres em 1944, que os EUA só o aplicaram, de facto, em 1965 e que a Suiça só outorgou plenas faculdades políticas às mulheres nos anos 90 !

Creio que os analistas bem intencionados já terão compreendido que aquilo que dá pelo nome de Camisas Vermelhas é reflexo da conjunção acidental de factores de natureza distinta, um caldo de exasperação que poderia conduzir ao colapso da ideia democrática na Tailândia e a substituição do actual sistema numa espécie de cesarismo e crescendo autoritário que mataria por atacado o processo de desenvolvimento democrático. Em eleições justas, sem manipulação ou indução, Abhisit venceria folgado. Isto, aliás, acontece em todos os centros populacionais relevantes. O tempo agora requerido para a adaptação e crescimento da democracia requer investimento público, atenção prioritária para as bolsas de pobreza e exclusão, universalização de direitos sociais elementares. A Tailândia tem 95% da população escolarizada, tendo menos analfabetos que Portugal. Precisa agora de tempo.

Sei que estes comentários sem pretenções incomodam as mentes anti-democráticas. A democracia não é a força bruta do número e, mais que um método, é uma cultura que só pode ser vivida e compreendida com cidadãos dotados de liberdade para escolher livremente. O novo totalitarismo tenta todo o custo confundir-se com o populismo e encontra expressão acabada no chavismo venezuelano. Na Venezuela, a democracia morreu pelo voto dos descamisados, das favelas e da demagogia. Na Tailândia, estou certo que tal não acontecerá.

Ouvir a voz da serenidade



Clareza, moderação, confiança, disponibilidade para dialogar, estas as marcas constantes de Abhisit Vejajiva, o primeiro-ministro que não caiu na tentação de lançar a polícia sobre os Vermelhos. É por todos partilhada a opinião que é um homem educado, inteligente, bem intencionado e de uma probidade que contrasta com parte apreciável da classe política tailandesa. Entrevista concedida hoje de madrugada.