13 março 2010

Viver à grande com Marx


O Jürgen trabalha para uma grande empresa alemã. Vence 8000 Euro por mês, trabalha sete horas por dia, cinco dias por semana e é oriundo da Ex-RDA. Conheci-o há dois anos nos bancos da escola de língua tailandesa e disse-me gostar de Portugal e ter frequeentado durante uns anos o curso de língua portuguesa na universidade de Leipzig. Não falando com propriedade a nossa língua é, contudo, um bom parceiro para conversas, um homem culto que partilha comigo o gosto pela história siamesa. Tem um senão: todos os argumentos do Jürgen vêm contaminados pela escolástica marxista, dela não se conseguindo libertar para compreender questões que radicam naquela esfera onde se desenrolam as grandes angústias e mistérios do homem. Para este "marxista metodológico" - pois até vota no SPD - tudo se limita a "problemas sociais", "relações de produção", posse da propriedade, desigualdades, exploradores e explorados, mais-valias, "contradições", luta de classes, "acumulação de capital", revolução e reacção. Em suma, para esta gente, o homem é um estômago suportado por duas pernas e , lá em cima, um cérebro mentiroso engendrando "ideologia" que aquieta os exploradores e "aliena" os explorados".


Hoje, como não podia deixar de ser, telefonou-me para falar na marcha vermelha sobre Banguecoque. Exultante, só lhe faltou dizer que aguarda com ansienade as barricadas, os cocktailts molotov, as grandes cargas policiais e a massa dos proletários correndo ao assalto do palácio precedida pela bandeira vermelha. Depois, quando viu que eu não lhe dava troco, sugeriu uma festa num hotel para os lados de Sukhunwit. "É barato, vamos com dois amigos, há orquestra e um menú especial que só custa 1000 bath por pessoa. Se lhe juntarmos umas garrafas de bom vinho, o convívio fica por 2000 ou 2500 bath". Ou seja, o jantar custaria a cada comensal o que um trabalhador tailandês ganha por semana. Falaríamos de "lutas sociais", de burguesia e de aristocracia, de "ideias de progresso" e "feudalismo", da "mudança da realidade" e na "justiça social" e, depois, voltaria cada uma para sua casa - com ar condicionado, guarda à porta, piscina e ginásio - para seguir pela pantalha a tal revolução. Ainda se o meu bom amigo Jonathan cá estivesse - esse é monárquico, britânico e conservador - ainda o desencaminhava. Mas não, o Jonathan partiu ontem para o Quénia para visitar a mãe, idosa de 90 anos, velha "colonialista" que não abandonou o país após a independência e por lá quer morrer, tamanho o seu amor por África. Eu, que vivo como um trabalhador tailandês, faria o sacrifício de gastar numa noite o que gasto numa semana, mas declinei o amável convite. Afinal, um bom khao phad feito em casa não me obriga ouvir um interminável chorrilho de patetices flutuando nas melhores colheitas do Reno.
Nisto sigo à letra a falecida princesa Galyani, irmã do Rei, que afirmava não gastar por dia mais de 4 Euro em refeições. Afirmava-o para escândalo da burguesia desmiolada do dinheiro novo. Afinal, os monárquicos são os mais próximos aliados da classe operária.

Islamo-fascismo

12 março 2010

Muralha verde em defesa do Rei e da democracia

Recebi um telefonema de Lisboa. "Há problemas ? Parece que as coisas estão delicadas. Tem cuidado, não saias de casa". Para sossegar e precaver o alarmismo da comunicação social e dos fazedores de factos, aqui fica a informação: reina a paz em Bangkok, o trono está de pedra e cal e o povo unido em torno do Rei. Aconteça o que acontecer, a plutocracia, agora com adamanes de marxismo e polvilhos de "causas justas", não passará. O exército não permitirá que os problemas financeiros de um homem fugido à justiça se sobreponham ao interesse nacional. Hoje, há uma muralha verde em torno da Monarquia e da democracia. Doa a quem doer, o facto é que aqui não vai haver o triunfo da rua, nem PREC, nem assalto ao poder pelo dinheiro disfarçado de assistente social.


ธงไชยเฉลิมพล (Marcha da Guarda Real)


Song Phra Charoen = "Viva o Rei"

Lumpen vermelho tenta invadir Bangkok



As fotos são reveladoras do conceito e uso que do poder popular fazem os seguidores do multimilionário ex-primeiro-ministro Thaksin Shinawatra, há uma semana inculpado dos maiores atropelos e práticas lesivas do património público. Thaksin viu expropriados milhares de milhões por decisão do tribunal competente e lançou uma campanha - quiçá a derradeira - de desestabilização, prometendo para este fim de semana grandes protestos em Banguecoque. Hoje, porém, não me foi possível detectar na capital quaisquer ajuntamentos dignos de nota. Os que compareceram são, indiscutivelmente, o melhor repelente.


Práticas democráticas das milícias vermelhas que convergem para Banguecoque. A vítima limitara-se a pedir que não proferissem obscenidades contra o primeiro-ministro. A Tailândia a mergulhar no caos vermelho.

11 março 2010

O desmoronar

1+1 = 2
Ao longo de décadas o desmoronamento foi quase imperceptível. As paredes abriram fendas, rolaram umas pedritas, a pedra rija de outrora foi-se transformando em salitre, o estuque esfarelou-se e caiu, a antiga cor foi esmaecendo. Nódoas, aqui e ali, indiciavam infiltrações internas. Alguns diziam ouvir ruídos, ranger de traves e sons abafados. Tudo não passava de alarme vão, pois os homens dos conceitos e das teorias - os tais das chamadas Ciências da Educação - a todos aquietavam afirmando que o edifício estava a mudar de pele e que toda a regeneração envolve dores necessárias. De súbito, para agrado dos alarmistas e dos desmancha-prazeres, a escola caiu por atacado. A metáfora é sempre o melhor antídoto contra os jogos de linguagem.

09 março 2010

Se o tal "progresso" vencer, a Tailândia não mais me interessará

Uma Tailândia a macaquear Singapura ou Hong Kong, nas mãos de plutocratas prestando culto ao deus dinheiro, ao economês e ao Homem Novo do business first é uma Tailândia morta. O interesse e sedução deste país jamais colonizado pelo homem branco reside precisamente no facto de ser, teimosamente, contra as ideologias da unidimensionalidade e um dique à expansão do mundialismo que em duas ou três gerações transformou nobres e antigos povos em gentinha ávida, estupidificada e lobotomizada. Lembro com saudade o Portugal que conheci na década de 70 e desse Portugal de camponeses que terá sucumbido ao longo da década de 80, quando a tentação da Europa, do "bem-estar", do cartão de crédito, do carrinho a prestações e da caixa de alvenaria das "novas urbanizações" trouxe à ribalta tudo aquilo que hoje é motivo de repulsa para aqueles portugueses que de Portugal têm uma ideia - quiçá "reaccionária" e "passadista" - de um país portador de uma ficção dirigente, imperial, pluricontinental e de fraternidade universal.

Nós temos vindo a perder ao longo dos últimos duzentos anos. Perdemos o vector missionário, quando Pombal assestou um golpe de morte na Companhia de Jesus; perdemos na abolição das ordens religiosas, que eram um segundo agente de projecção de Portugal no mundo; perdemos com a criação da cidadania, ao retirarmos àqueles que portugueses se consideravam na Índia, na Birmânia, no Tonquim, na Insulíndia; perdemos quando trocámos a velha colonização portuguesa, agente de miscigenação, pelo colonialismo racista e pelos "actos coloniais"; perdemos ao não querermos discutir o portuguesismo de tantos que em nós confiavam, amavam esta pátria e a sua bandeira, entregando-os sem consulta à mais acabada expressão da barbárie moderna que deu pelo nome de comunismo; perdemos com a república, que destruiu o vínculo ao passado; perdemos com o Estado Novo, que fingiu permanência, mas criou todas as condições para a despolitização que abriu portas ao messianismo revolucionário anti-português de uma revolução que substituiu a pátria pela guerra civil, pela luta de classes e por um ódio cego à autoridade, à hierarquia, ao trabalho e à responsabilidade; perdemos ao destruir os grupos e instituições que eram elemento fundamental de arrimo da nossa sociedade, substituindo-os por esta turbamulta de homens práticos, incompetentes, medíocres e semi-analfabetos que vão lentamente apossando-se de tudo, ferindo de morte os mais elevados propóstos, ridicularizando-nos e emparedando-nos no caixão de 500x200 quilómetros no canto extremo ocidental da Europa. Isto é coisa que não tem cor política nem bandeira partidária, que não é PS nem PSD, CDS ou BE. É um nível superior, metapolítico, sem o qual a comunidade política, o sistema político e a Constituição não funcionam. É uma questão que toca a raíz da especificidade portuguesa.


Não sei a Tailândia se encontra ou não nos umbrais de uma grande convulsão. Aqui, as forças do passado são fortes e as grandes instituições continuam pujantes - a Monarquia, o Sangha (religião budista), o Estado, a sua burocracia e as Forças Armadas - mas há quem queira precipitar uma mudança que, a acontecer, terminaria com um banho de sangue seguido da demolição de tudo o que fez desta terra e deste povo um caso único de identidade, orgulho e resistência ao "progresso". Há agentes de descaracterização que, por trazerem dinheiro, criaram as maiores e acabadas mutilações na alma deste povo: o turismo de massas, que tudo invadiu, que estimulou a "indústria do sexo", que libertou braços do trabalho honesto e lançou-os na hotelaria, no criadismo, no go-go e na "indústria das massagens"; o industrialismo a marchas forçadas que aqui permitiu às multinacionais suecas, italianas, americanas e francesas sugar as "mais-valias" do campesinato atraído à grande cidade e logo proletarizado, explorado e usado como agente pelos demagogos e alvissareiros da abundância; a criação dessa chamada "classe-média", com muitos diplomas, muitas bolsas de estudo nos EUA, na Austrália e na Europa, mas que aqui regressou carregada com os vírus da trilogia negócios-direitos-ambições.


Está em cima da mesa a proposta de mudança do nome do país. O seu proponente, um dos mais prestigiados académicos tailandeses, sugere que a Tailândia volte de novo a ser chamada Sião. Nada de novo, pois Tailândia não é usada pelos thais senão nos negócios externos. Para os thais, Prathet Thai ou Muang Thai é o nome da sua comunidade política organizada em Estado. Contudo, a mudança da designação é um desafio à história contemporânea. Foi cunhada em 1939 pelo ditador fascista Phibun Songkhram e alimentava-a a ideia da homogenização dos povos que integravam o Sião (Mon, Karen, Thais, Khméres, Malaios, Chineses, Peguanos, Luso-descendentes, Indianos, etc), citando de cor a introdução das proclamações reais até 1885, ano em que o Estado Moderno entrou em vigor em pleno absolutismo de Rama V (r. 1868-1910). O fascismo "tailandês" proibiu as línguas, os jornais, as escolas, os instrumentos musicais, reportório teatral, os nomes próprios e de clã, quase extinguiu a literatura oral, as crenças e práticas culturais das minorias, integrando-as à força numa sociedade artificial decantada a partir de uma idealização da "antiguidade thai", guerreira, expansionista, sevidora do Estado e budista. Se o Sião voltar à ribalta, a harmonização, o convívio entre povos diversos mas unidos em comunidade de destino será, eventualmente, a resposta às tensões que se sentem. Contudo, esse novo pacto de unidade só será possível com monarquia. Há quem a queira minimizar, reduzindo-a a mero papelão colorido. Há quem a gostasse de ver substituída por uma república dominada pela praça-financeira, pelo jetset, pela patetice alvar das passerelles, da ostentação do novo-riquismo desmiolado, do exibicionismo do chinesismo do cordão de ouro ao pescoço, do jaguar flamejante e do "novo fino" sem referências. Se essa Tailândia vencesse, seria eu o primeiro a rasgar tudo o que me prende a este país que aprendi a a amar. Espero, apenas, que os thais (os Mon, os Peguanos, os Chineses, os Malaios, os Khméres, os Indianos e os Karen), chegado o momento em que se colocar o sim e o não, optem pelo Sião de sempre.




เพลงสดุดีมหาราชา

07 março 2010

Esses alemães que amam Portugal


Morreu o Maestro Gunther Arglebe e o Porto, que tanto lhe devia, disso não deu conta ou fingiu amnésia. Tenho para mim que as relações entre Portugal e a Alemanha terão sido, ao longo dos séculos, as mais sinceras e menos calculadas; logo, que entre alemães e portugueses, que jamais colidiram nos interesses, há uma relação de afecto, respeito mútuo e consideração. Lembro que os alemães que em Portugal viveram desde o século XV foram sempre agentes de elevação e aprimoramento. Há muitos anos, tendo o Professor Artur Anselmo como professor num curso sobre a história da edição em Portugal, fui confrontado com a evidência da prioridade alemã na instalação da arte negra ou da imprimição em Portugal, com esses míticos Johann Gherlinc - talvez o impressor do incunábulo Tratado de Confisson - mas também Valentim Fernandes (ou antes, Valentin Ferdinand), escudeiro de D. João II e expoente da prototipografia portuguesa, mais Hermann von Kempen, coroas de glória da edição em Portugal. Valentim Fernandes foi português por adopção, tabelião dos mercadores de Lisboa e dono da Formiguinha que acompanhou as primeiras jornadas ao Oriente, tradutor das viagens de Marco Polo, responsável pelas Ordenações.

Depois, o que teria sido o Portugal militar dos séculos XVII e XVIII sem o conde-duque de Schomberg e sem Friedrich Wilhelm Ernst zu Schaumburg-Lippe ? O que teria sido do património monumental português sem esse príncipe e protector das artes e das letras que foi o Rei D. Fernando de Saxe Coburgo-Gota, edificador da Pena, salvador da Batalha, entusiasta e divulgador da ópera, comissário das participações portuguesas nas primeiras grandes feiras mundiais ?

Os alemães que em Portugal viveram lutaram sempre contra o preconceito xenófobo, tiveram de provar superioridade e exibir público amor por nós para, finalmente, serem aceites como iguais. Não há campo onde não se tenham evidenciado. A arquelogia portuguesa, que era coisa pouco menor que campanhas de destruição (com excepção honrosa para Estácio da Veiga), ganhou respeitabilidade científica com o casal Leissner (Georg e Vera) e com o Instituto Arquelógico Alemão. Os alemães rendidos a Portugal estiveram em todos os campos das letras, das artes, da música, da investigação científica e da promoção da educação. Nunca nos tentaram colonizar ideologicamente. Amaram este país e, que eu saiba, nunca lhes tributámos agradecimento.

Morreu o maestro Arglebe, um nome mais na velha relação de amor que tem trazido ao extremo-ocidental da Europa os alemães. O Porto esqueceu-se do quanto esse homem lhe deu: o Círculo Portuense da Ópera, Orquestra de Câmara Pró-Música e a Orquestra Sinfónica. É triste, mas é assim ! Se Portugal fosse um pouco mais alemão - sem o pedantismo palavroso do francês, sem a avidez quase chinesa do inglês, sem a mania das grandezas do espanhol - talvez fosse um país mais respeitador do sacrifício, do trabalho, da honestidade e da criatividade. Fui, sou e serei sempre um admirador incondicional da Alemanha e dos alemães.


Richard Tauber - Ich küsse ihre Hand, Madame